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Interrompe os outros ou se intromete (por exemplo: intromete-se nas conversas, jogos, etc.)

No documento claudioorlandogamaranocabral (páginas 144-148)

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18. Interrompe os outros ou se intromete (por exemplo: intromete-se nas conversas, jogos, etc.)

Que questionário pode ser usado como critério para decidir sobre a medicação ou não de uma criança? O conjunto da vida da criança é considerado para o diagnóstico? Teriam as rápidas consultas realizadas com as precárias condições da rede pública de saúde condições de avaliar a criança em seu contexto? Estariam nossos profissionais de saúde atentos aos discursos normalizantes e medicalizantes, bem como, aos interesses dos grandes grupos farmacêuticos na venda de seus produtos? Familiares e professores sabem que esse questionário, além dos relatórios das escolas, são os principais referenciais para o diagnóstico do TDAH?

Algumas das perguntas do questionário merecem uma rápida consideração.

Em relação à primeira pergunta imagino quantos de nós não erram ou cometem erros por descuido ou por não prestar atenção a detalhes. Quem decide que detalhes serão alvo de atenção? Parece que quem decide o que é importante são os adultos e não a criança. Não teria a criança observado outras coisas interessantes que talvez não tenham sido percebidas pelos outros/as?

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(Aluno MP)

Em relação à pergunta três, “parece não estar ouvindo quando se fala diretamente com ele”, fico imaginando o tanto de vezes em que nos fazemos de bobos, algo como o que chamamos de “ouvido de mercador”, quando não queremos ou não podemos responder ou dar atenção a alguém ou alguma coisa. “Parece não ouvir” pode ser entendido como não quis ouvir ou ouviu e não quis obedecer? Por que é comum observarmos crianças que não escutam a mãe, mas escutam o pai ou vice-versa? Será que a fala “desligue a televisão ou vá tomar banho” soa e pode ser tão bem ouvida como: venha comer uma coisa gostosa?

A pergunta seis parece dizer muito de mim: “evita, não gosta ou se envolve contra a vontade em tarefas que exigem esforço mental prolongado”. Quem, aliás, gosta de um esforço mental prolongado? Quem não se cansa diante de um dia inteiro de aulas, de leituras difíceis ou de algum outro trabalho exaustivo? Por que o não querer participar do nosso mundo competitivo e estressante precisa ser medicado?

Quem não perde coisas necessárias a uma atividade ou tarefa? Quem não se distrai com estímulos externos? Quem não é esquecido nas atividades do dia a dia? Quem não mexe ou remexe na carteira?

“Sai do lugar na sala de aula ou em outras situações em que se espera que fique sentado” ou “Corre de um lado para outro ou sobe demais nas coisas em situações em que isto é inapropriado” não parecem atitudes ou comportamento de quem está esgotado e não aguenta mais alguma situação? Ou pode também ser entendido como uma forma de chamar a atenção de um adulto? Quem sabe um pedido de socorro?

A questão treze é bastante interessante: “tem dificuldade em brincar ou envolver-se em atividades de lazer de forma calma”. Até na hora de lazer tem que ser calmo e tranquilo? Não vivem dizendo que todos nós, principalmente as crianças, precisamos de momentos para agitar e extravasar gastando energia? Os momentos de lazer não poderiam servir para tal? Fico pensando num jogador de vôlei ou de futebol que ficasse calmo esperando o que vai acontecer. O que é ser calmo? Em que ponto de vista? Quem decide e quem obedece?

146 Seriam todos/as aqueles/as que não param ou que parecem estar a mil por hora transtornados? Seria esse um transtorno da vida corrida que levamos? Quantas vezes nos precipitamos em responder a uma pergunta antes mesmo dela ter sido formulada? Quem não tem dificuldade de esperar sua vez, principalmente quando está interessado?

Que criança, por fim, não interrompe os outros ou se intromete em conversas e jogos dos adultos? Quem, quando criança, não ficava louco/a para participar daquelas curiosas e interessante conversas, jogos ou brincadeiras dos adultos?

Que criança é essa que queremos? Parece haver uma confusão de crianças com eletrodomésticos que a gente liga e desliga na hora que precisa. O botão de liga/desliga parece ser a Ritalina® ou o Concerta®.

Pensando na administração da droga como o processo de desligar um objeto, vamos desligando as crianças para que possam frequentar as escolas, as reuniões sociais ou momentos íntimos junto às famílias; as desligamos quando inquietas, possivelmente, por algum incômodo que pode ser físico ou psicológico; as desligamos quando queremos prestar atenção TV e essas nos irritam com barulhos, correrias e bagunças; as desligamos quando querem saber demais, perguntam demais, falam demais sobre coisas que não queremos ou com as quais não sabemos lidar. Desligamos, por fim, quando não temos tempo para ouvir ou prestar atenção em suas necessidades.

Fonte: Google Imagens

Mas por que as temos se não nos dispomos a gastar nosso tempo com elas? Essa pergunta é complicada e me leva a tecer outras a partir dela: por que somos criados para termos filhos? Por que muitas mulheres, como aponta Mattos (2014), têm a maternidade como algo natural para suas vidas em detrimento da educação, profissionalização ou outras possibilidades de vida?

147 Moysés e Collares (2013, p. 45) apontam que o questionário apresenta dezoito questões “vagas, imprecisas, mal formuladas! Descontextualizadas, absolutizadas” e apontam que

[...] toda criança ou adolescente que apresente modos de aprender, de agir e reagir, de se comportar e de não se comportar, que escapem de padrões mais ou menos rígidos a depender do observador/avaliador, corre o risco de ser rotulado como portador de um transtorno neuropsiquiátrico que demanda longos e caros tratamentos, envolvendo vários profissionais e drogas psicoativas (MOYSÉS; COLLARES, 2013, p. 45).

As autoras nos propõem uma questão: “como médicos, psicólogos, fonoaudiólogos, podem acreditar e querer fazer todos acreditarem que dezoito perguntas possam de fato identificar pessoas com uma doença neurológica ou psiquiátrica?” (MOYSÉS; COLLARES, 2013, p. 45).

A produção do diagnóstico por meio do questionário parece uma atualização da longa história das técnicas de confissão no ocidente, cujo objetivo era arrancar e produzir a verdade do sujeito, descritas por Foucault na História da Sexualidade I. Nessa obra, o pensador, discute as técnicas de confissão iniciadas do século XIII que levaram as pessoas a falarem de si. A se produzirem por seus discursos. Mostra, também, como funcionam essas técnicas que seriam futuramente utilizadas por médicos, psicanalistas, psicólogos com o mesmo objetivo de saber do sujeito, de arrancar-lhe a verdade, de conhecê-lo e de produzi-lo. O SNAP IV parece uma forma de arrancar a verdade de alguns anormais de nosso tempo.

Pensando o questionário do SNAP IV como um inquérito que produz uma verdade e que essa verdade cria um doente, encontramos Foucault (2011b) que nos sugere que o “inquérito não é absolutamente um conteúdo, mas a forma de saber. Forma de saber situada na junção de uma forma de poder e de certo número de conteúdos de conhecimentos” (p. 77). Que saber e que poder o questionário articula e faz funcionar na produção dos transtornos?

Para Foucault (2011b, p. 77),

[...] o inquérito é precisamente uma forma política, uma forma de gestão, de exercício do poder que, por meio da instituição judiciária, veio a ser uma maneira, na cultura ocidental, de autenticar a verdade, de adquirir coisas que vão ser consideradas como verdadeiras e de as transmitir.

Pensar a medicalização como uma maneira de buscar na medicina soluções para questões de interesses sociais, políticos e econômicos, e na forma como essa se apoia em preceitos e sistemas racionais e científicos que lhe conferem poder, permite-nos considerar o questionário como uma forma ou uma “arte de persuadir, de convencer as pessoas da

148 verdade do que se diz, de obter a vitória para a verdade ou, ainda, pela verdade” (FOUCAULT, 2011b, p. 54).

Ainda de acordo com o pensador, “o inquérito é uma forma de saber-poder. É a análise dessas formas que nos deve conduzir à análise mais estrita das relações entre os conflitos de conhecimento e as determinações econômicas e políticas” (FOUCAULT, 2011b, p. 54).

A pesquisa tem me levado aos limites e limiares dos conflitos e tensões entre a produção de conhecimentos e possíveis determinantes políticos, sociais e econômicos envolvidos nessa produção. A pesquisa tem me levado a refletir acerca de meu próprio movimento na busca e na produção de conhecimento.

Em relação à produção de conhecimento, Foucault (2011b, p. 25) aponta que ao se referir ao caráter perspectivo do conhecimento Nietzsche dizia que

[...] só há conhecimento sob a forma de um certo número de atos que são diferentes entre si e múltiplos em sua essência, atos pelos quais o ser humano se apodera violentamente de um certo número de coisas, reage a um certo número de situações, lhes impõe relações de força. Ou seja, o conhecimento é sempre uma certa relação estratégica em que o homem se encontra situado. É essa relação estratégica que vai definir o efeito de conhecimento e por isso seria totalmente contraditório imaginar um conhecimento que não fosse em sua natureza obrigatoriamente parcial, obliquo, perspectivo.

No documento claudioorlandogamaranocabral (páginas 144-148)