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CAPÍTULO 3 A IMIGRAÇÃO PORTUGUESA NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO E

3.4 TRABALHO E COTIDIANO DA CIDADE

3.4.2 A família Diniz

A memória da família nos serve agora de apoio para mostrar alguns aspectos ainda não abordados. Recorro à história da família Diniz, narrada pelos irmãos Rui, Teresa e Dalila Diniz, irmãos mais novos de uma família de sete filhos, nascidos na Zona Portuária cujos pais e todos os outros familiares são portugueses. Seus pais, provenientes de Vila Nova de Gaia, eram da segunda geração de imigrantes portugueses que se instalaram no Morro da Conceição. A família materna exercia a profissão de costureira e alfaiate. O pai trabalhava com o futuro sogro e foi na oficina de costura que iniciaram o namoro. O casal Diniz inicialmente se instalou na Rua de São Pedro e mais tarde comprou uma casa em Santo Cristo, como contam os irmãos, orgulhosos da cultura portuguesa e das histórias dos pais. As narrativas nostálgicas e românticas evocam um tempo, cujos valores entrelaçam o trabalho e a religião católica.

147 Entrevista realizada em abril de 2001 por Icleia Thiesen e Maria Manuela A Maia para o projeto Memória e História dos bairros do R.J. Saúde, Gamboa e Santo Cristo (UNIRIO)

Eles casaram na Igreja do Senhor dos Passos, que ficava na Avenida Passos e hoje já não existe. Católicos praticantes, contam que os pais faziam parte da irmandade da Igreja do Sacramento

O meu pai era um dos alfaiates que ajudava na oficina. Essa igreja é muito antiga. Quando minha mãe veio para o Brasil, ela falava muito dessa igreja. Ficava perto da Praça Mauá, no Morro da Conceição. Eles devem ter trabalhado muito ali... Devem ter começado ali... Trabalharam muito.

Tereza narra atividades da oficina, remetendo-nos a um tempo do trabalho artesanal e de profissões que, hoje, caíram em desuso, deixando também expostas as formas de relações de casamento da época:

A minha mãe chegou a ser costureira, mas nessa época ela ficava mais era enfiando a agulha, porque havia certos alfaiates que não podiam faltar linhas na agulha, porque alfaiate gasta muita linha e eles fazem aqueles alinhavos muito espaçados... Cada almofadinha tinha dez a doze agulhas. Ela tinha que enfiar as agulhas de vários alfaiates e nisso ela foi flertando com meu pai. Mas só foi falar com ele no dia do casamento... Depois ela foi coleteira, só fazia os coletes dos homens.

Essas lembranças de trabalho evocam um tempo romântico e reafirmam a persistência das desigualdades da cidade. Faz ressurgir em contraste à cidade moderna, elegante, a cidade trabalhadora e mal remunerada. Para a família Diniz, a morte do pai aumentou as dificuldades. Sem proteção trabalhista, esse imigrante ao morrer, não deixou pensão para a viúva alimentar e educar os filhos. Sua oficina de costura era trabalho diário. Ruy relembra as dificuldades que passaram com a mudança de vida e Tereza completa mostrando o quanto o trabalho infantil era usado, normalmente pelos pais:

Quando fomos para a Rua Vidal de Negreiros, eu tinha quatro anos. Ali, quando chegou a época de estudar foi muito difícil porque lá não tinha colégio, porque eu não tinha condição. Meu pai havia morrido, eu tinha quatro anos, minha mãe ficou viúva, cheia de filhos, sem recursos...

(...) nessa altura nós já estávamos maiorzinhas, já fomos trabalhar fora. A minha mãe cuidava dos filhos todos e ainda fazia coletes. Ah, sim, fazia tudo. Meu irmão José, com 13 anos, começou a trabalhar.

As lembranças de Dalila nos fazem refletir a respeito dos processos de educação familiar. O sentido de responsabilidade sobre as condições de vida que tinham fica bem claro em suas narrativas:

(...) quando eu tinha oito anos ela já me botou num ferro a carvão. Na época não havia ferro elétrico, como hoje. Então eu trepava num banquinho e ajudava-a a passar roupa. A Teresa ficava fazendo o serviço mais pesado de casa, eu que era menor ficava no ferro e, assim, ela foi levando a vida. Então, quando eu estudava na Escola José Bonifácio, era na Rua do Livramento. Não, era paralela à Rua do Livramento. Não lembro o nome daquela rua. Mas ali era até certa faixa etária, depois que passasse de ano já tinha que ir para outro colégio. Depois dali fui para a Vicente Licínio Cardoso, que ficava no prédio da Noite.

O trabalho feminino na fábrica requeria conhecimento e as mulheres, menos que os homens, não tinham preparo para a indústria. Suas alternativas eram mais limitadas que a dos homens. Ou iam para setores onde somente a força masculina podia agüentar, ou em setores mais leves era necessário maior preparo especializado. Isso leva Dalila a declarar que as mulheres não trabalhavam fora e sim, faziam pequenos serviços para ajudar no orçamento doméstico.

Eu não, sempre trabalhei muito. Trabalhei até minha filha nascer. Mas as mulheres não trabalhavam fora. Trabalhavam em casa. É numa costura. Trabalhava à mão, chuleava as bainhas. Tinha uma colega que costurava muito bem e eu ia para a casa dela e fazia trabalhos à mão: prendia fechoecler, tudo eu fazia, mas costurar eu não fazia.

Para aumentar a renda doméstica a mãe alugava os quartos da casa. Esse era um expediente comum entre os portugueses:

A mamãe alugava, mas as pessoas que moravam na casa de mamãe já eram casadas. Ela alugava para casais com crianças.

Rui se diverte mostrando como a mãe anunciava os quartos para alugar:

Ela era analfabeta... Já que não tinha recursos para fazer propaganda, para anunciar os quartos que ela queria alugar, ela botava um papelão na porta...A mamãe colocava, na parte de cima da casa, colocava uma tampa de caixa de sapatos, escrito aluga-se, e as pessoas que passavam por ali tomavam conhecimento de que ali tinha um quarto para alugar. Não havia um contrato

escrito. Era pela palavra. Quer dizer, muitas pessoas pagavam e outras saíam sem

Ao lembrar o trabalho no Cais do porto, Rui revelou um aspecto importante da vida daqueles bairros e da cidade do Rio de Janeiro dos anos 50. O serviço de transportes por bondes que ligavam os bairros do centro da cidade integrava a vida dos moradores e mostrava locais e ocupações que hoje desapareceram devido aos aterros e outras formas de reformulação do local.

Havia muitas pessoas que trabalhavam no cais e morava ali, pois dava para vir a pé até o bairro. No Cais 10, 12, 13... naquelas imediações. Inclusive, quando eu comecei a trabalhar na Cinelândia, vinha um bonde até Santo Cristóvão, o São Luiz Durão que atendia a comunidade. Ele percorria todo o Cais e eu descia na Praça Mauá. Como eu dormia demais tinha que diminuir o tempo; pegava um bonde, saltava no Largo de São Francisco e ir para a Cinelândia. Ou ia para o Cais do Porto a pé, pegava o São Luiz Durão para descer na Praça Mauá. Apanhava o circular, porque naquela época era novidade, o ônibus circular n. º 10 – C10. Eu quero dizer que essas conduções serviam ao bairro. Ele vinha de São Cristóvão pelo Cais do Porto e servia muita gente do bairro. No Santo Cristo, tinha a Praia Formosa.

Descrevendo as inúmeras indústrias que havia no local, mostra um tempo áureo do trabalho, quando a Zona portuária e adjacências era um pólo industrial responsável pela modernização da cidade do Rio Janeiro: “tinha o café Globo, os Moinhos Inglês e Fluminense, os biscoitos Aymoré, o Açúcar Pérola, Calçados Fox”.

Comentam sobre a rigidez da educação dada aos filhos pelo imigrante. Estas impressões dos filhos em relação à mãe são importantes indícios de cultura do imigrante português e de estratégias de preservação dos filhos. Viver em terra estranha significa também maior desconfiança do outro. Por isso muitos deles optaram por morar em pequenos locais como os subúrbios, onde predominam as relações mais pessoais, mais próximas.

Nestes locais os portugueses montaram relações comerciais íntimas com os clientes. Como por exemplo, o uso do caderno de fiados Essa prática ainda existe em alguns lugares, mas naquele tempo foi comum, fazia parte do cotidiano das pessoas:

Havia um armazém, que pertencia a um português, onde fazia a despesa do mês. Comprávamos o que precisávamos diariamente e pagava-se por mês. (RUI)

Rui comenta, ainda, sobre estratégias do português, dono do armazém, para aumentar as vendas:

O comprador tinha direito a selos. As pessoas recebiam uma cartela e iam e colavam aqueles selos. Mamãe ia juntando e quando chegava no fim do ano, comprava presentes de Natal.

Dalila não esquece de mencionar o que chama de características específicas portuguesas. Para ela, gostar de se unir, de comer junto é coisa que português gosta muito.

Em Portugal - ainda tem família por lá. Eu sei como é que é o comportamento da casa deles, das comidas tradicionais, as conversas. Eu tenho muita vontade de ir para lá.

A atitude dos portugueses de baixa renda com origem nas zonas rurais é bastante conservadora em relação a costumes e valores. Uma forma de construir a identidade feminina é através da dedicação aos filhos e à família. Dificilmente, uma viúva contraía novas núpcias. Dalila faz esse questionamento em relação à mãe. Não entende porque sendo tão bonita, tão jovem, não se casou novamente e dedicou sua vida a criar filhos e netos.

A mamãe ficou viúva com quarenta e poucos anos; tinha ainda muita vida. Era muito dedicada aos filhos, inclusive, era muito bonita. Minha irmã mais velha, a Lucília, já estava casada. Então ela teria, por isso, que fazer um inventário, apesar de ter ficado só uma casa. Meu cunhado falou à minha mãe: “Se ficar aqui, alugar para criar as crianças, tudo bem. Agora, se entrar

um homem aqui dentro, eu vou querer fazer o inventário”.E ela era bonita,

havia quem quisesse casar com ela. Ela se fechou, se anulou. Ficou naquela vida só para os filhos. (...) Um ditado da minha mãe, que eu nunca esqueci, ela dizendo assim: “Se hão de me dar um desgosto, matem-me

antes”.

Dalila esquece que ser viúva, em Portugal, é guardar o luto quase para toda a vida. Suas lembranças deixam, ainda, perceber que apesar do controle e disciplina rígida de sua educação, eles podiam freqüentar as associações portuguesas.

(...) Então eu fiquei com aquilo a vida toda. Depois que nós ficamos mocinhas, ela deixava a gente ir para a Banda Portugal que ficava na Presidente Vargas. A Banda Portugal era uma associação de portugueses. Era, tudo de português, como hoje

tem o Ginástico Português. Tinha um bar muito grande. Lembro-me da festa de tremoços. A gente ia para o baile, mas a mamãe queria-nos às 22 horas em casa.

Tereza, porque se casou mais tarde que as outras filhas, tomou conta de sua mãe até a sua morte em 1974 e conta sobre a velhice de sua mãe:

(...) casei com 29 anos, morava com a minha mãe, casei e continuei com ela. Com a idade... Vendemos a casa e, na época, ela foi morar comigo. O Oscar, meu marido, faleceu, e eu tive que fazer uma mesa redonda para resolver um assunto. Nós tínhamos um jazigo da família e a paixão dela era consertá-lo. Ela dizia, pega o dinheiro e conserta o jazigo.

Rui foi contra a mesa redonda de Tereza e os irmãos resolveram os conflitos, gerados pela divisão de herança, sem necessidade da presença do poder legal:

Para que é que vai dar uma mixaria para um, uma mixaria para outro? Consertou o jazigo e acabou. Precisa mesa redonda? Que mesa redonda, o quê.