CAPÍTULO 3 A IMIGRAÇÃO PORTUGUESA NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO E
3.4 TRABALHO E COTIDIANO DA CIDADE
3.4.6. As atividades femininas
Embora existisse, o trabalho doméstico que chamavam de criadas de servir, como emprego fixo, foi pouco usado devido à questão dos filhos e do casamento. A atividade mais comum foi a de comerciante, caixa, ou espécie de gerente dos comércios dos maridos ou pais. O depoimento de Rosa marca essa afirmação:
Como mais velha de cinco irmãos sempre ajudei minha mãe nos afazeres domésticos e depois, embora me formasse em professora primária, fui trabalhar com meu pai. Ele dizia que não havia motivos para que eu desse aulas por um salário baixo, quando ele deveria pagar um empregado bem mais por um trabalho que eu poderia fazer. A lógica foi essa eu trabalhei com ele uma vida inteira em todos os seus negócios. Não sei se me arrependo. Mas, quando ele morreu as coisas mudaram para mim. Eu não paguei a previdência quando jovem, só mais tarde, hoje já deveria estar aposentada e não estou, ainda pago.
Para as mais empobrecidas o trabalho que lhes restava era de lavadeiras (faziam rodilhas com uma toalha, equilibravam na cabeça imensas troixas de roupa que levavam geralmente para a Zona sul do Rio de Janeiro). Colocar barraca na feira também foi uma estratégia usada pelas portuguesas. Dona Dolores comprava no Ceasa, levava a mercadoria em embrulhos e sacolas imensas para comercializar nas feiras dos bairros da Zona Sul do Rio de Janeiro. Dedicaram-se a atividades como a costura e bordados com motivos portugueses - folclore do Minho - vendidos, geralmente aos patrícios mais abastados. Muitas delas aproveitavam um cômodo, um quartinho da frente da casa para ali estabelecer pequenos armazéns, botequins ou quitandas ou fornecer alimentos para outros portugueses trabalhadores.
A informalidade foi opção voluntária do trabalho feminino porque, de certa forma, ela podia manter a gestão da sua atividade e, portanto, a liberdade de ritmo de trabalho. Durante certos momentos de suas trajetórias de vida, vira nessas atividades a vantagem de manter uma atividade remunerada, ligadas com as ocupações do lar e a maternidade, podendo incluir trabalho domiciliar e o pequeno comércio. Desta forma as mulheres administravam o lar e ajudavam nos negócios.
Embora o trabalho feminino pudesse ser, muitas vezes, responsável pela segurança do trabalhador, uma vez que esta podia assegurar a sobrevivência enquanto seu marido reivindicava melhores condições de trabalho e salário, esses dados levam-nos a pensar na fragilidade social dessa mulher. Os documentos
registravam a profissão “do lar”, ou seja, sempre esteve fora da segurança social. Se, na maioria das vezes, trabalharam para um parente, fosse pai, marido ou tios, como reivindicar salário, ou melhores condições de trabalho? Portanto, não sendo exceção, a relação da mulher imigrante, com o labor continuou a ter uma base coletiva e não individual e nesse sentido, Hirata (2002) tem razão quando afirma que a exploração do trabalho feminino foi mais exacerbada que o masculino. Além de tudo, o trabalho doméstico na cidade, em comparação ao trabalho do campo, é menos valorizado.
Emilia e Celeste são exemplos típicos. As duas, desde o inicio da vida no Brasil, trabalharam. Primeiro para os pais e depois para os maridos. Emília era órfã de mãe e Celeste, a filha mais velha. As queixas de Celeste ficam tolhidas diante da família, mas podem ser lidas nas aspirações não realizadas, como o fato de não ter estudado para ajudar na padaria do pai. Emilia se sente lesada por tanto trabalho sem remuneração, explorada, principalmente pela madrasta que a empregou em casa de família.
Quando chegou aqui me botaram de empregada em casa de família. Empregou- me como babá. E diziam para eles (os patrões): “Não deixa ela sair e o dinheiro (pagamento) eu é que venho buscar.” Ela pegava o meu dinheiro todo o mês e dizia para o meu pai que eu gastava e meu pai me chamava de gastadora. Eu não me conformo até hoje, eu não tenho aquele rancor no meu coração, mas, sabe, eu não me conformo com o que ela fez comigo. Quando chegamos aqui, minha tia tinha uma quitanda e tinha um empregado e aí a minha tia me obrigou a casar com ele. Eu não gostava dele, mas ela arrumou com o meu pai, aumentou minha idade em 5 anos, não podia casar tão nova. Casou-me com ele e aí que não estudei mesmo e podia ter estudado depois, com meus filhos. Mas depois eu tinha uma casa de negócios e não tinha tempo, porque depois minha tia passou a quitanda para a gente.
Ofélia151 sempre ajudou o seu marido em seus diversos negócios e atualmente se diz pobre depois de tanta dedicação ao trabalho. O marido se “deixou enganar” por um sócio. E, como desabafa, não lhe sobrou nenhuma forma de reivindicação.
Nós tínhamos um restaurante na Praça Quinze, centro do Rio de Janeiro. Em um fim de semana, saí com minhas filhas, quando voltamos, ele tinha vendido sua parte a um sócio. Vendeu mal e não me informou. O sócio passou-lhe a perna. E agora? Que vou fazer? Eu pedi o divórcio. Era tudo o que tínhamos
para educar as minhas filhas isso não podia ser. Ele, depois de tudo, agora está pobre.
Embora comuns entre classes populares estas observações deixam perceber que no processo de mudança de vida, a mulher perde parte do trabalho como forma identitária e enfatiza mais o lugar de asseguradora da integração familiar.
A perda de relevância do trabalho do campo que fora elemento estruturante da mulher camponesa, traz, muitas vezes, conseqüências difíceis de reparar. Podemos afirmar que as novas relações provenientes do processo emigração/imigração tendem a ser mais profundas e desafiadoras para as mulheres do que para dos homens. Essa possibilidade provavelmente tem um significado e um sentido importante no posicionamento e estratégias que as mulheres constroem com a finalidade de combater os cruéis efeitos trazidos pela emigração. Principalmente do ponto de vista psicológico, em virtude das discriminações ocorridas em diferentes ordens, principalmente, nas relações de trabalho.
O ponto de vista da memória dos atores reafirma a hipótese de que o trabalho, ao mesmo tempo em que faz pensar a cidade como um espaço de conflitos, pode ser visto como uma experiência estratégica do imigrante português para se defender dos processos de desterritorização e de perda de cidadania. Sabemos que se o desenvolvimento urbano atraiu para si uma massa de trabalhadores de vários locais, a indústria nascente absorveu apenas um número bem menor que o recebido. Como já mostrou H. Lefebvre152 a rejeição do sistema, que no caso se expressa pela não absorção ao mercado de trabalho industrial, faz parte do sistema produtivo principal que, deixando de lado um contingente de indivíduos, estabelece seus laços em uma economia marginal. Essa economia é, em nosso caso, feita do trabalho artesanal, do pequeno comércio ambulante e dos serviços prestados. Essas formas de trabalho, não tendo garantias, na maioria das vezes acabam excluindo essa população do mercado de consumo, expulsa-a para a periferia e transforma seus locais de moradia em locais de segregação.
Para alguns imigrantes a história no Rio de Janeiro é bem outra. Até hoje trabalham e se sentem realizados. Como o Sr. José, com 84 anos, trabalha em seu restaurante, de 6:00 às 17:00 de segunda a sexta feira:
Às vezes a minha filha me diz: - Papai tira umas férias! – Férias!? As minhas férias eu trabalho, trabalhando eu já tiro férias. É um hábito. Você sabe de uma coisa? Eu fico sábado e domingo em casa. Sábado para mim é uma maravilha, dou as minhas caminhadas... Domingo, já custa a passar. Eu tenho uma casa de praia na barra...
Foi uma luta incansável aqui no Brasil, trabalhei muito, muito, muito. Eu sempre gostei de trabalhar. Modéstia a parte eu sempre soube ser um bom comerciante. E sabe, para ser um bom comerciante, tem que ter tudo de bom. Eu não sei vender nada barato, meu serviço é bom em todos os pontos de vista: mercadoria de qualidade, atendimento, instalações, a minha meta sempre foi essa, tudo de bom, o que há de melhor tenho na minha casa. Vendo à la carte, mas é claro o melhor é a comida à portuguesa. Bacalhau, cabrito, tudo tenho aqui. De bacalhau são vinte opções. A minha empadinha é famosa. Você leu a revista veja153?
(mostra matéria da Revista Veja)
A cidade registra a cultura dos portugueses sob forma de instituições e igrejas, verdadeiros monumentos que guardam a memória de seu apogeu, mas também de forma menos visível, mas intensa no imaginário local, um outro português imigrante aparece. Aquele que, mesmo com seus direitos políticos e sociais anulados, chegou à cidade e, incansável, trabalhou, construiu casarões, casebres, estalagens e cortiços imprimindo nesse espaço sua visão de mundo camponesa que contrasta com os valores que a cidade moderna quer impor.
Para concluir essas reflexões a respeito do trabalho dos portugueses no Rio de Janeiro, acrescentamos que embora entre si tenham características próprias porque, sem extinguir os conflitos culturais, o espaço abriga formas variadas de estilos de vida do ponto de vista econômico, social ou político. O espaço, como uma mercadoria que se completa com o trabalho, reflete interesses conflitantes. E, especificamente para os portugueses, apesar do urbano, é fundamental lembrar costumes e sabedorias provenientes de um mundo agrário, nem sempre tão passado, posto no imaginário.
153 Encravado na Praça Mauá, o restaurante Mosteiro de propriedade do Sr. José Temporão, é um monumento, considerado um espaço de requinte e sofisticação, lembrança de um tempo de glória daquela área carioca.
CAPÍTULO 4 - CAMPOS RELIGIOSOS NO BRASIL E PORTUGAL: UMA