2. MÉTODO
2.2 A escola e a Sala de Recursos Multifuncional
Ao darmos início a descrição da escola que serviu de lócus para a realização dessa pesquisa, cabe sublinhar que essa instituição, denominada aqui de “Escola Carlos Drummond de Andrade” como forma de preservar a sua identidade, se localiza em um bairro periférico e muito populoso formado essencialmente por famílias pertencentes às classes D e E3. Pensada, em um primeiro momento, para servir de centro de lazer e de atendimento à população, essa instituição não apresenta a estrutura necessária para o desenvolvimento de iniciativas pedagógicas, possuindo características físicas que dificultam a realização dessa prática, como salas pequenas e pouco ventiladas que não foram construídas para servirem como classes escolares.
3 Definição baseada nos critérios empregados pelo IPC (Índice de Potencial de Consumo) que divide as famílias de acordo com a taxa de consumo mensal, estabelecendo as seguintes categorias: A1, renda média mensal de R$ 13,1 mil; A2, renda média mensal de R$ 9,1 mil; B1, renda média mensal de R$ 4,9 mil; B2, renda média mensal de R$ 2,7 mil; C1, renda média mensal de R$ 1,6 mil; C2, renda média mensal de R$ 1,1 mil; D, renda média mensal de R$ 710; E, renda média mensal de R$ 490.
Funcionando em um amplo prédio de três andares, o complexo da “Escola Carlos Drummond de Andrade” é formado por uma biblioteca comunitária que, apesar de pertencer à escola, atende a toda a população, uma quadra poliesportiva já muito desgastada pelo uso e um parque infantil utilizado pelas professoras dos primeiros anos do ensino fundamental. No que se refere à quadra, cumpre destacar as condições precárias nas quais ela se encontra, não possuindo redes, traves ou cestas para o exercício de atividades esportivas e estando extremamente escorregadia, o que representa um risco em potencial para as crianças. Além disso, o seu teto demanda uma reforma urgente, uma vez que possui telhas quebradas que dificultam a utilização desse ambiente em dias de chuva, além de ter se convertido em um viveiro de pombas. A situação do parque infantil não é menos preocupante, já que esse espaço estava organizado em um local que foi atingido pela erosão, tendo sido transferido para um lugar pequeno que aumenta o risco das crianças se machucarem em brinquedos pouco conservados.
As condições de trabalho nesse contexto também não são ideais. O prédio escolar apresenta sérias infiltrações, o que chega a impossibilitar, em dias de chuva, que os professores mantenham seus alunos em sala, dificultando também a realização das sessões do Atendimento Educacional Especializado oferecido na Sala de Recursos Multifuncional. Essa situação é agravada pelo fato dessa construção ter se transformado em um pombal, representando um sério risco para a saúde de todos àqueles que frequentam esse ambiente. A escola não possui um pátio espaçoso para acolher seus alunos durante o intervalo, nem um refeitório amplo no qual essas crianças possam fazer suas refeições sem que tenham que respeitar uma escala prévia, possuindo uma ampla faixa de terreno de terra batida onde os alunos brincam durante as aulas de educação física ou em outras situações específicas.
A ausência de adaptações arquitetônicas é outro aspecto que merece ser mencionado. A falta de adequações físicas que possam facilitar a locomoção dos alunos com deficiência pode ser ilustrada pelas escadas que ligam um andar ao outro do prédio escolar. Nota-se a falta de banheiros adequados às demandas desse novo público que se insere no ensino comum, o que pode ser notado inclusive na Sala Recursos Multifuncional. As portas, via de regra, são estreitas e inexistem corrimãos que possam auxiliar o aluno com deficiência a se
locomover no ambiente escolar com o mínimo de ajuda possível, contribuindo assim para o desenvolvimento da sua autonomia4.
A SRM está localizada no primeiro andar da escola, dividindo espaço com o reforço escolar que é oferecido aos alunos que apresentam dificuldades de aprendizagem. Chama a atenção o fato desse contexto se encontrar praticamente desmembrado do ambiente escolar, estando distante das salas de aula e possuindo uma única entrada pelos fundos da escola, não existindo nenhuma passagem interna. O trabalho nesse ambiente, que é vizinho ao pátio e próximo a quadra poliesportiva, é dificultado em função do barulho constante. Esse atendimento funciona em uma pequena sala que não apresenta a ventilação adequada e nem adaptações arquitetônicas que possam facilitar a locomoção dos alunos com deficiência, possuindo portas estreitas e um banheiro apertado que não oferece nenhum tipo de adequação física.
Há uma quantidade considerável de materiais a serem trabalhados nas sessões de apoio, como jogos pedagógicos, formas geométricas, alfabetos em EVA e, até mesmo, um laptop, instrumentos que se encontram organizados em dois armários. Contudo, as professoras responsáveis não conseguem empregar todas essas ferramentas em razão dos problemas de logística que enfrentam, uma vez que o micro-computador, a impressora e a televisão LCD que receberam do Ministério da Educação não podem ser utilizadas em função da dificuldade encontrada na instalação dessas ferramentas.
Como salientado, outro problema corrente é a infiltração e as goteiras que chegam a inviabilizar a realização das sessões de atendimento, sendo necessário que um funcionário tire a água da sala para que o trabalho possa ser retomado em dias de chuva. As docentes relataram ter havido uma pequena reforma no local destinado a SRM, todavia, se limitou a pintura das paredes e a cobertura dos buracos com uma massa que, no final do ano letivo, já estava se soltando. A Sala de Recursos Multifuncional, apesar das dificuldades indicadas, se apresenta sempre organizada e limpa, dispondo de uma grande lousa acima da qual foi fixado o alfabeto e de uma mesa redonda onde os alunos são atendidos.