5.1. Relatos das Mães: Antes e Depois da Experiência
5.1.1. As expectativas em participar da pesquisa
Ana esperava que ela desenvolvesse um maior hábito pela leitura do que o seu próprio. A
outra filha gosta de ler jornais e revistas. Adriely não possuía livros de história até participar da pesquisa. Observamos na visita domiciliar que não há um local para os livros das crianças, os livros didáticos da irmã estavam guardados junto com suas roupas no armário. Ana considera a leitura e escrita um fator importante para o futuro, para garantir um emprego. Fazia brincadeiras com Adriely com cópia de palavras, e mesmo que ela não estivesse certa era parabenizada. A educação é importante para manter as crianças fora da rua e é garantia de um futuro melhor. Para ela, a participação da família nas atividades da escola é importante.
Para Eliane a participação na pesquisa poderia contribuir para a sociabilidade da criança; além disso, afirmou: “é bom aprender a ler e escrever para seu futuro”. Eliane e uma tia materna já liam histórias infantis para as duas irmãs. Considera que “é importante aprender a ler e escrever para conviver com os colegas”. Durante a visita domiciliar constatamos que os dois livros que Sarah Lygia ganhou na pesquisa e a sua caixa com os materiais estavam guardados numa cômoda. A caixa estava incompleta, e os materiais espalhados, mas dentro da gaveta, o que para nós
demonstrou um cuidado em preservar tanto a caixa como os materiais. Sobre a importância da educação escolarizada, sua opinião é a de que “sem a escola ninguém aprende nada”.
Para Germana a escrita é muito importante, ajuda a desenvolver o raciocínio e reter informação sobre o mundo. O avô materno de Juliana não permitia sua mãe estudar, porque moravam na roça e ele achava que o importante era o trabalho braçal. Germana gostaria que Juliana fosse mais flexível em relação ao seu trabalho de doméstica. Algumas semanas passa todos os dias fora de casa, além do estudo noturno. A criança não compreende e sofre, solicitando a presença da mãe. Para estimular Juliana e o irmão de dez anos, a mãe lê histórias infantis ao chegar de sua escola, quando os encontra acordados. Nos fins de semana ela também acompanha a filha nos desenhos e histórias. Para Germana a educação começa em casa. E a educação escolar, por sua vez, “abre muito a cabeça da criança”. A experiência escolar proporciona tanto a socialização da criança como o aprendizado da escrita.
Gilvânia se queixou de que Gislane é muito teimosa: finge que não está ouvindo quando é
repreendida, insiste demais quando quer algo, a ponto de ficar “nervosa” quando não é atendida. Essa teimosia atrapalha seu relacionamento com os pais, que, em geral, é bom. Esperava um bom resultado durante as atividades propostas para a pesquisa e torcia para que tudo transcorresse bem. Considera fundamental a orientação dos pais durante o aprendizado da leitura e escrita. Ela costuma passar um tempinho dos finais de semana com Gislane ajudando-a a desenhar e escrever algumas letras. Em sua opinião, a importância da educação escolar concentra-se na possibilidade de ajudar a criança a entender melhor o mundo.
As expectativas de Andressa, mãe de Matheus, quanto às atividades a serem realizadas na pesquisa eram para além da sala de aula, pois “gostaria que ele aprendesse coisas extras” e que “desenvolvesse melhor a leitura e a escrita”. Não encontramos livros infantis na casa, no momento da nossa visita, a mãe explicou que os livros do Matheus ficavam guardados na casa do avô. Os livros dispostos num móvel no quarto das crianças eram didáticos, da época em que a mãe estudava. Nas paredes do quarto das crianças estavam coladas várias folhas no tamanho ofício com os numerais, e os nomes ou apelidos dos membros da família: Deca (apelido do pai), Andressa (nome da mãe), Felipe (irmão) e Matheus. Cada nome estava numa folha, que tem também desenhos de balões. Andressa contou que ele viu algo parecido na casa de um primo e quis fazer também no seu quarto. As folhas foram cedidas por sua professora do CEDEP. Em casa incentiva bastante o Matheus a desenhar, a mãe sabe que o desenho é importante para o “nascimento da escrita”. Ela acha importante que a criança saiba ler e escrever desde cedo para manter-se “informada e esperta”. Declarou que “adultos que ainda não sabem ler sofrem preconceitos”. Ela já explicou para Matheus que “a leitura tem que ser aprendida aos poucos, não acontece de repente”. A mãe disse que lê jornal para o filho, “notícias que não sejam muito violentas”, são jornais distribuídos gratuitamente ou comprados. Matheus se interessa muito pela leitura e por notícias, pega jornal ou outros papéis e pergunta para mãe o que significam. Quanto à formação escolar, ela acha que dá independência para o futuro adulto, sem formação escolar, não é possível ter um bom emprego.
Rosa, mãe de Gabriel, teve muitas expectativas em relação ao trabalho que seria
desenvolvido na pesquisa. Seria uma oportunidade benéfica de aprendizagem e desenvolvimento para seu filho. Considera que é importante a aprendizagem da escrita para a criança, pois Gabriel tem curiosidade de ler os livrinhos que possui e de “saber se aquilo que a gente está falando está escrito ali”. Para Rosa o próprio filho “termina incentivando a gente a incentivá-lo”. Ele mesmo quer saber e pergunta aos pais como se escrevem as palavras. Rosa lê historinhas e revistinhas da igreja evangélica (religião da família) para o filho, mas reconhece que “ele mesmo tem despertado para a leitura e a escrita. Ele vai perguntando e a gente vai falando só as letras e ele já escreve qualquer palavra”. Dá muita importância à educação escolar porque a criança passa uma grande parte da vida dela na escola: “A escola e a família, a casa, eles se completam porque a criança, o caráter dela está sendo formado e tudo que é ensinado na escola eles dão muito valor. Eles costumam guardar, então se eles guardam aquilo que é bom, que é ensinado na escola, porque é lógico, a gente acredita que o que é ensinado é o que é bom, o que é importante pra eles, então eu acho que é muito importante. Nossa! Ai de mim se não fosse a escola pra ajudar a educar meu filho, porque o que o tio fala tem muita importância pra ele, então é de fundamental importância pro mundo o que se ensina na escola.”
Delma, mãe de Samuel Raff, achou que seria importante o filho participar da pesquisa,
porque ele é muito curioso e gosta de aprender, além de considerar essencial que a criança aprenda a ler e a escrever: “é a possibilidade de um emprego futuro”. Na visita domiciliar, observamos que na sala de estar da casa há um cantinho com vários tipos de livros e revistas que as crianças utilizam em trabalhos escolares. São alguns livros de histórias infantis, outros livros didáticos das escolas das duas irmãs. Para Delma, a escola é tudo na vida da criança. As crianças que não vão à escola têm outra visão de mundo. A família pode ajudar participando das reuniões escolares, estando presente na escola e perguntando ao professor como está o rendimento da criança. Delma quis ainda saber como poderia ajudar seus filhos. A pesquisadora explicou que temos que influenciar a leitura, mas sempre começando de acordo com o gosto da criança. Afirmou que durante as atividades a própria mãe vai ter muitas de suas dúvidas respondidas. Considera-se “ignorante” e esperava aprender muito com as atividades.
Juliana, mãe de Wesley, disse que o filho sempre teve vontade de aprender a ler e a
desenhar, é muito observador: “gosta muito de ver o que os outros estão fazendo para ele aprender”. Ano passado o Wesley aprendeu o alfabeto, mas, esse ano a mãe considerou que o ensino, nesse aspecto da leitura e da escrita, está aquém. Talvez porque seus colegas desse ano sejam mais novos do que ele e não consigam o mesmo ritmo de aprendizagem. Em casa, por sua própria conta está relembrando com o filho as famílias silábicas, por exemplo. Ele já havia esquecido boa parte do que aprendeu no ano anterior: “eu passo algumas palavras e letras para ele passar por cima e fazer sozinho. Aí eu falo: “parabéns”. Corrijo o caderninho, como se fosse uma escola. Ele gosta e pergunta: 'Mãe, o que a senhora escreveu aqui?' Aí eu vou ensinar pra ele, o que é que tá escrito ali. Ele vai aprendendo. Às vezes ele vê um negócio na rua, ele já lê uma palavra, ele já sabe”. Na escola sente um pouco de dificuldade quando precisa desenhar, fica chateado quando não consegue fazer igual à figura da tarefa escolar. Sobre as atividades de escrita, quando tem dúvida de alguma letra pergunta à Juliana: “eu pego na mão dele e ajudo ele a fazer”. Quanto à pesquisa, gostaria de descobrir as preferências do filho. Considera um problema o filho gostar de “fazer muita coisa ao mesmo tempo”: “Eu acho que com isso vou aprender como eu devo disciplinar ele na escola. E às vezes descobrir mais coisas que eu não conheço dele na escola também. Ou até mesmo em casa, no comportamento. Que por mais que a gente observe sempre falta alguma coisa que acontece na escola, a gente não percebe, ou ele mesmo não fala”. Para Juliana, aprender a ler e a escrever é importante em função de possibilitar a descoberta de “coisas novas”: “o Wesley, ele gosta muito de ler, muito de escrever, só que a gente às vezes não tem paciência, que tem muita coisa pra fazer. E para ele, esse descobrir das coisas, para criança é uma coisa interessante. Esse ler dele, aprender a ler, que ele possa ler sozinho, e escrever, que ele consiga entender aquilo que ele está escrevendo. Que às vezes ele escreve e não sabe aquilo que está escrevendo. Então a forma dele também de falar, que quando a gente lê e escreve a gente fala melhor. A dicção dele que às vezes falha muito”. A escola é um local de aquisição de conhecimento, e a mãe espera que ele possa aprender muito mais do que ela aprendeu: “Para um pai é muito importante que um filho venha aprender muito mais do que ele mesmo aprendeu”.