No dia seguinte — era um sábado, e os amigos de Hugo haviam chegado de Estocolmo — contei a Hugo o meu sonho.
— Estranho, muito estranho — disse Hugo admirado. — Não tenho nenhum parente que se chame Hugo F., mas na juventude fui oficial de cavalaria...
Comentei o sonho também com os amigos de Hugo, mas nenhum deles soube explicar o ocorrido com aquele parente místico.
Na quartafeira à tarde irrompeu uma violenta trovoada sobre Mölnbo. No verão, costumava ficar na cabana, e como ela não tinha páraraios, levanteime e despertei minha irmã, que dormia no andar térreo. A trovoada durou algumas horas, acompanhada de chuva torrencial.
Na manhã seguinte, Hugo me apareceu na porta. Estava pálido, com aparência cansada, e tinha a fronte coberta de suor.
— Passei uma noite horrível — principiou ele, com voz rouca e desalentada.
— Creio que estou com angina do peito, pois senti dores atrozes na região cardíaca.
Foi horrível, e eu não sabia o que fazer...
Fiquei apreensivo e aconselhei Hugo a consultar um médico imediatamente.
— Toda a vez que refulgia um raio — continuou ele — meu coração doía a ponto de me tirar a respiração. Creio que isso se relacionava com as descargas elétricas da atmosfera.
Depois de longa discussão, Hugo resolveu telefonar para um médico conhecido.
No dia seguinte estava bem melhor, e retomou seus trabalhos na estufa. Mas desta vez interferi energicamente e insisti com ele para que fosse à cidade fazer um exame meticuloso.
Fiquei preocupadíssimo com o estado de saúde de Hugo, pois sabia que ele habitualmente não dava a mínima importância a enfermidades físicas. Assim que melhorava um pouco, deixava tudo de lado e não se preocupava mais com o corpo.
No sábado à noite, Hugo deveria vir, com os seus amigos, novamente para Nysund. O dia esteve muito abafado e úmido e, ao entardecer, começaram a se
formar grossos flocos de nuvens. Eu já havia aquecido bem a cabana de Hugo, para evitar que ele fosse rachar lenha.
Pouco depois das nove horas da noite, Hugo chegou com seus amigos. Estava disposto e bemhumorado. Aviseilhe que a cabana já estava aquecida e fui me deitar. Como me sentia bastante cansado adormeci imediatamente. Embora tenha um sono muito leve, costumo dormir totalmente tranquilo e relaxado.
Mas desta vez havia algo errado. Não tive nenhuma visão onírica, mas, inexplicavelmente, no estado de semiconsciência em que me encontrava, sentia uma inquietação torturante, como se qualquer coisa distante ameaçasse atingirme. Era uma sensação angustiosa e alarmante, e quando eu queria acordar era novamente subjugado pelo cansaço.
Súbito despertei, com a voz de minha mulher chamandome do lado de fora.
Foi um despertar angustiado, e pressenti imediatamente que Hugo estava à morte.
Sem acordar minha irmã, vesti o roupão e corri para a casagrande, onde minha mulher e Birgitta R. pediam por telefone uma ambulância de Södertölje.
Havia uma espessa neblina, e minha mulher resolveu ir de carro até Mölnbo, ao encontro da ambulância.
Hugo estava sentado à beira da cama, enrolado num cobertor. Seus olhos tinham um brilho febril, e sua fronte estava coberta de suor. Um horrível estertor escapava do seu peito agonizante, embora ele estivesse totalmente consciente. Ao verme chegar, disse: “Não posso falar...” Abri a janela e senteime ao seu lado, começando a abanálo com uma revista qualquer, a fim de facilitarlhe a respiração. Gunnar R., amigo de Hugo, caminhava de um lado para outro do quarto. Ele também sofria do coração e estava muito abatido.
— Demoslhe uns comprimidos de Nitroglicerina, mas não fizeram nenhum efeito — disse ele. Mais tarde chegou Birgitta, e nós nos sentamos perto dele, amparandoo de ambos os lados. Tomeilhe o pulso, que batia assustadoramente rápido. Toda a minha atenção se concentrava na sua respiração ofegante. Ele sentia terrível falta de ar, e eu nada podia fazer.
Por um curto espaço de tempo pareceu melhorar e até dirigiu umas palavras amáveis a Birgitta, mas depois começou a luta final com a morte. Aqueles que já assistiram à agonia de um ente querido me compreendem. E sabem também como somos impotentes diante do poder da morte.
Hugo ainda falou uma vez, dizendo num tom breve e objetivo: “ Estou mais aliviado...” Um pensamento ocorreume como um relâmpago: — “ Hugo está abandonando o corpo, portanto estão cessando as suas dores.”
À uma hora e vinte minutos, chegou a ambulância. Todas as tentativas para reanimálo foram em vão, pois, há dez minutos, exalara o último suspiro.
Quando levaram o corpo inerte de Hugo para a ambulância e um enfermeiro envolvialhe o queixo com uma faixa de gaze, aconteceu um estranho fenômeno.
Profundamente abalado pela morte de Hugo, sentiame como que pairando entre dois mundos, e por isso não me admirei quando o ouvi dizer com uma voz satisfeita: “ Tudo correu bem.” Contudo, não sei dizer se sua voz resoou dentro de mim ou externamente.
Lá fora se adensava a neblina. A cabana de Hugo estava bem iluminada, pois os homens da ambulância haviam acendido todas as lâmpadas. Era um cenário fantasmagórico, com arabescos de luz intensa e sombras alongandose e diluindo na distância brumosa.
Então soou novamente a voz de Hugo... “ Tarde demais, tarde demais!”, disse ele num tom divertido, e percebi que se esforçava para reprimir o riso. Quando, por volta das cinco horas da manhã, fui deitarme cansado e oprimido, ouvi Hugo falar pela terceira vez e justamente no momento em que estava adormecendo: “ Que maravilhosa sensação de liberdade!”, disse ele com profundo alívio. Raras vezes o ouvira falar com tanta convicção.
Nos três dias subseqüentes, experimentei o poder transformador da morte de um modo completamente diferente. Provavelmente, o leitor perguntará a si mesmo porque a morte do meu amigo haveria de causarme tanta dor, uma vez que eu tinha plena certeza de que ele continuava vivo e livre de todas as torturas físicas.
Primeiro compreendi que a morte, na maioria dos casos, se nos apresenta como uma ominosa brutalidade. Só quando se trata de pessoas idosas ou que sofram de doenças incuráveis, podese falar de libertação, mas mesmo assim permanece aquele vazio e aquele silêncio oprimentes para os que aqui ficaram.
Esta sensação me assaltava sempre que eu revivia a cena da morte com cruel nitidez. Via a figura de Hugo, frágil e encurvada, à beira da cama, ouvialhe a respiração ofegante, sentia o seu pulso acelerado, e uma sufocante sensação de impotência e profunda compaixão me apertava a garganta. A ideia de que Hugo talvez pudesse ser salvo também me perseguia implacavelmente.
Quando, na tarde seguinte, Birgitta e Gunnar retornaram a Estocolmo, resolvi ir à cabana de Hugo. Era um claro entardecer de verão, e o sol entrava, cálido e tranquilo, no quarto. Embora Birgitta houvesse arrumado os aposentos com todo o carinho, fui invadido por uma deprimente sensação de abandono.
Tudo estava exatamente no seu lugar. Sobre a mesa achavamse os óculos de Hugo, umas lupas e o seu aparelho elétrico de barbear. Entrei no quarto de dormir.
Lá estava a cama, o cobertor azul. Ainda havia muita reminiscência, e o tempo aqui parecera parar.
Era um jogo demasiado cruel. Para todos os lados que eu olhasse, afluíam as recordações. Não era apenas o passado, pois repentinamente notei que o futuro também se introduzira no jogo. Os objetos falavam e perguntavam: Tu ainda te lembras? Lembraste daquele tempo? E lembravam aquilo que não aconteceria nunca mais. Os utensílios de jardinagem, os sapatos de trabalho, o roupão, todos os objetos privados repetiam: nunca mais, nunca mais!
Mas o futuro e o passado — isto não era puramente uma ficção do meu espírito? Ao perceber essa manobra, que, no fundo, representava uma reação automática da memória, começou a diminuir sensivelmente a minha tristeza. Essa descoberta esclarecedora não mudou apenas a minha disposição mental, mas também me restituiu a paz interior. Basta! Disse a mim mesmo, está ocorrendo algo que preciso descobrir imediatamente.
Senteime na poltrona de Hugo e procurei contemplar os meus próprios pensamentos. Por que sofremos e qual é a causa do sofrimento? Era como se entrássemos na roda dilacerante do tempo passado e futuro, entre dois extremos opostos, e por ação recíproca fôssemos arrastados de um lado para o outro. Justamente esse “assimfoi” e esse “assimjamaisserá” criavam o sofrimento. Mas tal estado só perdura enquanto não percebemos as nossas ilusórias concepções. As afirmações “assimfoi” e “assimjamaisserá” em parte eram certas, mas só em relação ao corpo físico. E como o homem não se constitui apenas do seu corpo, pois, ao mesmo tempo, é uma individualidade espiritual totalmente diferente e ainda pouco pesquisada por nós, aqui justamente se origina uma crença errônea, uma meia verdade que, por ignorância, adotamos como verdade total.
Deixei a cabana de Hugo com um misto de saudade e esperança, porque ainda repercutia dentro de mim a dor da recente perda. Simultaneamente, se apoderou de mim o suave pressentimento de sair ileso de uma operação espiritual. Eram mais ou menos oito horas da noite, quando me sentei diante do aparelho, que aliás foi o último presente de Hugo, pois o meu velho gravador de som estava praticamente inútil.
Assim que liguei o rádio, Lena se apresentou. Fixei a onda e deixei rodar a fita magnética. Recebi uma comunicação curta, mas muito significativa. Continha não somente uma saudação de Hugo, mas também esclarecimentos sobre a minha visita ao posto de acolhimento astral, ocorrida uma semana antes da morte de Hugo. Falava uma voz de homem que me era familiar, com um sotaque tipicamente estoniano.
Empregava quatro idiomas: o inglês, o sueco, o russo e o alemão. Em resumo, disse o seguinte: Exatamente diante do “fogo de reação básica” — Hugo volta mesmo como adormecido, sob autocontrole...
Houve então um intervalo e, em seguida, Hugo exclamou alegre e cordialmente:“ Freddie!”
Não foi possível entender corretamente o resto da irradiação. Pude apenas captar as palavras: “ Quem viaja está no Bas de Churchill.” Imediatamente me lembrei do sonho de 30 de junho, quando, uma semana antes da morte de Hugo, visitara as estranhas capelas funerárias e os balneários. Basenfeuer — “ fogo de reação básica!”
Recordeime dos corpos carbonizados dentro das banheiras, sinal de que todos passavam por qualquer processo de purificação mística. “ Fogo de reação básica”...
Talvez aqui se ocultasse o sentido verdadeiro de uma realidade há muito esquecida, que nos foi legada pelos tempos mais remotos sob o nome de purgatório (fogo do Inferno), e em torno da qual surgiram tantas contradições.
Aliás, a pergunta permanece, pois não pude saber com clareza se se tratava de uma base de fogo, ou se certas “bases” deveriam ser exterminadas nos mortos.
A lembrança me ocorreu como um raio: eu havia encontrado Hugo pessoalmente como aquele homem sem rosto, que se apresentou com Hugo F., mostrandome o seu estranho emblema familiar, uma guirlanda metálica, que certamente representava o brasão dos seus antepassados. Era evidente a realização do nosso encontro além das fronteiras do tempo e do espaço, e como tais visões proféticas nada têm de espantoso, o segredo do nosso encontro deveria permanecer até que o fato se consumasse pela morte de Hugo.
Com a apresentação de Hugo na fita magnética, desvaneciase o resto da minha tristeza. Decerto eu continuava a sentir a sua falta, mas a convicção de que ele existia e podia entrar em contato comigo me enchia de paz e esperança.