2. METODOLOGIA
2.1. A escola
Por lecionar há 7 anos em um colégio particular, no bairro do
Rudge Ramos, na cidade de São Bernardo do Campo, São Paulo,
escolhemos tal espaço como lugar para as experiências.
A escola foi fundada em 1967 e, pelo seu tempo de existência
e característica de ensino, é referência educacional na região, pois se
empenha em formar um aluno envolvido com a sociedade e que,
principalmente, compreenda seu papel de cidadão, estando pronto
para enfrentar os desafios que o esperam. Há uma preocupação com
o indivíduo como ser único e especial, dentro de suas características
pessoais.
O colégio compreende todos os níveis de ensino da educação
básica, da Educação Infantil até o Ensino Médio, e também possui um
berçário. O público é predominante formado por estudantes de
famílias de classe econômica alta, porém a escola possui uma
preocupação social incontestável além desse perfil econômico.
Existem atividades, durante o ano letivo, envolvendo trabalhos
solidários, nos quais todos os alunos e funcionários são convidados e
incentivados a participar. O ambiente de trabalho e de ensino possui
um ar familiar; por isso, os alunos costumam sentir-se à vontade,
inseridos na escola, em seus processos educacionais e sendo
participantes deles. Quanto ao espaço físico, existem salas de aula
para cada turma no seu nível de ensino, um anfiteatro, um auditório,
um laboratório, sala de informática, duas quadras de esportes, uma
sala de arte, além de outros espaços específicos para determinadas
atividades.
Por trabalharmos com estudantes de todas as turmas do
Ensino Fundamental II e do Ensino Médio, fizemos um filtro para
selecionar quem faria parte das experiências desta pesquisa. Foram
considerados estudantes entre 15 e 17 anos, que cursam o 2º e o 3º
ano do Ensino Médio, totalizando quatro turmas (duas de cada ano
de ensino).
Dentre as duas turmas, existem algumas diferenças
importantes a se esclarecer aqui. O primeiro ponto se dá quanto ao
local onde as aulas de artes acontecem: as turmas do 2º ano do Ensino
Médio têm aula de artes uma vez por semana, dentro da grade
horária, e utilizam o espaço da sala de arte para tal; já as turmas do
3º ano do Ensino Médio possuem aula de História da Arte uma vez
por semana, porém utilizam a sala de aula usual, por uma questão de
organização da escola.
A sala de arte
2possui mesas de uso coletivo, diversos
materiais artísticos disponíveis e espaços próprios para armazenar
atividades e trabalhos, enquanto as salas usuais têm carteiras
individuais enfileiradas e uma lousa branca com recursos digitais.
Para as turmas do 3º ano do Ensino Médio, a arte é abordada
de modo a cumprir quesitos pedagógicos quanto à preparação para
vestibulares e processos seletivos, etapas muito próximas dos
estudantes em tal fase da vida. Portanto, por uma questão do uso do
espaço e da impossibilidade de manipular materiais artísticos
variados, os resultados das atividades desenvolvidas com essas
turmas são caracterizados mais pela linguagem escrita do que visual.
Em alguns momentos, quando é possível, realizamos atividades
visuais com lápis de cor, colagens e diferentes papéis que levamos
para a sala de aula.
A determinada diferença de ambiente para os grupos de
alunos ocorre por uma questão de organização de uso da sala de arte
e dos horários das turmas em toda a escola. Por isso, ao escolher com
quem trabalharíamos, convidamos tais estudantes. Desejávamos que
2 Abordaremos no capítulo 3 a importância deste espaço para a pesquisa.
todos eles utilizassem o espaço da sala de arte para realizar as práticas
artísticas, em um horário hábil para todos. Enfatizamos tal
importância porque os que cursam o 2º ano do Ensino Médio não
terão mais a oportunidade de vivenciar as experiências artísticas na
sala de arte no ano seguinte e também porque os alunos do 3º ano já
não frequentam mais tal espaço. Sendo assim, as oficinas seriam uma
oportunidade para que todos usassem a sala em suas experiências
artísticas.
O segundo ponto se relaciona ao fato de que esses alunos, em
sua maioria, estudam no colégio há uma quantidade de tempo
considerável quando correspondida ao tempo de convívio com as
aulas de artes. Portanto, o contato que eles têm entre si e com a
professora durante as atividades, a maneira como costumam agir nos
processos criativos propostos e as relações que procuram estabelecer
em seus trabalhos artísticos, podem permitir que experiências
artísticas, realizadas em oficinas planejadas para essa pesquisa,
envolvidas nos conceitos de fluxo, criatividade e repertório
estudados, possam promover experiências significativas em arte para
cada um deles, promovendo percepções sensíveis e atentas, além de
possibilitar uma profunda análise.
Por conseguinte, para a prática que propomos, observar com
atenção os jovens diante das atividades propostas, as suas dúvidas,
aflições, as soluções encontradas, como acontecem as discussões de
ideias entre todos, o andamento dos trabalhos e o resultado final que
obtêm, é um trajeto considerado essencial para investigação, tanto
quanto os conceitos e pesquisas dos autores considerados para este
trabalho.
Visto isso, como nosso principal parâmetro era o uso da sala
de arte para as experiências artísticas, escolhemos realizar oficinas no
período da tarde, contrárias aos horários das aulas habituais dessas
turmas; assim, o ambiente estaria disponível para uso. Ao
convidarmos as 4 turmas de alunos, demos a oportunidade de todos
os interessados participarem sem especificar nomes ou selecionar
pessoas exclusivas.
2.2. Escolhas
Dentre os 120 alunos das 4 turmas escolhidas, recebi 40
interessados em ouvir a explicação sobre o convite (registramos esse
momento por meio de um vídeo). Cada um escolheu estar ali para
saber sobre a proposta sem prévias explicações. A necessidade de
saciar a curiosidade e se dispor a participar de algo que envolveria a
arte parecia se tornar parte da motivação deles.
Explicitamos do que se tratavam as oficinas, pontuando que
aconteceriam em datas e horários específicos e que serviriam como
parte de uma pesquisa de mestrado, sendo registradas por meio de
fotografia e vídeo. Esclarecemos também que os trabalhos deles
seriam expostos em locais e datas oportunas. Por isso, reforçamos a
importância de os responsáveis autorizarem a participação deles por
meio de um “Termo de consentimento livre e esclarecido” e uma
“Declaração de cessão de direito de uso de imagem” devidamente
assinados.
Ao questionarmos quem se interessava em participar das
oficinas, ficamos surpresos, pois, dentre os 40 estudantes presentes,
em torno de 38 deles se dispuseram. Entregamos os termos e
declarações aos interessados e dispostos a participar dos três
encontros. Alguns alunos pediram para verificar a possibilidade da
participação, em vista dos horários e das datas, enquanto outros
deram total certeza e demonstraram curiosidade em saber como
seriam as oficinas.
Entendemos, dessa forma, que a primeira escolha em estar
presente naquele momento, sem obrigação ou objetivos iniciais
claros, demonstra um desejo de participar desse processo e denota
um início do processo de fluxo (CSIKSZENTMIHALYI, 2002). O eu de
cada um deles se preparava para se encontrar com algo significante e
relevante - do contrário, não estariam naquela sala para escutar algo
que nem sequer sabiam do que se tratava. As únicas certezas que os
jovens tinham eram de que seria algo relacionado à arte, realizado na
sala de arte e com a minha orientação.
Para eles, a dúvida antes existente, misturada ao interesse e à
curiosidade, agora dava lugar a um caminho de descobertas e
experiências possíveis, entrelaçadas à arte como linguagem. Vê-los
participando de todos os encontros, envolvidos e experimentando o
fluxo que as práticas artísticas poderiam proporcionar, era o que mais
esperávamos.
No documento
SÃO PAULO
(páginas 36-42)