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4. O DISCURSO ANTICOMUNISTA DO JORNAL FOLHA DO NORTE NO CONTEXTO

4.1 O PCB E O PROCESSO DE SINDICALIZAÇÃO DOS TRABALHADORES

O Partido Comunista Brasileiro estendeu sua atuação ao longo de sua história por todos os Estados do país, dentre eles o Paraná. Uma importante frente de luta encabeçada pelo partido em terras paranaenses foi o processo de sindicalização dos trabalhadores rurais. Um campo de ação que possibilitou sua expansão por inúmeras cidades, no entanto, nesse processo o Partido Comunista contou com uma poderosa e influente adversária, a Igreja Católica, representada na região norte pela proeminente figura do jovem arcebispo dom Jaime Luiz Coelho.

Um dos conturbados momentos de reviravolta política que marcou a história do partido ocorreu com a publicação dos manifestos de janeiro de 1948 e agosto de 1950. Basicamente, tais documentos propunham um novo direcionamento para as ações comunistas no país, trazendo à tona a ideia de revolução agrária e anti-imperialista. Neste contexto, a massa camponesa foi revestida de um importante papel, ela seria um dos principais agentes que fariam eclodir a revolução inspirada no modelo chinês. Com a publicação do manifesto de agosto de 1950, essa guinada à esquerda se consolidou, a questão agrária e a organização das lutas camponesas ganhou prioridade na pauta de discussão das reuniões do partido.

No Paraná não foi diferente. Seguindo tais orientações militantes do partido passaram a direcionar sua atuação para o meio rural. Assim como no restante do país, os problemas sociais no campo eram inúmeros. Grilagem de terra, desrespeito à legislação trabalhista, quebra de contratos e violências de vários tipos permeavam a realidade do camponês paranaense. A guerra de Porecatu24 (1948-1952) é ilustrativa desse contexto e retrata com clareza uma tentativa desse tipo de inserção protagonizada pelo PCB.

O violento conflito se deu entre posseiros e fazendeiros que alegavam a posse das mesmas terras. Apesar dos primeiros terem ocupado a região desde o início da década de 1940 e ali constituído suas propriedades, desbravando as matas, plantando e colhendo ano após ano, suas terras foram loteadas e vendidas para grandes latifundiários. Os que se recusavam a sair eram vítimas de ameaças e violências, tanto por parte de forças policiais como de jagunços contratados pelos compradores dos lotes.

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Sobre a Guerra de Porecatu conferir maiores informações em: PRIORI, Angelo. O levante dos posseiros: a revolta camponesa de Porecatu e a ação do Partido Comunista Brasileiro no campo. Maringá: Eduem, 2011.

Essa tensa situação gerou resistência por parte dos posseiros e a deflagração do conflito, um embate desigual e violento, cenário ideal para se por em prática as novas teorias adotadas pelo partido. Segundo Osvaldo Heller da Silva, “[...] o PCB escolheu Porecatu para testar, na prática, sua virada ultra-esquerdista, expressa no manifesto de agosto de 1950” (SILVA, 2006, p.51).

Após anos de resistência e luta, os posseiros e, consequentemente, os militantes comunistas foram derrotados pela força policial do governo, pondo fim ao conflito de Porecatu. No entanto, o que aparentemente foi uma experiência fracassada, e de certa forma o foi, acabou se revelando a semente de um importante movimento de representação e defesa do trabalhador rural, responsável pela expansão da atuação comunista por todo o Estado.

Os anos de integração durante o conflito possibilitaram certo grau de organização da população rural, foram criadas pequenas instituições com características sindicais denominadas ligas camponesas. Basicamente, estes organismos reivindicavam melhores condições de vida para o homem do campo, melhor remuneração, direito a férias, contrato, dentre outros benefícios trabalhistas. Com a intervenção do governo e a violenta repressão aos posseiros, as ligas praticamente se extinguiram, saíram de cena abrindo espaço para organizações realmente sindicais.

Desde o início da década de 1950 os representantes do PCB na região fomentaram a criação de organismos mistos, ou seja, direcionados para atender os trabalhadores do campo e da cidade, as chamadas Uniões Gerais dos Trabalhadores (UGTs). Tais organismos se diziam isentos de caráter político, partidário e religioso, porém a atuação dos militantes comunistas foi fundamental para o seu desenvolvimento. Com o passar o tempo, as Uniões se tornaram pequenas e pouco flexíveis frente ao crescimento do número de filiados e de suas demandas. Assim, foram aos poucos desmembradas em nome do surgimento de sindicatos específicos de cada categoria.

No mês de janeiro de 1956, foi fundado o primeiro sindicato de trabalhadores rurais do Paraná. Apesar de estar sediado em Londrina, sua atuação ia além das fronteiras do município. Neste mesmo ano outras agremiações foram fundadas no norte do Estado, dentre elas a de Maringá. A base destes primeiros sindicatos era heterogênea, congregavam assalariados agrícolas, posseiros, parceiros, arrendatários e pequenos proprietários.

A grande adesão dos trabalhadores rurais aos sindicatos, assim como sua ramificação por todo o estado são fenômenos que ilustram a difícil situação enfrentada pelos camponeses no período. Segundo Priori et al. (2012), tal movimento se deve em grande parte às mudanças na dinâmica das relações de trabalho no campo que estavam em curso no período. No início

da década de 1960 órgãos do governo implementaram alterações no setor agrário voltadas para a erradicação dos cafeeiros improdutivos e para a modernização da agricultura que geraram um alto índice de desemprego. Tais medidas comprometeram ainda mais a situação dos trabalhadores rurais, que passaram a enxergar no sindicato um espaço de representação e luta contra essas novas relações de trabalho.

Preocupados com o rápido crescimento dos sindicatos, os proprietários de terra organizaram uma intensa campanha para que esses fossem fechados. O argumento utilizado não era contra as organizações em si, mas contra seus dirigentes que eram considerados “agitadores subversivos” que visavam instaurar a desordem no campo, jogando os trabalhadores contra seus patrões. Para eles, os sindicatos deveriam funcionar como um espaço de aprimoramento das relações de trabalho visando uma melhor qualidade de vida para os sindicalizados, mas não como espaço de conscientização destes a respeito das relações sociais em que estavam inseridos.

Outra batalha enfrentada pelos dirigentes sindicais foi em prol da legalização dos sindicatos junto ao Ministério do Trabalho. Tanto os empregadores como a Delegacia Regional do Trabalho eram contra, porém o reconhecimento destes organismos como oficiais daria aos trabalhadores uma maior liberdade de ação reivindicatória. Outro motivo considerado pelos dirigentes era a necessidade de se agir dentro da legalidade, para não perder influência junto ao movimento sindical e abrir espaço para outras tendências, no caso a Igreja Católica representada pela Frente Agrária Paranaense (FAP). O reconhecimento dos sindicatos do norte do Paraná só foi concedido no ano de 1962 pelo Ministério do Trabalho, após anos de luta e empenho.

No que se refere a Maringá e região, a organização dos representantes comunistas é um tema ainda pouco explorado. Segundo Dias (2011), existem vestígios que comprovam a atuação do Partido Comunista Brasileiro na cidade de Maringá desde a sua fundação, em 1947. A organização sindical, sobretudo dos trabalhadores rurais, foi uma importante frente de ação assumida pelos comunistas no município e em toda região. Em entrevista concedida ao professor Reginaldo Benedito Dias, da Universidade Estadual de Maringá, o ex-vereador maringaense, Bonifácio Martins (1995), faz importantes esclarecimentos sobre a consolidação do movimento sindical na região. Segundo ele, o embrião da maioria dos sindicatos criados no período foi a União Geral dos Trabalhadores de Maringá. A associação civil congregava trabalhadores urbanos e rurais, pequenos proprietários e comerciantes da cidade.

De acordo com as memórias de José Rodrigues dos Santos (1999), atuante líder sindical comunista na região, o sindicato rural de Maringá foi fundado em maio de 1958, apesar de seu registro no Ministério do Trabalho ter sido aceito apenas em agosto de 1962.

Nesse período, as reivindicações defendidas pelos sindicatos giravam em torno das necessidades mais imediatas do trabalhador rural. Em virtude das extensas jornadas de trabalho encaradas pelos camponeses, que muitas vezes chegavam a 12 horas diárias, defendiam o pagamento de um salário mínimo, já instituído nos centros urbanos.

A extinção do pagamento através do chamado “boró” era outra importante bandeira de luta. Essa espécie de vale ou moeda só tinha valor comercial dentro da própria fazenda ou em determinados estabelecimentos que forneciam aos trabalhadores as mercadorias necessárias para sua subsistência a preços elevados. Tal prática, além de restringir a liberdade de escolha do camponês, acabava por deixa-lo endividado e preso ao fazendeiro a quem prestava seus serviços.

Outra frente de luta assumida pelos sindicatos nesse contexto foi o direito dos trabalhadores se organizarem, visto que, em muitas fazendas, as reuniões eram expressamente proibidas. Enquanto vereador, Bonifiácio Martins se encarregou de denunciar as práticas injustas e até mesmo criminosas que permeavam este âmbito. No entanto, como argumenta, o fato de muitos destes fazendeiros viverem em Maringá e possuírem laços de amizade e influência junto ao corpo político local dificultava sua atuação.

A disputa eleitoral configurou-se também como outro espaço político ocupado pelos membros do partido em Maringá. Em virtude dos longos períodos de ilegalidade enfrentados pelo PCB, tal participação se deu através de outras legendas partidárias, prática corrente na época. De acordo com o Dias (2011), não está bem documentada a presença de forças comunistas na primeira eleição municipal, ocorrida em 1952. No entanto, na disputa seguinte o PCB lançou a candidatura de Bonifácio Martins, através da legenda do Partido Republicano (PR). Segundo Bonifácio, a ideia de lançá-lo como candidato partiu do nacionalmente conhecido militante comunista Gregório Bezerra, que passou alguns meses na região. O candidato saiu vencedor do pleito e conquistou a reeleição em 1960, através do Partido Social Trabalhista. A respeito da participação comunista nessa ocasião, Dias (2011) sustenta:

Em 1960, o PCB deu suporte a uma chapa majoritária, inscrita pelo Partido Social Trabalhista (PST), cujo candidato a prefeito era um advogado egresso do PTB. Os principais integrantes da chapa de vereadores eram dirigentes e líderes sindicais comunistas. O discurso de campanha teve forte acento classista, comprometido com uma “administração totalmente trabalhista”. A chapa logrou a eleição de um parlamentar e conseguiu 14% na disputa majoritária (DIAS, 2011, p.229).

Os militantes comunistas desempenharam um papel fundamental na estruturação do movimento sindical, rural e urbano, do Paraná. Seguindo diretrizes partidárias, mas, sobretudo, atendendo a uma crescente demanda de organização dos trabalhadores em prol de melhores condições de vida e trabalho, os comunistas lançaram as bases de um importante movimento de representação popular.

Entre o final da década de 1950 e 1964 foram criados diversos sindicatos de trabalhadores rurais em toda a região norte do estado, a grande maioria sob influência de indivíduos ligados ao Partido Comunista Brasileiro. A atuação de tais organismos intensificou o debate em torno dos direitos trabalhistas do homem do campo e de uma divisão mais justa da propriedade da terra. A discussão sobre a reforma agrária, em pauta no cenário nacional, despertou o temor de muitos proprietários que viam os sindicatos unicamente como antros de subversão comunista. Com o apoio das oligarquias rurais, a Igreja Católica decidiu entrar na luta pela sindicalização dos trabalhadores do campo.

4.2 O EMBATE ENTRE COMUNISTAS E CATÓLICOS EM TORNO DOS