1. USOS DA CRISE NA MEDICINA E NA SAÚDE MENTAL
1.4. A força performativa de ser considerado e se considerar em crise
A prova psiquiátrica opera, assim, como dupla prova de entronização: transforma a vida de um indivíduo como tecido de sintomas patológicos e entroniza o psiquiatra como médico ou a instância disciplinar suprema como instância médica. Da crise que, pelas forças da natureza, determina a verdade da doença e o agir do médico, passa-se à crise que se produz como prova no interior do hospital psiquiátrico.
Em resumo, é possível dizer que, na leitura de Foucault, a nova crise inventada no interior do hospital psiquiátrico opera como suposto fundamento epistemológico do poder psiquiátrico, contribuindo para sustentar a existência desse aparato disciplinar de isolamento e de manutenção da ordem pública.
Entretanto, a internação em um “estabelecimento especial” tem efeitos para além da mera afirmação do poder médico9. Robert Castel (1991) destaca o status de incapacidade de contrato social, a partir do qual aquela pessoa considerada doente mental é posta como objeto de tutela. Pois o confisco da loucura na forma de doença mental “não significou, de fato, a simples confiscação da loucura por um olhar médico. Ela implicou a definição, através da instituição médica, de um novo status jurídico, social e civil do louco: o alienado, que a lei […] fixou […] num completo estado de menoridade social”. (CASTEL, 1991, p. 55).
Portanto, as pessoas consideradas como doentes mentais são concomitantemente psiquiatrizadas e subjetivadas como perigosas e alienadas, em status de menoridade, com quase mínimas possibilidades de participação na vida social.
Com os hospitais psiquiátricos estabelecidos como destino hegemônico para a loucura, perpetua-se no campo da psiquiatria uma relação bastante dual e ambígua com crises: já que a noção de crise contribui para justificar a existência das internações, a existência dos asilos e de espaços de exclusão e confinamento, como uma gestão dos riscos em defesa da sociedade;
ao mesmo tempo em que a função do hospital psiquiátrico é fazer cessar as “crises”, violências e sintomas da loucura. (FOUCAULT, 2006)
É por essas razões que, a partir dos anos 1980, com o desenrolar do movimento pela Reforma Psiquiátrica – que tem entre seus propósitos criar outras formas de relação com a loucura, extinguindo os manicômios e seus modos de relação manicomiais –, as respostas à crise passam a constituir um ponto nevrálgico:
É por identificar a crise como momento privilegiado da captura manicomial, que os serviços substitutivos se empenharam em contrapor a esta captura, um acolhimento possível, abrindo uma via de mão dupla na qual, a crise, em uma direção, deve abrir acesso ao serviço de saúde, ao atendimento, ao cuidado, e, em outra direção, deve abrir acesso ao sujeito que sofre, ao emergir de sua multiplicidade singular. (MOEBUS, 2014, p.
52, grifo nosso).
Depreende-se da reflexão de Ricardo Moebus e da ideia foucaultiana do “sobrepoder do doente”, em que se dá relevo à crise que é fabricada e confessada no hospital psiquiátrico, a perspectiva de que a captura manicomial tem importantes efeitos na produção de subjetividades. Sobre isso, destaca-se o clássico trabalho de Erving Goffman (2003) que se dedica a estudar o “percurso psiquiátrico”. Interessado na investigação dos “aspectos institucionais do eu”, o sociólogo realiza importante pesquisa no que conceitua como
“instituições totais”, a qual resulta na obra Manicômios, prisões e conventos, publicada originalmente como livro em 1961.
É a partir da imersão em um hospital psiquiátrico estadunidense sob o disfarce de professor de educação física que Goffman formula a noção de “carreira moral do doente mental”. O termo “carreira” é escolhido por remeter simultaneamente a “aspectos íntimos e pessoais” e a “posição oficial, relações jurídicas, estilo de vida”. Portanto, a “carreira moral do doente mental” é um constructo teórico que articula as dimensões pessoal e pública, permitindo a passagem entre ambas as esferas e apontando para a trajetória comum que sela o destino de diferentes sujeitos que experimentam hospitalização psiquiátrica. A formulação evidencia não aspectos relacionados a patologias específicas, mas características próprias de
uma carreira comum (simultaneamente pessoal e pública) que se desenha a partir da hospitalização:
As pessoas que se tornam pacientes de hospitais para doentes mentais variam muito quanto ao tipo e grau de doença que um psiquiatra lhes atribuiria, e quanto aos atributos que os leigos neles descreveriam. No entanto, uma vez iniciados nesse caminho, enfrentam algumas circunstâncias muito semelhantes e a elas respondem de maneiras muito semelhantes. […] É um tributo ao poder das forças sociais que o status uniforme de paciente mental possa assegurar não apenas um destino comum a um conjunto de pessoas e, finalmente, por isso, um caráter comum, mas que essa reelaboração social possa ser feita com relação ao que é talvez a mais irredutível variedade de materiais humanos que pode ser reunida pela sociedade. (GOFFMAN, 2003, p. 113, grifo nosso).
Goffman atenta aos supostos tratamentos que produzem carreiras, modulam o “eu” e produzem determinadas versões de sujeitos e subjetividades. Se da hospitalização psiquiátrica derivam efeitos de subjetivação, cabe interrogar o que o fato de ser considerado “em crise”
produz como efeitos nos/as usuários/as dos serviços de saúde mental, hoje.
As perspectivas de Goffman, Foucault e Moebus dialogam ainda com as considerações de Vladimir Safatle (2017) acerca das categorias clínicas. Considerando a impossibilidade de compreender as chamadas doenças mentais como pertencentes à mesma natureza de demais patologias, dada a inexistência de marcadores biológicos para tanto – ou, como visto, a incapacidade de inscrição da psiquiatria no modelo anatomopatológico para o qual a medicina caminhara –, é possível traçar algumas perguntas acerca das categorias clínicas em sua articulação com a experiência subjetiva do sofrimento psíquico:
Poderíamos então afirmar que categorias clínicas são, de certa forma, agenciamentos produzidos pelo próprio impacto dos saberes médicos nos objetos que eles descrevem? Pode a configuração do saber médico, com suas estruturas de classificação, produzir efeitos na experiência subjetiva do sofrimento psíquico? (SAFATLE, 2017, não paginado).
Determinadas classificações podem ter efeitos na produção de subjetividades, o que se relaciona com o “nominalismo dinâmico”, tal como formulado pelo filósofo da ciência norte-americano Ian Hacking. Nessa perspectiva, o campo de intervenção clínica em saúde mental é constituído por “categorias classificatórias com força performativa, ou seja, categorias que não apenas descrevem entidades presentes no mundo natural, mas que, de certa forma, criam performativamente entidades (daí vem seu nominalismo)”. (SAFATLE, 2017, não paginado).
Tais entidades não apenas servem para organizar e capturar sentidos de experiências singulares já passadas, como também tem efeitos de induzir experiências futuras (daí o
“dinamismo”). (SAFATLE, 2017).
A alegação do nominalismo dinâmico não é que existia um tipo de pessoa que veio cada vez mais a ser reconhecido pelos burocratas ou pelos estudiosos da natureza humana, mas sim que um tipo de pessoa passou a existir no mesmo instante em que o próprio tipo estava sendo inventado.
Quer dizer, em alguns casos, nossas classificações e nossas classes conspiram para emergir de mãos dadas, uma incitando a outra. (HACKING, 2002, p. 122-123).
O que seria essa incitação mútua, esse emergir de mãos dadas? Retomo aqui a ideia de que as categorias e classificações clínicas criam performativamente situações nas quais as pessoas se veem inseridas, e as próprias categorias são tomadas como objeto de elaboração reflexiva por parte das pessoas que elas procuram descrever. (SAFATLE, 2017). Essa seria uma característica importante da clínica em saúde mental: suas categorias são reflexivas. As pessoas descritas por tais categorias as apreendem, identificam-se a elas e se modificam a partir delas, seja de forma voluntária ou involuntária, consciente ou não.
Pois estar doente é, a princípio, assumir uma identidade com forte força performativa. Ao compreender-se como “neurótico”, “depressivo” ou portador de “transtorno de personalidade borderline”, o sujeito nomeia a si através de um ato de fala capaz de produzir performativamente efeitos novos, de ampliar impossibilidades e restrições. O ato de nomeação da doença produz efeitos por si, reorienta a compreensão de fenômenos anteriores, instaura uma nova realidade. (SAFATLE, 2017, não paginado, grifo em negrito nosso).
Eis o aspecto dinâmico nesse processo: “As pessoas classificadas de certa forma tendem a se adaptar ou crescer da forma como são descritas; mas também evoluem de seu próprio jeito, de maneira que as classificações e descrições precisam ser constantemente revistas”. (HACKING, 1995, p. 31). Esse processo, chamado por Hacking de “efeito looping”, ajuda a estabelecer uma possibilidade de olhar para a noção de crise no campo da saúde mental: levar em conta sua força performativa sobre a existência das pessoas consideradas em crise.
Hacking (1995, p. 49, grifo nosso) também discorre sobre o:
efeito feedback, forma pela qual as classificações afetam as pessoas classificadas e vice-versa. Em medicina, as autoridades com conhecimento, os médicos, tendem a dominar o conhecido, os pacientes. Os objetos de conhecimento passam a comportar-se da forma que os conhecedores esperam que eles se comportem. Mas nem sempre. Às vezes os conhecidos tomam as rédeas da situação. O famoso exemplo é a liberação gay.
Portanto, pode existir abertura para uma inversão nos vetores do poder, tal qual na situação do movimento gay: passou-se da homossexualidade, a priori uma classificação médica, a um movimento afirmativo, com pautas e reivindicações próprias.
É importante frisar que os efeitos das classificações se voltam também ao modo como organizamos as lembranças. Numa faceta mais pública, há a dimensão dinâmica das relações entre pessoas que são conhecidas, o conhecimento sobre essas pessoas e os conhecedores, assim como há a dinâmica mais particular, que se liga à memória:
Os novos significados mudam o passado. Ele é reinterpretado, sim, porém mais do que isso, é reorganizado, repovoado. Torna-se impregnado de novas ações, novas intenções, novos acontecimentos que fizeram com que sejamos o que somos. Desejo discutir não só a invenção das pessoas, mas a invenção de nós mesmos através da reelaboração das nossas memórias. (HACKING, 1995, p. 15).
Essa concepção de memória, na qual os novos significados mudam o passado, repovoando-o de novos sentidos, dialoga também com a aposta desta pesquisa. Ao colocar em palavras, permite-se reelaborar experiências e memórias. Seguindo a pista de que novos significados podem povoar o passado, compondo outras invenções de nós mesmos, abrem-se possibilidades além das meras capturas em carreiras psiquiátricas.