Vivenciar uma experiência artística vai além de observar uma
obra-prima do século XVI, de visitar o Museu do Louvre, em Paris, ou
de tomar chá ouvindo uma sonata de Mozart. Comecemos pela ideia
do que é experiência. De acordo com Dewey (2010, p. 109), “a
experiência ocorre continuamente, porque a interação do ser vivo
com as condições ambientais está envolvida no próprio processo de
viver”, ou seja, é algo inerente a nós. Além disso, cada indivíduo
possui a sua história de vida e suas experiências únicas e particulares,
“porque a vida não é uma mancha ou fluxo uniforme e ininterrupto.
É feita de histórias, cada qual com seu enredo, seu início e movimento
para seu fim, cada qual com seu movimento rítmico particular, cada
qual com sua qualidade não repetida, que a perpassa por inteiro”
(DEWEY, 2010, p. 110). Sendo assim, a experiência faz parte do viver
humano e acontece de forma única para cada pessoa. Não há um
caminho preestabelecido ou fluxos garantidos; existem, sim,
oportunidades e possibilidades.
Dentre as possíveis experiências, Dewey (2010) explicita que
podemos mensurar as que são reais e as que são insignificantes.
Quanto às experiências reais, esclarece que são caracterizadas por
fluírem livremente - corroborando os estudos de fluxo de
Csikszentmihalyi (2002) -, sem interrupção ou vazio para o que vem a
seguir; por isso, podem ser denominadas experiências singulares ou
ímpares. Já as insignificantes são incipientes e podem ocorrer com
distração e dispersão; os pensamentos, desejos e resultados não se
relacionam.
Posto isso, se há experiências singulares e incipientes,
poderíamos compreender que, especificamente, as singulares
ocorrem continuamente e sem interrupção. De certo modo, sim, se
pensarmos na ideia de fluxo; porém, podemos afirmar que podem
existir pausas, repousos, que, ao contrário de causarem
distanciamento da experiência, determinam a qualidade do
movimento dela, segundo Dewey (2010), bem como Csikszentmihalyi
(1998), que caracteriza a pausa como um processo de maturação das
ideias. Conhecidos certos tipos de experiências, afirmamos ainda que
existem aquelas que são denominadas estéticas, outras que
consistem em um simples fazer e são incipientes, e mais aquelas que
remetem ao pensamento.
Se falarmos sobre a experiência artística, podemos dizer que
essa é estética, pois envolve a questão emocional de modo evidente.
A vivência da prática com a arte se relaciona diretamente com o eu
do indivíduo durante os processos criativos e promove um resultado
organizado, que é o trabalho gerado pela experiência. No entanto, a
experiência relacionada ao pensamento (que podemos mencionar ser
também artística), de fato, acontece quando ocorre a ligação
emocional e organizada, assim como ocorre na estética (DEWEY,
2010). Por isso, as experiências em arte podem ser imbuídas de
estética e de pensamento em conjunto, já que envolvem questões
emocionais e de organização das ideias.
Entretanto, o que vivemos em nossos dias agitados e
atarefados pode desequilibrar as relações das percepções e
desmanchar as experiências de quaisquer tipos, sejam relacionadas à
arte ou a qualquer outro assunto. Já em meados dos anos 30, Dewey
esclareceu que o que experimentamos, muitas vezes, como “o gosto
pelo fazer, a ânsia de ação, deixa muitas pessoas, sobretudo no meio
humano apressado e impaciente em que vivemos, com experiências
de uma pobreza quase inacreditável, muitas vezes superficiais.
Nenhuma experiência isolada tem a oportunidade de se concluir,
porque o indivíduo entra em outra coisa com muita precipitação”
(2010, p.123). A maneira como interagimos com o fazer e a
velocidade com que nos dispomos a realizar e a experimentar pode
ter esse caráter superficial; por isso, se quisermos aproveitar a
velocidade do tempo e não ficar sobre as águas das experiências em
nossos dias, mas imersos nelas, podemos utilizar recursos que
apreendam a percepção no momento em que ela acontece.
Permitir-nos fazer anotações, rascunhos e alguns registros perceptivos em
determinados momentos, por exemplo, já denota a criatividade em
ação, atuando sobre as leituras do mundo que percebemos à nossa
volta - afinal, registrar graficamente o que vemos, ouvimos, sentimos
e pensamos demonstra uma reinvenção desse cotidiano, de modo
inventivo.
Um professor pode fazer uso desse recurso enquanto cria,
planeja e desenvolve uma aula; um artista, quando rascunha e esboça
suas ideias e possibilidades criativas; e um aluno, que pode encontrar
nos momentos fora das salas de aula, outras ideias, referências e
novas percepções para seus processos criativos, junto à arte ou
qualquer linguagem.
À vista disso, a prática da arte, segundo Dewey (2010), se inicia
com a sensibilidade àquilo que acontece ao nosso redor; é o modo
pragmático de compreender como as experiências estão envolvidas
no próprio processo de viver.
1.1.Dispostos a ver
Com as inúmeras oportunidades de vivenciar a arte dentro de
momentos de fluxo, é compreensível que encontremos uma
necessidade de motivações além do repertório imagético individual
de uma pessoa. No contexto das dificuldades que as atividades
envolvidas no fluxo costumam apresentar aos que estão envolvidos
nelas, as motivações pedem maior concentração e atenção - são as
chamadas motivações extrínsecas (aquelas que vêm de incentivos
exteriores aos nossos). Csikszentmihalyi (2002, p.103) diz que,
“muitas vezes, crianças – e adultos – precisam de incentivos externos
para iniciar uma actividade que requer uma reestruturação difícil da
atenção. A maioria das actividades agradáveis não é natural; necessita
de um esforço inicial que nos custa fazer”. Porém, da mesma forma
que precisamos de motivações externas às nossas próprias vontades,
quando o fluxo se torna presente, o caminho da experiência se
apresenta agradável e corrente, e os estímulos e ânimos se tornam
internos a nós, convertendo as motivações em intrínsecas.
Reforçando esse ponto, Csikszentmihalyi segue este raciocínio: “[...],
logo que a interacção começa a responder aos dons da pessoa,
torna-se, em geral, intrinsicamente gratificante” (2002, p.103, grifo nosso).
Desse modo, por se tratar do fluxo, os incentivos externos
tornam-se parte do processo e colaboram para converter uma
atividade em algo com significado e interação com o eu; tornam-se
significativos interiormente; o externo e o interno do indivíduo
trabalham somados. Portanto, essas motivações são extremamente
importantes em um processo criativo que deseja ter a experiência
como algo singular e fluido. Devemos considerar, porém, que a
importância dada às motivações extrínsecas, comparada às
intrínsecas a nós, só é válida quando conseguimos vê-las com olhares
dispostos a significá-las e torná-las efetivas para nossas próprias
experiências, relacionando-as com o que há em nosso interior, como
as memórias, os valores e as experiências pessoais de diversos tipos,
por exemplo.
Nessa construção de relações entre as motivações externas e
internas do estudante, o professor de artes tem um papel
fundamental, pois promover situações durante as práticas artísticas,
que permitam momentos de desfrute em diferentes ocasiões, até
mesmo nas mais regulares do dia-a-dia, é um desafio que está à sua
frente durante todo o seu próprio processo criativo e também dos
estudantes, além de ser um convite que a arte nos oferece, como
descrito por Dewey (2010).
Por essa razão, devemos considerar, segundo
Csikszentmihalyi (2002, p. 152), que “[...] é preciso treino para se
conseguir alcançar este grau de deleite sensorial [...]. Mas isto
acontece em todas as actividades de fluxo: sem se cultivarem as
faculdades necessárias, não se pode esperar ter um verdadeiro
desfrute de uma actividade”. Portanto, o estímulo a esse treino, que
podemos chamar de preparação, pode proporcionar deslumbrantes
práticas artísticas em experiências com as artes visuais. Não se trata
de um treino exaustivo ou entediante, pois, se assim for, perderá o
fim da experiência artística de fluxo; se trata, sim, de sensibilizar os
sentidos e aguçá-los para encontrar significado, sentido e motivações
em diversas situações, até mesmo cotidianas.
Desse modo, o professor prepara o aluno para ver - para ver o
mundo ao seu redor, para ver os seus pares, para ver o espaço que
habita, para ver o espaço que simplesmente ocupa, para ver a fala do
outro, para se ver no espelho, para se ver por dentro, para ver seu
trabalho artístico, para ver sua arte como linguagem, para ver a arte
em tudo o que vê. As instigações proferidas e suscitadas por um
professor possibilitam que os olhos e todos os outros sentidos sejam
mais atentos e encontrem o que procuram sem, de fato, procurar,
assim como quando uma mistura de tintas acontece durante um
processo de pintura, resultando na cor que o artista procurava em
outras experiências pictóricas anteriores. Tais tipos de eventos
podemos denominar de serendipidade: “A Serendipidade, termo
utilizado na ciência para descrever o processo de uma descoberta
científica, a coincidência feliz, que podemos também compreender
como um acaso que se espera, que o cientista busca e persegue”
(MELLO, 2008, p.33, grifo do autor).
O que o professor espera durante os processos criativos, nas
práticas artísticas, é que os alunos tenham todos os sentidos sensíveis
e aguçados para ver, ouvir, tocar, degustar, cheirar e perceber com
propriedade em suas experiências cotidianas, e que essa sensibilidade
esteja aguçada para os momentos de experiências com a arte. Essa
percepção pronta, com a criatividade a postos para trabalhar, se dá
para quem está disposto a tal, por isso a necessidade do incentivo
externo e do instigar, por intermédio de um professor, durante as
experiências artísticas.
Todavia, não devemos negar que a sensibilidade de cada
indivíduo se relaciona com o repertório e o inconsciente (que são as
sensações internas), e com o consciente e a percepção (que são as
sensações externas) (Ostrower, 2010). É necessário considerar todos
esses elementos ao intervir no processo criativo de um aluno, seja
com palavras, imagens, sons ou quaisquer outros recursos. Tal
preocupação é importante, pois as intervenções ou mediações
podem modificar a sensibilidade e, portanto, o processo criativo.
Fayga Ostrower esclarece e destaca a importância disso, dizendo que
a sensibilidade que se modifica
“[...] Torna-se [ela mesma] faculdade criadora, pois incorpora um princípio configurador seletivo. Nessa integração que se dá de potencialidades individuais com possibilidades culturais, a criatividade não seria então senão a própria sensibilidade. O criativo do homem se daria ao nível do sensível” (2010, p.17, grifo do autor).
Dessa forma, o repertório, que é o conjunto de
potencialidades individuais, e as motivações extrínsecas, que se dão
pelas possibilidades culturais, compõem a criatividade desse aluno e
sua sensibilidade. O quanto um professor influirá para que o aluno
desenvolva sua autonomia criativa, amplie seu repertório imagético e
cultural e aguce sua sensibilidade, é parte de um trabalho de
estímulos, referências e convites às experiências com arte possíveis
de se experimentar dentro do ambiente escolar.
1.2. Guia interior
Se desejarmos mergulhos profundos nas águas das
experiências artísticas, devemos admitir que haverá complexidade
nessa escolha. De acordo com Dewey (2010), a complexidade entre o
fazer, a estética e o pensamento nas experiências em arte são
presentes assim como para os investigadores cientistas em suas
pesquisas, conforme exemplifica: “O pintor tem de vivenciar
conscientemente o efeito de cada pincelada que dá ou não saberá o
que está fazendo nem para onde vai seu trabalho. Além disso, tem de
discernir uma relação particular entre o agir e o suportar em relação
ao todo que deseja produzir. Apreender tais relações é pensar, uma
das modalidades mais exigentes do pensamento” (DEWEY, 2010, p.
124). Por isso, em arte, tanto o fazer quanto o experimentar, com
singularidade e experiências de fluxo, compreendem diversos fatores
que funcionam em conjunto: a motivação, o envolvimento com a
atividade desenvolvida, a percepção atenta e a sensibilidade interior.
Csikszentmihalyi (2002, p.87) reforça o que Dewey afirma quando
explicita que “[...] um pintor que goste de pintar tem de ter critérios
interiorizados de ´bom` ou ´mau` para que possa dizer, após cada
pincelada: ´Sim, é isto; não, isto não.` Sem estas linhas de conduta
interiores é impossível experimentar o fluxo”. Da mesma forma,
Ostrower (2010, p.9) explana sobre esse mesmo assunto afirmando
que “sem nos darmos conta, nós os orientamos de acordo com
expectativas, desejos, medos, e sobretudo de acordo com uma
atitude do nosso ser mais íntimo, uma ordenação interior. [...]
Constitui uma maneira específica de focalizar e de interpretar os
fenômenos, sempre em busca de significados”. Existe uma motivação
e um guia interno em nós; esse nos diz o caminho que devemos
percorrer, quando precisamos parar ou mudar a velocidade ou, ainda,
quando é preciso trocar o percurso.
Por conseguinte, a experiência artística, seja ela referente ao
pensamento ou à prática, precisa de intelectos dispostos a pensar em
suas atividades. Arnheim (2004, p.153) elucida, claramente,
explicando que “[...] o desenho, a pintura e a escultura,
adequadamente concebidos, suscitam questões cognitivas
merecedoras de um bom cérebro, e tão exatas, em cada um de seus
aspectos, quanto um enigma matemático ou científico”. Partindo
desse pressuposto, é possível que enxerguemos a experiência em arte
como algo duro, ruim ou pesado - algo que não queiramos fazer por
se relacionar com tal complexidade. Mas, se tomarmos o que
Csikszentmihalyi (2002, p.102) esclarece, compreenderemos que
“algumas coisas que de início somos obrigados a fazer contra nossa
vontade tornar-se-ão, com o tempo, intrinsecamente
compensadoras”. Quando há sentido interior junto às motivações
externas, há compensação, prazer, e, assim, possibilidades de fluxo e
criatividade. Por esse motivo, é preciso relacionar o interior com o
exterior, apresentar o que é feito artisticamente às outras pessoas,
para que o fluxo se dê por completo. O que realizamos com
motivações interiores só tem relação com a linguagem da arte se
apresentado a outras pessoas, compartilhado, exposto; não deve ser
algo íntimo ou entendido como um benefício terapêutico. Para ser
linguagem, a arte precisa apresentar relação intensa com as
motivações internas e externas ao indivíduo.
1.3. Construção da poética
Vistos esses pontos elementares para o experimentar em arte,
podemos afirmar que “todo perceber e fazer do indivíduo refletirá
seu ordenar íntimo. O que ele faça e comunique, corresponderá a um
modo particular de ser que não existia antes, nem existirá outro
idêntico” (OSTROWER, 2010, p. 26). Tal especificação é o que
podemos nomear como poética - a força artística que está contida
nos processos criativos de cada pessoa.
Essa palavra, hoje utilizada para designar algo relacionado à
criação individual artística e com características particulares de um
indivíduo, vem do grego poiésis, e foi mencionada pelos importantes
filósofos Platão e Aristóteles, em discussões sobre a utilização do
termo. Eles questionavam seu uso: se para definir algo que fora
produzido e fabricado, se deveria se relacionar à poesia ou a um
conhecimento técnico, ou, ainda, se caracterizava uma produção
gerada na essência do indivíduo. Tais discordâncias de uso do termo
com certeza se justificam pelos diferentes pensamentos de cada um.
“[...] Platão era brilhante e intuitivo, Aristóteles era erudito e
metódico” (BUCKINGHAM, 2011, p. 58). Enquanto a formação de
Platão era fortemente matemática, ligada ao pensamento abstrato, a
de Aristóteles tinha grande influência das ciências biológicas e
relacionava-se com a realidade. Ambos, porém, se preocuparam em
encontrar algum fundamento imutável e eterno no mundo em
constante mudança (BUCKINGHAM, 2011), cada qual a seu modo.
Platão resolveu essa questão com a explicação da existência
de um mundo das ideias ou mundo das formas, onde tudo é eterno,
imutável e responsável por nos fazer conhecer o mundo que vivemos
e compreendemos. Já Aristóteles refutou isso, afirmando que a
realidade em torno de nós é suficiente para compreendermos o
mundo, sem considerar a existência de algo ideal.
Sendo ideal, como para Platão e o mundo das ideias, ou sendo
real e observável, como para Aristóteles, entendemos, em nossas
reflexões durante essa pesquisa, que a poética apresentada nas
experiências artísticas, sejam elas envolvidas no fluxo ou não, são
precisamente os pontos pessoais e únicos de cada pessoa colocados
em suas produções artísticas - por vezes, com idealizações nascidas
no mundo das ideias do indivíduo; por outras vezes, com referências
advindas do mundo observado e vivenciado na realidade.
Por isso, a poética abarca o conhecimento; esse pode ser
técnico, vir de experiências de vida ou se construir pelo compartilhar
com outras pessoas. Em essência, é o eu do indivíduo posto em
trabalhos artísticos, com suas leituras e interpretações sobre o
mundo, sobre os pares e sobre si mesmo.
Portanto, fazendo uso da arte como linguagem,
especificamente das artes visuais nesta pesquisa, a poética pode se
apresentar corporificada quando os alunos utilizam as possibilidades
encontradas nos diversos materiais disponíveis durante as práticas
artísticas. Existem aqueles que preferem o desenho realista e
tridimensional, à luz e sombra, à grafite; há os que escolhem recortar
imagens, montar figuras, frases, colar papéis coloridos, arranjar
texturas, ilustrar o ser e encontrar imagens em páginas de revistas,
jornais e o que mais houver; têm os que experimentam mostrar-se
por meio do uso da cor, por manchas de tinta, rabiscos de lápis
coloridos, esfumaçados de giz, intensidades cromáticas; encontramos
também os que não sabem o que querem construir, o que querem
formar, os que têm medo de experimentar algo sem saber onde vão
chegar, e aqueles que veem, em todas as possibilidades de materiais
e técnicas, modos de ser únicos em suas escolhas e plasticidades.
Todos os materiais, todos os meios, todas as escolhas, consolidam a
ideia do que entendemos por poética para tais alunos.
Cada um, com suas particularidades, constrói um caminho
ímpar para expressar o que pensa, sente, acredita, deseja, teme ou
busca, usando a linguagem da arte. Além de expressão de um desejo
interno, a linguagem artística é um modo de expressar e comunicar.
1.4. Transformações
Durante os processos de criação e as experiências em arte, o
guia interior e a poética se relacionam, permitindo que haja inúmeras
maneiras de obter um resultado artístico em um trabalho, que vão
além da própria experiência em si.
Alguns desses modos podem ser planejados e estudados
previamente, como quando esboçamos as ideias iniciais ou o
processo por completo e desejamos seguir firmemente esse
planejamento, mas outros podem ocorrer e surgir durante tal
percurso, sem termos esperado por eles. Por isso, caminhos variados
para as possibilidades criativas são compreensíveis no processo
criativo, como descreve Cecília Almeida Salles (2006, p.22):
[...] tendências se cruzam com o acidental, causando possíveis modificações de rumo. [...]. Aceitar a intervenção do imprevisto implica compreender que o artista poderia ter feito aquela obra de modo diferente daquele que fez;
ao assumir que há concretizações alternativas, admite-se que outras obras teriam sido possíveis. Chegamos, desse modo, à possibilidade de que mais de uma obra satisfaça as tendências de um processo.
Conhecer, portanto, o processo, é fundamental para que ele
se dê fluido e acompanhe as possibilidades de fluxo que o permeiam.
Há algumas nomenclaturas atribuídas às mudanças que podem
ocorrer em um processo criativo. Alguns desses acidentes podemos
chamar de serendipidade
1, como falamos anteriormente, pois são
aqueles que ocorrem ou que são descobertos sem planejarmos e que
são úteis para o processo, como se estivéssemos aguardando por
eles; outros podemos chamar de insights, termo em inglês utilizado
para designar aquilo que surge de repente em nossa consciência,
como algo intuitivo e solucionador; e alguns outros chamamos de
acaso, pois são, de fato, o que não esperamos e que se torna parte do
processo, mesmo não tendo sido pensado ou desejado antes.
Por essas razões, de acordo com Salles (2006), as variações no
percurso possibilitam que o artista desenvolva mais obras, mais
trabalhos, e que o processo criativo não se encerre em apenas um
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