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O primeiro dia com os documentos

No documento claudioorlandogamaranocabral (páginas 95-100)

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Afinal deste dia fica o que de ontem ficou e ficará de amanhã: a ânsia insaciável e inúmera de ser sempre o mesmo e o outro.

(Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, p. 154)

A pesquisa vai tomando corpo, se fazendo corpo, disputando, tornando-se escrita. Vai aparecendo, sendo sentida, respirada, atravessada de memória, de tempo, de histórias e de experiências vivenciadas no ambiente escolar. Entre esquecimentos e lembranças, acontecimentos aparecem e circulam em meu corpo, meu lugar, fazendo-me tremer, vibrar como diz Larrosa (2014). No primeiro contato que tive com os documentos na SE/PJF, lembrei-me de histórias minhas com alunas e alunos com os quais convivi. Lembrei-me de escritos (relatórios) que produzi contando histórias de meninos e meninas. Corpos crianças, adolescentes, diferentes, singulares, múltiplos...

Acontecem situações na escola que não sabemos como resolver. Casos em que recorríamos à SE/PJF, por meio de relatórios através dos quais descrevíamos o comportamento ou outras situações de alunos ou alunas que encaminhávamos pedindo ajuda. Um aluno ou uma aluna apontado/a como “problema” porque “exerce influência

96 negativa nos colegas” (Aluno IP). Estranhei ao encontrar isso escrito no documento que tive nas mãos. Tal registro torna-se um documento, um artefato de produção de sujeitos (ALMEIDA, 2010) e provocou arrepios.

Uma visita. A primeira visita à Secretaria Municipal de Educação foi muito instigante. Tive encontros e conversas interessadas, acolhedoras e também inquietantes em relação aos objetivos desta pesquisa.

O primeiro contato com tais documentos causou um grande desassossego. Uma experiência que até doeu. Que incomodou profundamente.

Esse dia na SE foi marcado por encontros com profissionais aos/às quais fui encaminhado. Conversei com as duas equipes e tive o aval, o interesse e a disposição de contribuir com minha pesquisa. Senti-me livre e apoiado ao ter acesso a documentos que falam de alunos e alunas e os/as produzem com seus corpos e subjetividades.

O contato com documentos nos colocam, parece que nus, diante das verdades que buscamos. Verdades, em meio ao que parece um já saber de que

NO FUNDO DA PRÁTICA CIENTÍFICA existe um discurso que diz: ’nem tudo é verdadeiro; mas em todo lugar e a todo momento existe uma verdade a ser dita e a ser vista, uma verdade talvez adormecida, mas que no entanto está somente à espera de nosso olhar para a parecer, à espera de nossa mão para ser desvelada’ (FOUCAULT,2012, p. 190).

Conversar com os documentos remete-me a perceber a historicidade de meu trabalho. A perceber meu tempo, o tempo também de meus problemas. O tempo de minha pesquisa e de meu texto; meu tempo e meu momento enquanto ex-diretor e, nesse momento, um pesquisador que pesquisa inventando um presente: uma vida. Senti-me envolvido, embaraçado e mergulhado em meu problema. Senti-me a procurar “a boa perspectiva, o ângulo correto, os instrumentos necessários, pois de qualquer maneira ela [a verdade] está presente aqui e em todo lugar” (FOUCAULT,2012, p. 190).

Manusear um documento é encontrar com seu tempo, com seu lugar, com sua história que passa a ser também minha história. Uma história que é coletiva. Que exercemos socialmente em nossas relações e que nos propicia encontros com o outro. Uma história que parece se torcer e virar contra um outro que nossa normalidade aponta como anormal por sua diferença e singularidade (SKLIAR, 2003). Um outro que é descrito como a (Aluna NV): “desinteressada”, “copista”, que “toma remédio”, e que, “segundo sua mãe, apresenta Déficit de atenção alto”. Um outro que se torna aquele que é visto e reconhecido como tal; que se diz e se torna aquilo que dele dizem. Que se constitui com isso. De acordo com Almeida (2010), os relatórios apresentam muitas falas, muitas vozes e “quando uma

97 criança se propõe a falar, o que ela fala já aparece impregnado pela presença da fala dos adultos” (p. 53).

(Aluno L)

Esse primeiro contato com os documentos levou-me ao encontro com corpos em produção. Com corpos/alunos/as que aparecem com “feridas provavelmente por falta de higiene adequada” como o (Aluno IP). Encontrei corpos cujas famílias foram comunicadas e ficaram de “trazer um laudo dos problemas de saúde do aluno, mas não deu satisfação” (Aluno HF).

Vejamos uma descrição que encontrei como motivo de encaminhamento33:

(Aluna AG)

33A aluna apresenta dificuldades para copiar do quadro e de folhas, apresenta a escrita desorganizada sem alinhamento. E

após um tempo de aula a aluna reclama de dor de cabeça. Tem bom desempenho é participativa. A mãe, ao ser solicitada para levar a criança ao médico especialista, relatou dificuldades para conseguir atendimento”

98 Dificuldade de “copiar do quadro ou de folhas” e “escrita desorganizada”. Que tem “bom desempenho” e participa. O que levou essa escola a sugerir à mãe que levasse a criança ao médico especialista? “A mãe ao ser solicitada para levar a criança ao médico especialista, relatou dificuldades para conseguir atendimento”. Imagino que muitos/as que lerem esse fragmento, poderão pensar, como eu, que essa criança de sete anos tem problema de visão. Que essa criança precisa de um oftalmologista, embora o nome do especialista não tenha aparecido no documento.

É muito comum esse tipo de encaminhamento de crianças à SE. Nesse caso, como em outros, notamos a “dificuldades para conseguir atendimento”.

Um/a professor/a pode perceber uma criança com problemas de visão. Tem coisas dos outros que vemos, que existe fisicamente como uma ferida, uma diferença física, uma marca, uma cicatriz no corpo. No entanto, há diferenças que são de atitudes, são de comportamento, de momentos e implicam “conjunções que lhe permitem se produzir como um acontecimento” (FOUCAULT, 2012, p. 190) e, como tal, se dão em relações que envolvem poderes de nomear, qualificar e prender corpos em rótulos com os quais eles vão se constituindo.

Almeida (2010), em outro momento, envolvido por outras questões, encontrou, no mesmo arquivo em que hoje pesquiso, os seguintes fragmentos produzidos por diferentes escolas e que me acompanham desde o anteprojeto desta pesquisa: “Pedi a ele (diretora ao pai do aluno) que tentasse encaminhar a criança a um psiquiatra infantil. Embora não seja médica, acredito que o aluno tem algum distúrbio emocional, precisa de medicamento para auxiliar sua conduta (grifo meu)” (p. 60). Em outro fragmento, como o caso em que o “O K. M. vem apresentando uma conduta inadequada [...] É como se sofresse de transtorno bipolar” (p. 49) e um outro, ainda, que se apresenta dizendo que “Vimos por meio desta relatar o comportamento do aluno R. Y. F. e pedir com urgência que o mesmo seja encaminhado para o NEACE ou órgão competente (IMEP)” (p. 51).

Para Almeida (2010, p. 51), as falas de professores/ referindo-se ao uso de medicamentos por alunos estão “demonstrando como é forte em nós o discurso de especialistas”, bem como, que “fortalecemos o nosso lugar como detentores do saber, porém não só sobre o conteúdo específico que lecionamos, mas também sobre todas as facetas que envolvem a vida da criança”. Continuando, afirma que o ato de descrever e documentar é um dispositivo disciplinar como apontou Foucault:

O exame, cercado de todas as suas técnicas documentárias, faz de cada indivíduo um ’caso’: um caso que ao mesmo tempo constitui um objeto para o conhecimento e uma tomada de poder. O caso não é mais como na casuística ou na jurisprudência, um conjunto de circunstâncias que qualificam um ato e podem modificar a aplicação de uma regra, é o indivíduo tal qual pode ser escrito, mensurado, medido, comparado a outros e isso em sua própria individualidade; e é também o indivíduo

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que tem que ser treinado e retreinado, tem que ser classificado, normalizado, excluído, etc” (ALMEIDA, 2011, p. 183).

Ainda fico um pouco atordoado a partir dos fragmentos acima que me lembram Foucault (2012, p. 190) a apontar que “a verdade, como relâmpago, não nos espera onde temos a paciência de emboscá-la e a habilidade de surpreendê-la, mas que tem instantes propícios, lugares privilegiados, não só para sair da sombra como para realmente se produzir”. Há uma verdade sendo produzida na fala “o aluno vem apresentando uma conduta inadequada [...] É como se sofresse de transtorno bipolar”. Essa fala proferida por uma escola, por quem está autorizado a falar, apresenta implícita uma verdade acerca do que é uma conduta inadequada e que essa parece caracterizar um transtorno. No entanto, não vemos ou sentimos o transtorno: o imaginamos e o criamos.De alguma forma sabemos que ele existe e que ele pode provocar comportamentos indevidos que, por sua vez, podem levar a “dificuldades de aprendizagem”. Há casos em que o encaminhamento é para um psiquiatra infantil, pois acredita-se que o “aluno tem algum distúrbio emocional [e] precisa de medicamento para auxiliar sua conduta”.

Se sabemos do estigma que representam as doenças psiquiátricas para um paciente, quer seja pelos rótulos que cria, pelas desconfianças que desperta ou pelo preconceito que temos em geral aos doentes, não deveríamos ser mais cuidadosos ao apontar nossos/as alunos/as como doentes? Quando a escola fala em conduta ou comportamento inadequado e sugere medicamento para “auxiliar”, estaria, por meio desta afirmação, oferecendo um parecer, um laudo, um diagnóstico “embora não seja médica”?

A afirmação, verbal ou escrita, acerca do transtorno dos/as referidos/as alunos/as e a descrição de seus comportamentos são artefatos de produção de sujeitos e pode levar estudantes ao uso de medicamentos. Para Moysés (2013) estamos medicando comportamentos e não doenças reais.

A afirmação de Luengo (2010) de que na falta de exames clínicos que justifiquem ou embasem os diagnósticos médicos e que esses se utilizam desses relatórios das escolas para seus laudos e diagnósticos, colocam nossas escolas sob suspeita. Que corpos estamos produzindo a partir de nossos relatórios? Que força ou que poder de resistência têm esses corpos mediante o poder que revestido de saberes e, imbuídos de prepotente cientificidade, os definem e enquadram?

100 Foi assim meu primeiro encontro com os documentos e com os outros e outras com eles envolvidos. Foi assim meu encontro comigo mesmo. Com minha mesmice que se esforça por quebrar-se, por transformar-se, por olhar e olhar-se de outros modos.

Esse dia despertou um encontro com minha mesmice e com o que ela sempre olhou e produziu como verdade: a verdade acerca do outro, a verdade que inventamos e que nos constitui.

No documento claudioorlandogamaranocabral (páginas 95-100)