3. O ANTICOMUNISMO NA CONJUNTURA POLÍTICA DO PRÉ-GOLPE DE 1964
3.3 A FOLHA DO NORTE E O APOIO AO GOLPE DE 1964
A capa da edição do dia 2 de abril de 1964 estampou com grande destaque a seguinte manchete: “Democracia caminha para a vitória final: forças armadas dominam a situação” (FOLHA DO NORTE, 2 Abr. 1964, p.1). O apoio conferido pela Folha do Norte Paraná em relação à tomada do poder pelos militares não causou nenhum tipo de surpresa. Como vimos até aqui, desde sua criação o periódico assumiu um discurso marcadamente anticomunista, em grande parte, sintonizado com a mobilização nacional contra o comunismo que se desencadeou nesse período. Nesse sentido, a intervenção militar foi interpretada e divulgada pelo jornal como uma ação salvadora.
A edição do dia 7 de abril trazia na capa a fala do comandante do II Exército, general Amaury Kruel22, sobre a providencial tomada do poder pelos militares: “Agimos na Hora Certa para a Defesa da Democracia” (FOLHA DO NORTE, 7 Abr. 1964, p.1). O discurso foi proferido por ocasião de sua visita à capital paranaense iniciada no dia anterior que, segundo o periódico, tinha por objetivo agradecer o apoio prestado pelo governador Ney Braga e pelo povo paranaense à ação militar desencadeada recentemente. O jornal mencionava ainda a declaração de agradecimento proferida pelo deputado Haroldo Leon Peres ao general por sua “patriótica e destemida” atuação (FOLHA DO NORTE, 7 Abr. 1964, p.3).
A dita “Revolução”, como ficou conhecida, foi vista como a grande salvadora da democracia. Além dos elogios despendidos à ação dos militares encontramos diversos textos,
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Em depoimento prestado ao Instituto Presidente João Goulart, o então Major do Exército Erimá Pinheiro Moreira que, em 1964 atuava no Hospital Geral de São Paulo, esclarece os motivos que teriam levado o então comandante do II Exército, Amaury Kruel, a mudar de posição ainda no dia 31de março de 1964 e apoiar os militares golpistas. Segundo ele, o general recebeu milhões de dólares pelas mãos do presidente da Federação da Indústria de São Paulo, Raphael de Souza Nochese, dinheiro que teria sido enviado pelo Presidente dos Estados Unidos para que ele abandonasse sua postura em defesa de João Goulart, o que de fato ocorreu naquele mesmo dia. Disponível em: <http://www.institutojoaogoulart.org.br/video.php?id=254>
assinados ou não, que solicitavam ao governo que apurassem os supostos crimes cometidos pelos “traidores da pátria”. A ideia do “expurgo benéfico” esteve presente nas páginas da Folha do Norte do Paraná no período imediatamente posterior ao golpe. Na edição do dia 6 de maio foi publicado um texto assinado por Agenor Cattoni intitulado “A Cor dos Camaleões”. Nele o autor ressaltava a necessidade de se dar continuidade à “vitória democrática” através da prestação de contas dos envolvidos em atividades subversivas. Em relação a esse processo o autor afirma:
Sem ódios, sem mesquinhezas, sem prevalescências do poder vamos apoiar o expurgo benéfico. Vamos exigir prestação de contas da nossa confiança atraiçoada. Vamos forçar os camaleões a tomar as suas verdadeiras cores que não as verde-amarelas até agora vestidas (FOLHA DO NORTE, 6 Mai. 1964, p. 3).
Como vimos anteriormente, as denúncias sobre a infiltração de elementos comunistas disfarçados na estrutura do governo foram constantes no período que antecede o golpe. Muitos políticos que defendiam bandeiras progressistas e reformistas, como o próprio presidente João Goulart, foram tachados de comunistas. Com a consolidação dos militares no poder restava agora tomar as devidas providencias para que tais indivíduos respondessem por suas ações, era esta a tônica do discurso da Folha no período imediatamente posterior ao golpe.
Segundo Mariani (1998), durante a ditadura militar o discurso jornalístico passou a obedecer à lógica ditatorial imposta, em parte por força da censura, em parte por que partilhava dos mesmos princípios dos militares. Na maioria dos casos, as matérias eram elaboradas com o objetivo de transmitir de forma didática aos leitores que o comunismo agora possuía várias facções, congregando assim, em um único grupo diversas organizações de esquerda bem diferentes.
Em algumas publicações do jornal “O Globo” a autora constatou a tentativa de se estabelecer certa correlação entre os novos grupos de esquerda que surgiram no período como VAR – Palmares, POLOP, MR-8 com as ameaças já organizadas na memória social sobre o conhecido PCB. Segundo ela, as publicações do jornal tinham por objetivo criar a imagem de uma realidade sócio-histórica homogênea na qual o jornal, os leitores e o poder instaurado convergiam na defesa dos mesmos valores.
Em relação às ações praticadas pelos grupos de esquerda que optaram pela luta armada contra o regime militar o discurso jornalístico tinha um posicionamento claro. De acordo com a autora:
“[...] a violência dos subversivos aparece como uma forma gratuita de ação. Tudo se passa como se os opositores do regime militar quisessem ‘tomar o poder pela violência’ simplesmente por ‘tomar o poder pela violência’. Apagando a dimensão política dessas ações, o discurso jornalístico, por força da censura, desinveste os atos terroristas de quaisquer sentido para ressignificá-los na ‘pura barbárie’” (MARIANI, 1998, p. 216).
Essa falta de justificativa, presente no discurso jornalístico em relação à violência praticada pelos “grupos terroristas”, segundo ela, é o que permitia a ditadura justificar sua própria violência, que ao contrario da praticada pelos subversivos era considerada “democrática”.
Com a repressão promovida pelos militares após o golpe de 1964 que afetou diversos setores nacionais, inclusive o sindical, as denúncias contra a infiltração comunista na Folha do Norte do Paraná diminuíram drasticamente. O que notamos através da análise dos exemplares referente a esse período foi a presença de notícias esparsas23 sobre a ação dos militares, a instauração de inquéritos e o andamento de investigações que tinham por objetivo apurar denuncias de subversão, sobretudo no aparelho de Estado.
Na edição do dia 2 de agosto de 1964 foi publicada matéria intitulada “Elementos Subversivos Expulsos Das Fileiras do Exército”. O texto versava sobre a prisão de 40 pessoas que, segundo o Serviço Secreto da Marinha, visavam organizar um “campo de adestramento de guerrilheiros" e realizar atos de sabotagem das cidades (FOLHA DO NORTE, 2 Ago. 1964, p.3).
Para a Folha do Norte do Paraná, embora a “infiltração comunista” não representasse mais uma ameaça tão iminente como no pré-1964, ela não deveria ser subestimada. Para o jornal, nem todos os comunistas haviam sido atingidos pelo “expurgo benéfico” orquestrado pelos militares e, impossibilitados de agir às claras, teriam adotado novas estratégias. Em matéria intitulada “Tendência Vermelha”, publicada em agosto de 1965, o periódico alertava: “Ninguém creia que o susto dado pela Revolução do ano passado tenha eliminado o perigo
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Manchetes como “Presos Vários Agentes Comunistas: Continuam as Investigações” (FOLHA DO NORTE, 5 Abr. 1964, p.1), “Detidos mais de 600 Acusados de Atividades Subversivas” (FOLHA DO NORTE, 10 Set. 1964, p.1).
vermelho. Houve uma retirada, apenas. Mas eles já se reorganizam para um novo ataque, agora mais perigoso” (FOLHA DO NORTE, 12 Ago. 1965, p.5).
O texto “Os Comunistas Continuam Ativos”, assinado por Alexandre Moreira e publicado em março de 1965, nos dá um panorama sobre uma opinião que acreditamos ter sido compartilhada pelo periódico. Segundo o autor:
O inimigo não desapareceu, apenas recuou. Agora, a cada decisão do Governo revolucionário, surgem dos bastidores as vozes comunistas para criticar, para semear a confusão, especialmente entre as camadas menos esclarecidas da população. A tática empregada é sempre a mesma: dividir para dominar. Impossibilitado de vir às praças públicas para pregar abertamente o seu credo, já não podendo promover comícios oficiais em favor das chamadas “reformas de base”, os comunistas se entregam à tarefa de gerar o descontentamento, através da doutrinação pessoal de trabalhadores, estudantes, intelectuais e até mesmo de políticos (FOLHA DO NORTE, 10 Mar. 1965, p.3).
Seguindo a lógica estabelecida pelo autor, tecer críticas ao governo militar seria por si só um forte indício de comunismo. Percebemos aqui a tentativa de desqualificar qualquer tipo de oposição ao regime estabelecido, ao atribuir a tais críticas o caráter de difamações comunistas seu conteúdo também seria esvaziado. Na sequência o autor menciona a tendência destes indivíduos em “exagerar” nas “injustiças por ventura praticadas” quando das cassações. O texto é encerrado com uma convocação aos “verdadeiros democratas” para que se levantassem contra as “intrigas e insinuações” dos comunistas e pela “sobrevivência dos ideais do mundo ocidental e cristão” (FOLHA DO NORTE, 10 Mar. 1965, p.3).