1.2 Controle estatal sobre os recursos florestais e as relações
1.2.2 A utopia do projeto de modernização do Estado
Foi através da leitura do livro de James Scott (1998), denominado Seeing like a State, que comecei a refletir sobre a criação e a implantação da Floresta Nacional do Tapajós, entre outras reservas ambientais criadas na região amazônica a partir de meados da década de 1970, como um processo de reconfiguração dos cenários sociais e naturais induzido pelo planejamento estatal. Na análise sobre a implantação e os fracassos de vários programas governamentais de engenharia social que incorreram em significativos impactos sociais e ambientais – tais como a coletivização na Rússia, a construção de cidades modernas como Brasília-DF, no Brasil, ou a criação de vilas compulsórias na Tanzâ- nia –, Scott (1998) examinou de que forma as relações sociais e as
paisagens naturais são transformadas pelas políticas de planejamento do Estado, destacando, como ele mesmo expressou, “quão profundamente a sociedade e o meio ambiente têm sido remodelados pelo exercício de
legibilidade dos mapas estatais”.15
Ao aplicar a expressão state map of legibility, que traduzo como “exercício de legibilidade dos mapas estatais”, Scott tem em mente as práticas cartográficas que buscam reduzir as suas representações a elementos mínimos, de rápida e fácil leitura e apreensão. Assim, ele discute os processos pelos quais o Estado empenha-se para simplificar a natureza e a sociedade, de forma a enquadrá-las em categorias-padrão de classificação que melhor se ajustem ao seu mapa cadastral. Estas formas de simplificação, Scott ressalta, além de reduzirem realidades sociais a um formato mais legível e conveniente às ações administrativas,
[...] quando aliadas ao poder do Estado [...] possibilitam que se refaça grande parte da própria realidade retratada por elas. Assim, um mapa cadastral do Estado criado para caracterizar proprietários passíveis de taxação não apenas descreve um sistema de títulos de posse de terra; ele cria tal sistema, e o faz utilizando-se de sua capacidade de dar força de lei às categorias por ele estabelecidas. (SCOTT, 1998, p. 3).
Explorando os fundamentos da moderna arte de governar, Scott ressaltou que o exercício de governança pelo Estado moderno depende de unidades simplificadas e padronizadas através das quais ele possa estar presente e administrar. Tal dependência advém da necessidade do Estado moderno de atuar com complexas e multifacetadas organizações sociais e modos de apropriação dos recursos e dos espaços, o que aos seus olhos se revelam como uma cacofonia: “O pesadelo não é vivido por aqueles cujas práticas particulares estão sendo representadas, mas pelos agentes do Estado que aspiram a um código administrativo nacional uniforme e homogêneo” (SCOTT, 1998, p. 35). Portanto, para potencializar a operacionalidade das ações administrativas e o exercício de controle, ou seja, para que possa governar, o Estado moderno recorre ao desmembramento das complexas relações sociais e espaciais, forjando a sua transformação em unidades simples e uniformes que mais facilmente possam ser manipuladas e controladas. “Quanto mais
15 No original: how thoroughly society and the environment have been refashioned by the
os objetos possam ser tratados como unidades padronizadas, maior será o poder das resoluções no exercício do planejamento estatal” (SCOTT, 1998, p. 346).
A perspectiva traçada por Scott foi elaborada a partir da invenção da moderna silvicultura científica (scientific forestry), no final do século XVIII na Alemanha, tema caro ao presente estudo, pois, como será visto no capítulo 3, fundamentou e motivou as várias escolas de silvicultura em todo o mundo, assim como a subsequente criação e disseminação das reservas de Florestas Nacionais. Apesar de reconhecer sua importância em termos históricos, Scott, contudo, aborda a invenção da silvicultura científica como uma metáfora. Assim, colocando o surgimento da silvicultura científica no contexto das iniciativas centralizadas de construção do Estado daquele período, quando os agentes públicos começam a se conscientizar do risco de escassez e esgotamento dos recursos florestais e da necessidade de instrumentos mais eficientes de gestão e planejamento florestal, Scott apontou para os sucessivos e cada vez mais precisos métodos de mensuração das espécies florestais que começaram a ser desenvolvidos e que proporcionavam “legibilidade” à floresta. Tal legibilidade possibilitava aos agentes governamentais não apenas o controle sobre os recursos florestais, mas também a manipulação de espécies arbóreas que poderia ser feita em consonância com interesses econômicos ou outros.
Naquele contexto, as técnicas padronizadoras e uma visão utilitarista dominante favoreceram o desenvolvimento da gestão e do manejo de monoculturas florestais visando a sua produtividade econômica, desprezando, desta forma, as florestas naturais detentoras de maior diversidade, porém menos lucrativas em termos produtivos e monetários. Além disso, o desenvolvimento da silvicultura científica prometia consideráveis ganhos para a gestão e manejo centralizados das florestas. Como Scott (1998, p. 18) afirmava,
[...] este ambiente controlado de uma floresta redesenhada16
cientificamente prometia uma série de vantagens consideráveis. Ela poderia ser sinopticamente observada pelo silvicultor chefe; ela poderia ser mais facilmente supervisionada e sua madeira explorada segundo planejamentos centralizados e de longo prazo; ela promoveria uma commodity constante e uniforme,
16 Scott (1998, p. 36) informa em nota de rodapé que ele adotou o termo “redesigned”
eliminando, desta forma, uma das principais causas de flutuação dos rendimentos; e ainda criaria um campo natural legível que facilitaria a manipulação e a experimentação.
Tratava-se, pois, do sonho utópico da nascente silvicultura científica que se projetava em busca de uma “floresta perfeitamente legível, plantada com árvores uniformes de uma mesma idade, e de uma única espécie” (SCOTT, 1998, p. 82).
Assim, aplicando a perspectiva desta floresta racionalizada e homogênea, composta por alinhamentos retilíneos de árvores uniformes cultivadas em grandes extensões de terra e livres de sub-bosques, Scott procura desvendar a racionalidade presente na moderna arte de governar, a qual se fundamenta na padronização e simplificação, do mesmo modo que as práticas do manejo florestal científico. De forma semelhante à silvicultura científica, que reduzia complexos habitats pela implantação de unidades uniformes e replicadas que poderiam ser abstraídas da realidade e expressas em categorias padronizadas, o projeto de modernização do Estado fundamenta-se na desconstrução de complexas relações sociais e espaciais, e no seu remodelamento em unidades simplificadas e padronizadas, que são “mais fáceis de monitorar, calcular, abordar e gerir” (SCOTT, 1998, p. 81-82). Como objeto e instrumento de planejamento do Estado moderno, a remodelagem das unidades sociais e da paisagem natural em formas mais simplificadas e padronizadas proporciona a legibilidade e adequabilidade requeridas pelos agentes do Estado.
Esta ótica sincronizada da moderna arte de governar discutida por Scott é evocativa da modalidade panóptica de poder apresentada por Foucault (1984) em seu livro intitulado Vigiar e punir: história da violência nas prisões. Para explicar esta modalidade panóptica de poder, Foucault também utilizou como exemplo uma invenção moderna, que reproduziria igualmente uma racionalidade de homogeneização nas relações sociais e espaciais fundamentando as estruturas de poder na sociedade ocidental contemporânea. O exemplo foi o projeto Panóptico de prisão de Jeremy Bentham, cuja estrutura arquitetônica consistia de um grande edifício circular no qual os prisioneiros eram alojados em pequenas celas individuais distribuídas ao longo da sua circunferência, com uma torre de observação no centro do edifício, da qual todas as celas poderiam ser monitoradas simultaneamente. Da mesma forma que a moderna silvicultura científica, este arquétipo de prisão também visava maximizar a observação e o controle através de uma ótica sincronizada de longo alcance.
Do mesmo modo que a invenção da silvicultura científica, o projeto panóptico de prisão também foi usado como laboratório para a projeção das técnicas disciplinares que visavam à homogeneização e padronização dos espaços e dos comportamentos individuais. Foucault (1984, p. 218) definiu as “disciplinas” como “técnicas específicas para assegurar o ordenamento das multiplicidades humanas”, e aplicou sua concepção panóptica de poder à totalidade do corpo social, isto é, a todos os aparatos de poder da sociedade. Assim, tal conceito de poder não foi compreendido como uma entidade em separado, localizada em uma parte específica da estrutura social, ou que fosse apropriada por alguém em particular. Em vez disso, para Foucault, o poder encontra-se distribuído e aplicado nos vários níveis por toda a cadeia social, e não apenas naqueles concernentes ao Estado.
Scott, em contraste, traçou sua perspectiva de poder especifi- camente relacionada ao Estado, percebendo-o disseminado por todos os seus aparatos administrativos como uma maneira de assegurar a governança. Diferentemente de Foucault, que estava preocupado em desvendar os efeitos de verdade que este poder produz, Scott estava interessado em revelar os principais obstáculos que, na contemporaneidade, têm se interposto aos grandes planejamentos estatais modernos, que procuram de forma sistemática desconstruir complexas relações sociais e espaciais, e remodelá-las em unidades simplificadas e centralizadas.
Assim, a análise de Scott recai sobre a busca utópica do Estado moderno por um perfeito e efetivo controle sobre os espaços e as relações sociais. Segundo ele, esta busca utópica é movida por uma “ideologia altamente modernista”, a qual definiu como um conjunto de crenças no progresso técnico e científico e, “acima de tudo, no design racional da ordem social proporcionado pela compreensão científica das leis naturais. [...] Ela originou, obviamente, no Ocidente, como um subproduto de um progresso sem precedentes da ciência e da indústria” (SCOTT, 1998, p. 4). Enfatizando a necessidade de se distinguir uma ideologia altamente modernista da prática científica, o autor destacou que “a ideologia modernista é tanto uma questão de interesses quanto de fé” (SCOTT, 1998, p. 4, grifo do autor); trata-se, portanto, de utopia. Para Scott, a combinação de um forte estratagema de legibilidade cadastral com a motivação ideológica muito modernista teria moldado o utópico sonho de modernização do Estado para as intervenções administrativas e grandes aspirações de engenharia social.
1.2.3 PRÁTICAS DISCIPLINARES PARA ESPAÇOS