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A execução de Caryl Chessman

No documento Portal Luz Espírita (páginas 76-80)

O dia 30 de abril de 1960 reservara­me outro grande sucesso, embora fosse  um sábado comum como outro qualquer. 

Como de hábito, colocara o microfone diante da janela aberta, quando um  tentilhão de faia começou a trinar alegremente. Resolvi então fixar o seu gorjeio na  fita. Logo a seguir escutei a gravação e percebi, de repente, no meio do trinado do  pássaro,  uma  voz  que  me  chamava  pelo  nome.  Era  a  voz  de  minha  mãe.  Ela  se  chamava  Helena  e  morrera  no  ano  de  1955,  em  consequência  de  uma  fratura  da  bacia. Involuntariamente, lembrei­me de sua hora suprema, quando, sentado ao lado  de  sua  cama,  segurava  a  sua  mão  macia  e  murcha,  até  que  finalmente  cessou  a  última e débil batida do pulso. 

Rodei  a  fita novamente.  A  voz  soava  vivida  e  cálida,  e  pude  até  perceber  certa impaciência e preocupação quando ela me chamou pela quarta vez pelo nome.  Acho que tinha receio de que  eu não a escutasse. Saí correndo para chamar minha  irmã e minha mulher, mas elas tinham saído. Ao voltar, encontrei o gato Mitzi em  cima da mesa, piscando sonolento diante da janela aberta.  Liguei de novo o aparelho para gravação pelo microfone, pois tinha a viva  impressão de que algo ainda iria ocorrer. 

O  resultado  da  segunda  gravação  foi  mais  assombroso.  Quebrando  o  silêncio, uma voz de mulher começou a falar, e logo reconheci a voz de minha mãe.  Soava  agora  um  tanto  cansada,  sem  a  vivacidade  de  antes,  como  se  ela  estivesse  sonolenta e falasse penosamente num tom arrastado: “ Ihr liebt ihr lebt in Liebe...”   (“ Vocês amam, vocês vivem em amor...”) Depois prosseguiu com voz trêmula: “ In  mir Elly lebt... Friedel lebt... ihr... ach! Wir leben... Elly, Friedel, Papa lebt... viele  leben...  ach,  ach!  Ihr  liebt  Heiene...”  (“ Elly  vive  dentro  de  mim...  Friedel  vive...  vocês vivem... ah! Nós, vivemos, ah, ah! Vocês amam Helene...” ) 

Quando,  mais  tarde,  mostrei  a  gravação  à  minha  irmã  e  à  minha  mulher,  elas  reconheceram  imediatamente  a  voz  de  mamãe.  Escutavam  emocionadas  e,  como eu, compreenderam claramente as palavras.

Tarde da noite, liguei o rádio e percebi logo o sussurro de Lena: “ Pelle —  alle Mamas haben ein Herz...” (“ Pelle — todas as mães têm coração...”), disse ela  com voz comovida. 

Com essa frase amorável, encerrou­se um dia feliz e bem sucedido. 

No  dia  seguinte,  1º  de  maio,  pus­me  desde  cedo  a  examinar  as  últimas  gravações. 

Escutei  com  alegria  e  gratidão  a  voz  de  minha  querida  mãe  e  analisei  minuciosamente cada palavra. 

Apesar de minha grande satisfação, preocupava­me o  fato  de haver  minha  mãe  conseguido  produzir  tantos  sons  num  ambiente  silencioso,  O  que  mais  me  espantava  é  que  as  palavras  semelhantes,  como  lebt  (vive),  liebt  (ama)  e  liebe  (amor),  repetiam­se  muitas  vezes,  uma  circunstância  que  indicava  a  existência  de  frequência de som limitadas. De repente, percebi que devia ter sido a respiração de  Mitzi  que  fornecera  o  material  para  a  formação  das  palavras,  e  assim  se  explicava  naturalmente a razão das frases intermitentes. 

Já  me  dispunha  a  retroceder  a  fita  magnética,  quando  captei  pelos  fones  auriculares certo sinal, usado de  vez  em quando naquela época pelos meus amigos  através  das  ondas radiofônicas.  O  simples  fato  de  que  esse  sinal  pudesse  ser  dado  sem ligação com o rádio era sumamente notável. 

Liguei o rádio imediatamente, girando o primeiro botão que estava sob  os  meus  dedos,  e  peguei  uma  emissora  sueca  que  irradiava,  em  ondas  longas,  uma  palestra histórico­cultural. 

O orador falava alto e de modo claro, mas, ao mesmo tempo, podia­se ouvir  a  voz  muito  elevada  de  um  tenor,  cantando  à  distância.  Cantava  sem  qualquer  acompanhamento, e as passagens melódicas pareciam improvisadas. De certo modo,  a voz se me afigurava familiar e, pouco depois, veio­me o lampejo: Boris Sacharow,  meu amigo de infância! 

Tudo  ocorreu  demasiadamente  rápido.  Com  algum  esforço,  pude  captar  somente umas poucas palavras, inclusive o meu nome e o de Boris Raja, e então o  canto cessou. 

Outra  vez  a  excessiva  emoção  e  impaciência  impediram­me  de  perceber  com  clareza.  Só  depois  de  muitas  horas,  pude  determinar  a  sequência  exata  das  palavras. 

No  que  se  refere  ao  canto  de  Boris,  preciso  fazer  alguns  esclarecimentos.  Boris  era  um  homem  bem  talentoso  e  versátil.  Tocava  piano  maravilhosamente,  pintava, desenhava e esculpia, não como simples amador, mas como um artista, na  verdadeira acepção da palavra. Dominava vários idiomas, inclusive o sânscrito. Na  Alemanha publicara vários livros de Yoga. 

Mas  antes  de  tudo,  Boris  cantava,  e  cantava  com  apaixonado  entusiasmo.  Sua  voz  de  tenor  lírico  tinha  um  timbre  extraordinariamente  alto.  Há  vinte  e  sete

anos  que  não  via  o  Boris,  e  agora,  sentado  no  meu  pequeno  quarto  do  sótão,  escutava emocionado o seu canto. 

“ Ich sende dir Kontakt Friedrich!...” (“Eu te envio contato Frederico!...”),  cantava Boris em alemão. “ Boris Raja, der lebt im Himmel und wirkt, Amen... und  Yogis  Weisheit  wahrt...  Amen!”   (“ Boris  Raja,  este  vive  no  Céu  e  atua,  amém...  e  sabedoria yoga subsiste... Amém!” ) 

Boris cantava num volume de som intenso, numa escala sempre crescente.  Não chegava a ser uma perfeita melodia, pois o canto se constituía de notas  altas, entoadas em fortíssimo. 

O  estranho  é  que  Boris  também  dava  a  impressão  de  estar  apressado.  Conquanto me sentisse alegre e surpreso, duas circunstâncias não me pareciam bem  claras, e eu perguntava a mim mesmo por que Boris cantava, em vez de falar! E por  que usava o idioma alemão, se sempre conversamos em russo? Há muito observara  que  a  maioria  das  vozes  que  se  dirigiam  a  mim  através  da  fita  magnética  ou  do  rádio,  utilizava  uma  mistura  de  línguas  e  habitualmente  modificava,  de  modo  singular, certas palavras e expressões. 

Aliás, há cerca de um ano, os meus amigos anônimos se referiram ao The  Poliglotic  Communication  Department,  e  isto  com  relação  a  um  trabalho  que  eu  deveria  executar no  futuro.  Naquela  época  não  entendera  bem  o  sentido.  Só  agora  começava  a  assimilar  e  compreender  que  o  meu  conhecimento  de  vários  idiomas  representava um fator importante. 

Foi no dia 1º de maio que, pela primeira vez, entrei em contato com Boris e,  portanto, no mesmo dia em que Felix Kersten e minha mãe falaram comigo. Quem  seria o próximo? 

Só  se  podem  entender  tais  contatos  pouco  a  pouco.  Eles  produzem  uma  espécie de choque emocional, e é preciso que nos acostumemos primeiro com eles. 

E foi assim que, no auge da alegria, esqueci o destino do americano Caryl  Chessman,  condenado  à  morte,  cuja  execução  ou  adiamento  se  deveria  decidir  nesses dias. 

Como  o  meu  rádio  apresentasse  distúrbios,  tentei,  na  noite  seguinte,  estabelecer contato radiofônico com Lena, minha assistente do Além. 

A  primeira  palavra  que  ela  disse  em  sueco  foi:  “Executado.”  Depois,  de  forma um tanto desconexa, contou­me o seguinte:“ Eu já relatei Mälarhojden, Lena.  Pelle,  tu  podes  ajudar  Chessman  executado...  ajuda  Karma,  ajuda,  Pelle!...”   Sua  voz parecia emocionada, e diligentemente ela misturava palavras alemães e suecas.  Creio que o mundo inteiro acompanhou pelos jornais a luta desesperada de  Chessman para salvar a própria vida. Era a aposta de uma corrida tenaz e dolorosa  com a morte, que durou doze anos.  Um crudelíssimo jogo de gato e rato, que só terminou quando os guardiães  dos parágrafos da lei desalmada conseguiram liquidar a sua vítima.

O  caso  Chassman  representa  um  vergonhoso  estigma,  não  apenas  para  a  Justiça dos Estados Unidos, mas também para todos os defensores da pena de morte  no mundo inteiro.

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No documento Portal Luz Espírita (páginas 76-80)