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A Escola sob o olhar do “modo de funcionamento díptico”

No documento ORGANIZAÇÃO ESCOLAR.pdf (2.595Mb) (páginas 104-110)

As incertezas organizacionais dos Institutos Federais

3.2. A Escola sob o olhar do “modo de funcionamento díptico”

Em função dos preceitos analisados, é factível uma investigação quanto à estrutura e administração do Instituto Federal como organização de dinâmica com- plexa, pela coexistência sob certas condições de regu- lação e ação quanto a objetivos e preferências e/ou

tecnologias e processos organizacionais de elementos propostos por Per-Erik Ellström (2007) no quadro de tipologia dos modelos: racional, político, sistema so- cial e anárquico, bem como quanto à matriz de intera- ções de relacionamento dos elementos de administra- ção e às principais características das organizações, propostos por Tony Bush (1986) por intermédio dos modelos de gestão: formal, democrático, político, sub- jetivo e de ambiguidade.

Lima (1992a), compreendendo as múltiplas faces assumidas por uma organização educativa, às vezes burocrática, em outras oportunidades anárquica, e, às vezes, as duas simultaneamente, com base em análise da ação organizacional designados de “modo de funcionamento conjuntivo” quando as estruturas, objetivos, recursos e atividades mantêm fidelidade às regras burocráticas; e do “modo de funcionamento disjuntivo” situação em que não ocorre a integração desses elementos e são produzidas condições alter- nativas, estabeleceu a base conceitual do “modo de funcionamento díptico da escola como organização”, pacificando a teoria da coexistência das ordens buro- crática e anárquica na vida organizacional da Escola. Destaca o autor que a escola, como um objeto de es- tudo polifacetado e complexo,

exige, congruentemente, uma abordagem teórica de tipo plural e multifocalizado, seja em termos de abordagem analítica e de escala de observação, seja ainda em

termos de interpretação teoricamente sustentada. (LIMA, 2011b, p. 151). Apesar da compreensão de que a análise de uma instituição escolar pode ocorrer por meio de diversos modelos teóricos, entende-se como importante e ne- cessário, para a compreensão dessa nova instituciona- lidade de escola criada, representada pela organicida- de definida como Instituto Federal, subordinar esses estudos e pesquisa à análise das diversas formas de articulação e tensões entre o burocrático e os contex- tos ambíguos dos conflitos e soluções vivenciadas na ação organizacional.De acordo com Silva (2011, p. 60): “A utilização combinada de modelos analíticos contri- bui para formar imagens organizacionais complexas e multidimensionais do interior da organização acadê- mica”. Nesse contexto, é possível admitir que as di- mensões racionais e anárquicas, organizacionalmente, possam apresentar condições de afinidade, simulta- neamente, em algumas situações. Assim, é importante conhecer as situações em que instrumentos ambíguos e/ou racionais integram a ação organizacional, defi- nindo as tomadas de decisões pelos atores no processo administrativo.

Efetivamente, fica evidenciada a ordem estável nos Institutos Federais mediante a face da estrutu- ra hierárquica determinada por “cipoal” de normas, compreendendo leis, decretos, instruções normativas, acórdãos, decisões judiciais, portarias, pareceres, no- tas técnicas, oficíos-circulares, etc., muitas vezes de

interpretações conflitantes, advindas de órgãos supe- riores executivos e de controle, bem como as linhas de autoridade relativas aos cargos e funções de confiança, estabelecidas estatutária e/ou regimentalmente.

Numa estruturação formal em linha, seria natural que decisões fundamentadas em prioridades objetivas, advindas de níveis superiores tivessem suas execuções, normalmente, assumidas pelas unidades organizacio- nais da base institucional. Em termos concretos, há, na organização escolar, indícios de que essa perspec- tiva nem sempre ocorre, vislumbrando-se um cenário contraditório permeado por interpretações de pessoas e grupos com interesses diferenciados, por forças de reconfigurações sistêmicas, por ambiguidades de obje- tivos e grau de autonomias de estruturas acadêmicas, inserindo, no teatro da tomada de decisões, fatores de aumento da complexidade.

Com o objetivo de regular a ação, a estruturação burocrática contribui para a ocorrência de conflitos es- pecialmente entre as estruturas formais e grupos de interesses e/ou organismos técnicos, cujas soluções, muitas vezes, escapam do ajustamento das regras for- mais e normas, necessitando de encaminhamentos mediante influências/negociações e instrumentos/ acordos políticos. É importante, ainda, considerar as situações de autonomia de administração acadêmica e financeira das Unidades Escolares que propiciam o surgimento de atividades desconexas. Essa realidade vai ao encontro do que Lima (2011a, p. 52) admite como hipótese, “de a própria ordem burocrática poder

produzir um certo grau de desconexão entre orienta- ções normativas distintas e orientações normativas e realizações organizacionais”.

Em paralelo, a tomada de decisões com a utiliza- ção do mecanismo da negociação, influenciada pela pressão do poder de grupos, debilita os instrumentos burocráticos pelo surgimento de incertezas na ação or- ganizacional, caracterizando, dessa forma, condições de ambiguidade, e, por extensão, a coexistência de processos burocráticos e políticos de intrincada com- plexidade que, às vezes, torna difícil suas separações e tipificações conceituais. Essa é uma das evidências da impropriedade de segmentação entre as estruturas e sistemas burocráticos das formas de organização polí- ticas e/ou anárquicas no contexto da Escola.

Nesse cenário, a escola identifica-se como uma “arena política”, passando o processo de decisões por estruturas colegiadas, bem como a ação organizacio- nal por espaços de negociação, consensos e compro- missos, com o objetivo da harmonização de conflitos e das relações de poder entre os atores. No âmbito dos conceitos interpretativos, o “plano da ação”, consti- tuído e/ou caracterizado, muitas vezes, por indefini- ções de finalidades, desarticulação e ambiguidades, conduz a organização à esfera da anarquia organiza- da do modelo anárquico, inclusive quando essa ação ocorre parecendo apontar para objetivos não clara- mente definidos.

No campo dos modelos de ambiguidade, onde, mui- tas vezes, as decisões surgem da desordem e falta de

organização, são centrais as dimensões da “anarquia organizada”, “sistema debilmente articulado” e “caixote de lixo”. A anarquia organizada caracterizando-se por objetivos não consensuais e/ou vagos, tecnologias am-

bíguas e participação fluida. Karl Weick (1976) defende

o investimento de prioridades e mais tempo na análise das organizações educativas na perspectiva do concei- to de débil articulação ou de sistemas fracamente aco- plados, tendo em vista a dificuldade que os estudos or- ganizacionais encontram para capturar essa realidade. As políticas das organizações, geralmente, estão em busca de certezas (característica dos sistemas fecha- dos), no entanto, trabalha grande parte do tempo com indefinições, situação de flexibilidade e incerteza pró- pria do “sistema debilmente articulado”. Para Orton e Weick (1990, p. 204), o acoplamento frouxo é um con- ceito durável justamente porque permite aos analistas organizacionais explicar a existência simultânea de ra- cionalidade e indeterminação sem especializar essas

duas lógicas em locais distintos. Entende-se ainda ser

possível, no espaço conceitual do modelo anárquico, a busca de compreensão de forças sistêmicas implícitas e/ou explícitas auto-organizadoras que atuam sobre o Instituto Federal, conduzindo as mudanças na esteira de um mundo complexo e globalizado por tecnologias da microeletrônica e informática.

3.3. Entre o campo teórico e o empírico:

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