• Nenhum resultado encontrado

5.2. Dinâmica das Experiências de Letramento em SEs

5.2.2. Eventos gráficos

5.2.2.3. A escrita de elementos do desenho

Sempre com orientação da pesquisadora, em todas as SEs, as crianças identificaram os elementos dos seus desenhos (personagens, objetos, etc.). Assim como na escrita do nome da criança, esta atividade, que consistia justamente em escrever o nome de cada parte do desenho, também não fazia parte no roteiro das SEs, mas foi realizada em todas elas. Geralmente isto ocorreu no final do encontro ou quando a criança terminava de desenhar e pintar. A seguir apresentaremos os registros dos elementos do desenho apresentados em quadros para cada díade. Informamos entre parênteses quando foi a mãe ou a criança quem fez o registro. Veremos que existem SEs em que ambas realizam esse registro. Conservamos as letras em caixa alta, de acordo com o registro realizado por um dos membros da díade. Inserimos as palavras corrigidas ortograficamente entre colchetes. Em seguida, incluímos as observações realizadas durante este momento da tarefa para cada SE.

D2- Sarah Lygia e Eliane:

1ª SE 2ª SE 3ª SE

(mãe): “O sol” “O bosque” “A casa da vovó”

(mãe): “uma casa” “floresta” “sol” “urso” “gelo” (criança): “OSOLSINHO” [O SOLZINHO] “A CHUVA E O MATINHO” “FLORES”

“O URSINHO É CORAJOSO” “VERMELHO”

“LÁPIS”

Na 1ª SE a pesquisadora pede para ela explicar o que desenhou e a mãe escrever ao lado. Sarah Lygia fala que desenhou o bosque, a casa da vovó, o nome dela. Na 2ª SE pesquisadora pede para Sarah Lygia dizer o que desenhou e a mãe identificar ao lado. Na 3ª SE a mãe pergunta o que ela desenhou. Ela responde: "solzinho". A mãe confirma: É "o solzinho". Sarah Lygia confirma e começa escrevendo “u”. A mãe a corrige imediatamente, mas Sarah Lygia protesta e diz que ela falou “u”, a pesquisadora confirma rindo" eu também ouvi "u". Sarah Lygia apaga a letra "u" e escreve "o", e a mãe vai ditando letra a letra e Sarah Lygia escreve. A pesquisadora pergunta se vai para a para a próxima página. Ela confirma, então a pesquisadora diz que ela pode passar. Depois de 3min a pesquisadora intervém novamente o que ela vai escrever nesta folha. Aos 6min a

pesquisadora pergunta novamente: “Já pensou o que vai escrever?”. Sarah Lygia responde: “chuva”. A mãe vai ditando cada letra para Sarah Lygia escrever: "a chuva e o matinho". Depois a palavra "flores". Passou para a página seguinte e disse que nessa página iria escrever. A mãe foi ditando cada letra do que ela queria escrever. A frase é: “O urso é corajoso”. Depois ficou pensando uns segundos com a cabeça na mesa e disse que queria escrever a palavra “vermelho”. A mãe ditou as letras em seguida. Depois disse que queria escrever “lápis”. A pesquisadora quis saber que palavra ela ia escrever, a mãe respondeu: "lápis".

D3- Juliana e Germana: 1ª SE 2ª SE 3ª SE (mãe): CHAPEUZINHO LOBO COBRA BANDERA MINHOCA (mãe): URSINHO “URSO POLAR” (criança): SOL FLOR IMA [AMIGOS] PAPAI SACO

Na 1ª SE a pesquisadora pede que Juliana explique o que desenhou para a mãe identificar ao lado escrevendo. A mãe vai perguntando o que é cada detalhe e escrevendo ao lado. As palavras que a mãe escreveu foram na seguinte ordem: “lobo”, “chapeuzinho”, “cobra”, “bandeira” e “minhoca”. Na 2ª SE a pesquisadora pede que Juliana explique o que desenhou para a mãe identificar ao lado escrevendo. A mãe identifica os dois personagens desenhados escrevendo ao lado de cada um as palavras “ursinho” e “urso polar”. Na 3ª SE a mãe propõe escrever a palavra “papai Noel” ao lado do desenho que ela acabou de pintar e depois ela copiar. Ela confirma com a cabeça. A mãe então escreve. Assim que termina entrega o lápis para a filha e diz para ela escrever abaixo. Ela escreve. Na segunda página a mãe vai perguntando o que é cada desenho e escrevendo ao lado. Faz isso com a palavra “flor”; com a palavra “sol” a pesquisadora sugere que a mãe diga somente as letras. Ela aceita e consegue escrever. Quando ela termina de escrever “sol” a pesquisadora diz: “legal, muito bem”. Depois ela resolve escrever o título que está na capa do livro “Amigos”; escreve “ima” as três primeiras letras, mas da direita para a esquerda. Na terceira página a mãe coloca-a de cabeça para baixo. Na terceira página, a mãe sugere ela escrever “saco” do Papai Noel. Juliana para na letra “c”, diz que não sabe escrever. A mãe procura um modelo e acha no livro. Na 4ª SE a pesquisadora não solicitou a identificação dos elementos do desenho.

D4- Gislane e Gilvânia: 1ª SE 2ª SE 3ª SE 4ª SE (mãe): chapeuzinho vovó (mãe): sol flor arvores boneco lago letra B letra G (criança): FLOR LAGO BONECO ARVORE “GURDA CHUVA” [GUARDA CHUVA] SOL QUADRADO (criança): LUA SOLA CORAÇÃO LETRA G

Na 1ª SE a pesquisadora levou a câmara até próximo da folha e perguntou: “Quem são todos esses bonequinhos que você desenhou”? A pesquisadora pede para a mãe escrever identificando cada personagem. Na 2ª SE, Gislane disse que faria o nome “ursinho”. Então a mãe falou: “eu vou fazer e você repete”. Quando Gislane começou a escrever, a mãe a corrige: “Não é em cima é aqui em baixo”. A mãe acompanhou a escrita da filha com o olhar. Na 3ª SE a pesquisadora interveio com a proposta: “Gislane, será que você consegue escrever isso que desenhou, a mamãe ajudando”? Gislane queria continuar pintando. Mas a pesquisadora insistiu no

pedido. A pesquisadora sobreveio novamente referindo-se ao desenho do sol: “Agora vamos colocar o nome? Pode começar mamãe.” Aqui foi iniciado um episódio de negociação da escrita de cada parte do desenho. A pesquisadora pretendeu dar início à escrita sugerida já momentos atrás. Gislane passou para o verso da segunda página para escrever as “letras” que ela disse que iria fazer no início da sessão. Gislane pegou os lápis de cor, indagada sobre o que iria pintar pela pesquisadora, respondeu que pintaria as letras. A pesquisadora iniciou um diálogo metalingüístico com Gislane sobre a função das letras. Gislane não parou de pintar enquanto respondia às perguntas da pesquisadora. Gislane passou para a terceira folha e disse que faria um quadrado. A mãe ditou as letras. Enquanto Gislane desenhava o quadrado a pesquisadora sugeriu que a mãe escrevesse a palavra quadrado para ela copiar em baixo. Na 4ª SE a pesquisadora sugeriu que ela escrevesse o nome do que ela desenhou, com a ajuda da mãe. Gislane concordou pareceu muito bem disposta nessa tarefa.

Discussão da escrita dos elementos do desenho:

Na 1ª SE, a mãe foi uma escriba para a criança. A partir das outras SE, a mãe continuava com esta função na díade, entretanto, em determinados momentos a própria criança identificava as partes de seu desenho, geralmente escrevendo as palavras com a ajuda da mãe. Essa ajuda se deu essencialmente através do ditado e/ou cópia de letras – para a formação da palavra, a mãe falava e/ou mostrava letra por letra no momento da escrita da criança. A mãe utilizou modelos de letras que estavam a sua disposição na mesa: a caixa identificada com o nome da criança e o livro de histórias. Algumas mães optaram por escrever as letras em outra folha em branco.

Ainda que nosso estudo não tenha o objetivo de classificar o nível de escrita das crianças, podemos relembrar Ferreiro (1987, 1990) que classificou as produções escritas das crianças em processo de aprendizagem em três períodos: a distinção entre a forma icônica e não icônica de representação (diferenciação na criança entre o desenhar e o escrever); a construção de formas de diferenciação, que vai propiciando um controle progressivo das variações sobre os eixos qualitativos e quantitativos (a criança começa a tentar criar diferenças nos textos para poder representar coisas diferentes, qualitativamente – variando as letras e a sua respectiva posição nas palavras, e quantitativamente – variando a quantidade de letras para representar palavras diferentes); e, finalmente, neste terceiro período nasce a idéia de fonetização da escrita, quando a hipótese silábica emerge, que vai ocorrendo do período silábico alfabético ao alfabético “Esta hipótese silábica é da maior importância, por duas razões: permite obter um critério geral para regular as variações de quantidades de letras que devem ser escritas, e centra a atenção da criança nas variações sonoras entre as palavras” (Ferreiro, 1987, p. 25). A criança começa a estabilizar os valores sonoros e a corresponder as partes com sons semelhantes e letras semelhantes, quando finalmente chega ao período silábico-alfabético, onde “a criança descobre que a sílaba não pode ser considerada como uma unidade, mas que ela é, por sua vez, reanalizável em elementos menores, ingressa no último da compreensão do sistema socialmente estabelecido” (Ferreiro, 1987, p. 27).

No final das quatro SEs as mães tornaram-se escribas identificando, na medida em que eram informadas por seus filhos, cada um dos elementos dos desenhos. Neste momento, as crianças olhavam atentamente a atividade de escrita que suas mães realizavam e, que era guiada por elas, já que dependia de elas primeiro identificarem cada parte do desenho. Um procedimento pedagógico simples, do ponto de vista de sua implementação, e ao mesmo tempo, refinado, se observado numa visão prospectiva da aquisição da linguagem escrita. Capturamos aqui o cerne do processo de alfabetização, constituindo uma prática que só adquire sentido no espaço social, ao confirmarmos que, o desenvolvimento da escrita se dá na interação da criança com o seu meio social, aqui representado pela família, precisamente pela mãe (adulto significativo).