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CAPÍTULO 3 A IMIGRAÇÃO PORTUGUESA NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO E

3.4 TRABALHO E COTIDIANO DA CIDADE

3.4.4 O trabalho feminino

Nesse ponto da análise, considero a divisão sexual do trabalho porque, historicamente, este se apresenta como um elemento de distinção entre o feminino e o masculino. Ao mesmo tempo, se verifica que na sociedade contemporânea, a divisão sexual do trabalho no modo de produção industrial, aumenta a desvalorização do trabalho feminino (Hirata:2002). Refazendo suas histórias de vida, as mulheres mostram que foram mais prejudicadas que os homens, quando mudaram o estilo de vida camponês para a cidade. Distinguir as relações de trabalho a partir do aspecto feminino contribuiu não só para aprofundar o entendimento do efeito do processo emigração/imigração, mas também contribui com as análises que consideram os aspectos culturais no âmbito das transformações do trabalho no mundo contemporâneo.

Comparemos as narrativas de homens e mulheres trabalhadoras nos dois espaços. Do ponto de vista de memória é importante lembrar o conceito construtivista de memória coletiva de Halbwachs (1990), o qual valoriza os suportes de memória para que experiências do vivido individualmente sejam construções coletivas. De acordo com este autor, a memória do grupo é coletiva porque tem por suporte um conjunto de homens que lembram enquanto membros de um grupo. Dessa maneira podemos apoiar nossas lembranças e torná-las comuns perfazendo todo o conjunto da memória do nosso grupo. Lembranças são fragmentos, pois, individualmente, não retemos todo o conjunto de nossas experiências. A memória é seletiva e cada pessoa guarda do acontecido apenas o que lhe é significativo. Lembramos e esquecemos aquilo que queremos ou o que somos levados a lembrar e esquecer. Nas palavras deste autor:

... Dessa massa de lembranças comuns, e que se apóiam uma sobre a outra, não são as mesmas que aparecerão com mais intensidade para cada um deles. Diríamos que cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva, que este ponto de vista muda conforme o lugar que ali eu ocupo, e que este mesmo lugar

muda segundo as relações que mantenho com outros meios (Halbwachs (1990) p.51).

Poderíamos afirmar que o trabalho funciona como um suporte para a memória. Marca a subjetividade e articula as lembranças do indivíduo com o seu grupo, pois pode ser usado como “um quadro social”, portanto, desencadeador de lembranças.

Como exposto no capítulo anterior, o trabalho camponês é organizado em torno das necessidades. Nesse sistema o trabalho fundamenta-se por relações coletivas e cooperativas. Os membros da família trabalham em função da sobrevivência familial, ou seja, é um sistema cujo objetivo maior é a sobrevivência do grupo. Dessa forma, refletir sobre as relações afetivas que envolvem a estrutura das famílias camponesas ajuda a compreender as relações de trabalho. Qual o significado do feminino na ordem camponesa? As narrativas mostram que na vida camponesa o trabalho feminino é visto com grande admiração e valor pelos outros membros da família. Por outro lado, certamente também são relações fortemente hierarquizadas onde os espaços da mulher ficam bastante delimitados e limitados no sentido de submissão ao homem. Dessa forma, existe certa complexidade em caracterizar o status da mulher nessas condições.

Socializadas dentro da ideologia salazarista, podemos afirmar que, apesar do tempo e de tantas outras experiências vividas, essa marca permaneceu e direciona os conceitos que as pessoas fazem das coisas. Nessa percepção, devem-se considerar aspectos construtores de valores desse período: elementos éticos gerados pelo Salazarismo em acordo com a igreja católica e assimilados pelos pequenos agricultores.

As narrativas levaram a pensar no tipo de subjetividade que estes valores constroem em relação à mulher. Historicamente, a igreja católica colocou a mulher em status inferior dentro da ordem social. Essa inferioridade é bem explicada nos próprios dogmas religiosos, vide a tentação no Jardim do Éden, que atribuiu à mulher a culpa pelo desvio do homem. Nesse sentido, nesta sociedade pautada por valores cristãos, a mulher em alguns momentos pode se ver e ser vista como uma eterna pecadora que deve, inclusive, expiar o pecado de ser mulher. Então, essa

identidade submissa existe e é facilmente percebida nas relações afetivas entre homem e mulher. No entanto, no espaço do trabalho devem ser acrescentados outros fatores que concorrem para a visão de que as relações não sejam de submissão ou, pelo menos, não de submissão absoluta.

A posição da mulher dentro da igreja católica, marca sua subjetividade e a envolve em uma rede de relações sociais em que raramente alguma fica de fora. Todas devem estar presentes às atividades religiosas porque se negar a isso equivale à aquisição de estigma nada desejável (GOFFMAN: 1980).

Por outro lado, as atividades femininas são fundamentais para a sustentação dos cultos religiosos. É a mulher que produz alimentos, toalhas, veste dos cléricos, cuidam dos diversos altares da igreja, são responsáveis pelas flores, velas, limpeza e decoração dos locais sagrados, como igrejas, capelas e cemitérios. Essa necessidade gera outras atividades, como o trabalho de plantio de flores, do linho, dos alimentos. Aos homens é reservada a parte pública durante a celebração do culto, como orações e cantos. Assim, embora a mulher, aparentemente, apenas fosse vista como coadjuvante do processo e o trabalho feminino aparecesse como totalmente subalterno aos homens, na prática essa explicação era fácil demais. Uma vez que administrava, também criava relações que envolviam poder; e passava a adquirir funções de mando. Alem disso, de acordo com as narrativas dos entrevistados se, tradicionalmente, a hegemonia de poder neste espaço é masculina, a atuação das mulheres não fica restrita à submissão. Elas são também as depositárias das tradições, tendo o papel pedagógico de passar o conhecimento às crianças, o que acaba por manter e perpetuar a estrutura social e econômica do culto e das celebrações.

No âmbito familiar, a divisão do trabalho entre o homem e a mulher era muito clara, pois no espaço privado da casa o homem dificilmente faz o trabalho feminino. No entanto, não existe reciprocidade. Na agricultura, as mulheres atuam praticamente em todas as funções agrícolas e em suas derivações: o pastoreio, moleiro etc. São comuns comentários do seguinte tipo, em relação às mulheres:

Existe também uma hierarquia interna no grupo feminino que deve ser considerada. O trabalho, dividia as mulheres em mulheres da casa e mulheres do campo. As da casa trabalhavam nos afazeres domésticos (cozinhar, lavar, passar e cuidar das crianças), na horta (eido) e nos jardins. Mas essa divisão não era feita segundo a preferência individual e, sim, por certas características próprias: ser a mais velha, aparentar mais fragilidade (tipo físico) ou ser adoentada. Este fato evidencia o menor status da mulher da casa. Portanto, na divisão do trabalho feminino contavam as características individuais e força física era um elemento determinante das funções e do valor atribuído aos dois sexos.

Em algumas situações essa regra podia ser quebrada e a mulher do campo teria dupla jornada de trabalho. Desde a infância trabalhava o dia todo com uma enxada fazendo praticamente todos os trabalhos feitos pelo homem e também fazia o trabalho doméstico. Os depoimentos a seguir são extraídos das falas de mulheres e dos homens, quando descrevem mães ou avós:

Quando eu tinha 6/7 anos, que eu comecei a ir para a escola e meu pai e minha mãe saíam cedo, pois o meu avô tratava matas de pinheiros para fornecer para uma fábrica de lenha e fazer uma serração. Então se levantavam às 5 horas da manhã, no verão – porque no inverno, nessa hora, não se via quase nada. Era muito frio, lá no norte. Aí eu ficava perto da minha avó, e eu era muito quietinho e a minha avó, já vinha da terra (da horta), dizia: ó Nelson você já comeu alguma coisa? Eu respondia: Não. Cadê o teu pai e tua mãe? Ele tinha ido para o meu avô e a minha mãe saiu cedo para o campo.

Ao lembrar sua vida, o senhor Antônio deixa à mostra a vida de sua mãe, que pode ser tomada como exemplo da realidade da mulher camponesa.

Mesmo pequeno eu já trabalhava. Estudei ali até meus doze anos, mas depois dos 8/9 anos meu pai já me botava. Eu não ganhava. Eu trabalhava para a minha família. Se a minha mãe trabalhava? Meu Deus! Ela não sabia nem ler, mas ela era danada. Mal começava a cavar na terra, daqui a pouco, já estava lá na frente. Depois era cortar erva, ou ceifar como diziam. Era para dar para os animais. Como é o nome do instrumento? Foicinha. Tem a foice para cortar lenha e a foicinha para cortar a erva, como é o emblema do (PT). Eu tenho uma marca aqui que uma me cortou. Agora, a minha mãe era rápida. Ela fazia o campo e depois fazia em casa. Para fazer o pão, como fazíamos na aldeia. Ela não tinha filhas mulheres, era só homem. Somos três homens.

brincar:

Porque a gente tinha que trabalhar. É pequena mesmo. Ia para o campo com a minha mãe. Cortava erva, levava o gado... Mesmo que meu pai tinha dois ou três empregados, a gente ia com eles. Os meninos faziam os mesmos trabalhos das meninas, a mesma coisa. Quer dizer que nós os dois é que sofremos muito. Ele estava em Moçambique, os três é que sofremos mais. Trabalharam!! Tomar conta dos menores. Tínhamos que trabalhar. E o pai só trabalhava no campo, e também era carpinteiro. Minha mãe é que cuidava mais da quinta.

Cresci plantando milho, batata, naquela minha região dava mais milho. Agora, as terras já não são tanto. Mas na época eu e meus pais tínhamos um trabalho! Era o arado, puxado por vacas, não por bois. Na minha terra só tinha vacas. Elas viravam a terra, depois passava o milho e o milho nascia, depois é preciso tirar a erva que nasce em volta e sachar tudinho em volta. Se não o mato tomava conta. Depois tinha que regar, abrir as águas daquela água que chamavam da poça. Aqui o poço é assim, lá era aquelas águas e a gente com uma sachola fazíamos um seixo e foi assim que eu cresci. Eu e meus irmãos.