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Antunes: o Trabalho nunca Perde sua Centralidade

4.2 O Debate na Atualidade

4.2.6 Antunes: o Trabalho nunca Perde sua Centralidade

O sociólogo brasileiro Ricardo Antunes (1995) se contrapõe muito a essas visões. Na perspectiva lukacsiana, ele reafirma o trabalho enquanto categoria ontológica como fundante do ser social. Assim sendo, a humanidade sempre terá o trabalho como centro da formação social. Mesmo

com o desemprego, o trabalho não perde sua centralidade, por ele ser ontológico, ser “fenômeno original”, protoforma do ser social (Lukács), como se fosse uma lei natural.

Segundo ele, essa tendência de maior intelectualização do trabalho fabril ou incremento de trabalho mais qualificado, levando com isso a desqualificação da mão-de-bra e a sua sub- proletarização, não permite concluir a perda da centralidade do trabalho na sociedade produtora de mercadorias. Nessa sua avaliação numa perspectiva interpretativa da teoria marxiana, mesmo reduzido relativamente o fator subjetivo do processo de trabalho, mas não chega ao ponto de eliminá-lo por se o trabalho abstrato o produtor de valores de troca.

Antunes ressalta que quando se fala sobre a crise da sociedade do trabalho, tem que se saber de que trabalho se está falando: se é o da crise do trabalho abstrato que, segundo ele, é o alvo da crítica de Kurz ou sobre a dimensão concreta, que é a tratada por Offe, Gorz e Habermas. Se for sobre a crise do trabalho abstrato, então ela tem que ser entendida como a redução do trabalho vivo e a ampliação do trabalho morto. Nesse ponto, diz ele, está de acordo com Kurz. Nessa vertente, podem ser constatadas duas maneiras distintas de interpretar a crise da sociedade do trabalho abstrato: uma é a que acha que “o ser que trabalha não desempenha mais o papel estruturante na criação de valores de troca, na criação de mercadorias” (o que Antunes discorda) e, a outra, é aquela que “critica a sociedade do trabalho abstrato pelo fato de que este assume a forma de trabalho estranhado, fetichizado e, portanto, desrealizador e desefetivador da atividade humana autônoma”. (ANTUNES, 1995, p. 77-78, grifo do autor) Nessa última, que “[...] apreende a essencialidade do capitalismo, reconhece-se o papel central da classe trabalhadora na criação de valores de troca”. (ANTUNES, 1995, p. 78) Antunes não só concorda, mas diz que Marx já discorreu profundamente sobre isso nos Manuscritos de 1844, sobre o trabalho estranhado que é nefasto para o ser social.

Segundo ele, outra vertente crítica da sociedade capitalista que recusa o papel central do trabalho, tanto em sua dimensão abstrata, que cria valores de troca, quanto na dimensão concreta, que cria valores de uso, é defendida por Habermas. E, nessa linha, segue Claus Offe e André Gorz. Habermas, embora se refira à dimensão abstrata do trabalho, evidencia que o

[...]trabalho não tem mais potencialidade estruturante nem no universo da sociedade contemporânea, como trabalho abstrato, nem como fundamento de uma ‘utopia da sociedade do trabalho’, como trabalho concreto, pois ‘os acentos utópicos deslocaram-se do conceito de trabalho para o conceito de comunicação. (ANTUNES, 1995, p. 79)

Antunes nos lembra que tratar do trabalho implica tratá-lo considerando-o essas suas duas dimensões: concreto e abstrato. Segundo ele, Agnes Heller é sugestiva nesse sentido quando diz que o trabalho deve ser apreendido no seu duplo aspecto: “como execução de um trabalho que é parte

da vida cotidiana e como atividade de trabalho, como uma objetivação diretamente genérica

(grifo do autor)” (HELLER apud ANTUNES, 1995, p. 79). Segundo Heller, Marx serve-se de dois termos: work e labour. “O primeiro (Work) realiza-se como expressão do trabalho concreto, que cria valores socialmente úteis. O segundo (labour) expressa a execução cotidiana do trabalho, convertendo-se em sinônimo de trabalho alienado.” (HELLER apud ANTUNES, 1995, p. 79). Antunes explica ainda que

O trabalho entendido enquanto work expressa então uma atividade genérico-social que transcende a vida cotidiana. É a dimensão voltada para a produção de valores de uso. É o momento da prevalência do trabalho concreto. Em contrapartida o labour exprime a realização da atividade cotidiana, que sob o capitalismo assume a forma de atividade estranhada, fetichizada. (ANTUNES, 1995, p. 79-80)

Se não for levada em conta essa dupla dimensão do trabalho, “a crise da sociedade do trabalho abstrato seja entendida equivocadamente como a crise da sociedade do trabalho concreto.” (ANTUNES, 1995, p. 79-80)

A crítica da sociedade do trabalho abstrato requer o reconhecimento emancipador da “classe-que-vive-do-trabalho”, pois mesmo que essa classe esteja fragmentada, heterogeneizada e complexificada é potencialmente capaz de ir além do capital. A ação que é capaz de possibilitar a superação desta sociedade para além do capital será aquela que

[...] incorpore as reivindicações presentes na cotidianidade do mundo do trabalho, como a redução radical da jornada de trabalho e a busca do ‘tempo livre’ sob o capitalismo, desde que esta ação esteja indissoluvelmente articulada com o fim da

sociedade do trabalho abstrato e a sua conversão em uma sociedade criadora de coisas verdadeiramente úteis. (grifo do autor)” (ANTUNES, 1995, p. 86, grifo do

autor)

Este seria o ponto de partida para uma organização societária que busca a superação do reino da necessidade para o reino da liberdade, condição para um projeto de associação livre dos indivíduos sociais identificado com o gênero humano, afirma Antunes.

Os críticos da sociedade do trabalho, com algumas exceções, constatam empiricamente a perda de relevância do trabalho abstrato na sociedade moderna, convertida em sociedade “pós- industrial” e de “serviços” e, a partir daí, generalizam para o “fim da utopia da sociedade do trabalho” em seu sentido amplo e genérico, afirma Antunes.

Quando a defesa da sociedade do mercado e do capital não é claramente explicitada nestas formulações, resta a proposição utópica e romântica do tempo livre no interior de uma sociedade fetichizada, como se fosse possível vivenciar uma vida

absolutamente sem sentido no trabalho e cheia de sentido fora dele. (ANTUNES,

1995, 86)

Por ser a classe-que-vive-do-trabalho potencialmente revolucionária é necessário que aglutine e articule o conjunto dos seus segmentos, mesmos aqueles desempregados, sub- contratados, etc., para abolir o trabalho abstrato. A revolução deve ser no e do trabalho, pois a esfera do trabalho concreto, como protoforma da atividade humana, é o ponto de partida que se pode instaurar para uma nova sociedade. Dar ênfase ao universo da não-classe dos não- trabalhadores elegendo-o como pólo potencialmente capaz de transformar a sociedade, como se fosse um segmento portador de potencialidades anticapitalistas, segundo ele, é outro equívoco de Gorz; que por outro lado, vê como irreversivelmente integrados à ordem capitalita os incapazes de lutar por uma vida emancipada, os trabalhadores formais. Outro equívoco conceitual de Gorz é caracterizar conceitualmente como não-classe dos não-trabalhadores um segmento importante e crescente da classe trabalhadora.

[...] a heterogeneidade, fragmentação e complexificação efetivam-se no interior do mundo do trabalho, nele incluído desde os trabalhadores produtivos, ‘estáveis’, até o conjunto de trabalhadores precários, daqueles que vivenciam o desemprego estrutural etc. É este conjunto de segmentos, que dependem da venda da sua força de trabalho, que configura a totalidade do trabalho social, a classe trabalhadora e o mundo do trabalho. (ANTUNES, 1995, p. 90, grifo do autor)