4 DIREITO À MORTE DIGNA
4.1 NOTAS DE DIREITO ESTRANGEIRO
4.1.2 Estados Unidos
Na atualidade, existem nos Estados Unidos iniciativas que defendem a descriminalização do suicídio. Descriminalizar um ato, entretanto, não o transforma automaticamente num direito. Uma pessoa pode querer se matar e ser capaz de fazê-Io porque o suicídio já não é um crime, mas isso não significa que ela tenha o direito de fazê-lo.
Duas decisões da Corte Federal no nível de apelação agrediram leis seculares contra o suicídio. Em Washington V. Gluckberg, na Costa Oeste, leis anti-suicídio foram julgadas transgressões da liberdade e da privacidade. Em Quill v. Vacco, na Costa Leste, as leis anti-suicídio foram consideradas transgressões da igualdade. Em ambas as jurisdições, os juízes federais decidiram que as pessoas devem ter o direito de morrer da maneira que quiserem, incluindo o direito de morrer por meio do suicídio. Os proponentes da
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GOLDIM, José Roberto. Eutanásia: Bélgica. Disponível em: <http://www.bioetica.ufrgs.br/eutabel.htm>. Acesso em: 29 maio 2009.
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PESSINI, op. cit, p. 117
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PESSINI. Leocir. Eutanásia: por que abreviar a vida? São Paulo: Centro Universitário São Camilo: Loyola, 2004, p. 125.
mudança argumentaram que, ao declarar o suicídio um direito, a sociedade ampliaria a autonomia e controle de pacientes idosos doentes ao reduzir o poder dos médicos de se intrometer em sua vida com intervenções indesejáveis.248
As decisões da Corte de Apelações foram levadas à apreciação da Su- prema Corte dos Estados Unidos, que reverteu ambas as decisões das cortes inferiores249. Os juízes da Suprema Corte sustentaram a distinção tradicional entre retirar ou reter intervenções médicas incômodas e tirar ativamente a vida. Não há nenhum direito ao suicídio nos Estados Unidos. Não há na Constituição norte-americana, afirmaram os juízes da Suprema Corte. Sua decisão manteve as leis anti-suicídio mais antigas, mas a decisão da Suprema Corte não resolveu a controvérsia.
Os mesmos juízes da Suprema Corte reconheceram que os legisladores dos estados podem legalizar o suicídio. Os cruzados favoráveis ao direito ao suicídio começaram imediatamente a pressionar para mudar as leis dos estados e quem era contra a mudança da lei dos estados recorreu ao poder do Governo Federal. No Oregon, o único estado em que o suicídio assistido é legal, o Procurador-Geral de Justiça tentou invalidar a lei do estado ao alegar que o suicídio medicamente assistido fere regulamentos federais com relação ao uso de drogas. Sua tentativa fracassou e a lei do estado do Oregon permanece em vigor.250
A campanha pela legalização do suicídio medicamente assistido em cada estado é executada normalmente sem que se use a palavra suicídio, que para a maioria das pessoas ainda tem uma conotação negativa. Ela é levada a efeito como uma campanha em favor do "direito de morrer."
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DRANE, James; PESSINI, Léo. Bioética, medicina e tecnologia: desafios éticos na fronteira do conhecimento humano. Tradução Adail Sobral, Maria Stela Gonçalves. São Paulo: Loyola, 2005, p. 167.
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A decisão da Suprema Corte era unânime. Concluiu que as proibições do auxílio ao suicídio nos Distritos Federais de Washington e Nova Iorque não transgridem a Emenda 14. Essa decisão foi tomada no dia 26 de junho de 1997. A decisão deixou claro que os estados têm o direito de proibir a prática de ajudar pessoas a cometer suicídio, mas também podem legalizá-Ia. Pouco tempo depois, o Oregon legalizou o suicídio medicamente assistido (Oregon Death with Dignity Act - Lei da Morte com Dignidade).
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DRANE, James; PESSINI, Léo. Bioética, medicina e tecnologia: desafios éticos na fronteira
do conhecimento humano. Tradução Adail Sobral e Maria Stela Gonçalves. São Paulo: Loyola,
Assim, verifica-se que, dentro de um contexto nacional, a eutanásia é proibida nos EUA, embora a justiça americana possibilite algumas outras situações que envolvem o final de vida, como a interrupção de tratamento que apenas prolongue o processo de morrer e o suicídio assistido, variando a legislação de estado para estado. Cada um deles reconhece alguma forma de avanço nesta diretiva: tanto um “testamento em vida” (living will), documento que estipula procedimento médico para que o signatário não seja mantido vivo em circunstâncias específicas, quanto a “procuração de auxílio saúde” (health-care proxies), documento apontando alguém para decidir sobre vida e morte do signatário quando o mesmo estiver com a saúde debilitada.251
Assim é que os estados da Califórnia, Massachusetts e Connecticut admitem a possibilidade de condutas médicas restritivas – omissão e suspensão de suporte vital, além de recusa de tratamento pelo paciente. Já nos estados de Oregon e de Michigan, o auxílio ao suicídio é descriminalizado.252
Nos Estados Unidos da América, o direito do paciente competente de recusar tratamentos médicos não desejados, incluindo hidratação e nutrição artificiais, é uma questão já debatida ética e legalmente. Se não houver o desejo expresso da pessoa, o Estado pode estabelecer parâmetros de evidências (ou provas) sobre o desejo do paciente.253
Em março de 2009, Washington tornou-se o segundo estado norte- americano a permitir o suicídio medicamente assistido, com a entrada em vigor de uma lei sobre a “morte com dignidade”. Aprovada por referendo em novembro de 2008, a nova legislação permite que os médicos possam prescrever a administração de doses fatais de medicamentos a pacientes para os quais se vaticinem menos de seis meses de vida254. Até ao momento, este procedimento apenas era autorizado no Estado do Oregon, por meio da Lei da Morte Digna (Oregon Death with Dignity Act, 1994), cujo texto favorece a confusão no debate sobre o tema, ao estabelecer
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SÁ, Maria de Fátima Freire de. Direito de morrer: eutanásia, suicídio assistido. 2. ed. Belo Horizonte: Del Rey, 2005, p. 75-76.
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Ibidem, p. 158.
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OLIVEIRA, Reinaldo Ayer. Terminalidade da vida: dignidade da pessoa humana. In: MIGLIORE, Alfredo Domingues Barbosa [et al.] (Coord.). Dignidade da vida humana. São Paulo: LTr., 2010, p. 251.
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Disponível em: <http://tv1.rtp.pt/noticias/index.php?t=Estado-de-Washington-tem-a-sua-primeira- morte-ao-abrigo-da-nova-lei.rtp&article=221626&layout=10&visual=3&tm=7>. Acesso em: 31 maio 2009.
espressamente que as ações tomadas em concordância com ela “não constituirão por nenhum motivo suicídio, suicídio assistido, morte piedosa ou homicídio”.255