5.2. Dinâmica das Experiências de Letramento em SEs
5.2.2. Eventos gráficos
5.2.2.2. A escrita do nome da criança
Embora a escrita do nome não conste no roteiro das SEs, fizemos, sempre que necessário, a intervenção para as crianças escreverem seus nomes na mesma folha em que realizaram as atividades, de forma que todas as produções das crianças foram identificadas por elas próprias. Retomamos aqui o fato de que todas as crianças reconheceram seus nomes nas caixas, ainda na 1ª SE. O nome de cada criança, grafado em letra de forma maiúscula, identificando suas respectivas caixas, foi um estímulo essencial durante a realização desta atividade, especialmente, para aquelas crianças que ainda não dominavam inteiramente a escrita de seus nomes. Como exemplo citamos a díade D3- Juliana e Germana: na 1ª SE, a mãe perguntou se ela terminou o desenho, já que faz um gesto de se afastar da folha para mostrar e esperar a aprovação da mãe. Em seguida, a pesquisadora pede que Juliana escreva o seu nome próprio no desenho. Ao terminar cada letra, Juliana parece esperar o julgamento da mãe. Juliana escreve letra por letra olhando para a mãe. Somente neste momento a mãe percebeu e comentou que Juliana escreveu o seu nome de “cabeça para baixo”. A pesquisadora perguntou a Juliana se ela sempre escreve o nome desta forma, na sala de aula. Juliana confirma com a cabeça. A mãe faz o gesto com a mão virando a folha. Diz que ela vira a folha de ponta cabeça para escrever. Na verdade, Juliana escreveu como sabia. Observamos que a escrita do nome no verso da folha obedece ao padrão normal da esquerda para direita e sua grafia está classificada na fase silábico-alfabética de Ferreiro. A pesquisadora pede que ela escreva novamente o nome no verso da folha. A mãe comenta que “agora ela está escrevendo certo”.
Quando Juliana termina a mãe comenta que “algumas letras ela coloca o contrário” e vira a folha para dizer: “como se ela fosse escrever assim”. Agora é a própria mãe que vira coloca o verso a folha de cabeça para baixo e também pede para ela repetir o nome um pouco abaixo do que acabou de escrever (no caso é acima). O que Juliana faz é copiar o seu nome usando o primeiro como modelo. Desta forma, ela escreve agora da direita para a esquerda. Quando termina a mãe vira a folha algumas vezes como se estivesse avaliando a escrita da criança nos dois lados da folha.
Na 2ª SE, quando ela termina de escrever Juliana, a pesquisadora pergunta por que ela escolheu esse título “Polar”. Juliana só ri. A mãe pergunta se foi por causa da historinha dos ursos. Juliana responde que “foi”. Então a mãe diz: “que legal”. A mãe pede para a filha escrever seu nome. Juliana escreve. A pesquisadora pergunta se Juliana já colocou o nome dela no desenho. Ela responde com a cabeça que sim. A mãe pede novamente para Juliana escrever seu nome. A pesquisadora pergunta se ela quer olhar o nome dela na caixa. A mãe vira a caixa então na direção de Juliana. A pesquisadora pergunta se dá para fazer igual caixa. A mãe vai apontando cada letra do nome dela na caixa para ela copiar. Quando ela termina a mãe pergunta o que ela escreveu, ela responde “Juliana”. Na 3ª SE a mãe pede para ela escrever seu nome. Usa a caixa como modelo. Escreve novamente seu nome. A mãe olha com estranheza. Quando ela termina pergunta para filha “Isso é o seu nome”. Juliana confirma com a cabeça. “Tem certeza”, e Juliana confirma novamente. A pesquisadora sugere que novamente ela copie da caixa. Juliana faz. A mãe guia sua mão umas duas vezes. Quando termina fecha o livro.
Na 4ª SE a pesquisadora pediu para Juliana escrever seu nome e posicionou a caixa para ela usar como modelo para escrever seu nome. A mãe acompanha a filha com o olhar de preocupação, mas sem deixar de sorrir e aceitar o que a filha faz. Em outro momento, a mãe pediu para Juliana escrever novamente seu nome em um local na folha que ela indicou. Juliana está concentrada, mas coloca os braços sobre a mesa na hora de escrever, debruçando-se sobre a mesa. Juliana persevera na sua maneira de escrever seu nome.A mãe continua olhando a produção da criança e aceita o que ela fez. A pesquisadora pergunta se terminou de escrever. Mãe e filha confirmam.
D4- Gislane e Gilvânia:
Na 1ª SE (2min) a pesquisadora pede para Gislane escrever seu nome. A mãe questiona a escrita do nome e pede para ela fazer novamente. Na 2ª (3min) depois de a Gislane usar todos os lápis de cor, a mãe diz: “Faça seu nome”. Aqui começa um episódio de negociação entre mãe, filha e a pesquisadora sobre a escrita do nome da criança. Na 3ª SE (2min), Gislane diz que vai escrever seu nome. Na 4ª SE (1min), a mãe pegou a caixa e mostrou o nome dela e apontou onde deveria escrever.
Discussão da escrita do nome da criança:
Com exceção de Juliana e Gislane, constatamos que as crianças conseguiram escrever seus nomes de forma correta logo na primeira SE. A forma correta, neste caso, seria a criança escrever de forma convencional, no nível alfabético (ver a classificação de Ferreiro & Teberosky, 1984). As crianças deste estudo estão em pleno processo de alfabetização, o que pressupõe que podem utilizar seus nomes próprios como modelos estáveis nesta co-construção da escrita. Diversos estudos (Ferreiro, 1986; Teberosky, 1989; Moreira, 1991) apontam a importância do nome próprio para a compreensão do sistema de representação da escrita. Aproveitamos esta preciosa oportunidade no presente estudo, ao identificarmos as caixas das crianças com seus nomes próprios em dispostos em letras maiúsculas. Procuramos incentivar as díades a olhar e usar como modelo o nome das crianças nas suas caixas. A díade tinha em todas as SE a caixa situada na mesa, portanto, dispôs do modelo correto e estável do nome próprio da criança. A esse respeito, Teberosky (1989) propõe o nome próprio como ponto de partida para a iniciação da leitura, a: “uma escrita de interpretação estável, que não depende das vicissitudes do contexto (...) e facilita uma informação sobre a ordem não- aleatória dentro do conjunto de letras” (p. 34).
Gislane conseguiu escrever seu nome a partir da segunda SE. Juliana continuou escrevendo como sabia nas quatro SE. Foi interessante confirmar tanto com Gislane como para Juliana, mais de uma vez, que a forma como escreviam era a correta para elas. Para Gilvânia, representou uma espécie de descuido da filha naquele momento em particular na SE, pois já a filha já havia escrito seu nome corretamente outras vezes. O que a Gilvânia considerou falta de atenção, interpretamos
como pleno processo de aprendizagem da grafia do nome próprio, onde a criança estava tentando coordenar os aspectos qualitativos e quantitativos da escrita (Ferreiro, 1986). E se Gislane, conseguiu escrever seu nome a partir da 2ª SE pode ser uma evidência de uma co-construção desse conhecimento, que pode ter acontecido durante as SEs, em casa com ajuda da mãe ou ainda em sala de aula, lugares diversos onde a criança recebeu diferentes sugestões sociais nas interações inerentes a cada contexto, considerando sempre seu papel ativo em seu processo de aprendizagem. Retomando a discussão sobre o aprendizado do letramento como uma prática social, é através da participação em atividades de linguagem (em nosso estudo, solicitamos a escrita do nome em todas as produções) que as crianças aprendem a se relacionar com a linguagem alfabética na medida em que aprendem a usar a linguagem escrita em contextos específicos para audiências e propósitos particulares (Larson, 2002).
Para a Germana, mãe de Juliana, este foi um momento de descoberta, antes não havia percebido a forma como a filha escrevia. A aceitação incondicional da mãe a todas as produções da criança, inclusive nestes momentos em que a filha não correspondia ao modelo correto da grafia de seu nome, nem mesmo com a presença de um modelo (no caso, o nome na caixa). A mãe fez comentários sobre a escrita da filha, mas, em nenhum momento, houve repreensão ou censura.
Sarah Lygia e Samuel Raff têm nomes compostos, ambos escreveram seus nomes nas atividades sempre desta forma. Sarah Lygia já conseguiu realizar a segmentação de palavras quando escreveu seu nome composto, mas o mesmo não aconteceu com Samuel Raff. Consideramos que falhamos ao não identificarmos as caixas destas duas crianças com seus nomes compostos, o fizemos somente com o primeiro nome.