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A experiência holandesa e belga

4 DIREITO À MORTE DIGNA

4.1 NOTAS DE DIREITO ESTRANGEIRO

4.1.1 A experiência holandesa e belga

Em 11 de abril de 2001, com aprovação de lei que passou a viger em 2002, a Holanda tornou-se o primeiro país do mundo a legalizar a prática eutanásica241, sob rigorosas regras, admitida apenas em relação a doente mentalmente capaz,

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ROHE, Anderson. O paciente terminal e o direito de morrer. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2004, p. 10.

com doença incurável e sofrimento insuportável. Exige-se, ainda, pedido expresso, voluntário e persistente pelo término intencional da vida. Exsurge, pois, não ser admitida a denominada eutanásia passiva, involuntária, não consentida, como por exemplo, a que decorreria da hipótese de coma irreversível.

A Lei sobre a cessão da vida a pedido e o suicídio assistido veio regulamentar uma prática que já era amplamente praticada na Holanda, embora proibida pelo Código Penal, já que a Suprema Corte Holandesa havia decidido, em 1984, que um médico que abrevia a vida de um paciente poderia, em determinadas circunstâncias, invocar a defesa de necessidade para justificar tal ação.

A atual emenda do suicídio e da eutanásia aplica-se apenas a médicos. As diretrizes estabelecidas na emenda resultam do trabalho da Associação Médica Holandesa e são as seguintes242:

 A decisão também deve ser decisão do paciente.

 A solicitação do paciente de suicídio medicamente assistido deve ser voluntária. O médico não pode sugerir o suicídio/eutanásia como uma opção.

 O paciente deve ter um entendimento claro e correto de sua situação médica e do prognóstico.

 O paciente deve estar passando por um sofrimento interminável e insuportável, mas não necessita estar na fase final.

 O médico e o paciente devem concluir que não há outra alternativa aceitável para o paciente.

 Um segundo médico, independente do primeiro, deve ser consultado e deve examinar o paciente e confirmar que as condições foram atendidas.  O médico deve abreviar com a vida do paciente de maneira medicamente

apropriada.

Na legislação holandesa, os médicos não serão responsáveis perante a justiça, ao contrário do que ocorria no passado. Serão responsáveis apenas perante uma comissão de pares que inclui peritos em leis, em ética e em medicina. A legislação não fala de um direito ao suicídio e à eutanásia. Os médicos, por outro

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DRANE, James; PESSINI, Léo. Bioética, medicina e tecnologia: desafios éticos na fronteira do conhecimento humano. Tradução Adail Sobral, Maria Stela Gonçalves. São Paulo: Loyola, 2005, p. 171.

lado, têm o direito de se recusar a cooperar.

A causa de morte sob a nova legislação será registrada como suicídio ou eutanásia. No passado, muitos suicídios e intervenções que provocavam o final de vida, foram apresentados irregularmente como mortes decorrentes de certas doenças. A maioria dos casos de suicídio e de eutanásia envolveu pacientes numa etapa terminal de câncer. Muitos defensores dessa legislação pensam, entretanto, que a lei é demasiado restritiva. Querem o suicídio e a eutanásia disponíveis sem o envolvimento de médicos.243

Embora haja o requisito do consentimento informado da parte do paciente, os padrões para a competência ou capacidade de consentir são surpreendentemente pouco exigentes. Crianças de 12 a 16 anos que optarem por morrer têm de contar com o consentimento dos pais. Depois dos 16 anos, podem fazê-Io sem aprovação dos pais. Muitas perguntas persistentes levantadas pela legislação têm por foco o consentimento livre e informado e a questão relacionada da competência. Se adolescentes podem escolher a morte, que dizer dos dementes? E de pacientes esquizofrênicos que estejam deprimidos? Adolescentes profundamente imaturos? A idéia de oferecer a pacientes mentalmente doentes a oportunidade de cometer suicídio choca a maioria das pessoas e levantou questões que necessitam ser abordadas.

A lei holandesa prevê, em seu artigo 2º, que um ato de eutanásia não será punido se praticado por um médico que reporta o caso e prova que agiu de acordo com as diretrizes de cuidados adequados, especificamente se: I) tem a convicção de que o pedido do paciente é voluntário e bem avaliado; II) tem a convicção de que o sofrimento do paciente era intolerável e sem perspectiva de alívio; III) informa ao paciente a respeito de sua situação, bem como sobre suas perspectivas; IV) chega juntamente com o paciente a uma conclusão comum de que não havia outra solução alternativa razoável para a situação do mesmo e V) consulta ao menos um outro médico, independente, que, após examinar o paciente, emite parecer por escrito.244

O Parlamento da Bélgica aprovou, em 28 de maio de 2002, uma legislação que permite aos médicos abreviar a vida dos pacientes em condições semelhantes

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DRANE, James; PESSINI, Léo. Bioética, medicina e tecnologia: desafios éticos na fronteira do conhecimento humano. Tradução Adail Sobral, Maria Stela Gonçalves. São Paulo: Loyola, 2005, p. 172.

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PESSINI. Leocir. Eutanásia: por que abreviar a vida? São Paulo: Centro Universitário São Camilo: Loyola, 2004, p. 116.

às adotadas pela legislação holandesa, embora o diploma belga seja mais restritivo que o holandês. Uma diferença fundamental entre ambos é a exclusão da possibilidade de menores de 18 anos solicitarem este tipo de procedimento245, já que a lei holandesa permite a eutanásia ou suicídio assistido de menores entre 12 e 16 anos, desde que haja concordância dos genitores naturais, pessoas que exerçam autoridade parental e/ou tutor, além dos demais requisitos acima mencionados246.

A Lei da Eutanásia belga define a prática como “o ato, realizado por terceiros, que faz cessar intencionalmente a vida de uma pessoa a seu pedido”. O médico que executa a eutanásia não estará praticando um ato ilegal se estiver assegurado de que “o paciente é adulto ou menor emancipado e tem plena capacidade e consciência na época de seu pedido; o pedido é feito voluntariamente, é ponderado e reiterado e não resulta de pressão externa; o paciente se encontra numa condição médica irremediável e se queixa de sofrimento físico ou mental constante e insuportável que não pode ser minorado e que resulta de uma condição acidental ou patológica grave e incurável”.247