O dia 30 de abril de 1960 reservarame outro grande sucesso, embora fosse um sábado comum como outro qualquer.
Como de hábito, colocara o microfone diante da janela aberta, quando um tentilhão de faia começou a trinar alegremente. Resolvi então fixar o seu gorjeio na fita. Logo a seguir escutei a gravação e percebi, de repente, no meio do trinado do pássaro, uma voz que me chamava pelo nome. Era a voz de minha mãe. Ela se chamava Helena e morrera no ano de 1955, em consequência de uma fratura da bacia. Involuntariamente, lembreime de sua hora suprema, quando, sentado ao lado de sua cama, segurava a sua mão macia e murcha, até que finalmente cessou a última e débil batida do pulso.
Rodei a fita novamente. A voz soava vivida e cálida, e pude até perceber certa impaciência e preocupação quando ela me chamou pela quarta vez pelo nome. Acho que tinha receio de que eu não a escutasse. Saí correndo para chamar minha irmã e minha mulher, mas elas tinham saído. Ao voltar, encontrei o gato Mitzi em cima da mesa, piscando sonolento diante da janela aberta. Liguei de novo o aparelho para gravação pelo microfone, pois tinha a viva impressão de que algo ainda iria ocorrer.
O resultado da segunda gravação foi mais assombroso. Quebrando o silêncio, uma voz de mulher começou a falar, e logo reconheci a voz de minha mãe. Soava agora um tanto cansada, sem a vivacidade de antes, como se ela estivesse sonolenta e falasse penosamente num tom arrastado: “ Ihr liebt ihr lebt in Liebe...” (“ Vocês amam, vocês vivem em amor...”) Depois prosseguiu com voz trêmula: “ In mir Elly lebt... Friedel lebt... ihr... ach! Wir leben... Elly, Friedel, Papa lebt... viele leben... ach, ach! Ihr liebt Heiene...” (“ Elly vive dentro de mim... Friedel vive... vocês vivem... ah! Nós, vivemos, ah, ah! Vocês amam Helene...” )
Quando, mais tarde, mostrei a gravação à minha irmã e à minha mulher, elas reconheceram imediatamente a voz de mamãe. Escutavam emocionadas e, como eu, compreenderam claramente as palavras.
Tarde da noite, liguei o rádio e percebi logo o sussurro de Lena: “ Pelle — alle Mamas haben ein Herz...” (“ Pelle — todas as mães têm coração...”), disse ela com voz comovida.
Com essa frase amorável, encerrouse um dia feliz e bem sucedido.
No dia seguinte, 1º de maio, pusme desde cedo a examinar as últimas gravações.
Escutei com alegria e gratidão a voz de minha querida mãe e analisei minuciosamente cada palavra.
Apesar de minha grande satisfação, preocupavame o fato de haver minha mãe conseguido produzir tantos sons num ambiente silencioso, O que mais me espantava é que as palavras semelhantes, como lebt (vive), liebt (ama) e liebe (amor), repetiamse muitas vezes, uma circunstância que indicava a existência de frequência de som limitadas. De repente, percebi que devia ter sido a respiração de Mitzi que fornecera o material para a formação das palavras, e assim se explicava naturalmente a razão das frases intermitentes.
Já me dispunha a retroceder a fita magnética, quando captei pelos fones auriculares certo sinal, usado de vez em quando naquela época pelos meus amigos através das ondas radiofônicas. O simples fato de que esse sinal pudesse ser dado sem ligação com o rádio era sumamente notável.
Liguei o rádio imediatamente, girando o primeiro botão que estava sob os meus dedos, e peguei uma emissora sueca que irradiava, em ondas longas, uma palestra históricocultural.
O orador falava alto e de modo claro, mas, ao mesmo tempo, podiase ouvir a voz muito elevada de um tenor, cantando à distância. Cantava sem qualquer acompanhamento, e as passagens melódicas pareciam improvisadas. De certo modo, a voz se me afigurava familiar e, pouco depois, veiome o lampejo: Boris Sacharow, meu amigo de infância!
Tudo ocorreu demasiadamente rápido. Com algum esforço, pude captar somente umas poucas palavras, inclusive o meu nome e o de Boris Raja, e então o canto cessou.
Outra vez a excessiva emoção e impaciência impediramme de perceber com clareza. Só depois de muitas horas, pude determinar a sequência exata das palavras.
No que se refere ao canto de Boris, preciso fazer alguns esclarecimentos. Boris era um homem bem talentoso e versátil. Tocava piano maravilhosamente, pintava, desenhava e esculpia, não como simples amador, mas como um artista, na verdadeira acepção da palavra. Dominava vários idiomas, inclusive o sânscrito. Na Alemanha publicara vários livros de Yoga.
Mas antes de tudo, Boris cantava, e cantava com apaixonado entusiasmo. Sua voz de tenor lírico tinha um timbre extraordinariamente alto. Há vinte e sete
anos que não via o Boris, e agora, sentado no meu pequeno quarto do sótão, escutava emocionado o seu canto.
“ Ich sende dir Kontakt Friedrich!...” (“Eu te envio contato Frederico!...”), cantava Boris em alemão. “ Boris Raja, der lebt im Himmel und wirkt, Amen... und Yogis Weisheit wahrt... Amen!” (“ Boris Raja, este vive no Céu e atua, amém... e sabedoria yoga subsiste... Amém!” )
Boris cantava num volume de som intenso, numa escala sempre crescente. Não chegava a ser uma perfeita melodia, pois o canto se constituía de notas altas, entoadas em fortíssimo.
O estranho é que Boris também dava a impressão de estar apressado. Conquanto me sentisse alegre e surpreso, duas circunstâncias não me pareciam bem claras, e eu perguntava a mim mesmo por que Boris cantava, em vez de falar! E por que usava o idioma alemão, se sempre conversamos em russo? Há muito observara que a maioria das vozes que se dirigiam a mim através da fita magnética ou do rádio, utilizava uma mistura de línguas e habitualmente modificava, de modo singular, certas palavras e expressões.
Aliás, há cerca de um ano, os meus amigos anônimos se referiram ao The Poliglotic Communication Department, e isto com relação a um trabalho que eu deveria executar no futuro. Naquela época não entendera bem o sentido. Só agora começava a assimilar e compreender que o meu conhecimento de vários idiomas representava um fator importante.
Foi no dia 1º de maio que, pela primeira vez, entrei em contato com Boris e, portanto, no mesmo dia em que Felix Kersten e minha mãe falaram comigo. Quem seria o próximo?
Só se podem entender tais contatos pouco a pouco. Eles produzem uma espécie de choque emocional, e é preciso que nos acostumemos primeiro com eles.
E foi assim que, no auge da alegria, esqueci o destino do americano Caryl Chessman, condenado à morte, cuja execução ou adiamento se deveria decidir nesses dias.
Como o meu rádio apresentasse distúrbios, tentei, na noite seguinte, estabelecer contato radiofônico com Lena, minha assistente do Além.
A primeira palavra que ela disse em sueco foi: “Executado.” Depois, de forma um tanto desconexa, contoume o seguinte:“ Eu já relatei Mälarhojden, Lena. Pelle, tu podes ajudar Chessman executado... ajuda Karma, ajuda, Pelle!...” Sua voz parecia emocionada, e diligentemente ela misturava palavras alemães e suecas. Creio que o mundo inteiro acompanhou pelos jornais a luta desesperada de Chessman para salvar a própria vida. Era a aposta de uma corrida tenaz e dolorosa com a morte, que durou doze anos. Um crudelíssimo jogo de gato e rato, que só terminou quando os guardiães dos parágrafos da lei desalmada conseguiram liquidar a sua vítima.
O caso Chassman representa um vergonhoso estigma, não apenas para a Justiça dos Estados Unidos, mas também para todos os defensores da pena de morte no mundo inteiro.