1.1 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
1.1.3 A escolha das interlocutoras e o seu lugar institucional
A pesquisa bibliográfica e os dados quantitativos permitiram situar e contextualizar o ensino superior em Teologia e os níveis de participação de mulheres e homens na docência em instituições católicas, em nível nacional. Assim, foi possível selecionar mulheres de diferentes instituições para a realização das entrevistas. Entretanto, diante dos objetivos desta pesquisa, foram estabelecidos alguns critérios para essa escolha, tais como: docentes com
formação teológica; que ministrassem aulas no curso de graduação em Teologia26; que tivessem produção na perspectiva feminista ou de gênero ou que tivessem tido algum contato com as teorias de gênero e do feminismo27, durante o processo de formação acadêmica; que fossem professoras de instituições com o curso de Teologia, autorizado ou reconhecido pelo MEC, localizadas geograficamente nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. A escolha por interlocutoras de instituições dessas duas regiões se deve, primeiramente, porque nelas se encontrava a presença mais significativa de docentes que produziram e publicaram artigos e livros utilizando as abordagens de gênero e do feminismo28. Também, porque, evidenciamos, por meio dos dados quantitativos, que essas regiões eram as que concentravam, em termos numéricos, grande parte das instituições que ofereciam o curso de Teologia e onde estavam situadas as instituições com maior reconhecimento, em termos acadêmicos.
Tendo um conhecimento prévio do conjunto das principais instituições teológicas dessas regiões, e levando em conta as que tinham mulheres nos quadros da docência e que podiam responder aos critérios selecionados para a escolha das possíveis interlocutoras da pesquisa, optamos, inicialmente, por entrevistar mulheres de três dessas instituições católicas, sendo duas universidades e uma faculdade. No entanto, ao participar do Congresso da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (SOTER) foram entrevistadas mais duas docentes por terem uma trajetória significativa para este estudo, com vínculo em outras instituições29.
Não é de nosso interesse falar amplamente sobre a organização das instituições, nas quais estavam vinculadas as interlocutoras selecionadas para a pesquisa, já que o principal problema que se coloca para este estudo é a compreensão das dinâmicas de gênero e de poder que atravessam os processos de construção da docência feminina, no ensino da teologia católica no Brasil. Contudo, a seguir, descrevemos algumas características das instituições que foram visitadas, no intuito de destacar as práticas inauguradas pelas docentes, percebidas
26 Isso porque nas Pontifícias Universidades Católicas existem docentes da área de teologia que ministram disciplinas de cultura religiosa, em diferentes cursos acadêmicos.
27 Acredita-se que a pessoa que teve contato ou produz com essa perspectiva de conhecimento consegue perceber e problematizar melhor as dinâmicas de gênero que circulam no cotidiano das práticas sociais e, isso se torna um critério importante, diante da proposta desta pesquisa.
28 Isso não significa que em outras regiões não existem teólogas que produzam nessa perspectiva. No entanto, as publicações de teólogas, que se autodenominam feministas, visibilizam a sua concentração nas regiões Sudeste e Sul.
29 Essa decisão ocorreu durante o congresso da SOTER, realizado nos dias 6 a 9 de julho de 2009, em Belo Horizonte. Isso porque, por meio de “conversas de corredores”, constatou-se que suas trajetórias poderiam trazer novos elementos para a pesquisa. Elas se incluíam dentro dos critérios estabelecidos para a seleção das interlocutoras e, também, lecionavam em instituições da Região Sudeste, mas precisamente em SP e de MG, em cujos Estados estava concentrado o número mais expressivo de instituições que ofereciam a graduação em Teologia.
na ocasião em que estabelecemos um primeiro contato com as possíveis professoras que seriam entrevistadas.
A instituição30 “A” localiza-se no Estado do Paraná. Foi uma das primeiras Instituições Católicas a ter o curso de bacharelado em Teologia reconhecido pelo MEC,por meio da Portaria n.º 3.799, de 2004, após dois anos da sua criação. Essa universidade possuía o Departamento de Teologia desde 1972, o qual ofertava a disciplina de Teologia para todos os cursos universitários. Em 1974 passou a oferecer o curso de Ciências Religiosas, com a finalidade de preparar agentes de pastoral, não ordenados, de cujo curso se criou, em 2002, o então bacharelado em Teologia. No período da pesquisa de campo, a graduação em Teologia dessa Universidade contava com um corpo docente de 20 professores, dentre os quais 17 homens e três mulheres. O curso de Mestrado em Teologia foi aprovado pela CAPES e reconhecido pelo MEC em agosto de 2008, de modo que em 2009 já iniciou a sua primeira turma. Na grade curricular do mestrado Teologia e Gênero se constituía como uma disciplina optativa.
A instituição “B” localiza-se no Estado do Rio de Janeiro. Foi a primeira Universidade privada do país, surgida por iniciativa da Igreja Católica. Nessa instituição, o curso de Teologia foi criado em 1968, sendo reconhecido pelo MEC em 2005, por meio da Portaria n.º 2.602. Em 2008, essa Universidade tinha 19 docentes atuando na graduação e pós-graduação em Teologia, sendo 12 homens e sete mulheres. Destas, duas pertenciam a congregações religiosas. Era a instituição de ensino superior em Teologia que mais havia inserido mulheres no quadro da docência. Entre essas professoras estavam algumas das consideradas pioneiras da produção de Teologia Feminista no Brasil31.
Nessa Universidade o curso de Mestrado em Teologia foi aprovado em maio de 1971, com duas áreas de concentração. No primeiro semestre de 1972 teve início a primeira turma do Mestrado e, um ano depois, em junho de 1973, foi aprovado também o Doutorado em Teologia. Entretanto, somente em 1999, por meio da Portaria n.º 132/99, o Curso de Mestrado e de Doutorado foi credenciado pela CAPES, com conceito 5 (cinco) para o triênio
30 Mencionamos somente a localização geográfica das instituições sem as nomear em vista de salvaguardar compromissos éticos com as interlocutoras da pesquisa, mesmo que essas instituições, pelas suas características, possamfacilmente ser reconhecidas.
31 A dissertação de mestrado de Fabíola Rohden “Feminismo do Sagrado: o dilema ‘igualdade/diferença’ na perspectiva de Teólogas Católicas”, apresentada ao programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional da UFRJ, 1995, buscou analisar as ideias da Teologia Feminista produzida no Brasil, concentrando seus estudos nas teólogas católicas do RJ.
1998-200032 e, atualmente, mantém a mesma nota. Essa instituição de ensino também oferece a disciplina Teologia e Gênero, como optativa para pós-graduação.
Já, a instituição “C” localiza-se no Estado do Rio Grande do Sul. Foi fundada em 1896, por iniciativa de uma congregação franciscana masculina em parceria com outras congregações religiosas franciscanas. Possuía somente o curso de bacharelado em Teologia33 que, na ocasião da pesquisa, era autorizado pelo MEC, desde 2004, por meio da Portaria de n.º 3.823. Seu corpo docente era constituído por 17 professores, sendo 14 homens e três mulheres. Levando em consideração o tema deste estudo destacamos dois aspectos que parecem significativos nessa instituição. Primeiro, a existência de um grupo de reflexão de Teologia Feminista, desde 1990. Esse grupo foi articulado por mulheres professoras e estudantes com vistas a aprofundar os pressupostos teóricos e metodológicos do fazer teologia na ótica das mulheres. Em 1994 estudantes do sexo masculino que consideravam importante pensar essa perspectiva, também passaram a integrar o grupo. A influência dessa iniciativa se repercutiu nos encontros estaduais de professores e estudantes das diversas instituições de ensino teológico do Rio Grande do Sul34. A partir de 1996, iniciaram-se também encontros estaduais e anuais, especificamente para estudo e reflexão na perspectiva da Teologia Feminista35, e contava com a participação de estudantes e professores do sexo masculino e feminino36. Atualmente, o grupo de reflexão sobre Teologia Feminista continua existindo e agrega, além da participação de professores e estudantes de ambos os sexos, membros de entidades afins. O segundo aspecto a ser destacado é a existência da disciplina Teologia Feminista como obrigatória na grade curricular do curso de graduação, a qual no ano de 2009 começou a ser ministrada por um professor, membro do grupo de reflexão sobre Teologia Feminista37.
32 Convém lembrar que esta universidade, mesmo sem credenciamento no MEC, tinha seus cursos de mestrado e doutorado avaliados anualmente pela CAPES, cuja qualificação era de conceito A.
33 A referida instituição possui também outras modalidades de formação teológica, tais como: especializações, curso a distância, curso básico em teologia e curso de teologia pastoral.
34 O Estado do Rio Grande do Sul tinha, em 2008, seis instituições católicas que ofereciam o curso de teologia de nível superior.
35 Nessa época, a nomenclatura usada era Teologia na Ótica das Mulheres.
36 Essa iniciativa se deve a experiência da Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana (ESTEF), a qual sempre esteve na frente desses encontros. A trajetória com estudantes e professores, articulados em torno da reflexão sobre a Teologia na Perspectiva da Mulher, Teologia Feminista e Relações de Gênero, foi a única no Brasil, segundo a fala de uma das interlocutoras desta pesquisa. Tal experiência e as reflexões que perpassaram cada encontro deu origem ao livro Teologia Feminista: tecendo fios de ternura e resistência, publicado pela ESTEF em 2008.
37 Informação obtida nas entrevistas com as interlocutoras dessa instituição e retomada no corpo deste estudo.