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CAPÍTULO I AS METAMORFOSES DO SOCIAL: DA ἀναγκαῖά AOS

2. DEFINIÇÕES DO SOCIAL N‘A CONDIÇÃO HUMANA

3.4. A ―estranha obscuridade‖ de Hannah Arendt

Quando nos referimos às dificuldades e aos equívocos cometidos pelos intérpretes do social na obra de Hannah Arendt temos em mente, por exemplo, a confusa análise de Margareth Canovan, endossada e comentada por Hanna Pitkin em seu conhecido estudo intitulado The Attack of the Blob. Pitkin assinala que o pioneiro livro de Canovan, The Political Thought of Hannah Arendt, publicado em 1974, definira o conceito do social arendtiano como ―internamente incoerente, um conglomerado que nunca produziu qualquer ‗síntese‘ satisfatória‖. Para Canovan, a tentativa de Arendt em explicar o fenômeno do social fora um ―esforço malsucedido de fundir ‗duas vertentes separadas de significado‘ da palavra ‗sociedade‘ sem reconhecer a distinção delas, com o resultado de que elas permaneceram ‗entrelaçadas‘‖, ainda que o relacionamento entre ambas ‗não fosse de todo claro‘‖ (Canovan apud Pitkin, 1998, p.17). Quer dizer, o relacionamento entre público e privado próprio às instituições do social e da sociedade, para a intérprete, ―não era de todo claro‖. Segundo Canovan, esta descrição dual e confusa do conceito do social era reveladora, ―não apenas metodologicamente‖, mas também no que diz respeito a ―maneira de pensar de Arendt, que é extraordinariamente multidimensional‖ e ―confusa‖, tendo em vista que ela ―desenvolveu muitas linhas de pensamento simultaneamente‖. Por isso, assinala Canovan, o conceito do social exposto por Arendt nos pôs diante de ―outra ambivalência mais profunda‖ em seu pensamento, qual seja, ―o problema do ‗poder do homem na era moderna e sua impotência‘‖, ou melhor, o problema de sua ―capacidade para a ação‖.

Como podemos perceber, Canovan não compreendeu o caráter fluente, concrescente e dinâmico do social, por isso julgou a descrição de Arendt como ―internamente incoerente‖, ―malsucedida‖, incapaz de produzir uma ―síntese‖, além de ―confusa‖ e ―multidimensional‖. As linhas de pensamento de Arendt pareceram-lhe confusas, porém, estas linhas apenas mimetizam a dinâmica de preensões e concrescências processuais do fenômeno. Sem compreender a natureza fluente do social, Canovan alimentou a expectativa de decifrar um conceito estático, uma

114 fotografia, mas Arendt se propôs descrever esfinges dinâmicas em decupagens descontínuas. Como diria Merleau-Ponty acerca das célebres versões sucessivas de O

Monte de Saint-Victoire de Cézanne, aqueles retratos sucessivos não eram fotografias de

seus respectivos instantes, porque as fotografias não são capazes de captar as cifras secretas dos movimentos. Por isso, Rodin dissera que os quadros de Cézanne captavam a veracidade do movimento do tempo, de modo que ―o artista é verídico, e a foto é

mentirosa, porquanto, na realidade, o tempo não pára‖ (Chauí, 2002). Similarmente,

Canovan vira ausência de ―síntese‖ na descrição ―caótica‖ de Arendt porque esperava por uma fotografia estática do social, e Arendt lhe ofereceu uma decupagem fílmica dinâmica com superposições, preensões e descontinuidades, porque sabia que o fenômeno da concrescência do social ocorre exatamente deste modo. Por outro lado, percebemos, também, que Canovan não apreendeu a distinção entre as duas modalidades de ação: tradicional e processual. Este seria o motivo pelo qual a intérprete considerou o conceito do social de Hannah Arendt um esforço malsucedido e confuso. A confusão, contudo, está nas deficiências hermenêuticas do próprio trabalho da intérprete. Arendt tinha pleno domínio do fenômeno que estava a descrever, tanto que o cifrou hermeticamente numa descrição obscura.

Já Hanna Pitkin, em pleno acordo com sua interlocutora, concluiu que Canovan ―estava certamente correta nestas observações‖, ainda que ―ela não as tivesse levado adiante‖ (Pitkin, 1998, p.17). Nem Pitkin, nem Canovan, tampouco Seyla Benhabib fizeram qualquer menção aos conceitos whiteheadianos de processo e evento, tampouco aos conceitos de experimento com assuntos humanos, os quais Arendt apreendera da narrativa histórico-antropológica de Polanyi. Nenhuma delas se deu ao trabalho de tentar distinguir entre o social e a questão social, ambos tratados como um só ―conceito‖. Além disso, nenhuma dessas comentadoras compreendeu que os processos se constituíram no modo moderno de agir. E isso explica a dificuldade de compreenderem corretamente o fenômeno do social, que não é um mero ―conceito‖, tampouco um conjunto de hipóstases confusas. Pitkin chega a afirmar que Arendt trata o social como uma ―Bolha‖ e por isso o descreve mediante o uso de ―metáforas‖ as quais, supostamente, contraditariam o modo fenomenológico de pensar a realidade costumeiramente praticado pela própria autora. Quer dizer, para Pitkin, o modo hipostático de descrição do social proposto por Arendt seria uma evidência de contradição performática, sobretudo porque a pensadora acusara reiteradamente autores como Marx e Locke de pensar através hipóstases, isto é, pensar conceitos abstratos

115 como se eles fossem pessoas reais que agem na realidade mundana, política ou social. Não obstante, Arendt descreve tais fenômenos de modo aparentemente hipostático, como sabemos, porque estes fenômenos processuais assim se apresentam aos expectadores. E Marx e Locke foram, entre outros autores, os responsáveis pela construção desta mundanidade artificial-processual49.

De todo modo, o caso de Pitkin é desesperador porque ela erraticamente postula hipóteses das mais desarrazoadas acerca do conceito arendtiano do social. Afirma que o tratamento hipostático do social se deve ao modo germânico e heideggeriano de tratar os conceitos50, assevera que ―Arendt concebe o conceito como uma Bolha‖51, enfatiza que, quando o social não é tratado de forma mistificada, ele ―não corresponde a nenhum dos usos ou sentidos comuns do dicionário referentes a ―sociedade‖ ou ―social‖, mas sim se assemelha bastante [...] a noção fundamental de alienação de Marx‖ (1998, p.177), e, finalmente, apresenta ao leitor sua interpretação sintética do conceito do social arendtiano:

Eventualmente, este livro argumentará que, por ―social‖, Arendt significa uma coletividade de pessoas que — por qualquer que seja a razão — se comportam de tal maneira que não conseguem controlar ou mesmo intencionalmente influenciar as consequências de suas atividades em grande escala. Essa é uma leitura surpreendente, não apenas porque Arendt nunca coloca as coisas dessa maneira, mas também porque parece tão distante dos significados comuns de ―sociedade‖ e ―social‖ e dos significados atribuídos ao conceito de Arendt pelos comentaristas anteriores (Pitkin, 1998, p.16).

49 Ao descrever o social — afirma Hanna Pitkin —, Arendt tratou o conceito como se ele fosse dotado de materialidade, ou seja, como se fosse um corpo. Por isso, descreveu a ―invasão‖ da vida pública pelas demandas do social ou pelo ―crescimento‖ deste; em consequência desta imagem hipostasiada, descrevera o social mediante o emprego de verbos como absorb, embrace, devour, emerge, rise, enter, intrude,

conquer realms or spheres, control, transform, pervert, impose rules on people, demand conduts e exclude. O social seria um ente autônomo, semovente e dotado de vontade própria. Para Pitkin, há, nesta

descrição do conceito, uma contradição performática, já que Arendt — tão judiciosa e precavida quanto ao uso de tais hipostasias na descrição dos fenômenos da realidade — incorrera neste mesmo equívoco de tratar conceitos abstratos como instituições concretas da realidade. Reeditara, ela própria, os erros cometidos por Locke e Marx, erros que foram objeto de suas críticas mais contumazes.

50 Acerca do modo heideggeriano de pensar (heideggerian manner), o qual influenciou Arendt, Pitkin assinala que ―vale a pena mencionar que a hipóstase como tal é consideravelmente mais comum no alemão do que no inglês, particularmente no discurso abstrato e filosófico, e observamos que esse era um dos dispositivos retóricos de Heidegger para induzir uma distância contemplativa de um termo familiar. Assim, Arendt poderia estar inclinada à hipóstase na medida em que seu trabalho abordava a abstração, a filosofia, sua própria língua nativa e o pensamento de Heidegger. O fato de ela ter usado o dispositivo especificamente no termo "social" pode estar relacionado ao parentesco entre o conceito de Arendt e o

das Man, de Heidegger, eles próprios hipostasiações‖ (Pitkin, 1998, p.227).

51

Sobre o conceito do social a partir da metáfora da Bolha (com ―B‖ maiúscula) Pitkin assinala que ―Consideravelmente mais importante é a maneira como Arendt concebe o conceito como uma bolha. O papel simbólico que ele desempenha na argumentação dela, os predicados que ela atribui a ele e as metáforas nas quais ela o incorpora vão diretamente contra a lição central dela e replicam a falha que ela mais critica em outros pensadores‖ (Pitkin, 1998, p.15).

116 Perdida na floresta de preensões e concrescências descritas por Arendt, Pitkin lança mão de tantas tentativas desconexas e erráticas de interpretar o social que seu livro mais confunde que esclarece o leitor. Ademais, esta definição do social como ―uma coletividade de pessoas que se comportam de tal maneira que não conseguem controlar as consequências de suas atividades em larga escala‖, além de não ter qualquer fundamento textual (o que ela admite), nada mais seria do que uma tentativa desesperada de encontrar o princípio de unificação do social fora do texto arendtiano. Para responder à questão ―por que Arendt desenvolveu imagens tão flagrantemente em desacordo com o que ela mais queria ensinar?‖ Pitkin lança mão dos mais desconexos recursos de investigação: propõe um ―levantamento genealógico do desenvolvimento do conceito‖, apela para ―a natureza da teoria política‖, examina gramaticalmente o uso mistificado ou desmistificado das hipóstases52, afirma que Arendt cunhou um ―novo substantivo a partir do adjetivo social‖, diz que ―a hipóstase [do social] funciona de alguma forma como um marcador especial que liga o significado lexical comum de ―social‖ com as capacidades e conotações genéricas da forma substantiva‖, e, finalmente, assinala que ―a hipóstase transforma qualquer significado social em uma entidade, algo capaz de ser e fazer. O movimento gramatical, com efeito, facilita ou até convida à personificação, até à demonização‖. E pergunta: ―Mas por que a hipóstase, especialmente quando já existe um substantivo?‖ (Pitkin, 1998, p.226).

Em razão dessa dificuldade, para ela intransponível, a intérprete reconhece que se trata de montar um quebra-cabeça (puzzle). E para montá-lo ela teria que distinguir os dois conceitos de ação, sobretudo ser capaz de caracterizar claramente a ação processual em fluxo. Como ela não compreendeu a ação arcana dos processos, passou a acusar Arendt de pensar o conceito a partir de uma ―estranha obscuridade‖ (awkward

obscurity):

52 Pitkin propõe uma leitura ―desmitologizada‖ do social na obra de Arendt, isto é, propõe analisar quatro modos ou padrões — concorrentes e inter-relacionados — de interpretação do social: o padrão institucional, a abordagem caracterológica ou psicológica, o padrão ideacional (baseado em conceitos, padrões de ideias e premissas estruturais) e o padrão ―just do it‖, ou, ―simplesmente faça‖, o qual contrapõe o parvenu ao homem de ação e responsabilidade, isto é, contrapõe a inciativa e a solidariedade à omissão e à negligência (Pitkin, 1998, p.280-281). A limitação da análise de Pitkin reside, neste caso, não apenas em sua incapacidade de compreender o social como um fenômeno (e não como um ―conceito‖), o que ela só poderia fazer se identificasse a influência da filosofia do organismo de Whitehead sobre a filosofia do social arendtiana, mas, sobretudo, no fato de que intérprete não percebeu a diferença abissal entre o social e a questão social no transcurso entre The Human Condition e On

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Na maior parte das vezes, nas várias narrações dessa história [do social] por Arendt, o inevitável processo de crescimento foi desencadeado por algumas ações humanas mal aconselhadas no passado. É alguma falta de ação ou falha de ação? Ocasionalmente, mesmo essa agência humana inicial desaparece e o social é misteriosamente preexistente, organizando até sua própria aparência no mundo; por exemplo, a sociedade ―entrou primeiro no domínio público‖ de forma deliberadamente enganosa, tendo ―assumido [um] disfarce‖ [...] sua estranha obscuridade nesse ponto é apenas um exemplo de uma tensão que se difunde em toda A Condição Humana: ela enfatiza a agência humana e condena aqueles que a ocultam invocando entidades e forças sobre-humanas, mas ela mesma invoca o social dessa maneira. [...] O social se conecta à biologia e ao processo natural; uma de suas ―características marcantes‖ é a ―tendência irresistível de crescer, de devorar‖. Portanto, o social não está apenas ―além de decisões e propósitos humanos deliberados‖, mas está vivo, devorando e crescendo. Além disso, seu crescimento prossegue através de ―estágios‖ identificáveis (Pitkin, 1998, pp.15-16).

Nesta marcha hipostática devoradora, o social, segundo Pitkin, ―continuou a crescer inexoravelmente, devorou mais e mais pessoas‖ até que, ―na forma de sociedade de massa‖, finalmente, ―abraçou e incluiu todos os membros de uma determinada comunidade‖. Fato é que, depois de quase quatrocentas páginas, Hanna Pitkin não conseguiu decifrar a esfinge do social segundo a expôs Hannah Arendt. E Arendt, certamente por compaixão, não devorou sua desafiadora intérprete, mas a deixou completamente cega e perdida diante daquela obscuridade estranha que é o social.

Já Seyla Benhabib nos propõe uma tríplice definição do social. Segundo a intérprete, o conceito do social na obra de Hannah Arendt pode ser resumido em três sentidos dominantes:

Há três significados dominantes do termo social na obra de Arendt. Em um nível, o social se refere ao crescimento de uma economia capitalista de troca de mercadorias. No segundo nível refere-se a aspectos da sociedade de massa. No terceiro e menos investigado dos sentidos, o social refere-se à sociabilidade, à qualidade de vida na sociedade civil e nas associações cívicas (Benhabib, 2003, p.23).

O problema desta definição é que ela não capta o caráter processual do social, tampouco o caráter experimental, de modo que os três níveis de significado são estanques, estáticos e incomunicáveis. Benhabib, assim como outros intérpretes, não compreendeu o aspecto dinâmico do fenômeno do social porque o reduziu a um conceito inamovível. Onde havia movimentos de multiplicação, hibridização, concrescência e preensão ela viu somente três níveis estáticos de uma mesma instituição. Por outro lado, como podemos perceber nesta citação, Benhabib enfatiza o

118 social como uma pequena ética, isto é, como uma ―etiqueta‖ que forma padrões de sociabilidade e, por conseguinte, constitui-se numa ―genealogia alternativa da modernidade‖:

O "surgimento do social", nessa genealogia alternativa da modernidade, não se referiria ao surgimento de relações de troca de mercadorias em uma economia capitalista crescente, mas designaria o surgimento de novas formas de sociabilidade, associação, intimidade, amizade, hábitos de fala e escrita, gostos por comida, costumes e artes, bem como hobbies, passatempos e atividades de lazer. Além disso, em meio a essa genealogia alternativa do social existe um curioso espaço que é doméstico porém público, dominado por mulheres, contudo visitado e frequentado por homens, altamente educado, mas igualitário, além de hierárquico em relação aos "forasteiros" e igualitária em relação aos seus membros (Benhabib, 2003, p.23).

O problema desta interpretação do social como formador de padrões de sociabilidade é que todas as civilizações e culturas engendram tais padrões, de modo que, se seguíssemos esta linha de raciocínio, o social perderia seu atributo de ser um fenômeno peculiar às sociedades capitalistas ocidentais modernas e passaria a ser um fenômeno universal. Benhabib, movida pelo pathos de encontrar uma interpretação nova do social a partir das descrições arendtianas da sociedade dos salões à época de Rahel Varnhagen passou a dar ênfase ao aspecto sociável do social quando, em verdade, tal aspecto, a despeito de suas particularidades europeias, é universal.

3.5. Características do social como processo: o verum-factum e seus