Preocupação com o desemprego
4.1. A Família em foco ___________________________________________________
Inúmeros autores têm como tema de pesquisa, as transformações ocorridas na família como instituição, nos últimos séculos. Estudos apontam para os elementos que estariam provocando redefinições em sua estrutura e nas dinâmicas conjugais e parentais: a inserção feminina no mercado de trabalho, o controle da reprodução, a regulamentação do divórcio, o aumento da expectativa de vida da população, entre outros. Logo, em vez de se ocupar dos estudos sobre a “família”, a sociologia passa a tratar de “famílias” (no plural), uma vez que, em decorrência destes elementos e da emergência de um novo equilíbrio entre autonomia individual e pertencimento familiar – a partir da ideologia individualista – teve-se como resultado o pluralismo familiar.
Tais mudanças remetem à questão da construção social da pessoa moderna e do surgimento desta ideologia individualista como configuração singular e radical do ocidente, gerando processos de individualização dentro da estrutura familiar – alterando suas percepções e relações na contemporaneidade. Esta perspectiva individualizante se apresenta com inúmeras contradições e questionamentos, e alguns autores apontam para o risco da percepção do indivíduo como ser “atomizado”, descolado do tecido social, capaz de elaborar de forma completamente autônoma suas representações simbólicas. Importante sinalizar ainda, as discordâncias existentes entre as diferentes perspectivas quanto às marcas de pertencimento social (incorporadas pela socialização, memória social, hábitos) e as possibilidades de distanciamento e de reelaboração destas marcas, no sentido da formação do indivíduo singular - questão diretamente relacionada aos processos de construção das identidades sociais.
Brandão (2003) aponta para a existência de uma dupla genealogia filosófica na perspectiva do individualismo, relacionando as idéias de autonomia – de acordo com a qual o sujeito estabeleceria suas próprias leis, sendo o autor de sua vida - e independência – remetendo à ausência de dependência, auto-centramento e auto-suficiência do indivíduo. Tal dimensão é percebida como ambivalente, expressando as tensões existentes entre o exercício da liberdade e a imposição de constrangimentos sociais. Assim, a partir desta concepção moderna, haveria uma tendência a consolidação de maior eqüidade entre os membros
familiares, com a substituição da autoridade paternal pela parental – o redimensionamento da autoridade familiar – e transformações no estatuto infantil, que possibilitariam uma maior participação dos filhos nas decisões familiares. Aponta-se assim para uma “democratização do espaço familiar” e introdução de um “espírito de contrato” na família, colocado através da não subordinação hierárquica do sujeito aos grupos sociais e do redimensionamento de seus vínculos sociais. Importante ressaltar também as peculiaridades da difusão da ideologia individualista no Brasil, que estaria presente no imaginário coletivo, porém marcada por suas especificidades culturais, tais como as “diferentes reflexividades” nas classes sociais distintas – sendo a reflexividade percebida como dimensão mediadora da construção de si. Há que se considerar ainda, a influência do acesso diferenciado a recursos socioeconômicos e culturais, gerando modos diversos de adesão às premissas de “autonomia”, “independência” e
“autenticidade”. A autora reafirma assim, a importância de um tratamento cuidadoso à percepção das matrizes holista e individualista, uma vez que estas funcionariam como tipos-ideais – no sentido weberiano – reduzindo a complexidade da realidade empírica (BRANDÃO, 2003:35-50).
Tais fenômenos estariam impondo à família, o redimensionamento de suas bases, alterando a percepção do ambiente familiar – entendido como espaço de construção de individualidades - e as relações entre as gerações. Aponta-se então, para o aprofundamento do processo de individualização no interior da família, com um centramento mais radical no indivíduo, tendo por conseqüência uma equalização das posições sociais. No entanto, esta perspectiva tem sido relacionada às “camadas médias urbanas” (VELHO, 2004, 1986;
BRANDÃO, 2003) enquanto camadas ditas “populares” ou “trabalhadoras” têm sido apontadas como constituídas de uma perspectiva mais “tradicional” (DUARTE, 1985;
SARTI, 2005; GUEDES & LIMA, 2006).
Singly (2007) em Sociologia da Família Contemporânea faz uma grande revisão da literatura do tema, discutindo as questões acima, a relação entre a família contemporânea e a escola, os laços com a parentela, a figura feminina, suas formas de organização e laços com o Estado. O autor coloca a individualização como um conceito-chave dentro do tema e caracteriza a família contemporânea como “relacional”, ainda que inscrita neste processo de individualização e autonomização de seus membros. Para o autor, não há “atomização” neste processo, uma vez que os indivíduos não estão “desligados de todos os elos e do social”, têm o poder de definir sua vida socialmente validado e não possuem um único elo, mas sim múltiplos (SINGLY, 2007:20-22). Resgatando Durkheim, Singly reforça sua percepção de família “relacional”, coloca que o funcionamento desta dependeria de sua morfologia social e
“das condições mais fundamentais do desenvolvimento histórico”; afirma ainda que na modernidade mudam as condições para as transmissões geracionais e heranças, com a valorização dos ganhos a partir do mérito pessoal (SINGLY, 2007). No entanto, através dos estudos de Philippe Ariès (1981), o autor acrescenta outro elemento e aponta para o papel do novo lugar ocupado pela criança, conseqüentemente pela infância e pela escola, como elementos de transformação. Afirma que não é possível entender a família moderna sem considerar a história da escolarização e que a ampliação da freqüência escolar colocara a criança num lugar mais importante do que em qualquer outro tipo de família. Ainda de acordo com Ariès37 a escola teria criado uma idéia particular de infância, com a diferenciação entre as idades e etapas do desenvolvimento infantil, e afirma que hoje a “infância” teria se prolongado ao longo da escolaridade com a escola exercendo influência desde o nascimento, adolescência e até mesmo na pós-adolescência. Singly afirma que de Durkheim a Ariès, a construção de uma teoria da família contemporânea teria progredido, como resultado da idéia de “família centrada nas pessoas” completada pela idéia do “papel decisivo da escola”.
Portanto, a criança passara a ser não só objeto de afeição, mas também de ambição (SINGLY, 2007:48-49).
A fim de ampliar a compreensão teórica da família, Singly traz a perspectiva de Bourdieu, afirmando que em termos de objetivos, tanto a família moderna quanto a família antiga têm a função de reprodução biológica e social da sociedade, buscando a manutenção e/ou melhora de sua posição do espaço social (SINGLY, 2007:49). Desta forma, numa sociedade em que o modo de produção está baseado na educação escolar, e que o capital escolar é tido como dominante, as certificações escolares passam a ser de fundamental importância, estando em constante disputa (SINGLY, 2007; OFFE, 1990; BOURDIEU &
BOLTANSKI, 2003). Portanto, as estratégias educativas tornam-se o centro das estratégias de reprodução social da família uma vez que “numa sociedade onde o modo de produção é baseado na educação escolar, o valor de uma família (e do grupo social ao qual ela pertence) é definido pelo montante de capital escolar que detém o conjunto de seus membros”
(SINGLY, 2007:50)38. Este fenômeno faria com que famílias de pequenos comerciantes por exemplo, adotassem “estratégias de reconversão”, transformando seu pequeno capital econômico em capital escolar, sem que isso representasse de fato uma mudança em seu posicionamento na estrutura social ou uma ascensão social.
37 Em Ariès, Philippe (1981). “História Social da criança e da família”. RJ: Zahar Editores.
38 Importante ressaltar que percebemos a existência de uma dinâmica social que envolve vários tipos de capitais para a aquisição de posições na estrutura social, tal qual a importância do capital social ou das redes.
Autores como Sarti (2005), Velho (1986, 2004), Duarte (1985), Guedes & Lima (2006), Brandão (2003, 2006), Salem, (2006), Vaitsman, (1994) tratam das diferenciações entre os modelos familiares mais ou menos “tradicionais”, e perspectivas “holistas” ou
“individualistas” adotadas pelos indivíduos, associando-as ao pertencimento social e representações simbólicas destes, diferenciando famílias de camadas populares e trabalhadoras daquelas de classes médias. As famílias de “trabalhadores” ou “camadas populares” são comumente associadas a níveis mais baixos de incorporação ao individualismo, com características mais “holistas” ou “tradicionais”, tendendo a uma separação mais rígida dos papéis de gênero na família, com menor perspectiva de eqüidade; a existência da ética do provedor e da ética do trabalho39, expressa pelo papel de “chefe de família” (o homem); e do cuidado com a casa e filhos (trabalho doméstico) sob a responsabilidade da mulher/esposa. No entanto, estas seriam referências para um modelo ideal, atingido apenas em alguns casos; na realidade empírica existiriam composições familiares diversas de acordo com as desigualdades sociais das condições de vida familiar.
De acordo com Sarti (2005), os projetos40 familiares das camadas populares, poderiam ser traduzidos como “melhorar de vida”, associado ao casamento e concebido a partir de uma complementaridade entre os papéis do homem e da mulher. O próprio casamento teria contornos de projeto e concomitantemente, se desenvolveria a idéia do
“homem de respeito”, “pai de família” e da “boa esposa” e “boa mãe”. Dentro desta perspectiva de “melhorar de vida”, a autora41 aponta para o desencorajamento dos projetos de ascensão social via escolarização, gerado pelo desemprego e diminuição do valor real dos
39 Guedes & Lima (2006) enfatizam a importância da ética do trabalho, relacionando-a com a ética do provedor e o papel do homem, ampliando esta questão para além da percepção clássica que colocaria a “moral do trabalho” em referência a formas de dominação apenas na relação capital-trabalho, relacionando-a com um universo simbólico mais amplo.
40 Velho (2004) em “Individualismo e Cultura” utiliza a noção de projeto de Schutz para pensar as relações entre os familiares e expectativas nas camadas médias urbanas. O autor afirma que o ponto de partida para se pensar no projeto é a possibilidade dada aos indivíduos de escolherem – dimensão que estaria diretamente relacionada às noções modernas de amor e indivíduo, indissoluvelmente ligadas, onde a escolha, opção em acordo ou desacordo com grupos e categorias sociais, seria fundamental. Complementando a noção de projeto, uma outra categoria de extrema importância seria a de campo de possibilidades. O projeto não seria fenômeno puramente subjetivo, mas formulado dentro de um campo de possibilidades, inserido histórica e culturalmente tanto com relação à própria noção de indivíduo, quanto aos paradigmas culturais existentes.
41 Sarti (2005) concentrou seus estudos em uma população de migrantes em São Paulo, onde segundo ela, o
“melhorar de vida” estaria intimamente ligado ao próprio processo de migração e às maiores possibilidades de trabalho, consumo e educação geradas pela vida urbana em oposição à rural, ainda que esta população estivesse inserida nos estratos mais baixos da sociedade.
salários, a conseqüente queda da renda familiar e necessidade de incorporação de mães e filhos ao mercado de trabalho (SARTI, 2005:83). Assim, as categorias de esforço e merecimento teriam grande importância, fortalecendo o valor do trabalho e sua relação com o
“melhorar de vida”, pensado em termos da moralidade familiar e da lógica de obrigações entre os familiares (idem: 94). Diferentemente do que estaria ocorrendo em camadas médias, a inserção feminina no mercado de trabalho seria vista como situação provisória, sendo o sentido do trabalho para a mulher subordinado às obrigações familiares da casa e dos filhos.
Tal sentimento seria fortalecido por sua baixa remuneração em geral – devido à baixa escolaridade – e pela sobrecarga da necessidade de realização das tarefas domésticas, gerando uma situação muito sacrificante e cansativa para a mulher.
Sarti ressalta ainda o valor dado aos filhos, percebidos como constituintes desse projeto familiar que envolveria casamento, casa e filhos. Aponta para uma diferença entre a passagem da infância à vida adulta nas camadas populares se comparada às famílias de camadas médias, pois enquanto as últimas se esforçariam para ampliar a juventude até o término dos estudos – e a dependência financeira seria um elemento importante neste processo – o mesmo não ocorreria com as camadas populares. Nestas, as aspirações em termos de escolaridade seriam menores, a juventude não seria tratada de forma tão
“dependente” e a linha divisória entre a infância e as outras etapas, estaria ligada à não participação nas obrigações familiares e nem atividades de trabalho. Entretanto, a autora aponta para a dificuldade de se determinar com precisão os limites da “infância”, já que esta poderia ser rompida por questões diversas tais como crises financeiras da família e ocorrência de gravidez, entre outros, provocando a “chegada do amadurecimento” (SARTI, 2005:73).
Importante sinalizar também que, sendo um grupo social inserido no contexto urbano, é de certa forma inevitável a valorização da escola e escolaridade como marca de distinção, e o que marcaria a diferença entre as camadas populares e médias seria a centralidade ou não desta questão nos projetos familiares.
Diante destas diferenciações de fronteiras de classe ou fronteiras culturais, Velho (2004) alerta para o risco do “fatalismo sociológico”, fazendo com que o pesquisador atribua determinado sistema simbólico ao nascimento em uma determinada classe ou outra, como se todo o desenvolvimento emocional e intelectual do indivíduo já estivesse pré-determinado por tal condição. O autor coloca que as próprias noções de “classe média” e “trabalhadora” são excessivamente vagas e podem esconder diferenças internas consideráveis como por exemplo tipo de trajetória social ou a natureza da rede de relações sociais da qual os indivíduos usufruem (VELHO, 2004:20). O autor indica então a importância da experiência de
mobilidade social, ascensão ou descenso, introduzindo variáveis significativas na experiência, além do contato com outros grupos e círculos, que afetariam a visão de mundo e estilo de vida do indivíduo. Assim, um problema básico seria justamente a delimitação de fronteiras culturais e de classe entre grupos de indivíduos que, de acordo com critérios sócio-econômicos, pertenceriam a mesma categoria.
Portanto, Velho (2004) aponta para o uso da trajetória como possibilidade alternativa de análise, numa forma de ampliar a perspectiva única da posição do indivíduo, família ou grupo, colocando inclusive a própria trajetória em si como expressão do projeto, iluminando questões dos comportamentos, preferências e aspirações. O autor resgata a diferenciação fundamental feita por Bourdieu entre posição e condição de classe, buscando formas de relativizar a trajetória, tentando compreender o projeto e o que teria possibilitado uma trajetória e não outra (BOURDIEU, 2004). Ressalta ainda a importância de se recuperar o caráter dinâmico do conceito de cultura, percebendo-a como expressão e criação de indivíduos interagindo, escolhendo, optando; possibilitando assim a percepção da interlocução de tendências diferenciadas e a dimensão não-unânime das aspirações (VELHO, 2004).
Seguindo o mesmo raciocínio, Sarti (2005:51) aponta para a possibilidade de incorporação de “novos padrões” de comportamento concomitantemente à permanência de
“padrões tradicionais”, colocando os pobres urbanos numa condição de ambigüidade, numa identidade construída por sistemas de valores distintos, não elaborados por eles, porém próprios da complexidade urbana onde tais atores se integram.
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Os apontamentos dos atores citados nesta seção contribuem para a compreensão dos fenômenos observados, e dinâmicas vividas pelas famílias de trabalhadores de Resende. Estes trabalhadores, diante das alterações no mercado de trabalho impostas pelo sistema produtivo, têm repensado seus projetos familiares e suas estratégias educativas, muitas vezes colocando-as no centro de sucolocando-as estratégicolocando-as de reprodução familiares. Ainda que a literatura aponte que tal perspectiva seja comumente mais associada a camadas médias, estes trabalhadores, a fim de manterem-se nesta condição – e não se tornarem desempregados – têm se deparado com um novo elemento a ser incluído na constituição do “ser trabalhador”: a escolaridade. Logo, precisam reagir às novas exigências do mercado de trabalho, e suas percepções e formas de reação são tema da próxima seção.