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Perfil das Interlocutoras

No documento Relações de gênero (páginas 54-57)

1.1 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

1.1.6 Perfil das Interlocutoras

As interlocutoras da pesquisa atuavam em instituições diferentes e possuíam trajetórias específicas, porém, praticamente, todas se conheciam, seja por contatos de trabalho,seja por participações em congressos nacionais de teologia, seja por terem feito mestrado e doutorado na mesma instituição. Esses fatores favoreciam o estabelecimento de uma rede de relações sociais entre as teólogas, tanto para a troca de saberes e compartilhamento de percepções como para a colaboração em diferentes eventos institucionais.

Em vista do compromisso ético e dos critérios que se estabelece em uma pesquisa científica, a identidade dessas mulheres foi preservada. Como recurso literário se utilizou o nome de personagens femininas dos registros da história bíblica59, as quais, apesar de terem vivido em contextos de cultura patriarcal, ultrapassaram as fronteiras demarcadas para cada

59 A história bíblica compreende o período em torno de 1.650 a.C a 100 d.C, cujo período se insere dentro do que, nos estudos históricos, se denomina História Antiga.

sexo, em seu tempo, exercendo liderança em meio às lutas da história do povo bíblico60. A ação dessas personagens bíblicas, mesmo que em contextos diferentes, tem a ver com a ação das teólogas que propõem novos conteúdos e significados para o sistema simbólico do discurso tradicional católico, em um campo de saber masculino. O quadro abaixo apresenta aspectos importantes, que ajudam a compreender o universo pesquisado, a partir do perfil das 14 mulheres entrevistadas.

Professora, coordenadora do curso de teologia popular e coordenadora de um projeto social que

60 Refere-se à história da experiência religiosa do povo de Israel, na sua relação com outros povos e impérios, que dominaram a região de Israel.

Priscila* 60 anos

Professora de Teologia Moral, Assessora da Comissão de Doutrina e Fé da CNBB e membro de corpo editorial de um Caderno de Teologia Pública.

FONTE: pesquisa de campo - maio a agosto de 2009.

* Essas mulheres informaram ter formação, também, em cursos de especialização latu sensu, em diferentes áreas, tais como: mariologia; escatologia; ginecologia obstetrícia; teologia moral, educação a distância; gestão de escolas.

Todas as mulheres docentes entrevistadas são brancas e de classe média. Apesar de todas atuarem na docência em Teologia e se conectarem por meio de uma experiência profissional comum, cada história de vida é atravessada por outras experiências marcadamente diferentes, que vão se refletir em sua ação: sete eram casadas com filhos, sendo que uma dessas foi também religiosa; cinco eram membros de congregação religiosa;

duas solteiras, sendo que uma optou por este estado de vida, ligando-se a um grupo que vive a Espiritualidade Teresiana61, e a outra havia sido religiosa. Sobre a faixa etária, chama a atenção que entre as 14 entrevistadas, o maior número (cinco docentes) se encontra na faixa entre 60 a 70 anos, seguidas pelas que estão na faixa dos 40 a 50 anos (quatro docentes)62, cuja questão retomamos no quarto capítulo.

Em relação à formação acadêmica63, observa-se, que algumas docentes antes da teologia haviam optado por outra área profissional e, de acordo com suas narrativas, foram motivadas a ingressar na teologia por circunstâncias específicas, sobre as quais discutiremos no capítulo quinto dessa tese. Em relação à formação teológica, das 14 docentes entrevistadas

61 A Espiritualidade Teresiana tem origem na espiritualidade cristã. É uma das maneiras de fazer a experiência do encontro com o Deus, que se traduz num modo de viver a vida. Assim, viver a Espiritualidade Teresiana significa traduzir no hoje da história o estilo de vida de Santa Teresa de Ávila, que na tradição cristã é considerada doutora da Igreja e mestra na oração.

62 Isso, de certa forma, reflete o quadro da pesquisa quantitativa feita por meio dos questionários enviados às instituições católicas, cuja leitura se encontra no capítulo quatro desta tese.

63 Opto por descrever o lugar da formação das docentes de maneira geral, para não expor as entrevistadas, já que este universo é pequeno e, facilmente, essas professoras podem ser identificadas pelo lugar de formação.

10 fizeram doutorado e mestrado, ou uma dessas etapas na PUC-Rio. Dessas, uma fez mestrado na Faculdade Jesuíta de Teologia e Filosofia (FAJE), de Belo Horizonte e uma fez doutorado em Roma. As outras quatro entrevistadas fizeram Mestrado e Doutorado em Universidades como: PUC de São Paulo, PUC do Paraná, PUC de Pernambuco, Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção de São Paulo e Escola Superior de Teologia (EST), do RS.

Um dado desmitificador é o fato de mulheres “leigas”64, embora em número reduzido, terem feito parte de seus estudos teológicos fora do Brasil. Isso, em geral, tem sido mais recorrente para as que são membros de uma instituição religiosa65. Assim, das leigas que tiveram oportunidade em estudar fora do Brasil, duas fizeram pós-doutorado (Bélgica e França), uma fez Doutorado Sanduíche na Espanha e outra fez uma de suas graduações (Ciência da Religião) na Bélgica. Das que são ou eram de congregações religiosas, na época, uma cursou duas graduações em Roma (Pedagogia e Ciência da Religião), enquanto estava lá a serviço da própria instituição. Apenas duas das entrevistadas religiosas saíram do Brasil especificamente para estudos. Uma fez um de seus doutorados na Bélgica e a outra, o pós-doutorado em Roma.

Outra questão significativa é o fato de, praticamente, todas terem doutorado (menos uma) e outras até o pós-doutorado, mesmo que algumas dessas atuem em instituições que não possuem um programa de pós-graduação (Doutorado e Mestrado). Isso parece revelar que, em um campo onde o sujeito masculino é, ainda, a referência, as mulheres se legitimam também pelo alto nível de qualificação profissional.

No documento Relações de gênero (páginas 54-57)