4.2 O Debate na Atualidade
4.2.2 Offe: o Trabalho Perdeu seu Status
Segundo o sociólogo Claus Offe (1989), o trabalho foi questão central de pesquisa para os pensadores clássicos Marx, Weber e Durkheim, por ser a atividade econômica o centro da sociedade burguesa que estava abalada pelos conflitos trabalhistas. Ele pontua três aspectos sob os quais a noção de trabalho impunha-se como pedra fundamental da teoria da sociedade para esses pensadores e teóricos da política daquela época.
O primeiro ponto que Offe levanta é o rápido crescimento quantitativo do trabalho em sua forma pura, ou seja, livre de outras esferas da ação e das funções sociais, tais como família e lazer, que eram tratados de forma conjunta. Segundo ele, “[...] esse processo de diferenciação e purificação, que pela primeira vez tornou possível a personificação do trabalho na figura social do ‘trabalhador’, estende-se à diferenciação entre a esfera doméstica e a do trabalho, entre a propriedade e o trabalho remunerado [...]” (OFFE, 1989, p. 14) O trabalho livre dos vínculos feudais que passa ser orientado pelo mercado e pelo “açoite da fome” (WEBER apud OFFE, 1989, p. 14), se transforma numa coação estrutural e ponto de partida empírico para as teorias dos clássicos. O segundo ponto que ele destaca como fator de atenção dos clássicos ao trabalho é a antiga hierarquia entre atividades “inferiores” e “superiores” que, no Século XVIII, foi nivelada ou até mesmo invertida devido a reforma protestante, as teorias político-econômicas e a revolução burguesa. O último ponto é a proletarização da força de trabalho e a liberação moral do trabalho para utilização na indústria como força motriz.
Offe quer mostrar com isso que o trabalho, no início na Sociedade Industrial, era categoria central de análise social, enquanto que na sociedade atual, ele perde sua centralidade ao ser compartilhado com outras frentes do agir humano. Dessa forma, ele enumera alguns indícios que comprovam que o trabalho se mescla com outras ações humanas. Segundo ele, dois mecanismos fariam o trabalho desempenhar papel central na vida das pessoas: sendo normatizado como obrigação para integração social ou instalado como imposição no âmbito da integração sistêmica.
No primeiro caso, o trabalho seria uma referência de uma vida moralmente correta e, no segundo, seria uma condição de sobrevivência física.
No primeiro caso, provavelmente fracassaria essa tentativa de se atribuir uma moral para o trabalho, devido a erosão das tradições culturais religiosas ou secularizadas. Outro motivo desse fracasso seria a taylorização da produção, que conduz à eliminação do “fator humano” no processo de produção industrial imediata. Nesse modelo de produção, o fator humano sempre foi visto como insegurança e transtorno, sendo que para a empresa torna-se “[...] estrategicamente racional vincular o processo produtivo a normas como a ‘responsabilidade’ e outras virtudes do trabalho.” (OFFE, 1989, p. 27)
Outro motivo que secundariza moralmente a esfera do trabalho é a desagregação dos ambientes de vida, que são homogêneos com respeito às categorias de trabalho e profissão e geram um contexto de vida composto pelo trabalho, por tradições familiares, vinculações a organizações, lazer, consumo e instrução. Argüi ele, que a tentativa de construir o ambiente de vida a partir da esfera do trabalho é cada vez mais inútil hoje, por causa da estrutura temporal e da biografia de trabalho. Em primeiro lugar, porque a formação e o exercício profissional deixaram de ter continuidade e já representam mais uma exceção que uma regra. Em segundo lugar, devido à tendência secular de redução da parcela do tempo de trabalho no tempo de vida, pois com isso se expande, cada vez mais, o tempo livre, no qual outras experiências, orientações e necessidades são determinantes. Além disso, afirma Offe,
[...] quanto maior for a extensão de experiências (ou ansiedades) de desemprego ou de retirada involuntária da atividade de trabalho remunerado, tanto mais baixo será, presumivelmente, o limiar do efeito da (auto-) estigmatização moral do desemprego, já que ele não mais poderia ser atribuído ao fracasso ou à culpa individual (principalmente no caso do desemprego maciço em certas regiões ou em certos ramos de atividades). (OFFE, 1989, p. 28)
Diz o autor que, diante desses fatos, é “[...] improvável que o trabalho volte a ter um papel central enquanto referência normativa de vida e de integração da personalidade [...].” (OFFE, 1989, p. 29) O que se pode esperar é apenas alguma influência através do segundo mecanismo, que é a condição de sobrevivência física, através do “[..] estímulo por meio dos bens adquiridos através do trabalho e/ou estímulo negativo das necessidades que por ele podem ser evitadas.” (OFFE, 1989, p. 29) Outro fator que perde relevância como motivação para a disciplina do trabalho é a redução da renda. Segundo ele, muitos optam em receber os benefícios do Estado de Bem-Estar Social e que o princípio do apóstolo Paulo adotado, também, por Josef Stalin segundo o qual “quem não
trabalha não deve comer”, não tem mais tanta validade institucional nos estados liberais de bem- estar.
Segundo Offe, uma “remoralização” das atitudes frente ao trabalho só seria possível numa crise sistêmica no contexto do Estado de Bem-Estar e a democracia concorrencial e que, a solução apontada pelos neoliberais da “auto-responsabilidade” individual e dos “mecanismos de mercado”, somente ameaçaria aquela relativa paz social da sociedade do trabalho, historicamente alcançada pelos sistemas coletivos de distribuição e seguridade.
A convivência com o contínuo desemprego e subempregos leva às desmotivações ocupacionais e a uma diminuição das pretensões salariais e qualitativas frente ao trabalho, afirma o autor.
A formação, no foco do desemprego estrutural, de subculturas de uma economia ‘informal’ próxima à pauperização, ou de uma ‘economia clandestina’, cujos participantes adquirem uma aversão no mínimo passiva com respeito aos valores e às regras legais da ‘sociedade do trabalho’, podendo facilmente enrijecer-se em uma ‘cultura do desemprego’, subproletária, em uma ‘não-classe de não-trabalhadores’ (Gorz). (OFFE, 1989, p. 32-33)
Essas constatações e reflexões sociológicas de Offe aqui, brevemente resumidas, corroboram com sua afirmação de uma crise da sociedade do trabalho, considerando-se a relevância subjetiva e o significado valorativo da esfera do trabalho. Segundo ele,
[...] uma sociedade industrial capitalista altamente desenvolvida, inserida em um Estado de bem-estar igualmente desenvolvido, tende a excluir - no plano moral, econômico e de qualificação - parcelas crescentes do potencial social de trabalho do âmbito da atividade ocupacional, sem possuir os recursos culturais ou os meios econômicos de coerção que seriam necessários à estabilização da centralidade subjetiva da orientação ao trabalho, à produção e à renda ocupacional, através de normas culturais ou da coerção muda dos processos de mercado. O trabalho foi deslocado de seu status de fato vital central e óbvio não apenas em termos objetivos, mas também perdeu tal status na motivação dos trabalhadores - em consonância com tal desenvolvimento objetivo, mas em discrepância com os valores oficiais e os padrões de legitimação da sociedade. (OFFE, 1989, p. 33)
Continua Offe,
[...] se a consciência social não mais pode ser reconstruída como consciência de classe, a cultura cognitiva não mais pode ser referenciada principalmente ao desenvolvimento das forças produtivas, o sistema político não mais se atém primordialmente à garantia das condições de produção e da superação de conflitos distributivos, e se a sociedade não mais se problematiza principalmente através da indagações que possam ser respondidas pelas categorias da escassez e da ocupação, então surge evidentemente a necessidade de um sistema de coordenadas conceituais, com o qual seria possível cartografar as esferas da realidade social não plenamente determinadas pelo âmbito do trabalho e da produção. Essa questão é o equivalente sociológico à busca, no plano da ética social em ambas as confissões
cristãs, de uma interpretação atualizada do preceito bíblico do repouso sabático, ou seja, das estruturas, dos campos de ação e das relações de sentido além da esfera do trabalho. (OFFE, 1989, p. 34)