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O registro dos dados

No documento Anatomias do conflito (páginas 82-86)

Esta tese é desdobramento de um projeto maior conduzido à época, intitulado A

prática da formulação na mediação judicial familiar49. Atualmente, esses dados fazem parte do banco de dados do Grupo de Pesquisa LiPro (Linguagem e Profissões). Os registros dos dados e as transcrições iniciais não foram feitos apenas pelo autor deste trabalho, mas por todos os integrantes do grupo entre os meses de maio e agosto de 2007.

O coordenador do projeto e orientador desta pesquisa fez o contato inicial e começou as gravações em áudio, e os demais integrantes do grupo, logo em seguida, procederam às transcrições iniciais. De posse de todas essas informações, nossa tarefa passou a ser, então, a de selecionar os fragmentos nos quais nossa análise detalhada iria se centrar, formando assim uma coleção de ocorrências do fenômeno de interesse.

Sobre a gravação de dados, ten Have (2004) aponta uma estratégia, atribuída à metodologia da ACE: o envolvimento do estudo das práticas cotidianas por meio da gravação de alguns “materiais” com o uso de equipamentos de áudio e vídeo. Essas gravações são, por sua vez, transcritas de modo que os procedimentos de uso do senso comum são limitados à escuta do que foi dito e pela percepção de como tal material foi dito. É tarefa do analista, portanto, formular um “mecanismo” que possa ser usado para produzir aquele material e o fenômeno agregado a ele. Entretanto, o autor demarca uma diferença entre os estudos estritamente etnometodológicos e o estudo subjacente à ACE: enquanto na etnometodologia o problema de “visibilidade” da questão é – em parte – resolvido pela criação ou seleção de ambientes “estranhos” (vide os experimentos de

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ruptura relatados por GARFINKEL, 1967), em ACE, essa tarefa de “estranhamento” é desempenhada pelos equipamentos de gravação e pelo processo de transcrição.

A gravação dos dados foi feita em um aparelho analógico50 de gravação da marca Panasonic, modelo RQ-L11, a partir do segundo encontro de Sônia com cada uma das partes. O pesquisador responsável pelas gravações foi o professor-orientador deste projeto, o qual participou da maioria dos encontros gravados, no entanto, apenas como ouvinte, apenas fazendo anotações pessoais – as chamadas “notas de campo”–, sem participação ativa relevante para o cenário interacional construído. Ele também realizou – e gravou – duas entrevistas com a representante da instituição, a fim de obter mais informações contextuais sobre o caso analisado. Nos encontros em que ele não esteve presente, como no quarto encontro conjunto, por exemplo, a própria mediadora gravava os encontros.

Tal como afirmamos anteriormente, nossos dados foram gravados exclusivamente em áudio. Assim como Fortes (2009), temos ciência das restrições que se impõem para a análise de dados gravados apenas em uma modalidade de comportamento (a verbal). Sabemos que nossa análise não poderá contemplar os aspectos multimodais das interações (BULLA, 2007, p. 19-22), mas sabemos também que nossa contribuição não se desqualifica por isso, já que os elementos conversacionais produzidos vocalmente são bastante representativos do comportamento social dos participantes.

Devido a essa dificuldade, ressaltamos também a posição de Tannen (1984), segundo a qual raramente o não verbal contradiz o verbal. Além disso, para tentar suprir um pouco dessa falta de acesso visual dos encontros, pudemos contar com as notas de campo feitas pelo nosso pesquisador-orientador, que se colocou como observador, e também contamos com as notas de observação de Sônia, a representante da instituição, que, conosco, em um trabalho colaborativo (SARANGI, 2001) nas reuniões do grupo de pesquisa, prestou todas as informações necessárias para uma melhor compreensão dos encontros.

Nosso trabalho, ao ser realizado em Vara de Família, lida com processos judiciais que correm no chamado segredo de Justiça. É pacificamente aceito que processos relacionados ao Direito de Família devam ser tratados sigilosamente, razão

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pela qual a entrada de pesquisadores nesses cenários se torne mais dificultada, face a esse impedimento unanimemente aceito na comunidade de prática dos juízes.

Quando o primeiro contato foi feito, a juíza se mostrou bastante receptiva à possibilidade da pesquisa e autorizou a presença dos pesquisadores, mas, quando foi feito o pedido de permissão para que os dados fossem gravados, uma resistência foi encontrada. Depois de muita negociação, a autorização para que os dados fossem gravados em áudio, e somente em áudio, foi dada pela juíza, com a condição de que a permissão deveria ser dada também pelos participantes do estudo. Estes, no entanto, não demonstraram resistência e autorizaram prontamente as gravações.

Outro empecilho que precisamos considerar atualmente diz respeito ao TCLE – o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido – que nossa instituição, através do seu Comitê de Ética, passou a solicitar desde 2009 para pesquisas de natureza semelhante à nossa (com entrevistas e gravações em que seja necessária a omissão dos nomes reais dos “sujeitos”). Segundo o grupo de avaliadores, para que nossos dados pudessem servir como fonte de pesquisa, os participantes precisariam preencher e assinar esse termo, entretanto, como a coleta de dados foi em 2007 e como não temos mais contato com Amir e Flávia, conseguir essa autorização seria inviável. Em razão dessas justificativas, o projeto atual do nosso orientador (utilizando os mesmos dados), que, pelas novas disposições burocráticas, deveria ser avaliado, já foi aprovado pelo Comitê de Ética da UFJF, que autorizou o uso dos dados, dispensando o TCLE, devido ao contexto e às circunstâncias da época.

A quantificação de dados é também outra questão discutida pela ACE. Segundo Schegloff (1993; 1995) e Hutchby e Wooffitt (1998), há uma relutância em estudos analíticos da conversa quanto a tratar a quantificação de dados como um fim último, porque tais estudos estariam relacionados à importância da descoberta da ordem da fala a partir da perspectiva dos participantes51, e com o papel da interpretação de senso comum na geração das análises.

A ACE, ainda de acordo com esses autores, evita tratar os fenômenos de fala- em-interação como variáveis estatísticas, porque, em geral, o objetivo dos estudos dessa área é, normalmente, explicar, com base na visão caso a caso (e não na perspectiva

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A perspectiva dos participantes é entendida aqui como o conjunto das demonstrações de entendimentos produzidas pelos falantes à medida que vão construindo suas elocuções e compondo a conversa. Ao analista, caberia então descrever e detalhar os fenômenos observados a partir do que se vê que os participantes tenham demonstrado ter sido importante para eles no momento da interação (LODER, 2006; GARCEZ, 2008).

generalizante dos números), as competências sistemáticas com as quais os participantes de uma conversa cotidiana contam para entender as ações um do outro e para gerar respostas interacionalmente apropriadas.

Por fim, é válido fazer alguns apontamentos que, segundo Peräkylä (1998), podem variar de acordo com os métodos utilizados, mais especificamente no que se refere a três fatores: seleção de o que é gravado; qualidade técnica das gravações; e adequação das transcrições. O primeiro deles: depois de selecionar o que vai ser gravado (sala de aula, consulta médica, cenário jurídico, entre outros eventos), o pesquisador precisa decidir, consequentemente, o quanto vai gravar. É importante que o pesquisador tenha uma base de dados bem ampla em casos nos quais um determinado fenômeno ocorre/ pode ocorrer poucas vezes. A qualidade de gravação – segundo fator – é decisiva: quanto maior a qualidade de gravação, menor o risco de se perder alguma coisa ou de se ter expressões inaudíveis. A localização da aparelhagem também é importante. As transcrições também devem corresponder, o mais fielmente possível, ao que foi gravado, ou seja, necessitam ser precisas e benfeitas. No entanto, por ser um trabalho de percepção pessoal, a tendência é que outros pesquisadores sempre vejam detalhes que não foram apontados antes. Além disso, transcrições “simplificadas” podem tornar as análises mais receptivas, principalmente se a audiência não for especializada em ACE.

A seguir, apresentamos um diagrama que aponta o local dos encontros:

Quadro 6 - O lugar ocupado pelos participantes

É importante ressaltar que não houve uma preocupação em se representar o espaço físico graficamente, com respeito ao uso de escalas ou qualquer outro recurso do gênero. Esta imagem foi produzida por nós mesmos no programa Paint do Windows, apenas para dar ao leitor uma ideia aproximada de onde se localizaram os participantes. As letras indicam as iniciais dos participantes e o lugar que eles ocuparam nos encontros (a letra “P” aponta o lugar ocupado pelo pesquisador, a letra “S” indica o lugar de Sônia, e as letras “A” e “F”, os lugares ocupados por Amir e Flávia respectivamente). É importante ressaltar que o aparelho gravador ficava posicionado na mesa do computador (o “pc” no diagrama).

No documento Anatomias do conflito (páginas 82-86)