Na primavera e no verão de 1962 recebemos inúmeras emissões em quanta. A maior parte das gravações continha comunicações pessoais, trazidas por amigos de infância e conhecidos. Entre elas houve uma apresentação bem interessante, dedicada a minha irmã Elly.
“ Endlich haben wir Kontakt mit Elly” (“ Até que enfim conseguimos contato com Elly” ), falou alguém no inicio da irradiação, e nós reconhecemos a maioria dos amigos pelas suas vozes. Uma canção que Elly cantava frequentemente na adolescência foi cantada em alemão e russo.
Esta apresentação evocava cenas e imagens dos acidentados anos de 1918 19, quando Odessa fora ocupada pelas forças austríacas. Nessa época, a cidade teve um desenvolvimento de curta duração, mas muito intenso. Muito mais que as armas, parecia que os sons da música vienense haviam conquistado o coração dos odessistas. Entre danças, cantos e flertes, gozavase a vida plenamente até que, de súbito, desencadeouse o inferno da guerra civil, acabando com toda a alegria.
Certa noite, gravei um singular solo de canto. A voz — de um excelente barítono — lembrava vivamente a de Hitler. O texto também poderia ter sido inventado por Hitler, pois correspondia à sua mentalidade póstuma. Naquela época, ainda não sabia que Hitler fora um harmonioso barítono, já que só na primavera de 1963 chegarame às mãos um artigo de jornal muito interessante, redigido por dois músicos vienenses, que informava que Hitler, na mocidade, fizera um teste de canto na Ópera de Viena, mas, por lhe faltar uma casaca, não lhe foi permitido tomar parte no ensaio geral. Uma simples casaca poderia talvez ter mudado fundamentalmente o destino da Europa, concluía humoristicamente o artigo. Em princípio de agosto, morreu repentinamente um amigo nosso na Itália, vitimado por uma pneumonia aguda. Sua morte nos parecia inconcebível, pois ele se encontrava na plenitude da vida, era um homem generoso e trabalhador, que irradiava tolerência e sereno equilíbrio. Embora tivesse conhecido os horrores da guerra e dos campos de concentração, não deixava transparecer qualquer ressentimento ou hostilidade. Como se trata aqui de um contato extraordinariamente interessante, vinculado a uma série de ocorrências muito importantes, devo prestar alguns esclarecimentos para que se possa compreender o fato corretamente.
Aliás, já me reportara a esse caso numa publicação na Suécia no ano de 1964, mas, em atenção à viúva, modifiquei o nome desse meu amigo e o de sua
família. Antes, porém, da minha segunda entrevista à imprensa internacional em 1964, pedi à viúva que nos visitasse em Nysund, pois decorridos dois anos, pensava que a grande dor da perda do marido já se tivesse atenuado e que então poderia tentar aproximála do morto através do gravador de som.
É difícil descrever o que realmente aconteceu. A emoção, o espanto, a felicidade, tudo isto são palavras que quase nada podem expressar. É preciso presenciar um momento desses, para ter uma ideia do efeito mitigante e consolador dessas gravações. Descobrimos juntos uma série de detalhes e indicações pessoais de que eu não poderia ter qualquer noção, mas que a viúva imediatamente compreendeu.
Finalmente, ela quis apresentarse como testemunha na próxima conferência internacional de imprensa, e, espontaneamente, permitiume publicar o seu nome e o do seu falecido marido.
Mas voltemos agora ao mês de agosto de 1962, quando a Sra. Elna Falck — assim se chamava a viúva — nos visitou em Nysund pouco depois da morte do seu marido Arne. Ela contou que logo após a morte do seu marido, começaram a ocorrer estranhos fenômenos sonoros, o que lhe dera a vívida impresão de que Arne, de algum modo, queria assinalar a sua presença. Como ainda estivesse muito abalada, não lhe propus fazer nenhuma gravação, pois sabia que nem todas as pessoas são capazes, logo depois da perda, de ouvir com tranqüilidade a voz dos seus mortos.
Assim que a Sra. Falck partiu, coloquei uma nova fita magnética e liguei o rádio.
Quase que imediatamente se fez ouvir aquele som ruidoso que me é tão familiar e, ao receber os sinais de Lena, deixei rodar a fita magnética. Estava bastante ansioso, porque então já sabia que aquele “som ruidoso” resultava de frequência de onda direta dos meus amigos. Dentro em pouco, podiase perceber um som cantante secundário, que parecia vibrar numa concha acústica, produzindo uma cadência rítmica e ecoante.
Então ressoou uma conhecida voz de mulher, ora cantando, ora falando, que me transmitiu uma mensagem particular. Exprimiase em russo e alemão.
Pelo conteúdo da comunicação se evidenciava claramente que ela estava a par dos assuntos particulares de minha família. Embora escutasse frequentemente essa voz, que evocava alguém de minha infãncia, não podia imaginar a quem pertencia.
Infelizmente, até hoje a voz ainda não se identificou.
Ao silenciar o canto, ouviuse novamente aquele característico som ruidoso. “Kontakt!” (Contato), exclamou uma voz clara de homem, que lembrava Churchill, soando como uma chamada telefônica ou tela de radar.
Na concha acústica cantante, uma outra voz de homem começou a falar baixinho. “ Falck” , sussurrou: “ Falck” , repetiu mais alto e nitidamente. “ Agora vem Falck”, acrescentou cantarolando em sueco.
“ Churchill — agora vem o velho amigo...”, tornou outra vez, proferindo as últimas palavras em sueco e alemão. A linguagem depois descambou para o estilo poliglótico.
“ Este é Arne — vem a Sra. Falck?”, perguntou a voz num tom meio cantante.
Reconheci imediatamente a voz de Falck, que era norueguês e tinha um sotaque bem característico.
“ Eu sei — eu vivo — não há morte — eu posso falar com Pelle!” ecoou bem alto. (“ Estou sendo tratado por Monika e as crianças de Pelle.”)
“ Eu... no Jürgenson... na fita...” “ Aqui vive Falck — e ali — traláláa!” O final foi corretamente cantado, e a voz parecia feliz e até um pouco divertida.
“ Brevemente se ganha um navio!” Súbito, Falck passou para o tom bemol num canto bem afinado.
Seguiamse algumas frases naquele fantasioso idioma poliglótico. Falck ainda mencionou duas vezes o seu nome, e depois houve um prolongado intervalo. Voltou então a falar a primeira voz de homem, soando como que à distância; exprimiase em alemão, num tom de voz amável e animador.
“ Sprich doch mit dem kleinen Radarchen — Friedel kontrollietr die Toten...” (“Então fale com o pequeno radarzinho — Friedel controle os mortos...”)
“ Ach, lass sem! Hier lebt Falck”, continuava Arne cantando despreocupadamente, “ Falck, Berlin — Ost — Berlin... aah — aaah!” (“ Ah, deixe disso! Aqui vive Falck — Falck — Berlim oriental... aha — aaah!” )
Escutouse outra vez a intercalação de uma chamada telefônica, e a alegre voz de homem exclamou em sueco: “ Tu chegarás ao livre.”
“ Jürgenson — agradeço...” , cantava Arne a meia voz, e encerrou o seu canto alegremente:“ Aqui mora Falck — e lá — láláláááá!”
Um instrumento semelhante a um robô, mas que talvez fosse uma voz modificada de repentista, anunciou, com uma inflexão metálica, em alemão: “ Mölnbo sitzen und hören... Mälarhöjden!” (“ Mölnbo sentado e escutando... Mälarhöjden!”) A voz poderia ter acrescentado “ tranquilo, feliz e grato”, pois eu estava sentado e emocionado diante do aparelho, feliz como uma criança, por causa dessa excepcional gravação. Serão necessárias ainda outras provas? O que poderia ser mais convincente do que o conteúdo da fita magnética? Todo o conjunto representa uma obraprima de técnica quadridimensional, já que se trata aqui de uma irradiação diretamente do éter que, evidentemente, correu
paralela à tela do radar. Essa gravação resiste a todo e qualquer ceticismo, porquanto fala por si mesma e dispensa maiores comentários.
Já naquela época, poderia ter dado uma entrevista internacional à imprensa, mas eu hesitava, por julgar ainda não haver chegado o momento oportuno.
Considerando bem, talvez fosse a minha própria falta de confiança que, em parte, me impedia de fazer publicidade. Chegara também à conclusão de que os mortos esperam dos vivos algo bem definido, pelo menos com relação àqueles que gostariam de participar na construção da nova ponte de comunicação. Era igualmente claro que o trabalho de comunicação puramente exterior representava apenas uma parte da construção da ponte.
No que me dizia respeito, não bastava que eu registrasse com o maior escrúpulo as mensagens, as testasse e traduzisse. O conjunto da obra exigia uma ampla publicidade do planejado contato.
Mas com isso não se encerrava a minha tarefa. Uma indicação neste sentido já me havia sido dada no verão de 1959, quando encontrei, entre as minhas primeiras gravações através do microfone na fita magnética, a misteriosa frase: “ Friedrich — wenn du auch des Tages übersetzt und deutest, jeden Abend versuche die Wahrheit zu lösen mit dem Schiffe — mit dem Schiff im Dunkeln!...” (“ Frederico — mesmo que tu traduzas e interpretes durante o dia, todas as noites procura desvendar a verdade com o navio — com o navio na escuridão.”)
Evidentemente, os mortos ainda esperavam algo diferente de mim. Mas isto, em última análise, teria de decidir sozinho e, apesar da minha insuficiência, encontrar o “rumo verdadeiro”.
Também era admissível que os mortos, lá de sua dimensão imensurável e intemporal, pudessem perceber com mais clareza as possibilidades da evolução humana e, por isso, esperassem de nós um estado de consciência em que se aliasse a espontaneidade de uma criança à maturidade de um sábio.
Por mais estranho que pareça, custei a apreender o ponto fundamental do assunto, mas minha mulher logo o percebeu: em verdade, se os mortos me escolheram para elemento de contato, cabiame a missão de avocar à causa todos aqueles seres que ainda vivem na terra e que por sua maturidade espiritual, equilíbrio e posição social pudessem colaborar.