5.1 A NÁLISE DA EXPERIÊNCIA DE ‘ SER RESPONSÁVEL ’ PELO TRABALHO
5.1.3 A experiência de ‘saber sobre o trabalho’
Na maneira grega de pensar reapresentada por Heidegger (2006), a experiência de ‘ser
responsável’ aparece remetida ao sentido inicial de causalidade. Causa como aquilo pelo que
um outro responde e deve. Neste sentido, as quatro causas, materialis, formalis, finalis e
efficiens, são modos de responder e dever. Juntas levam alguma coisa a aparecer; soltam algo
numa vigência e assim deixam viger. Responder e dever são reapresentados como um deixar-
viger.
Desse ponto de vista, responsabilidade, responder e dever se deslocam do sentido moral,
como culpa, e também não são uma espécie de ação. Heidegger (2006) mostra como as quatro
causas atuam no âmbito da produção. Os quatro modos de responder e dever deixam chegar à
vigência o que ainda não vige. O que passa do não vigência para o vigência, da não presença
para a presença, é produção.
Heidegger (2006) toma como exemplo um utensílio que está sendo produzido para
ajudar a esclarecer o sobre as quatro causas. Em conjunto com o material e a forma, responde
pelo utensílio aquilo que o define de maneira prévia e antecipada, um fim, o que o utensílio será
depois de pronto. Por útimo, também responde o artesão que recolhe numa unidade os três
modos de responder e dever. Estes devem a ele a maneira com que aparecem e entram no jogo
da produção do utensílio. Neste sentido, o artesão participa como responsável por aquilo que o
utensílio que será depois de pronto, pelo destino do que é produzido.
Nas empresas a produção quase sempre se dá de forma coletiva. Em uma união de
esforços para levar alguma coisa a aparecer, dando vigência ao que era esperado, planejado. A
despeito disso, cada um e todos podem experimentar a responsabilidade por aquilo que está
sendo fruto de seu trabalho. Isto, no sentido de estarem apropriados do fim, daquilo que define
de maneira prévia e antecipada o que está sendo produzido, selando o seu destino.
(HEIDEGGER, 2006).
Em meio ao trabalho, responsabilidade, responder e dever são remetidos à experiência
fundamental de estar junto com os outros, em convívio cotidiano, constituinte do saber ético.
Nesse sentido, para contribuir com a experiência de ‘ser responsável’ pelo trabalho na empresa,
a educação corporativa precisa levar em conta o contexto social de ação que caracteriza o saber
ético. Malpas (2012, p. 19) esclarece a respeito:
A possibilidade mesma da ética requer reconhecimento do contexto social de ação, ela não pode trabalhar na relação com indivíduos isolados apenas. Consequentemente, qualquer sistema ou estrutura que entende a si mesmo apenas em termos de interações de indivíduos já perdeu há muito tempo a capacidade de compreensão ou prática ética genuína.
Por outro lado, o foco no desenvolvimento individual enfraquece o papel das conexões
sociais nas quais os empregados estão normalmente incorporados. A fragilidade das conexões
sociais facilita a submissão a processos de controle na empresa, com consequências para o
comprometimento ético dos empregados.
É por meio da separação dos indivíduos das conexões sociais nas quais eles estão normalmente incorporados, argumenta Arendt, que eles podem ser mais facilmente controlados – numa tal situação torna-se difícil para os indivíduos
manter até mesmo seus comprometimentos éticos costumeiros. Ampliando a análise de Arendt, gostaria de sugerir que ela indica o modo como a vida ética é essencialmente dependente da visa social. (MALPAS, 2012, p. 16).