4.2 A Flona Tapajós e as comunidades de resistência
4.2.1 A Flona Tapajós no contexto da malha programada
Quando a Flona Tapajós foi criada em 1974, compreendendo uma área de aproximadamente 600 mil hectares, a maior parte dos limites da reserva estava localizada dentro do município de Santarém, e uma pequena parte no município de Aveiro. Porém, em 1996 os limites do município de Santarém foram redefinidos, em virtude da criação do município de Belterra, uma possessão do Ministério da Agricultura desde 1945, quando a Ford Company devolveu aquelas terras ao governo brasileiro. Assim, com esta nova configuração espacial dos municípios, toda a área da Flona, exceto a que pertencia a Aveiro, passou a fazer parte do município de Belterra, englobando cerca de 60% da sua extensão territorial.
Enquanto constituía domínio direto do governo federal, Belterra foi uma base importante para os levantamentos florestais realizados a partir da década de 1970, pelo PRODEPEF. Belterra apresentava uma boa infraestrutura, pois havia sido bem equipada pela Ford Company, que construiu uma série de casas, escritórios e estações de pesquisa, além de uma bem montada estrutura urbana. Depois de devolvida ao governo brasileiro, em 1945, Belterra tornou-se uma unidade do Ministério da Agricultura, funcionando sob a supervisão do SPVEA, como uma estação de pesquisa para apoiar principalmente o cultivo de seringueiras. Belterra foi também um importante ponto de referência para a localização da Flona Tapajós, cuja criação foi concebida e proposta pela própria equipe do PRODEPEF que havia executado os levantamentos florestais. Em entrevista realizada em 2003 com o Dr. Jean Dubois, que coordenou o Subgrupo de Estudos e Pesquisa do PRODEPEF, e que estava presente quando as fronteiras da Flona Tapajós foram concebidas e traçadas, ele explicou a importância de Belterra neste processo:
EDVIGES Por que a Flona Tapajós foi criada neste local?
DR. DUBOIS Você sabe, todas as pessoas, os funcionários do IBDF e a equipe de pesquisa e gestão florestal que faziam parte do PRODEPEF estavam alojados em Belterra. Havia uma boa infraestrutura, com casas e escritórios, algumas delas foram também financiadas pela FAO. Na verdade, existiam duas áreas com uma infraestrutura muito boa, Belterra e Fordlândia. Quando a Flona Tapajós foi criada, Fordlândia53 era um
local bem antigo, que tinha uma infraestrutura boa, mas Belterra neste sentido era muito melhor. Acho que àquela época não havia nenhuma outra área de floresta que contasse de forma consistente com duas características: infraestrutura e proximidade. Estas foram também razões que subsidiaram a escolha.
Ainda que a infraestrutura e a proximidade de um centro urbano com instalações portuárias tenham sido critérios importantes para a localização da Flona Tapajós, a definição dos limites da reserva tornou- se problemática sob diversos pontos de vista. Um dos mais sérios aspectos relacionava-se à sobreposição das fronteiras da reserva com os territórios pertencentes a um grande número de grupos sociais. Embora
53 Fordlândia era outra base da Ford Company, estabelecida no médio rio Tapajós, para
a Flona Tapajós tenha sido criada no contexto das ações planejadas do governo para a expansão das fronteiras econômicas da Amazônia, as quais deveriam estar fortemente assentadas numa vasta base de dados, nenhum levantamento populacional e/ou agrário fora realizado antes da sua criação, apesar do fato de que a categoria Floresta Nacional não permitia a residência de pessoas na área.
A Flona Tapajós sobrepôs-se não somente às terras pertencentes
a 18 comunidades54 localizadas ao longo da margem direita do rio
Tapajós, como também a de outros núcleos populacionais. Um desses foi o de São Jorge, composto basicamente de imigrantes do Nordeste do país, majoritariamente do Maranhão, localizado às margens da rodovia Santarém-Cuiabá, na área denominada “planalto”. A Flona também se sobrepôs às terras há muito tempo ocupadas por núcleos de famílias ao longo do rio Cupari, na região central da reserva, localizadas parcialmente no município de Aveiro, criado em 1962. Além destas áreas, os limites da Flona também se sobrepuseram em parte a uma área do Projeto Integrado de Colonização de Itaituba (PIC Itaituba), que em 1973 havia instalado ali 571 famílias (IANNI, 1979, p. 62).
A sobreposição da Flona Tapajós com as terras destas populações gerou diversos conflitos sociais, institucionais e administrativos, inclusive com o município de Aveiro, cuja competência administrativa conflitava com a legislação federal para a reserva florestal, que limitava sua autonomia. Além disso, as terras às margens das rodovias Transamazônica e Santarém-Cuiabá foram inicialmente destinadas a projetos de colonização implantados através do PIN, estando a maioria destas terras sob a administração do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). A localização da Flona Tapajós na mesma área que havia sido destinada aos projetos de colonização também causou conflitos de competência administrativa entre o INCRA e o IBDF. Ambos os órgãos pertenciam ao Ministério da Agricultura, e eram responsáveis, respectivamente, pela implantação e supervisão dos projetos de colonização e pela Flona Tapajós. Deste modo, ao mesmo tempo que o INCRA instalava famílias na área, o IBDF começava a tomar medidas para a remoção das pessoas de lá. A criação da Flona nesta região, sobrepondo-se aos projetos de colonização governamentais, refletiam, em parte, as mudanças nas políticas voltadas à expansão das
54 Acaratinga, Itapaiuna, Itapuama, Jaguarari, Jamaraquá, Jatoarana, Maguari, Marai,
Marituba, Nazaré, Paraíso, Pedreira, Pini, Piquiatuba, Prainha, São Domingos, Taquara e Tauari.
fronteiras econômicas da Amazônia que ocorreram a partir de 1974, quando o II PDAM substituiu o PIN, transferindo a ênfase inicial sobre os projetos de colonização para a exploração intensiva dos recursos naturais por grandes empreendimentos.
A criação da Flona também se tornou problemática do ponto de vista técnico. Apesar de criada para promover a produção madeireira planejada e intensiva, a área da reserva abrigava uma das mais baixas densidades de madeira na região. Segundo Dr. Dubois, tal delimitação de reserva resultou da inexistência de estudos preliminares para avaliar o potencial madeireiro da área, conforme ele explicou numa entrevista:
EDVIGES O senhor está dizendo que a Flona Tapajós foi criada sem estudos, sem que fosse feito um levantamento florestal prévio?
DR. DUBOIS Ah, sim, foi sem levantamentos florestais preliminares. Talvez algumas parcelas estudadas por Dammis Heinsdijk55 estavam na
área da Flona Tapajós, mas levantamentos mais profundos, para que se tivesse uma ideia mais precisa do potencial madeireiro, não foram feitos. Por exemplo, quando a Flona Tapajós foi criada, a identificação da tipologia florestal, dos tipos de florestas existentes, não foi efetuada... Eu estava presente quando o grupo com Wanderbilt decidiu criar a Flona Tapajós. O grupo era composto por ele, Wanderbilt Duarte de Barros, David Azambuja,56 K. Oedekoven da FAO, e eu. Estas quatro pessoas
estavam em Belterra, onde Wanderbilt chegou e disse: ‘Vamos lá, entrar na floresta vizinha a Belterra’. Nós fomos a esta floresta, era uma área inundada e, depois disso, Wanderbilt disse: “Vamos estabelecer a Flona Tapajós aqui, nesta região”. Ele pegou um mapa e [Dr. Dubois encenou com as mãos no ar o desenho de um mapa com quatro lados, reproduzindo o que teria sido o movimento da mão de Wanderbilt naquele momento] a Flona Tapajós foi criada! Sem levantamentos, sem estudos... Foi uma coisa equivocada; ela foi criada às pressas, sem levantamentos de informações, sem observar em campo que a maior parte da floresta não tinha nenhum potencial madeireiro. Sem o conhecimento, eu suponho, de que o norte da área é praticamente dominado pelo babaçu, um planalto onde há escassez de água e a regeneração das espécies é muito difícil devido à alta concentração de raízes. Adiante desta área dominada pelo
55 Dammis Heinsdijk realizou os primeiros levantamentos florestais na região na
década de 1950 através da Missão FAO; ver capítulo 3.
56 Wanderbilt Duarte de Barros e David Azambuja, ex-administradores do Serviço
babaçu, há uma floresta de alta densidade, sem babaçu e com apenas algumas trepadeiras. Esta parte é dotada de mais recursos hídricos e onde existem melhores condições para a sobrevivência das comunidades, dos povos da floresta. Atrás desta região, há uma gradação progressiva deste tipo de floresta para uma floresta com uma crescente quantidade de cipós. Além dela, num certo ponto, tem-se uma floresta de coberturas altas e dispersas, semelhante a torres de vegetação cobertas com cipós e, depois, a floresta de cipó ou cipoal. Adentrar o cipoal é muito difícil porque os cipós machucam. O cipoal cobre a maior parte da área sul da Flona, onde não há madeira, mas é um bom refúgio para a caça. Mas, apesar disso eu acho que a criação da Flona foi boa, porque ela garantiu um refúgio para a caça.
Eu não encontrei qualquer documentação nos escritórios do IBAMA que apresentasse uma justificativa oficial para a criação e a localização da Flona Tapajós. Apesar da informação prestada pelos funcionários do IBAMA de que um documento expressando os motivos havia sido escrito, o mesmo não foi encontrado; possivelmente tenha se perdido. O decreto que instituiu oficialmente a Flona refere-se apenas à sua criação, de acordo à legislação específica para Florestas Nacionais. Os procedimentos governamentais para a criação da Flona parecem ter ocorrido de forma similar ao caso do Parque Nacional da Amazônia, também instituído no mesmo dia (em ato contínuo) e no mesmo vale em que se situa a Flona Tapajós. Em sua análise sobre a criação de unidades de conservação no Brasil no período entre 1974 e 1984, Foresta (1991, p. 33) comenta que
[...] a primeira grande área natural protegida na Amazônia, um parque nacional de um milhão de hectares às margens do rio Tapajós, no leste do Pará, foi estabelecido por decreto presidencial em 1974, mas foi um evento anômalo. A localização e os limites do parque foram decididos por planejadores regionais, sem qualquer contribuição por parte dos conservacionistas, e de forma desconectada dos planos de conservação mais abrangentes.
Foresta considerou a criação do Parque Nacional da Amazônia “anômala” porque as demais unidades de conservação de proteção integral instituídas logo em seguida, durante o período 1974-1984, foram concebidas e definidas a partir de sólidos dados científicos e teorias preservacionistas.
A ausência de documentação oficial justificando a criação da Flona Tapajós não permite que possamos avaliar, com mais detalhamento, as razões imediatas do governo para o estabelecimento desta reserva florestal. Conforme descreveu o Dr. Dubois, a maior parte da Flona era coberta por uma floresta sem qualquer potencial madeireiro, e que teria servido melhor, em sua opinião, para a proteção da caça. A floresta densa, com alto potencial madeireiro, cobria apenas uma pequena parte da reserva, exatamente onde se localizam as áreas de ocupação pelas comunidades. Como a incidência da maior parte da madeira (comercial) se dá nessa área da reserva, da qual dependem as comunidades para seu sustento, a disputa pelo acesso e controle desta área constituiu o ponto central dos conflitos entre as comunidades e os órgãos governamentais.
Antes de discutir esses conflitos com mais detalhes, eu gostaria de insistir em uma questão, que me parece essencial para a compreensão do processo de implantação da Flona Tapajós e que se apresenta, aparentemente, como um contrassenso: se a cientificidade dos procedimentos era considerada como fundamental para as políticas de expansão da fronteira amazônica naquele momento (II PDAM), como forma de superar o atraso que se atribuía à economia local, pergunta- se, então, por que a primeira reserva florestal para exploração de madeira na região amazônica foi criada sem que antes se efetuassem os levantamentos florestais mínimos para avaliar se a área seria ou não apropriada para a exploração de madeira?
Para o entendimento de aparente contradição, sugiro que analisemos os problemas gerados pela criação da reserva não como simples equívocos resultantes de uma eventual desconsideração de um componente técnico, ou das organizações sociais existentes. Porém, como Schmink e Wood (1987, p. 48) ressaltavam na análise a respeito do planejamento governamental do uso da terra realizado na Amazônia, é importante ter presente que, “expertise, embora um componente necessário do design efetivo do projeto, raramente é suficiente”. Desta forma, a compreensão das contradições encontradas no processo de criação e implantação da Flona Tapajós, talvez, possa ser mais bem apreendida aplicando-se a perspectiva de análise desenvolvida por Becker (1992), na qual destacou a “manipulação do território” como parte das estratégias usadas pelos militares para acelerar a modernização econômica, sem contudo alterar a estrutura hierárquica social.
Becker (1992) afirmou que o projeto militar geopolítico representava a imposição de uma poderosa malha de duplo controle sobre o território
nacional: a técnica e a política, as quais se relacionavam a programas e projetos sociais e a empreendimentos privados. Ela a denominou “malha programada”, cujos componentes englobavam: uma grande rede de estradas e portos, centros urbanos, telecomunicações e projetos hidroelétricos, concebidos para integrar os espaços; a criação de novos territórios com unidades administrativas federais, possibilitando ao governo federal exercer autoridade direta e absoluta sobre eles; subsídios fiscais a grandes empreendimentos, que encorajavam a apropriação privada da terra; e os incentivos que estimulavam a migração de pessoas, possibilitando a formação de uma força de trabalho móvel. Assim, a imposição desta “malha programada” permitia, simultaneamente, a incorporação acelerada dos recursos naturais à economia e a formação de uma força de trabalho móvel.
No vale do Tapajós, vários componentes desta “malha programada” podem ser identificados. A região foi cortada pela construção de duas grandes e importantes rodovias, a Transamazônica e a Santarém-Cuiabá; portos foram ampliados e modernizados; projetos de colonização e mineração de ouro foram promovidos, gerando grandes fluxos migratórios; e, juntamente com estes investimentos, foi criada e implantada a Flona Tapajós, um novo espaço territorial sobreposto na região sob o controle absoluto do Estado. Neste contexto, o estabelecimento da Flona pode ser compreendido como englobando estratégias da “malha programada”, que respondiam, simultaneamente, aos objetivos de impor o controle territorial e formar uma força de trabalho móvel, que se forjaria através da remoção das pessoas das comunidades de suas terras.
Assim, analisando a criação da Flona Tapajós a partir desta perspectiva, esta reserva florestal parece ser menos importante tecnicamente (como um espaço para a implantação de uma moderna silvicultura científica para a produção de madeira), do que como um instrumento para o exercício do controle social e territorial. Como Becker destacou, a gestão e controle do território pelo Estado eram eminentemente estratégicos,
[...] envolvendo não só sua administração em termos econômicos, mas também as relações de poder [...] Sociedade e natureza foram tratadas como estoques, cujos fluxos deveriam ser dinamizados através do incremento da mobilidade do trabalho, da incorporação de novas terras e da extração em larga escala dos recursos minerais e energéticos. A desterritorialização
e a volatilização dos lugares foram metas implícitas do projeto geopolítico, conferindo à questão social uma clara dimensão ambiental e vice-versa, e, ao Brasil, uma posição peculiar no cenário internacional. (BECKER, 1992, p. 136-137).
A análise empreendida por Becker também é apropriada para o entendimento do discurso de conservação florestal no âmbito da criação e implantação da Flona Tapajós, usado para justificar os esforços iniciais para a remoção de pessoas, conforme discutido no capítulo inicial, e que foi sistematicamente aplicado, de diferentes maneiras, durante toda a história da reserva. Disfarçada sob um discurso de conservação florestal, que ocultava a natureza dos conflitos sociais e as falhas técnicas, a criação e o estabelecimento da Flona Tapajós faziam parte das estratégias da “malha programada”, as quais foram usadas para impor um novo espaço territorial, onde a preocupação era menos com os princípios do manejo florestal científico para a regulação da exploração madeireira, do que com o controle dos espaços e das relações sociais. Isto por certo explica porque não foram realizados os levantamentos florestais preliminarmente à criação da reserva, e porque o baixo potencial madeireiro da área não foi questão para a definição dos seus limites.
Deste modo, manipulando o território através da “malha programada”, o projeto geopolítico alterou a estrutura centro-periferia, a qual, Becker (1992, p. 136) assinala, não exibia uma linha divisória clara entre “o moderno e o arcaico”, mas, ao contrário, produzia “uma estrutura híbrida, ambivalente e instável, apesar de muito dinâmica, mesmo no nível espacial”. Foi precisamente no contexto dos conflitos que emergiram entre a “malha programada” e o que Becker chamou de “espaço vivido”, que formas de resistência se apresentaram para refutar o projeto governamental e para propor alternativas ao planejamento espacial do Estado.
4.2.2 DESLOCANDO PESSOAS PARA TORNÁ-LAS