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A Etimologia das Palavras “Trabalho” e “Ócio”

Os conceitos “Trabalho” e “Ócio” se distinguem desde suas origens. A etimologia da palavra “ócio” tem um significado diferente de como ele é hoje entendido. Segundo Leão (1998), sua origem é grega. Vem da palavra skholé que deu origem à palavra em latim schola que, significa, em português, “escola”. Em latim, o não ócio é, pois, necotium, o negócio, ou seja, a negação do ócio (nec + otium). Negócio para um romano, quanto askholia para um grego, significam “[...] trabalho e esforço de uma ação transitiva que, aplicada a uma coisa, produz outra.” (LEÃO, 1998, p. 10) Negar o ócio, então, é trabalhar. Por isso se diz que a filosofia, a arte e a ciência são filhas do ócio, portanto, filhas da escola. Como disse Aristóteles, “o ócio é o eixo em torno do qual gira toda a realização humana”. (ARISTÓTELES apud LEÃO, 1998, p. 10). Enquanto, a palavra “trabalho”, em português, vem do latim tripalium, que significa instrumento de tortura feito com três paus que era usado para torturar escravos na época romana. Por isso, a condenação divina lançada sobre a Eva, “trabalho de parto”, que devido à desobediência, as mulheres seriam eternamente torturadas. Deu, também, origem às palavras trabajo, em espanhol, e travail, em francês. Do mesmo modo, “labor” significa qualquer trabalho da terra feito com dor e fadiga. Em alemão moderno, a raiz de arbeit significa “fadiga”, “tormento”, “atividade sem dignidade”.

Arendt (2000, p. 15) designa três atividades humanas fundamentais da vida ativa: labor,

trabalho e ação. Essas atividades têm características distintivas tanto quanto à sua prática como

como condição humana a própria vida. O “trabalho” é a atividade correspondente ao artificialismo da existência humana, pois é através dele que o ser humano produz um mundo “artificial” (com coisas diferentes do ambiente natural) e sua condição humana é a mundanidade. A “ação” é a única atividade de relação entre os homens sem a mediação das coisas e sua condição humana é a pluralidade, posto que não existe um homem igual ao outro. Segundo a autora, todas essas atividades têm relação com a política, pois a pluralidade da ação dá condição para isso.

Na Bíblia, conforme gênesis, deus trabalha. Seu trabalho tem conotação positiva em geral, mas carrega algo negativo. A conotação positiva é que o trabalho de deus é criador e, no sistema axiológico da Bíblia, a criação acontece através do artesão que molda o barro e faz o homem, e da costela dele faz a mulher. Deus, que é bom, é um artesão que cria o produto de seu trabalho transformardor. O algo negativo é que, depois de seis dias de trabalho, Deus descansa e isso se entende como não trabalho. Então, se entende o trabalho como algo que cansa, cansativo. Essa conotação positivo-negativa está explícita na maioria das definições de trabalho. A Bíblia fala em ganhar o pão com o suor do rosto frente às maravilhas do trabalho do criador. (OBESO, [199-?], p. 4)

O manifesto do Desempregado Feliz anteriormente exposto, nos remete à famosa frase de Lutero que tem a conotação do valor espiritual do trabalho como predestinação do ser humano neste mundo: “O homem nasceu para trabalhar como o pássaro para voar”. Segundo Obeso ([199-?]), a distinção entre trabalho como castigo, fadiga e sofrimento frente às atividades criativas é nossa herança greco-latina. Por exemplo, o grego “techne” (do que deriva tecnológico) e o latim “ars” definem o trabalho dos artesãos livres, socialmente valorado, frente a la “hanausis” grega que definia o trabalho embrutecedor dos escravos e não pessoas. Nas mesma linha, vão as reflexões de Chaui (1999) nas quais a idéia do trabalho como desonra e degradação não é exclusiva da tradição judaico-cristã. Essa idéia aparece em mitos que narram a origem das sociedades humanas e apontam a necessidade de trabalhar para viver como uma punição, assim referida na obra de Hesíodo, “O trabalho e os dias”. Isso acontece também com as sociedades grega e romana,

[...] cujos poetas e filósofos não cansam de proclamar o ócio como um valor indispensável para a vida livre e feliz, para o exercício da nobre atividade política, para o cultivo do espírito (pelas letras, artes e ciências) e para o cuidado com o vigor e a beleza do corpo (pela ginástica, dança e arte militar), vendo o trabalho como pena que cabe aos escravos e desonra que cai sobre homens livres e pobres. (CHAUI, 1999, p. 13)

E ela, ainda nos lembra, que a palavra “trabalho” não existe na língua da sociedade grega e romana e que os vocábulos ergon (em grego) e opus (em latim) referem-se às obras produzidas e não à atividade de produzi-las.

A questão do trabalho para os gregos teve significado próprio. A concepção de cidadão era diferente do conceito atual. Na prática, nem tanto. Escravos e mulheres não eram cidadãos da pólis. Então, caberia a eles o trabalho. O trabalho que produz bens úteis à vida. Estavam livres dessa tarefa os cidadãos, que com isso poderiam se dedicar à política, às artes, aos esportes, à Filosofia e às ciências. A preocupação de Aristóteles era que caso existissem teares que fiassem sozinhos, o que os escravos iriam fazer? Hoje, essa preocupação é realidade. As máquinas estão cada vez produzindo mais com número menor de pessoas. O conhecimento da civilização ocidental foi sistematizado e produzido tanto pelo ócio quanto pelo o trabalho. Os filósofos, artistas e políticos que estavam livres do trabalho puderam se dedicar à reflexão, ao conhecimento, às artes, aos esportes e à política, enquanto outras classes sociais, desprovida de propriedade e de liberdade, tinham como obrigação o trabalho.

O otium é um estado do espírito, um clima espiritual, conforme nos indica De Grazia. Esta atitude espiritual é exatamente a antítese do ideal de trabalhador da sociedade capitalista, visto que sua caraterística é de trabalho como fadiga, trabalho como função social. Contra este estado dominante do trabalho está o otium que “implica num estado de contemplação repousante”. Trabalho e ócio pertencem a dois mundos distintos, afirma o autor. (DE GRAZIA apud BAGOLINI, 1981, p. 52-53)

Para Pieper, a dimensão do otium é entendida

[...] como um deixar que a consciência humana se expanda através de certos comportamentos artísticos, filosóficos, religiosos, desinteressadamente culturais, simpáticos no convívio com os outros, etc..., de per si não exclusivamente redutíveis a termos de trabalho e em relação aos quais o trabalho poderá ser apenas um meio [...] o elemento central, o núcleo do otium é a atitude festiva, o fazer festa. Nesse se compõem em unidade harmônica os três elementos do conceito de otium: a

distensão, a ausência de fadiga, a excelência da função de proporcionar-se otium

(grifo nosso). Se, portanto, a atitude festiva é o núcleo de otium, este receberá a sua íntima possibilidade e legitimação da mesma raiz da qual recebem existência e significado a festa e o repouso festivo. E esta raiz é o culto. (PIEPER apud

BOGOLINI, 1981, p. 52)

Não há festa sem divindade, e a verdadeira festividade só é bem sucedida onde há relação com o culto.

De Grazia analisou o problema do trabalho e do otium através do tempo. Enquanto o trabalho é considerado uma sucessão de tempo, como horas, dias, semanas, férias, etc., o otium, pelo contrário, não pode ser visto em termos de tempo, pelo âmbito do quantitativo. Enquanto a noção de tempo livre pressupõe o “[...] modo especial de calcular uma particular espécie de tempo”. (DE GRAZIA apud BOGOLINI, 1981, p. 53) Todos podem ter tempo livre, mas nem todos podem gozar de otium. Ao tempo livre corresponde uma idéia realizável de democracia. O

otium nem sempre pode ser plenamente realizável e por isso é um ideal, não apenas uma idéia; “[...]

é um ideal no qual se exprime aquilo que está mais profunda e qualitativamente implícito na natureza e na condição humana, que, portanto, não pode ser exclusivamente reduzido a termos quantitativos, mensuráveis e calculáveis, de uma sucessão temporal de eventos concebida como objetivada no espaço ou em um pseudo-espaço.” (DE GRAZIA apud BOGOLINI, 1981, p. 54)

Segundo Bogolini, alguns autores contemporâneos pensam que a atividade artística é uma espécie de corretivo do trabalho penoso e monótono, ou ainda que funcione como um “valor humano capaz de se opor à redução do homem a um puro instrumento ou a um simples elemento passivo da grande máquina tecnoestrutural” (BOGOLINI, 1981, p. 56)

Camargo nos lembra que,

[...] há mais de dois séculos, a sociedade vem esmagando o homo ludens de maneira sistemática. O homem, desde sempre, começa lúdico. É expressão pura. Aprende a se exprimir para a vida, a se esticar, a tentar desenvolver suas potencialidades. [...] Antes da Revolução Industrial, a passagem do homo ludens para o homo faber era mais espontânea. Ao longo da vida ia aprendendo a trabalhar com o pai, mergulhando na intensidade do trabalho, um pouco hoje, mais amanhã, até ficar adulto. A Revolução Industrial brecou essa situação. Foi como se dissesse: a partir de agora, o trabalho passa a ser a necessidade fundamental do homem. (CAMARGO, 1993)

O estóico Sêneca disse que, achar um modelo que conduza nossas vidas não é possível sem o ócio, pois ele propicia perseveramos no que nos agradou. Segundo o estoicismo, “o maior bem é viver segundo a natureza: a natureza nos gerou a um e outro, tanto para a contemplação das coisas como para a ação.” Dessa forma, de modo algum “é recomendável perseguir resultados sem algum amor às virtudes e sem cultivo da inteligência, executando tarefas rudes [...]” (SÊNECA, 1994, p. 85-89)

Segundo Sêneca, há três gêneros de vida: um consagra-se ao prazer, outro à contemplação, um terceiro à ação. Seguramente, afirma ele, “uma coisa não existe sem a outra: nem aquele sem ação contempla, nem este sem contemplação age, nem aquele terceiro, que temos

concordado em menosprezar, experimenta um prazer inerte, mas sim o prazer pela razão torna ele duradouro para si.” (SÊNECA, 1994, p. 91)

O filósofo se referindo às repúblicas disse o seguinte:

Se eu quisesse examinar cada uma, nenhuma encontraria que pudesse admitir o sábio, ou que o sábio pudesse admitir. E se não se encontra aquela república que concebemos para nós, o ócio começa a ser necessário para todos, porque a única coisa que se poderia preferir ao ócio não existe em parte alguma. (SÊNECA, 1994, p. 93)

Conforme Sêneca, o ideal de homem para o estoicismo, é aquele no qual deve usufruir os dons da natureza, esses

[...] dons naturais acessíveis ao homem os julgamentos e decisões livres, de acordo com a consciência; as possibilidades de desenvolvimento intelectual e de aperfeiçoamento moral, com a conseqüente maior compreensão do mundo, pelo estudo constante; as forças inesgotáveis para inúmeras atividades de progresso, aperfeiçoamento e satisfação pessoal. O homem só não usufruirá esses dons enquanto for escravo dos prazeres corporais, dos desejos de sucesso e de enriquecimento material, e dos temores. (SÊNECA, 1994, p. 07-08)

Para o estoicismo, a Filosofia é concebida como uma moral para a direção da vida e, dentro desse entendimento, Sêneca concebe “[...] o homem como ser independente, como cidadão do mundo que deve servir à pátria, que pode ser útil a si e aos outros”. (SÊNECA apud SEABRA FILHO, 1994, p. 8) Segundo a interpretação de Seabra Filho, na visão senequiana, o homem é “uma criatura nascida tanto para a contemplação como para a ação - significando essa um agir em prol da humanidade, e não exatamente um produzir, um fabricar coisas.” (SEABRA FILHO, 1994, p. 8)

Segundo Sêneca, o labor contínuo degrada a condição humana, pois o jogo e a distração é um natural deleite, bem como o sono é necessário para a restauração do vigor. As festas são importantes para o divertimento em comum, interpondo aos trabalhos, os passeios e a embriaguez, que também são necessários, e momentos de repouso que se dá ao espírito, pois servem de alimento e de restauração. É preciso também, de acordo com Sêneca, ser indulgente com o espírito e de vez em quando

[...] passear por espaços abertos, para que o espírito se fortifique e se eleve a céu livre e em pleno ar; algumas vezes um passeio, uma viagem ou uma mudança de região darão vigor, ou mesmo um banquete e uma bebida em doses mais generosas. Às vezes também é preciso chegar até a embriaguez, não para que ela nos trague, mas para que nos acalme: pois ela dissipa as preocupações, revolve até o mais fundo da alma e a cura da tristeza assim como de certas enfermidades. (SÊNECA, 1994a, p. 72- 73)