1.2 Controle estatal sobre os recursos florestais e as relações
1.2.1 O planejamento estatal e as representações sobre os
REPRESENTAÇÕES SOBRE OS GRUPOS SOCIAIS Não obstante as áreas de reserva florestal sob o domínio e o controle do Estado só tenham sido implantadas recentemente na Amazônia, elas não são fenômeno novo no sentido do redirecionamento do acesso aos recursos florestais ou como fonte de conflitos sociais em áreas rurais. Na Europa moderna, desde muito cedo as florestas tornaram-se notáveis espaços de disputas entre concepções conflitantes em relação aos direitos de acesso aos recursos florestais, como bem demonstrou E. P. Thompson (1975) em sua análise sobre The Origin of the Black Act – lei sancionada na Inglaterra em 1723, para tornar
atos costumeiros, como caçar cervos sorrateiramente à noite ou cortar árvores de florestas reais, em transgressões sujeitas à pena de morte. Nesta análise, Thompson demonstra que sua emergência e aplicação eram produtos dos confrontos que a sociedade britânica do século XVIII enfrentava para redefinir o domínio e o controle das florestas, o que se revelava nas multifacetadas disputas sobre o acesso aos seus recursos que se seguiu aos cercamentos (enclosures). Ao converter algumas modalidades tradicionais de usos comuns dos recursos florestais e de caça em crime, a implantação da lei denominada Black Act constituía- se, na verdade, uma tentativa de impor uma nova economia florestal através da introdução de novos modos de apropriação dos recursos e valores econômicos, e, nesse processo, promover uma desestruturação dos antigos direitos comunais sobre as áreas de florestas.
Um século mais tarde a França vivenciou um processo similar, com a implantação do Código Florestal Nacional, de 1827, o qual, conforme destacou Sahlins (1994, p. x), “foi sistematicamente restringindo os direitos ao uso dos recursos florestais, essenciais às formas de vida relacionadas à agricultura e ao pastoreio”. Analisando o movimento de resistência campesina a tais restrições, cujos protagonistas desempenharam o drama que veio a ser conhecido como “a guerra das demoiselles” (the war of the demoiselles), Sahlins também nos revelava a sociedade francesa igualmente experenciando processos de mudanças nas concepções de direitos e acesso aos recursos florestais, remodelando uma nova economia florestal a expensas de antigos modos de usos comuns dos recursos. Em ambos os casos, tanto na Inglaterra como na França, “o conflito florestal era, desde sua origem, um conflito entre usuários e exploradores” (THOMPSON, 1975, p. 245); entre aqueles que tinham a floresta como fonte comum para reprodução de formas culturais e econômicas de vida, e aqueles que viam a floresta como fonte privativa para a acumulação econômica. Nas duas situações, a resistência camponesa tentava retomar o livre acesso às áreas florestais, o qual estava sendo minado pelas inexoráveis transformações que se impunham sobre antigos direitos comunais de uso e acesso aos recursos florestais, e pelas novas relações políticas e econômicas que se consolidavam e se ampliavam.
A criação e implantação de reservas ambientais na região amazônica, iniciada em meados da década de 1970, também significou a imposição de um novo modelo de ocupação e administração florestal, que afrontava diretamente as formas de usos comuns tradicionais
dos recursos florestais, o que acabou gerando uma série de conflitos sociais. Apesar da grande dimensão de tais conflitos, ainda é pequeno o conhecimento sobre estes processos e as dinâmicas das situações específicas. O pouco que se escreveu a respeito focalizou os conflitos em reservas de proteção integral, como os Parques Nacionais, Reservas
Biológicas ou Estações Ecológicas.14 Não há praticamente nada escrito
no tocante aos conflitos em Florestas Nacionais, apesar de os registros indicarem a intrusão dos limites de tal tipo de reserva em territórios de vários grupos sociais em praticamente todos os lugares em que foram implantadas (RICARDO; CAPOBIANCO, 2001). Estudos existentes sobre políticas para as Florestas Nacionais têm, de modo geral, desconsiderado as questões relativas aos conflitos sociais nestas reservas.
A despeito da ausência de estudos sobre estes casos, os conflitos sociais gerados pelas tentativas de expulsão de pessoas do interior das Florestas Nacionais, como no caso da Flona Tapajós, revelam a enorme dimensão das disputas travadas entre as esferas governamentais, responsáveis pelas políticas florestais, e as populações locais, especialmente as sociedades camponesas. Em entrevistas com funcionários do IBAMA em Brasília, eles geralmente comentavam que as medidas tomadas para a remoção de pessoas de áreas de Florestas Nacionais haviam sido equivocadas, resultantes de erros de concepção quanto à administração de reservas. Certa vez, quando perguntei a um funcionário do IBAMA sobre as primeiras tentativas do governo para remover pessoas da área da Flona Tapajós, ele simplesmente respondeu: Foi um absurdo. Em resposta ao mesmo questionamento, outro funcionário, que trabalhava no então IBDF na época em que a Flona Tapajós havia sido criada, disse: Foi imprudente, mas foi consequência daquele momento político. Não sabíamos nada acerca da existência daquelas pessoas na Amazônia. Sabíamos apenas que a região era um lugar desabitado, vazio.
A (falsa) projeção de que a região amazônica era um lugar desabitado, ocultando as formas locais de organização social, especialmente de grupos camponeses, encontra-se já bem analisada na literatura acadêmica. Em seu livro Amazonian caboclo society: an essay on invisibility and peasant economy, Nugent (1993) fez uma análise interessante sobre camponeses na Amazônia conhecidos como “caboclos”, destacando o processo histórico que encobriu as
organizações sociopolíticas destes grupos sociais, os quais Nugent denominou de “neoamazônicos”. Como destacado pelo autor, “de forma geral, tais sociedades, originárias nos interstícios do aparato colonial, nunca obtiveram um status pleno como grupos sociais completos” (NUGENT, 1993, p. 21).
Com base em trabalho de campo desenvolvido no município de Santarém, no baixo Tapajós, mesma região que o presente estudo focaliza, Nugent (1993) discorreu sobre as percepções acerca dos camponeses conhecidos como “caboclos” na Amazônia, que podem ser observadas tanto no meio político quanto acadêmico. Segundo ele, estes grupos sociais têm sido sistematicamente representados de forma deturpada, através de estereótipos que descaracterizam suas organizações sociais e, como resultado, eles têm sido isolados dos benefícios das políticas de desenvolvimento local. O autor declarou que, apesar da atenção sem precedentes dedicada à região amazônica nos últimos anos, os camponeses na Amazônia
[...] não têm sido totalmente negligenciados, mas quando levados em consideração, são quase sempre deixados em segundo plano, à sombra de atributos naturais de maior expressão. Eles são visíveis, mas raramente vistos [...] Os neoamazônicos são normalmente descritos como “populações”, de tendências migratórias, ou simplesmente habitantes, em vez de membros integrais de sociedades reais. (NUGENT, 1993, p. 20).
O foco principal da análise de Nugent foi compreender as razões subjacentes ao que ele denominou “invisibilidades” virtuais projetadas sobre as sociedades rurais amazônicas, que se refletem tanto nas políticas de Estado quanto nas pesquisas acadêmicas sobre a Amazônia. Nugent (1993) apontou estas invisibilidades como estando profundamente enraizadas, primeiro, na imagem da Amazônia projetada como um espaço natural no qual a sociedade seria “intrusiva”, e, segundo, no tipo de patologia atribuída aos caboclos. Ele argumentou que os caboclos são geralmente vistos como constituindo uma espécie de elo perdido entre civilização e natureza, sem nenhum vínculo com as sociedades pré-coloniais, e incapazes de construir uma nova organização social. Tal visão seria resultado da forma como a Amazônia tem sido retratada pelo Ocidente, como um universo em que a sociedade se encontra continuamente subordinada à natureza, enquanto espera pela intervenção externa e decisiva para domesticá-
la e substituir as suas relações sociais consideradas patológicas. Neste sentido, afirma que “a criação da Amazônia moderna envolveu a erradicação das sociedades e a sua emergência como um espaço primeiramente natural” (NUGENT, 1993, p. 32).
Para Nugent (1993), as consequências de tal discurso sobre a Amazônia, que era repetidamente reforçado por imagens enfatizando o domínio da natureza sobre a sociedade, têm endossado “invisibilidades sociais”, especialmente no que diz respeito aos camponeses. Entendendo que tais invisibilidades se refletem em diversos interesses nacionais e internacionais, especialmente econômicos, o autor destacou a utilização de justificativas em torno da “escassez” de recursos e de “bens globais”. Como um repositório de bens naturais relativamente baratos, muitos dos quais já exauridos em outras áreas, a Amazônia teria se tornado centro da atenção de empreendimentos de larga escala, tanto quanto de setores ambientalistas, além de órgãos estatais e agências multilaterais, como o Banco Mundial, os quais Nugent elege como as vozes mais bem articuladas nestes processos. Contudo, segundo ele, tanto para os ambientalistas como para os doadores e/ou investidores, os camponeses amazônicos sempre foram objetos de interesse marginal, permanecendo, desta feita, fora das suas agendas. Da perspectiva dos ambientalistas, os camponeses têm sido considerados incapazes de gerir a floresta sem destruí-la. E, “da perspectiva das formas de exploração dos recursos em grande escala, os camponeses amazônicos são, quando muito, irrelevantes, e, por esta razão, não surpreende que eles sejam ignorados” (NUGENT, 1993, p. 36).
Realçando de que forma os grupos sociais identificados como caboclos têm sido desqualificados como beneficiários de programas ambientais e de desenvolvimento econômico, Nugent (1993) assinalou apropriadamente a necessidade de se repensar os modos pelos quais eles têm sido representados tanto na academia quanto nas esferas políticas. Sua análise representa, neste sentido, uma das abordagens mais inovadoras para a compreensão da construção da categoria denominada caboclo, chamando a atenção para os mecanismos de poder que suportam as contínuas representações equivocadas dos grupos camponeses da Amazônia, assim como para as implicações políticas e econômicas refletidas nas políticas oficiais. Muitos destes aspectos podem ser observados no caso das comunidades da Flona Tapajós, especialmente durante a fase inicial de implantação da reserva, quando o governo tentou forçar os deslocamentos das pessoas das comunidades locais para fora de seus territórios. Identificadas como caboclos, estas
pessoas eram também sistematicamente representadas de forma deturpada, como invasores, ocupantes eventuais ou até mesmo intrusos, categorias que ignoravam ou que retiravam qualquer conexão que as pessoas pudessem ter com a terra ou com uma forma de organização social mais complexa. Nos relatórios elaborados naquele período sobre a Flona Tapajós, as comunidades são frequentemente descritas como “desprovidas de conhecimento sobre solos” e de outras atividades relacionadas a recursos florestais.
Contudo, na medida em que a análise de Nugent lança luzes sobre os motivos subjacentes às persistentes e deturpadas representações desses grupos sociais da Amazônia, a noção de “invisibilidade” apresenta algumas limitações à análise dos conflitos sociais na Flona Tapajós. A noção de “invisíveis” nos levaria a entender os conflitos sociais causados pelas tentativas governamentais de deslocamento forçado das pessoas como consequência de um equívoco administrativo, que as teria desconsiderado no projeto desta reserva florestal. Consequentemente, a mudança na legislação, permitindo que “populações tradicionais” permanecessem nas Florestas Nacionais, e incorporando no planejamento da reserva a ocupação da terra pela comunidade, seria entendida como uma retificação de um erro inicial de construção pelo governo. No entanto, conforme o surgimento do movimento indígena por parte das três comunidades na Flona Tapajós nos mostra, tal explicação não elucidaria porque os conflitos sociais não foram solucionados, mesmo depois que essa mudança na legislação foi sancionada e implantada.
Como já assinalado, os três momentos nos quais os espaços e as identidades sociais na floresta foram redefinidos na Flona Tapajós apontam para um processo mais complexo, cujo entendimento não poderia ser alcançado através da noção de “invisibilidade”. Se estas comunidades tivessem sido “invisíveis” aos olhos do Estado ou negligenciadas no planejamento político-administrativo para esta reserva, o governo não teria se esforçado tanto para remover as pessoas da área, nem se delongado demasiadamente para reverter seu posicionamento ao constatar a existência delas ou enfrentar a forte resistência que empreenderam. Ao contrário, o governo procurou sistematicamente reprimir os movimentos de resistência que se configuraram, assim como se empenhou em aplicar diversas formas de coerção e restrição do acesso aos recursos florestais para, assim, inviabilizar a permanência das pessoas na área e forçar a sua remoção. Tais esforços governamentais para neutralizar as reivindicações das comunidades locais na Flona Tapajós eram indicativos de que, ao
longo deste processo, as pessoas das comunidades não eram “invisíveis” ou negligenciadas, mas, ao contrário, elas e suas remoções forçadas da área constituíam alvos precisos das políticas de planejamento do Estado para controle das relações sociais e dos espaços florestais. Como nos lembra Malkki (1995, p. 496), “movimentos involuntários ou forçados de pessoas são sempre apenas um aspecto de constelações bem maiores de processos e práticas sociopolíticas e culturais”.
Assim, eu analiso as tentativas de remoção compulsória das pessoas na Flona Tapajós como sendo uma estratégia governamental deliberada para o exercício de controle sobre elas e sobre os espaços, e não porque estivessem sendo “invisíveis”, ou negligenciadas aos olhos do Estado, como, talvez, argumentaria Nugent (1993). Assim, a posterior aceitação pelo governo da permanência das comunidades locais no interior desta reserva na condição de “populações tradicionais” não poderia ser compreendida simplesmente como refletindo um ajuste menor de um equívoco involuntário anterior. Em vez disso, diante da resistência comunitária, tal aceitação pelo governo federal foi compreendida como parte de novas estratégias que se tornaram necessárias para continuar a exercer controle sobre os espaços e as relações sociais. Da mesma forma, eu analiso o movimento indígena que emergiu entre as três comunidades na Flona Tapajós como também refletindo uma forma de resistência às novas modalidades de controle social e espacial que se revelariam através da então recém-criada categoria “populações tradicionais”, que lhes foi imposta oficialmente pelas instâncias governamentais.
1.2.2 A UTOPIA DO PROJETO DE MODERNIZAÇÃO DO