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Santidade da vida versus qualidade da vida

2 VIDA COMO DIREITO FUNDAMENTAL À LUZ DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA

2.2 PRINCÍPIOS ARGUMENTATIVOS SOBRE A DISPONIBILIDADE DA VIDA

2.2.1 Santidade da vida versus qualidade da vida

Um dos princípios frequentemente invocado no juízo ético relativo ao suicídio assistido e à eutanásia é o da sacralidade da vida humana. Ele é invocado a partir da convicção de que somente Deus é senhor absoluto da vida e por esta razão ninguém poderia arrogar-se o direito de intervir nela.

Em geral, portanto, a "sacralidade da vida" é interpretada como se a vida humana fosse absolutamente indisponível para a pessoa, quando o motivo dessa indisponibilidade consiste na sua dependência de Deus, que é o único senhor da vida e da morte e, por isso, exige uma radical obediência. A autoridade divina implica na necessidade de obedecer às leis absolutas que o criador estabeleceu, na Bíblia, ou na própria natureza das coisas. O espírito dessa obediência seria determinado por uma atitude que se expressa ao mesmo tempo na fé em Deus e também na necessidade de seguir de forma absoluta o dever manifesto na lei.

A posição da Igreja Católica é frontalmente contrária à eutanásia, quando prega uma sociedade mais justa e solidária, expressa por meio de um modelo de “Estado humano” que, na “guerra dos poderosos contra os débeis”, declara o

que o acorrentou a um penhasco, onde uma águia devorava diariamente seu fígado, que se reconstituía. Simboliza o homem que, para beneficiar a humanidade, enfrenta o suplício inexorável; a grande luta das conquistas civilizadoras e da propagação de seus benefícios à custa de sacrifício e sofrimento.

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ZUCCARO, Cataldo. Bioética e valori nel postmoderno: in dialogo com la cultura liberale. Trad. Silvana Cobucci Leite. São Paulo: Loyola, 2007, p. 97-98.

respeito incondicional do direito à vida de toda pessoa inocente — desde a sua concepção até a morte natural — como um dos pilares sobre o qual assenta toda a sociedade.88

Dentre as várias tradições cristãs, o catolicismo romano é a vertente que mais estudou e discutiu o direito de morrer, sendo vasto o material publicado sobre o assunto. Assim é que a Igreja Católica, por meio da forte influência que representa o Vaticano, afirmou sua posição desfavorável ao tema, em 1980, por meio da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, na Declaração sobre a Eutanásia, em que ratifica o caráter sacro da vida humana, definindo a eutanásia como: “Per eutanasia s’intende un’azione o un’omissione che di natura sua, o nelle intenzioni, procura la morte, allo scopo di eliminare ogni dolore. L’eutanasia si situa, dunque, al livello delle intenzioni e dei metodi usati”.89

A condenação religiosa do suicídio é reconhecida apenas depois do século V, mas a proscrição a respeito de remover a vida persiste no presente. No século XX, o Papa Pio XII definiu a eutanásia como uma falsa compaixão, que retirava do homem o sofrimento purificador e meritório.90

A condenação da eutanásia é clara, ao afirmá-la como violação da Lei Divina, ofensa à dignidade humana, crime contra a vida e atentado contra a humanidade. A morte voluntária seria tão inaceitável quanto o homicídio, “porque tal ato da parte do homem constitui uma recusa da soberania de Deus e do seu desígnio de amor”.91

Não se pode falar em sacralidade da vida sem mencionar aquele que, com maior força moral e rigor intelectual, defendeu o direito à vida ao largo de toda sua existência, S.S. João Paulo II, que no Evangelium Vitae afirmou: “Reivindicar o direito ao aborto, ao infanticídio, à eutanásia, e reconhecê-lo legalmente, significa

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JOÃO PAULO II. Carta Encíclica Evangelium Vitae sobre o valor e a inviolabilidade da vida

humana, de 25 de março de 1995, nº 101. Disponível em:

<http://www.cleofas.com.br/virtual/texto.php?doc=PAPA&id=pap0332>. Acesso em: 28 maio 2009.

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Por eutanásia, entende-se uma ação ou omissão que, por sua natureza ou nas intenções, provoca a morte a fim de eliminar toda a dor. A eutanásia situa-se, portanto, no nível das intenções e dos métodos empregados. SACRA CONGREGAZIONE PER LA DOTTRINA DELLA FEDE.

Dichiarazione sull'eutanasia. Disponível em:

http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19800505_eut anasia_it.html>. Acesso em: 28 maio 2009.

90

FARIAS, Gisela. Muerte voluntária. Buenos Aires: Astrea, 2007, p. 108.

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atribuir à liberdade humana um significado perverso e iníquo: o de um poder absoluto sobre os demais. Esta é a morte da verdadeira liberdade”92.

Contrapondo a ideia da sacralidade à da qualidade, imperioso indagar se, quando a vida continua, mas perdeu sua peculiar qualidade humana93, conserva ainda sua identidade.

O conceito de qualidade de vida é abrangente, pois se interliga a perspectivas econômicas, demográficas, antropológicas, bioéticas e, recentemente, ambientais e de saúde pública, refletindo o processo de sua construção.

Na argumentação de Peter Singer94, é na evolução da prática jurídica, testemunhada por algumas sentenças dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha, que o Direito, a seu ver, deixa cair a antiga convicção hipocrática da sacralidade de toda vida humana e assume o novo ponto de vista da "qualidade de vida”. Com essa base, então, quando "a continuação da vida não é mais um benefício para o paciente", ou seja, "quando o paciente é irreversivelmente desprovido de consciência", então é legalmente admissível que um médico intencionalmente coloque um fim à sua vida.

Ainda que a reflexão liberal pareça ignorar a distinção entre "valor da vida" e "qualidade de vida" e entre "ser vivo" e "vida", ainda assim é possível perceber a inextricável relação entre essas duas noções, no sentido de que comumente uma melhor qualidade de vida, talvez inconscientemente, de fato leva também à atribuição de maior dignidade e maior valor.

Sobre o quanto a vida humana é subjetiva, instrumental ou intrinsecamente valiosa, Ronald Dworkin95 afirma ser a mesma valiosa nos três sentidos. Tratamos o valor da vida de uma pessoa como instrumental quando a avaliamos em termos do quanto o fato dela estar viva serve aos interesses dos outros. Tratamos a vida de uma pessoa como subjetivamente valiosa quando avaliamos seu valor para ela própria, isto é, em termos de quanto ela quer estar viva, ou de quanto o fato de estar

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SALDAÑA, Javier. El derecho a la vida. La defensa de Tomás de Aquino y John Finnis. In: MARTINS, Ives Gandra da Silva (Coord.). Direito fundamental à vida. São Paulo: Quartier Latin: Centro de Extensão Universitária, 2005, p. 55.

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Neste trabalho, entende-se por qualidade humana a capacidade relacional e a autonomia individual, como forma de autodeterminação. Cf. item 2.5.

94

SINGER, Peter. La vita come si dovrebbe, Milano, Il Saggiatore, 2001,193. In: ZUCCARO, Cataldo. Bioética e valori nel postmoderno: in dialogo com la cultura liberale. Trad. Silvana Cobucci Leite. São Paulo: Loyola, 2007, p. 95-96.

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DWORKIN, Ronald. Domínio da vida: aborto, eutanásia e liberdades individuais. Martins Fontes, 2009, p. 101.

viva é bom para ela. E, por fim, denomina “pessoal” o valor subjetivo que uma vida tem para a pessoa de cuja vida se trata. É um valor pessoal o que se tem em mente quando se afirma que, normalmente, a vida de uma pessoa é a coisa mais importante que ela tem. É valor pessoal aquilo que um governo tenta proteger, como fundamentalmente importante, quando reconhece e faz vigorar o direito das pessoas à vida.

Qualidade de vida, no entendimento esposado neste trabalho, representa a capacidade do indivíduo em responder às demandas da vida cotidiana de forma autônoma e independente e na sua motivação e capacidade para continuar na busca e realização de objetivos, conquistas pessoais e capacidade funcional. Autonomia é um paradigma de saúde. Qualidade de vida é a percepção do indivíduo sobre sua posição na vida, no contexto da cultura, nos sistemas de valores que adota e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações.

Em conclusão, note-se que, segundo a reflexão liberal, só a partir da ética da qualidade de vida o homem pôde dispor da própria vida de maneira responsável e livre. Ao contrário, partindo dos pressupostos da ética da sacralidade da vida, ele é como que expropriado da sua responsabilidade e do seu domínio sobre a existência, completa e absolutamente dependente de Deus, regulada com base na sua lei e subtraída assim à disponibilidade da pessoa.