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A ESPIRITUALIDADE E O SAGRADO NOS LIMITES DA VIDA

No documento Download/Open (páginas 101-105)

do caos. O cosmos sagrado emerge do caos e continua a enfrentá-lo com seu terrível contrário. Essa oposição entre o cosmos e o caos é frequentemente expressa por vários ritos cosmogônicos. O cosmos sagrado, que transcende e inclui o homem na sua ordenação da realidade, fornece o supremo escudo do homem contra o terror da anomia. Achar-se numa realidade correta com o cosmos sagrado é ser protegido contra o pesadelo das ameaças do caos. Sair dessa relação correta é ser abandonado à beira do abismo da incongruência. Não é fora de propósito observar aqui que o vocábulo caos deriva de uma palavra grega que quer dizer voragem e que religião vem de uma palavra latina que significa ter cuidado. Por certo, aquilo sobre o que o homem anda cuidadoso é, sobretudo, o perigoso poder inerente às próprias manifestações do sagrado. Mas por trás desse perigo está o outro, muito mais horrível, de que se possa perder toda conexão com o sagrado e ser engolido pelo caos. Todas as construções nômicas destinam-se [...] a afastar esse terror. No cosmos sagrado, porém, essas construções alcançam sua culminância, literalmente, a sua apoteose (BERGER, 1985, p. 39-40).

Pode-se prever que toda experiência religiosa está intimamente ligada à vida ativa da pessoa, e isso acontece como um conjunto de práticas sociais em um grupo definido. Essas práticas são o espelho da doutrina contida nas Escrituras Sagradas ou no ciclo de mitos. Estes interpretam as realidades significativas e instituem modelos de comportamento tanto no rito como na práxis bíblica. Assim, as normas morais e demais comportamentos nos diversos aspectos da vida de uma pessoa ou grupo derivam do núcleo da crença deste grupo ou pessoa (CROATTO, 2010, p. 409-10).

A experiência com o sagrado não pode ser traduzida em elementos racionais. Ela é uma dimensão incontrolável que pode produzir inicialmente uma inquietação nas pessoas envolvidas, mas com a sua vivência produz plenitude de vida e lhe dá sentido propiciando reencontros e reconciliações consigo mesmo, com os outros e com o grande Outro, Deus.

2.2 A ESPIRITUALIDADE E O SAGRADO NOS LIMITES DA VIDA

A experiência de uma espiritualidade pode levar a pessoa a uma ação em busca de mudanças, para a plenitude da vida, mesmo com tantos desajustes existentes na sociedade e na vida das pessoas.

Altos níveis de envolvimento religioso estão positivamente associados há indicadores de bem-estar psicológico (satisfação de vida, felicidade, afeto positivo), bem como com menos depressão, pensamento suicida e abuso de álcool e drogas, e esse envolvimento religioso na saúde mental pode ser mais intenso entre

pessoas que estão em circunstâncias estressantes de vida (ALMINHANA e NOÉ, 2010, p. 262).

A reflexão sobre a vida das pessoas não deixa de contemplar o limite e as perdas como forma de compreender o mistério da existência. A sociedade consumista ensina que para viver uma vida cheia de sentido necessita explorar tudo que há o máximo de satisfação e prazer. “O doente, o agonizante, o indesejado e tantos outros sujeitos humanos são excluídos dessa lógica”, assim, a doença e a morte constituem “lugares teológicos” (BRUSTOLIN, 2006, p. 455).

A espiritualidade cristã deve envolver a totalidade do ser humano, assim sendo, ela deve ocupar-se também com a conversão das emoções e não somente com a conversão das convicções. A totalidade do ser está envolvida no processo de união com Cristo. Tanto nossa mente como nossos sentimentos precisam caminhar em direção à conversão, à progressiva purificação e, finalmente, à transformação. [...] A emoção, especialmente a emoção religiosa, é um fenômeno complexo. [...] Como em todos os outros aspectos da natureza humana, a afetividade precisa ser interpretada, disciplinada e, finalmente, redimida. [...] Uma espiritualidade cristã deve nos conduzir a dar valor aos acontecimentos simples e rotineiros de nossa vida, como também aos grandes (ZSCHORNACK, 2006, p. 17-8). O tempo vivido neste mundo faz que a pessoa sempre esteja em profundas mudanças, passando por crises, novas experiências, limitações físicas e psíquicas. A valorização da vida e o reconhecimento de sua dignidade fazem surgir uma visão consciente da realidade humana, pautada no acolhimento ou na rejeição do ser humano, definindo as relações de cooperação ou de dominação, e de critérios que permitam cuidar da vida (BRUSTOLIN, 2006, p. 456).

As pessoas precisam admitir suas dificuldades diante da emotividade própria do seu ser. “É preciso reconhecer no ser humano sua totalidade tanto racional quanto emotiva, e dar sentido ao todo da pessoa: emocional, psicológico, moral e intelectual, para que ela tenha uma saúde de vida integral” (ZSCHORNACK, 2006, p. 18).

Acerca da dimensão de cuidado integral de saúde na vida das pessoas há algumas aproximações hermenêuticas destacadas por Heidegger (2011, p. 258-68) como: o movimento, a interação, a identidade e alteridade, a plasticidade, o projeto, o desejo, a temporalidade, a não-causalidade e a responsabilidade.

A identidade das pessoas é construída pelo movimento no mundo ou pelo ato cotidiano de viver. Suas interações na dimensão de cuidado podem ser construídas nesse cotidiano e transformam as pessoas envolvidas no ato de cuidar, ou seja,

tanto o cuidador quanto o doente. No entanto, percebe-se que o cuidado só se estabelece em virtude da presença do outro. Assim, a identidade de cada um se faz na presença do outro e a alteridade de cada pessoa sempre se define pela construção de uma identidade e vice-versa (AYRES, 2004a, p. 75-6).

Na base de todo movimento e de toda identidade e alteridade de uma pessoa, pode-se encontrar a plasticidade. É por intermédio dela que as pessoas podem se transformar e se moldar promovendo uma possível recriação, e impossibilitando sua dissolução. Todavia a plasticidade necessita de um potencial criador, ou seja, a capacidade de conceber e construir projetos próprios ao cuidado. Nessa construção se encontra o desejo, e é nesse encontro desejante com as circunstâncias que se origina o ser vivente. No entanto, somente numa perspectiva do fluxo do tempo que faz sentido o cuidado ao ser humano, e sem o cuidado não há ser humano. Nesse sentido, o cuidado exige ser pensado como “compossibilidade”, só podendo ser compreendido como um círculo hermenêutico no qual cada parte só ganha sentido numa totalidade e a totalidade tem seu sentido imediato e dependente de cada uma de suas partes. A transcendência é, portanto, um plano de imanência, desde o qual o ser humano se constrói conhecendo (AYRES, 2004a, p. 76-7).

É pelo acompanhamento terapêutico e espiritual que a pessoa pode ter a possibilidade de ser restaurada em sua dimensão pessoal e espiritual, buscando novas direções para a vida relacional, despertando sua integridade pessoal, cuidando da dimensão psicológica, social, corporal, política e econômica, além de abrir espaço para a presença divina, para a sabedoria de Deus e para a sabedoria humana (ROESE, 2010, p. 303).

Heidegger (2011) propõe o cuidado como categoria que mais consegue aproximar as pessoas a esse plano de imanência, sem começo nem fim, no qual o ser humano resulta de sua ocupação de si como resultado de si. Nesse sentido, cuidar não é só projetar, é um projetar responsabilizando-se, um projetar porque se responsabiliza.

Heidegger recorre à expressão cuidado usada na saúde para se referir às relações dessa centralidade dos projetos no modo de ser das pessoas, com os modos de compreenderem a si e a seu mundo e com seus modos de agir e interagir, baseando-se estritamente nos limites estabelecidos pela capacidade autorreflexiva humana, nunca como um ato inteiramente consciente, intencional ou controlável, mas sempre resultado de uma autocompreensão e ação transformadoras, assim, designa como cuidado o próprio ser do ser humano (AYRES, 2004b, p. 21).

As emoções das pessoas foram e continuam sendo formadas por muitas e diferentes influências durante toda a existência humana. Muitas pessoas aprisionam suas emoções e não as demonstram. Por outro lado, as pessoas regulam quando podem aproximar dos outros por temor ou suspeita ou ainda por ódio ou ressentimento. As pessoas vão se tornando escravos e privados da sua liberdade diante de suas emoções. Porém, quando admitem-se emocionar, passam a conhecer verdadeiramente como Deus sente e como se pode compartilhar com o próprio Cristo da compaixão, do amor, da angústia e da determinação. Assim, à medida que a pessoa amadurece na fé, começa a ter suas emoções unidas com as emoções de Cristo, e se torna mais forte, consequentemente, mais segura emocionalmente e se tem uma visão mais clara do sentido e significado da vida (ZSCHORNACK, 2006, p. 19).

Embora a categoria cuidado, na filosofia heideggeriana, não diga respeito ao cuidar ou descuidar no sentido operativo do senso comum, e ainda menos numa perspectiva estritamente médica, adota-se o termo cuidado como designação de uma atenção à saúde imediatamente interessada no sentido existencial da experiência do adoecimento, físico ou mental, e, por conseguinte, também das práticas de promoção, proteção ou recuperação da saúde (AYRES, 2004b, p. 22).

Heidegger (2011, p. 205-9) convida-nos a pensarmos no modo de ser das pessoas como uma contínua realização de um projeto, a um só tempo determinado pelo contexto em que estão imersas, antes e para além de suas consciências, e aberta à capacidade de transcender essas contingências e, a partir delas, interagindo e reconstruindo.

As experiências de passado, presente e futuro são marcas que se projetam no modo de ser de cada pessoa – o futuro pode ser caracterizado como a continuidade do passado que se vê desde o presente, e o passado aquilo que virá a ser quando o futuro que a pessoa vislumbra se realizar (AYRES, 2004b, p. 21).

A partir dos textos bíblicos que serão trabalhados logo a seguir, é possível entender o cuidado especial e integral de Cristo em diferentes circunstâncias de sua vida.

Nessas circunstâncias é possível perceber como Cristo convidava as pessoas para liberarem e se libertarem de suas emoções, mas também como hoje, no cotidiano da vida, as pessoas são convidadas para participarem com Cristo no seu amor com o outro. Isso pode acontecer nos dias atuais quando as pessoas participam com o outro nas relações humanas mais íntimas e mais simples da vida cotidiana. No entanto, ainda há muitos obstáculos no cotidiano das pessoas que as

impedem de expor suas emoções, pois pensam que expor suas emoções diante da vida é um sinal de fraqueza.

Zschornack (2006, p. 20) enfatiza que o medo é um dos obstáculos que impedem a pessoa de uma doação plena a Deus, e consequentemente ao bloqueio de viver suas emoções. As pessoas têm medo de não serem aceitas, merecedoras ou dignas de ter uma experiência com Deus por serem pecadoras ou ocupadas. Por outro lado, a concepção que as pessoas têm de Deus pode estar baseada em experiências negativas vividas na família, entre amigos ou até mesmo na comunidade cristã.

“O medo paralisa as pessoas, não permitindo que elas ajam por si mesmas, [...] procuram a fuga e logo caem na crise, na escuridão. Neste sentido, a maioria das pessoas [...] prefere procurar o que ameniza, o que ajuda a fazer de conta que está bem” (RANGEL, 2002, p. 37).

Essa experiência em Deus é em sua essência de sublime emoção, porque a emotividade faz parte do ser humano que é ao mesmo tempo divino. E ainda pode o mundo da afetividade conviver com a razão, sem que uma elimine a outra. O ser humano há tempos está acordando para uma nova busca de sentido de sua vida, sentido este que não esteja só ancorado na sua razão, mas na percepção das suas emoções enquanto manifestação fundante das significações que brotam da sua maneira de ser mundo e de se significar a sua própria existência (ZSCHORNACK, 2006, p. 20).

Para tanto, pode-se entender e compreender que a espiritualidade do ser humano se interrelaciona com tudo e com todos em busca de uma saúde integral, e essa saúde implica em um estado de harmonia emocional e racional ligado a uma espiritualidade encarnada na realidade cotidiana e na totalidade da vida humana na sua integralidade. É obvio que, em tempos de incertezas, é necessário as pessoas terem esperança na vida, apesar de não poderem mudar mecanicamente as situações sociais, políticas ou econômicas do mundo, e muito menos eliminar as doenças físicas, psicológicas ou emocionais. Entretanto é preciso que as pessoas tenham esperança na vida, força e coragem para continuar na luta por uma vida com uma saúde mais digna, mais plena e mais integral.

2.3 O CUIDADO NA PRÁXIS DE JESUS: A ARTE DE INTERPRETAR TEXTOS

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