• Nenhum resultado encontrado

A Etnometodologia

No documento Anatomias do conflito (páginas 49-53)

O estudo dos métodos dos membros, ou “etnométodos”, é o objeto de estudo dos etnometodólogos (LYNCH, 1993). Através desses “etnométodos”, os atores sociais produzem e reproduzem estruturas sociais presentes tanto no conhecimento dos sociólogos práticos – o senso comum – quanto no conhecimento dos sociólogos profissionais. A obra fundadora da etnometodologia é Studies in Ethnomethodology, de Harold Garfinkel (1967), na qual, com os resultados de suas pesquisas, o autor propôs uma transformação geral da teoria da ação.

Para tanto, suas conclusões se direcionaram a mostrar que os próprios atores sociais são conscientes de seu raciocínio sobre suas ações, raciocínio este que pode ser estudado de fora, pelos pesquisadores, na mesma medida em que são vistos por quem desenvolve esse raciocínio, pondo-o “entre parênteses”. Em outras palavras, o estudo do raciocínio dos atores a respeito de suas ações práticas é feito excluindo-se o contexto dito padronizado das ações: “esse procedimento implica que o analista deve suspender todos e quaisquer compromissos com versões privilegiadas da estrutura social” (HERITAGE, 1999, p. 381).

Essa seria a política garfinkeliana da “indiferença etnometodológica”, segundo a qual as ações seriam estudadas independentemente de onde, como, quando e por quê, sem que fossem feitos juízos de valor sobre tais ações, de modo que ocorressem espontânea e naturalmente. Outra característica igualmente importante nos estudos da etnometodologia é o estudo dos processos sociais em ambientes naturais, isto é, espontâneos/não motivados, uma vez que, para Garfinkel, a articulação do contexto com as ações nele realizadas só ocorre naturalmente.

A pesquisa garfinkeliana teve influências de Talcott Parsons e Alfred Schütz. O primeiro contribuiu para a formação de Garfinkel como sociólogo, mas foi o segundo que, ao publicar, em 1932, uma obra que fundou a corrente da fenomenologia do mundo social, influenciou mais diretamente a etnometodologia. Para Parsons, a razão que os agentes apontam para suas ações se baseia nas razões que os cientistas apontam para essas ações. Isso implica dizer que, se a explicação do agente acerca de um determinado evento não for compatível com a explicação do sociólogo profissional para esse mesmo evento, então, a validade da explicação do agente não será válida.

Garfinkel critica essa visão, dizendo que os agentes estariam, desse modo, “sedados” pelas explicações científicas das ações. Também para Parsons, a ordem social se deve ao fato de que os agentes seguem normas sociais, conformando-se com as regras que lhes são impostas socialmente para evitarem os castigos e a angústia. A etnometodologia busca negar isso, propondo uma migração no paradigma sociológico de normativo para interpretativo.

Para embasar esse paradigma interpretativista, a etnometodologia se baseia nas ideias de Schütz, que, segundo Coulon (1995, p. 11), propôs “o estudo dos processos de interpretação que utilizamos em nossa vida de todo dia, para dar sentido às nossas ações e às dos outros.”. Uma dessas ideias era a de que todos os membros de uma sociedade nunca têm experiências iguais, mas supõem que as têm, como se idênticas fossem, “para todos os fins práticos” (COULON, 1995, p. 12). Schütz acredita que os atores idealizam eventos (uma peça de teatro, por exemplo) como iguais, porque é possível haver uma troca de pontos de vista (quem se sentou na plateia poderia passar a assistir à peça do camarote e vice-versa) e porque as pessoas que participam de um mesmo evento o fazem por um mesmo motivo, assinalando assim a conformidade do sistema de pertinência. Esse conceito, o autor denominou “tese geral da reciprocidade das perspectivas”.

Outros quatro conceitos de Schütz são caros à etnometodologia. O primeiro deles é a suspensão geral da dúvida, ou seja, grosso modo, os agentes não ficam se perguntando a todo momento se os fatos e os eventos são como são ou como seriam se não fossem como parecem ser – “a objetividade e a tipicalidade dos objetos e eventos comuns são captadas como ponto pacífico” (HERITAGE, 1999, p. 330). Em segundo lugar, as ações são construídas e explicadas sempre a partir de experiências anteriores – as chamadas “„sínteses de identificação‟ interminavelmente renovadas” (HERITAGE, 1999, p. 330). Um terceiro conceito de Schütz é o do estoque de conhecimento, segundo o qual tudo o que se conhece é de alguma forma internalizado e acessado quando o ator social se depara com situação semelhante. Por fim, o quarto conceito é o da tipificação, uma vez que as experiências dos agentes são analisadas e revisadas segundo o seu próprio paradigma de organização da ação.

Outra corrente de pensamento muito influente na etnometodologia foi o interacionismo simbólico (termo cunhado por Herbert Blumer), cuja origem se deu na Escola de Chicago, por meio de seus principais representantes: Robert Park, Ernest

Burgess e William Thomas. Segundo Joas (1999, p. 131), a Escola de Chicago pode ser descrita como a:

[...] combinação de uma filosofia pragmática, de uma orientação política reformista para as possibilidades da democracia num quadro de rápida industrialização e urbanização, e dos esforços para transformar a sociologia numa ciência empírica, sem deixar de atribuir grande importância às fontes pré-científicas do conhecimento experimental.

Para os interacionistas, a interação se define como uma ordem que deve ser negociada recorrentemente a todo momento (GOFFMAN, 1983), uma vez que o mundo social não é dado mas construído no “aqui e agora” das ações sociais. Em outras palavras, nessa corrente de pensamento, os atores sociais atribuem sentidos (significado social) aos objetos durante as interações e, mesmo que esses sentidos se estabilizem com o passar do tempo, eles são renegociados a cada interação – os eventos sempre se apresentam para os atores sociais como se fosse “uma nova primeira vez”. E foram essas as noções absorvidas pela etnometodologia.

Garfinkel (1967), com seus experimentos de ruptura, procura demonstrar que a percepção de um evento social como normal é “ambiental”, e não “cerebral” (interna ao indivíduo). Trabalhando inicialmente com jogos, o pesquisador mostrou que, quanto menos dispostos a mudar ou aceitar mudanças nas suas regras, mais perturbados se tornavam os agentes, uma vez que romper com as expectativas do outro resulta em estranhamento por parte desse outro. O autor percebeu também que,

se todas as ações podem ser analisadas à luz de suas estruturas constitutivas e essas últimas são visíveis – ainda que de um modo „visto, mas não notado‟ – na organização da própria ação, então fica aberto o caminho para uma análise estrutural pormenorizada dessa organização. (HERITAGE, 1999, p. 337).

No entanto, é válido ressaltar que, mesmo diante do estranhamento, os “pacientes” de Garfinkel não interpretaram a “ruptura” como sem sentido ou não motivada, pelo contrário, a indignação deles diante da ação dos experimentadores35 era justamente querer saber o porquê daquelas atitudes. Isso mostrou que os procedimentos interpretativos dos agentes, então, são duplamente constitutivos, ou seja, o que leva alguém a interpretar uma dada ação como “normal” é o mesmo procedimento que leva alguém a perceber o “desvio” da “normalidade”, uma vez que os pacientes eram capazes de explicar como e por que suas expectativas foram rompidas.

35

Sobre os procedimentos interpretativos dos agentes, Aaron Cicourel (1970, p. 146) se utilizou dos conceitos da etnometodologia para criar uma definição: “são propriedades invariantes do raciocínio prático cotidiano, necessário para fixar sentido às regras que os sociólogos geralmente chamam de norma”36. Segundo Cicourel, assim como a gramática gerativa não é um modelo para o falante e para o ouvinte, mas uma base para revelar como o uso real é possível, a ideia de estrutura social gerativa ou praxeológica não é um modelo para membros bem-socializados de uma sociedade, mas uma tentativa de mostrar (1) como a aquisição de procedimentos interpretativos e regras de superfície é necessária para entender as atividades cotidianas dos membros e (2) como os membros e os pesquisadores fixam descrições estruturais a todas as formas de organização social.

Nessa linha de entendimento, prossegue a etnometodologia, quando aponta que o membro da sociedade decide, no aqui-e-agora da interação, se vai ou não seguir uma determinada norma. Normas, para a etnometodologia, não são padrões rígidos de comportamento, mas recursos flexíveis que devem se ajustar ao contexto de realização. As convenções normativas são pressupostos dos campos de ação que elas tornam inteligíveis e explicáveis. Por meio dessas convenções, os atores são capazes de interpretar e explicar as cenas do cotidiano.

Em certos momentos, tais explicações lançam mão de expressões indiciais (“eu”, “aqui”, “lá”, “isto”, entre outras), ou seja, expressões que necessitam de um contexto de produção para se tornarem compreensíveis, confirmando a noção de que a linguagem não dá conta sozinha de toda a descrição do mundo social. Por isso, Cicourel (1970) acredita que adquirir a linguagem é também uma forma de adquirir a estrutura social, porque, para as crianças, o sentido das palavras está contido nas sentenças, motivo pelo qual elas adquirem uma linguagem rica em expressões indiciais das quais vão se “libertando” com o passar do tempo. A indicialidade etnometodológica, portanto, é mais uma confirmação de que o contexto não pode estar desvinculado dos procedimentos interpretativos das ações sociais.

Garfinkel e sua etnometodologia influenciaram algumas das correntes sociológicas de pesquisa existentes atualmente, entre elas a Sociolinguística Interacional e a Análise da Conversa. Segundo Heritage (1999, p. 383), essas correntes entendem que “o conhecimento usado nos cenários cotidianos não pode ser analisado

36

[Interpretive procedures] are invariant properties of everyday practical reasoning necessary for assigning sense to the substantive rules sociologists usually call norms.

independentemente dos cursos de ação mediante os quais ele é influenciado, mantido e validado.”. Além disso, são linhas de pesquisa que tornam importante, em seus pressupostos metodológicos, a necessidade de se voltar para o estudo empírico dos fenômenos sociais.

Tendo discutido brevemente alguns conceitos muito caros à etnometodologia, principalmente aqueles relevantes para nossas observações analíticas nos capítulos posteriores, apresentamos a seguir os conceitos básicos da Sociolinguística Interacional que norteiam esta pesquisa.

No documento Anatomias do conflito (páginas 49-53)