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A experiência de ‘apropriar-se da responsabilidade pelo trabalho’

5.1 A NÁLISE DA EXPERIÊNCIA DE ‘ SER RESPONSÁVEL ’ PELO TRABALHO

5.1.1 A experiência de ‘apropriar-se da responsabilidade pelo trabalho’

5.1.1.1 Os empregados enquanto partes interessadas

A existência nos abre um mundo. Nela, o mundo do qual somos constituídos se

encontra conosco. Esse encontro acontece sempre em uma perspectiva. Somos, a cada vez,

mobilizados por um interesse, uma possibilidade de ser. Desta forma é que somos sempre já

desde (inter) de um modo de ser (esse). Interesse diz, portanto, de cada um enquanto ser-no-

mundo, lançados numa experiência do real que nos abre possibilidades de ser. (FOGEL, 1996)

O modo de ser primeiro do real é um poder-ser, o real nos chega como possibilidade.

Não apenas as possibilidades de configuração das coisas no mundo, também as possibilidades

de ser quem nós somos. Existencialmente somos as possibilidades que nosso mundo traz

consigo. Podemos nos apropriar destas ou não. Isso diz, no entanto, que para nós mesmos somos

a possibilidade de ser que está entregue à nossa responsabilidade. A possibilidade que

escolhemos ser a cada vez se sustenta no nosso interesse, ser-no-mundo. (FOGEL, 1996)

Se somos a possibilidade de ser que está entregue à nossa responsabilidade é porque a

nossa vida acontece concretizada sempre já em um mundo, em um contexto ou horizonte de

valores e significações. Ser responsável aparece aqui como habilidade para assumir ser um

fundamento. (CROWELL, 2012). Um fundamento para decisão e escolha tanto das

possibilidades de configuração das coisas no mundo, quanto das possibilidades de ser quem nós

somos sobre as possibilidades de ser.

A possibilidade de ser que está entregue à nossa responsabilidade, não diz respeito ao

universal. Desse ponto de vista, o que de forma verdadeira nos é fonte de valor e significado

não é o universal, mas o concreto. Malpas (2012, p. 22) aponta que, quando julgamos o que tem

valor ou não para o homem, não tratar da singularidade do que está em questão é falhar em

tratar do caráter humano. A experiência vivida e o modo de ser ético dizem respeito

essencialmente ao particular e ao concreto.

Aliado a essa ênfase no julgamento como a base da vida ética, da experiência vivida, está também a ideia de que o julgamento é requerido aqui precisamente por causa do modo como o ético e o vivido dizem respeito essencialmente ao particular e ao concreto – seu objeto é aquilo que é dado como singular. (MALPAS, 2012, p. 22).

A fuga do particular e do concreto tende a nos conduzir para uma ‘genericização’ que

no domínio prático “constitui uma forma de pensamento genuinamente mal localizado, que

substitui por uma forma genérica daquilo que é objeto de atenção, a coisa mesma em questão,

obscurecendo, desse modo, frequentemente aquilo que realmente importa” (MALPAS, 2012,

p. 23). Posicionar os empregados como disponibilidade requer uma genericização de todos os

interesses. Nesse sentido, “o que torna a genericização tão atraente, seja través da quantificação

ou da identificação genérica, é que ela facilita a manipulabilidade” (MALPAS, 2012, p. 23).

Embora resistam a serem objetos de medida, a ética e responsabilidade são submetidas

a uma medição que significa “quase invariavelmente de transformar o qualitativo em

quantitativo - reduzindo o julgamento ao exercício mecânico de uma regra” (MALPAS, 2012,

p. 24). Por exemplo, o que usualmente acabamos por medir e tomar como importante na

aplicação dos códigos de ética, é o simples cumprimento de regras de conduta, algo bem

diferente do que é realmente fonte original de interesse quando se trata do empregado apropriar-

se da responsabilidade pelo trabalho.

Em meio ao apelo de exploração na empresa, a busca de alta performance se afirma como

uma determinação impessoal dominante, definindo desde o modo como o trabalho deve ser

levado a termo até o que precisa ser alcançado por meio do trabalho. Nesse contexto, os

empregados deixam de se apropriar das possibilidades de ser que estão entregues à sua

responsabilidade e seguem seduzidos pela cadência do modo impessoal particular da empresa.

Todavia, a condição primeira para que o empregado seja ‘responsável’ e ‘aja em si’ é

arrancar-se da perdição do impessoal para ser consigo e com os outros e tomar o encargo de

decidir a partir de si mesmo. (DUARTE, 2000). Querer ter consciência de responsabilidade não

é uma atitude voluntarista, trata-se do movimento de retorno a si-mesmo de tal forma que a voz

da consciência é ouvida, na origem, como modificação do modo de existir. (LOPARIC, 2003)

.

Na abertura para o empregado apropriar-se da responsabilidade pelo trabalho pode

acontecer a apropriação do que é feito no trabalho, quando o empregado o faz mobilizado por

um interesse que diz respeito às suas possibilidades de ser. Não tomando a si, aos outros e à

natureza como mera disponibilidade, os empregados podem apropriarem-se do encargo de

desenvolver respostas responsáveis à sustentabilidade.

Os argumentos apresentados nos levam a considerar a experiência de ‘apropriar-se da

responsabilidade pelo trabalho’ a partir das seguintes questões:

a) Como as práticas de engajamento abrem espaço para os empregados apropriarem-

se do encargo de desenvolver respostas responsáveis à sustentabilidade?;

b) Como são considerados os interesses dos empregados em jogo nas situações

particulares e concretas da convivência cotidiana no trabalho?;

c) Qual o espaço para os empregados serem um fundamento de decisão e escolha das

possibilidades de configuração do trabalho?;

d) Como os interesses dos empregados são priorizados frente aos demais interesses

nas estratégias das empresas?

5.1.1.2 Os empregados enquanto presença de uma não-conformidade

Na perpectiva heideggeriana, o cuidado em seus três momentos constitutivos, ser-

projeto, estar-lançado e decadência perfaz a estrutura totalizante do homem no seu movimento

existencial. O cuidado se dá, tanto no plano de relações com o que está imediatamente

disponível para uso, quanto no plano de relações com os outros homens. Nestes, são

contemplados o modo positivo e negativo com que cuidamos das coisas e dos outros. No

cotidiano estamos sempre no cuidado (HEIDEGGER, 2011).

Nos dois planos de relações podemos nos ocupar e preocupar. A ocupação e a

preocupação são condição do nossa existência e não se referem a princípios morais, elas

nomeiam as diferentes possibilidades de nossa relação junto às coisas e aos outros. Quando a

ocupação respeita e considera a originalidade do que se toma, trata-se de uma relação de

preocupação, que se apresenta, por exemplo, na relação de comunidade onde vigora o respeito

à originalidade de si mesmo e do outro (HEIDEGGER, 2011).

Ao modo da decadência, a relação essencial do homem com o seu si-mesmo é tomada

de uma forma imprópria, isto é, ele não se apropria de suas possibilidades e se entrega a tutela

do impessoal. Por sua vez, ao modo de ser-projeto, o homem projeta as possibilidades de ser

quem ele é. Sendo existencialmente as possibilidades que o seu mundo traz consigo, ele pode

se apropriar destas possibilidades ou não. Desvelando-se em seu caráter de poder ser ele assume

a si próprio em sua singularidade. Nessa experiência da autenticidade, a impropriedade deixa

de ser a sua cadência da sua existência (CABRAL, 2009).

A experiência da ética acontece na relação preocupada e libertadora, quando cada um

pode ser tomado, apropriado e conduzido por seu éthos, preservando a dignidade da natureza e

dos outros que nele se inserem (CABRAL, 2009). Nessa perspectiva, a ética não se assenta em

padrões quanto à moralidade do agir, mas sim no reconhecimento de nossa finitude constitutiva,

liberando a amizade como o modo próprio da relação ética (DUARTE, 2000).

Nas empresas, vigora uma concepção prudencial da ética, que se apresenta como a

requisição de um controle adequado que reduza a exposição das empresas a comportamentos

de risco por parte dos empregados, por exemplo, o controle dos riscos legais nas atividades de

relacionamento com clientes. Malpas (2012, p. 27) alerta a respeito da tendência de tomar a

ética como uma forma de cálculo de custos e benefícios, deixando em segundo plano a força

imperativa que a ética carrega consigo:

O modo como o entendimento da ética como risco tornou-se endêmico nas organizações comtemporâneas é justamente uma manifestação dessa tendência em direção ao entendimento prudencial da ética. Isto é exemplificado também por aqueles economistas e eticistas que argumentam em prol da eficácia organizacional ou econômica – aqueles que veem a responsabilidade social corporativa como um ideal viável – negócio ético é bom negócio, nos dizem, como se a ética ser um bom negócio tivesse alguma relevância para a força imperativa que a ética seguramente carrega consigo. (MALPAS, 2012, p. 27).

Crowell (2012) apresenta o ser responsável como nossa habilidade para assumir ser um

fundamento. Assumir-se um fundamento é ser cuidado, tanto no plano de relações com o que

está imediatamente disponível para uso, quanto no plano de relações com os outros homens. Na

relação preocupada libertadora, somos chamados a fazer julgamentos éticos a partir de nossa

receptividade à demanda do outro e dos entes que vêm ao nosso encontro na natureza.

Nesta perspectiva, o que é eticamente requerido não pode ser reduzido ao

prudencialmente necessário, da mesma forma, o código de condutas não pode ser o fundamento

para a decisão ética. Isto que nos leva a perguntar: Até que ponto o emprego do código de

condutas encoraja um questionamento de atitudes e comportamentos? Até que ponto serve de

base para a reflexão e julgamentos éticos? (MALPAS, 2012).

A ética é um modo e ser, ocasião em que cada um toma o encargo de agir em virtude de

seu si-mesmo mais próprio, escapando da tutela do impessoal. Nessa experiência da ética,

podemos ser responsáveis por tudo e por todos. Responsáveis não em termos de valores e

normas, mas responsáveis no sentido de ser, nós mesmos, a condição de possibilidade do

moralmente bom e mau, isto é, da moralidade em geral e das suas formulações possíveis.

(LOPARIC, 2003).

Na perspectiva heideggeriana, o acontecimento da RSE contribui para o comportamento

ético e responsável dos empregados quando favorece modos criativos e próprios para a

experiência do trabalho. Uma convivência cotidiana propícia ao modo de ser ético não

prescinde de espaços para o exercício da não-conformidade da existência própria e singular de

cada empregado. Atentos a isso, passamos a investigar o que se apresenta como identidade,

cultura e ética no discurso da RSE. Esses aspectos têm relação com a conformidade de

comportamentos dos empregados no trabalho.

Nessa perspectiva, investigar a a experiência de ‘apropriar-se da responsabilidade pelo

trabalho’ nos leva as seguintes questões:

a) Como a identidade, cultura, princípios, valores e atitudes promovidos pela

empresa sustentam uma convivência cotidiana propícia ao comportamento ético e

responsável dos empregados? Como esses elementos contribuem para o si-mesmo

autêntico e a relação libertadora entre os empregados? E para os modos criativos

e singulares de experiência do trabalho?

b) Como os códigos de conduta e sistemas de conformidade implicam os

empregados respostas responsáveis à sustentabilidade?

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