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Preocupação com o desemprego

3.1. Resende, “a great city for business” _________________________________________

Entre os dias 26 e 30 de setembro de 2007, no Parque de Exposições Francisco Fortes Filho, ocorreu a 40ª EXAPICOR (Exposição Agropecuária, Industrial e Comercial de Resende), comemorando o aniversário de 206 anos da cidade de Resende. O mega evento que nas últimas duas edições tornou-se gratuito, trouxe para a cidade atrações musicais, stands de negócios, exposições de agropecuária, parque de diversões e rodeio, além de contar ainda com um grande desfile das escolas locais – evento realizado pela Prefeitura de Resende, com o patrocínio da Volkswagen Ônibus e Caminhões, do grupo Votorantim Metais, do Governo do Estado do Rio de Janeiro e do Sindicato Rural. Visitando a festa, foi possível perceber o protagonismo da VW e o destaque dado a Votorantim Metais: a VW alocou quatro caminhões logo na entrada do evento (ver Figura 6) e a Votorantim dispôs de um grande stand, expondo a história da empresa associada à indústria do automóvel brasileira, bem como informações sobre seu projeto para a região, prevendo a criação de setecentos postos de trabalho entre próprios e terceiros (ver Figura 7).

Figura 6

Ônibus da VW recepcionando o público na entrada da 40ª EXAPICOR Foto de Marina Cordeiro em 29 de setembro de 2007

Figura 7

40ª EXAPICOR e stand da Votorantim Metais Foto de Marina Cordeiro em 29 de setembro de 2007

O evento foi bastante freqüentado e de fato, era a “sensação do momento”. Contou com atrações musicais famosas e nas cidades vizinhas como Itatiaia por exemplo, falava-se muito sobre o evento. Nas exposições relacionadas a negócios, cartazes e painéis chamavam atenção para a cidade de Resende, “uma grande cidade para grandes negócios” (ver Figura 8 abaixo) e eram distribuídos folders bilíngües “a great city for business”.

Figura 8

40ª EXAPICOR, “Resende, uma grande cidade para grandes negócios”

Foto de Marina Cordeiro em 29 de setembro de 2007

No folder, inúmeras informações sobre a cidade, como localização geográfica, infra-estrutura de suporte e logística, meios de transporte, políticas de incentivos, informações geofísicas, principais rodovias, potencial para investimentos e educação. A princípio, casou-me certa estranheza ver um tópico “educação – education” em tal folder destinado ao empresariado, contendo o número de escolas públicas e privadas, alunos e os estabelecimentos de ensino superior (Associação Educacional Dom Bosco - AEDB, Universidade Estácio de Sá, Universidade Estadual do Rio de Janeiro - UERJ e Academia Militar das Agulhas Negras – AMAN). No entanto, a presença de tal informação é absolutamente compatível com a perspectiva do desenvolvimento econômico local, na medida em que tal “desenvolvimento” mantém com a “educação”, estreita correlação, como viemos mostrando ao longo do trabalho.

Na festa, a VW, um dos patrocinadores oficiais do evento, mostrou seu destaque

“recepcionando” o público com seus caminhões; a Votorantim, comprovou que é a próxima

“menina dos olhos” a se instalar na região22; e percebemos o destaque da “educação” no cenário local, como comprova o folder “a great city for business” e os próprios trabalhadores que ficaram “de fora” das outras fábricas e já estão “se preparando” para a chegada da Votorantim. Assim, percebemos que o fator “educação” tem sido colocado tanto como um

“atrativo para negócios” por parte da cidade, quanto como uma “garantia de concorrência” no mercado para os trabalhadores.

***

A negociação para a implantação da nova planta da VW e da PSA Peugeot-Citroën em Resende (em 1996 e 2001, respectivamente), tem como pano de fundo a política de incentivos fiscais posta pelo “novo regime automotivo”23 e o processo de reespacialização da indústria,

22 Durante um certo período de meu trabalho de campo, ficou exposto no acesso à “Grande Alegria”, um outdoor que continha a seguinte frase: “Bem-vinda Votorantim, Resende agradece sua presença”.

23 Nascido durante o Plano Real, o “novo regime automotivo” propiciou a construção de novas fábricas e reestruturação de unidades antigas, com um gasto de aproximadamente 20 bilhões de dólares. O “novo regime automotivo” buscou construir mecanismos de incentivos fiscais e diminuiu as exigências de nacionalização – diferentemente da política industrial dos anos 50 – estimulando definitivamente o ingresso de novas montadoras.

A implementação desta política industrial concedeu grande poder às montadoras que ampliaram sua capacidade de interferência nas políticas fiscais e tributária do governo, no perfil do setor de autopeças, nas relações de trabalho e, através da guerra fiscal, também nas políticas de desenvolvimento regional e municipal. Tinha como principais objetivos: (1) manter em funcionamento as grandes montadoras e as indústrias de autopeças já instaladas no país; (2) reestruturar as empresas brasileiras do setor; (3) atrair novas companhias e estimular a

deslocando-se das regiões “tradicionais” – como o ABC paulista – para aquelas chamadas green-field24. Conseqüentemente, e aliada a uma visão de que “desenvolvimento só existe com indústria automobilística”25, deflagrou-se uma guerra fiscal entre estados e municípios, na busca de atrair os investimentos para sua localidade. Nessa dinâmica, o governo federal permitiu que o governo do Estado do Rio de Janeiro participasse deste “leilão” com o objetivo de atrair as montadoras e fornecedoras, e tanto para a implantação da VW quanto da PSA Peugeot-Citroën foram utilizados os mesmos mecanismos: doação de terras, incentivos fiscais, salários baixos e infra-estrutura regional que atendesse aos interesses das montadoras.

No entanto, no caso específico da VW, o governo estadual custeou boa parte da infra-estrutura, dispondo de uma verba em torno de 15 bilhões de dólares; já no caso da PSA Peugeot-Citroën o próprio Estado do Rio de Janeiro entrou como sócio da empresa, com aproximadamente 32% de participação no seu capital (com acréscimo de empréstimo substancial por parte do BNDES) (RAMALHO & SANTANA, 2006a:18).

Inúmeros fatores possibilitaram a escolha de Resende: os incentivos, a posição geográfica estratégica - no eixo Rio-São Paulo – e o ponto que é o foco deste trabalho, a educação. A existência de (1) um bom nível de escolarização em Resende, atribuído historicamente à Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), sua influência na vida do município e a atuação de bons professores oriundos da Academia, que teriam contribuído para a elevação do padrão de qualidade das escolas; e (2) uma unidade do SENAI, possibilitando a formação técnica e profissional dos trabalhadores; também foram fatores decisivos nessa escolha (RAMALHO & SANTANA, 2006:22). De acordo com Rocha (2006), a instalação da unidade do SENAI de Resende se deu em 1981, já com o intuito de transformar a região em pólo industrial, e têm mantido com as montadoras, desde suas implantações, estreita relação.

Assim, o SENAI além de ter sido um argumento de atratividade, atuou no recrutamento de funcionários, disponibilizando seu banco de dados de egressos; reabriu cursos extintos;

construção de novas plantas e marcas; (4) consolidar o Mercosul e reforçar a posição do Brasil como seu ator-chave (RAMALHO & SANTANA, 2006a:16; ARBIX, 2007:1; LIMONCIC 2001:53).

24 Green-Field: local com ausência de tradição sindical e de trabalho em montadoras, existência de infra-estrutura de apoio e para escoamento da produção, estabilidade política local, acesso a mercados consumidores, salários mais baixos do que nas regiões de tradição sindical, disponibilidade de força de trabalho (RAMALHO &

SANTANA, 2006a:17).

25 A título de exemplo, a questão aparece no depoimento do ex-secretário de Indústria e Comércio do Estado do Rio de Janeiro, Márcio Fortes (1999) da seguinte forma: “Não há país desenvolvido decente no mundo que não tenha uma fábrica de automóveis (...) A indústria automobilística é uma marca de desenvolvimento industrial.

(...) País que se preza tem que ter indústria automobilística. Mais ainda, Estado que se preza no Brasil tem que ter indústria automobilística” (RAMALHO & SANTANA, 2006a:19).

utilizou equipamentos e materiais das empresas; e ainda montou um protótipo da linha de montagem da PSA Peugeot-Citroën em sua unidade, destinada ao treinamento de seus funcionários (ROCHA, 2006:143). Dentro desta dinâmica “trabalho-educação” em Resende, além do fortalecimento da unidade do SENAI, vários cursos e estabelecimentos de ensino têm sido criados, no intuito de atender a esta nova demanda por profissionais colocada pela indústria automobilística.

A partir de dados do Atlas do Desenvolvimento Humano, trabalhando com os anos disponíveis, 1991 e 2000, é possível traçarmos um perfil da educação no município a nível macro; e é importante ter em mente que o ano de 1991 antecede a implantação da VW (a primeira montadora a se instalar), e o ano de 2000 corresponde a quatro anos de existência da VW e antecede a chegada da PSA Peugeot-Citroën (que se deu em 2001). Para melhor compreendermos tais dados, apresento as tabelas com os dados do município de Resende, comparando-os com dados do estado do Rio de Janeiro e de outros estados da região Sudeste, buscando fornecer um panorama geral da elevação das taxas de escolarização da região. O Anexo IV traz a Listagem de Indicadores utilizados no Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, para melhor identificação das categorias.

Podemos apontar algumas modificações no quadro de escolaridade do município de Resende (ver Gráfico 4), nos anos de 1991 e 2000 que compreendem, de certa forma, o período de implantação das empresas na região: é possível observar melhorias em todas as taxas referentes à educação de adultos (“população de 25 anos ou mais”) e o mesmo acontece quando nos referimos aos jovens, em idade de 18 a 24 anos (ver Gráfico 5). Vale a pena ainda observar os indicadores relacionados à educação utilizados no cálculo do Índice de Desenvolvimento Humano do Município (IDH-M), que se eleva de 0,844 no ano de 1991 para 0,918 no ano de 2000 (Gráfico 6).

Gráfico 4

Educação População de 25 anos ou mais, 1991 e 2000 Resende / RJ

13,07

31,67

64,64

11,37

1,36

3,66 55,1

14,35

2,03 7,8 5,87

21,45

0 10 20 30 40 50 60 70

analfabetas com menos de quatro anos de estudo

com menos de oito anos de estudo

com doze anos ou mais de estudo

freqüentando curso superior

com acesso ao curso superior

%

1991 2000

Gráfico 5

Educação População de 18 a 24 anos, 1991 e 2000 Resende / RJ

4,01

16,49

54,89

6,75 5,71 6,15

1,4

41,2

10,4 10,98

8,74 7,8

0 10 20 30 40 50 60

analfabetas com menos de quatro anos de

estudo

com menos de oito anos de estudo

com doze anos ou mais de estudo

no curso superior com acesso ao curso superior

%

1991 2000

Fonte: Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil

Fonte: Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil

Gráfico 6

Indicadores utilizados no IDHM - Educação, 1991 e 2000 Resende / RJ

89,15

49,1 89,13

129,74

91,92

26,29 14,77 116,38

74,78 93,11

0 20 40 60 80 100 120 140

Taxa de alfabetização Taxa bruta de freqüência à escola

Taxa bruta de freqüência ao fundamental

Taxa bruta de freqüência ao ensino

médio

Taxa bruta de freqüência ao superior 1991 2000

Para uma melhor compreensão do significado dos dados, apresentamos uma tabela (Tabela 1), cruzando dados de educação do município e do estado do Rio de Janeiro, com relação à população de 25 anos ou mais:

Tabela 1

Educação: população de 25 anos ou mais (percentual)

analfabetas

com menos de quatro anos de estudo

Com menos de oito anos de estudo

com doze anos ou mais de estudo

freqüentando curso

superior

com acesso ao curso superior Resende

1991 4,0 16,5 54,9 6,8 5,7 6,2

2000350.34 / g150.84 132.14 65.04 27.6 ref154.02 139.04 58.68 13.8 refBT/TT2 1 Tf12 0 0 12 197.7 141.80.0 87.78 121,4350.34 / g216.54 132.14 64.5 27.6 ref219.72 139.04 58.2 13.8 refBT12 0 0 12 262.92 141.80.0 87.78 127,8 14,9 46,8 8,2 7,0 7,6

Observa-se então, que o município possui taxas similares às do estado, tendo inclusive melhor desempenho em algumas categorias. Para uma melhor observação da evolução das taxas, apresentamos o Gráfico 7 abaixo:

Gráfico 7

Educação, População de 25 anos ou mais, 1991 e 2000 Resende e Estado do Rio de Janeiro

0 10 20 30 40 50 60 70

analfabetas com menos de quatro anos de estudo

com menos de oito anos de estudo

com doze anos ou mais de estudo

freqüentando curso superior

com acesso ao curso superior

%

Resende - 1991 Rio de Janeiro - 1991 Resende - 2000 Rio de Janeiro - 2000

Vale atentar para os dados relativos ao tamanho da população que mostram que, no período 1991-2000, a população de Resende teve uma taxa média de crescimento anual de 2,47%, passando de aproximadamente 85 mil pessoas para 105 mil em 2000. Já com relação ao estado do Rio de Janeiro, observa-se que no período 1991-2000, a população teve uma taxa média de crescimento anual de 1,35%, passando de aproximadamente 13 milhões de pessoas para 14,5 milhões em 2000.

Em seguida, apresentamos uma tabela (2) com dados relativos à média de anos de estudo da população de 25 anos ou mais, dos dez municípios do estado com as maiores médias; constata-se que, no quadro municipal geral, Resende está bem posicionada, estando em quinta posição, com uma média de 5,96 anos de estudo em 1991 e de 7,07 anos em 2000.

Interessante notar ainda que, comparando os dados do município de Resende e estado do Rio de Janeiro (ver Gráfico 8), observamos que, no período entre 1991 e 2000, enquanto o

Fonte: Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil

município do Rio de Janeiro elevou sua média em 0,75 anos, Resende elevou em 1,11 anos.

Tabela 2

Média de anos de estudo, pessoas de 25 anos ou mais

Posição Município do RJ 1991 2000

1° Niterói 8,84 9,65 2° Rio de Janeiro 7,73 8,42 3° Nilópolis 6,35 7,43 4° Volta Redonda 6,5 7,36

Resende 5,96 7,07

6° Macaé 6 6,87 7° São Gonçalo 5,78 6,71 8° Iguaba Grande 4,66 6,63 9° Maricá 4,97 6,56 10° Mangaratiba 4,72 6,55

Gráfico 8

Média de anos de estudo, população de 25 anos ou mais, 1991 e 2000 Resende, estados do Sudeste e Brasil

5,96

6,48

7,07 7,23

5,9 5,87

4,87 5,76

4,63 4,85

6,85

5,62

0 1 2 3 4 5 6 7 8

Resende Rio de Janeiro Espírito Santo Minas Gerais São Paulo Brasil

N° de anos

1991 2000

Fonte: Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil

Fonte: Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil

Em seguida, apresento gráfico (9) comparativo dos indicadores utilizados no IDHM – Educação de Resende e do estado do Rio de Janeiro – importante ressaltar que a taxa de alfabetização é calculada em percentagem, enquanto as outras são taxas brutas (ver Anexo IV). Interessante observar que em ambas as localidades há crescimento nas taxas brutas de freqüência ao ensino médio e de freqüência ao ensino superior. No que se refere à primeira taxa, estado e município cresceram em escala similar, com 87% de crescimento em Resende (que passa de 49,1 em 1991 para 91,92 no ano 2000) e 74% no RJ (que passa de 50,9 em 1991 para 88,57 no ano 2000). No entanto, com relação a taxa bruta de freqüência ao ensino superior, Resende quase dobra seus valores, atingindo 78% de crescimento (passando de 14,77 em 1991 para 26,29 no ano 2000) enquanto o RJ cresceu 44% (passando de 17,25 em 1991 para 24,84 no ano 2000).

Os dados aqui apresentados dão um panorama geral da escolaridade na região, convidando-nos a explorá-los e relacioná-los com alterações no mercado geral da região – análise que será melhor desenvolvida adiante.

Gráfico 9

Indicadores utilizados no IDHM - Educação, 1991 e 2000 Resende e estado do Rio de Janeiro

0 20 40 60 80 100 120 140

Taxa bruta de freqüência à escola

Taxa bruta de freqüência ao fundamental

Taxa bruta de freqüência ao ensino

médio

Taxa bruta de freqüência ao superior

Taxa de alfabetização

Resende (RJ)1991 Rio de Janeiro - 1991 Resende (RJ) 2000 Rio de Janeiro - 2000

Fonte: Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil