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CAPÍTULO 2- RECONSTITUIÇÃO DAS CASAS RELIGIOSAS

2.4. A FORMAÇÃO DAS CASAS SOB A DIRETRIZ DO TRANSE

Quando os dados falam por si, fica muito mais evidente a impressão a ser apreendida dos fatos. No decorrer desta escrita a partir daqui, fica evidente ao leitor que, o contexto da

8Um composto de álcool com ervas que, segundo as crenças, ao ser aspergido no corpo dos frequentadores, possui a finalidade de retirar energias negativas.

9 Um pedaço de giz, utilizado pela entidade para desenhos (assinaturas), onde legitimam sua identidade particular.

formação da casa Movimento Espírita Francisco de Assis, apresenta maior complexidade e, portanto, importância, não por um fator hierárquico, mas, devido a capacidade de lidar com as diferenças muito mais do que, em contraparte com as semelhanças.

Em todos os cenários no contexto social, há um fator de referência que visibiliza com maior exatidão quem será o influenciador e aquele que sofrerá a influência. Embora estas casas busquem por uma legitimação e manutenção do espaço religioso a qual interagem, sob o poder simbólico do transe mediúnico, tudo parece contribuir para que, o espaço com bases nas diretrizes espíritas tornem, a contraparte que se destaca.

Esta opção foi induzida voluntariamente devido ao andamento e as envergaduras promovidas pelo próprio grupo social, em que, a parte de impõe maiores aspectos reguladores, apresentam maior visibilidade e reconhecimento, não somente pelo histórico da casa MEFA, mas por ser um espaço de negociações simbólicas, para que se mantenha um controla sob a égide da doutrina espírita a qual não se pretende se desprender.

A relação dialógica da Umbanda e Espiritismo representando a práxis na dinâmica das casas, não são lineares, com tendência a casa MEFA extrair muito mais dinamismo do que o Terreiro, pois as negociais devem ser dosadas, para que se mantenha um eixo norteador regular e absoluto. Logo, esta discrepância nas próprias informações relatadas aqui é um risco a qual assumimos, no compromisso de honrar com todas as consequências, por não haver espaço suficiente para trilhar um caminho analítico que foge ao propósito desta pesquisa.

Para conhecer o processo histórico das casas é necessário dar destaque a quem o produziu no tempo, trazendo indivíduos e narrativas para expor algumas considerações. Estes personagens são antigos e já passaram por experiências no MEFA, desse a sua fundação, quando Luiz Leal (Fundador do MEFA) estava presente nas atividades. A primeira informante é Air, frequentadora há mais de 23 anos, que acompanhou de perto as mudanças e também, as permanências.

Durante sua fala, buscou legitimar seu tempo na casa, o que lhe traria certos privilégios que os outros não possuíam, pois quanto maior o tempo, maior o poder de influência e lugar de fala. Aproveitando sua presença, perguntamos sobre como era o MEFA antigamente. Segundo ela, a casa nasce com o compromisso de trabalhar aliando a Umbanda e o Espiritismo. Que esta era a identidade da casa e, qualquer um que tentasse modificar aquilo, já previsto desde o princípio, iria sair pois, ninguém conseguiu mudar esta proposta inicial.

Foi então que indagamos sobre a Umbanda, e sua fala demonstra que, a Umbanda praticada na casa não era uma Umbanda de terreiro, tampouco aquilo concebíamos como Umbanda. Ou seja, aquilo que se identifica como elemento na Umbanda, não necessariamente

é, pois o espaço não é um terreiro, e sim uma casa Espírita. A modalidade a qual considerava era uma configuração única ao dizer: “A diferença entre a Umbanda e o MEFA é que aqui nós temos Caboclos, Preto-Velho, mas não temos os rituais” (Sra. Air. Out/2013). A tentativa de retirada de qualquer identificação com terreiros e espaços de culto umbandista foi muito forte na sua fala.

Dá-se a impressão que o objetivo era dizer que a Umbanda no MEFA possui diferenciais significativos. É como se os “pontos cantados” mais importantes da Umbanda fosse inserido nas práticas do MEFA, produzindo retiradas e domesticações de práticas ritualísticas, comuns em terreiros.

Dona Amada é antiga na casa e chegou no tempo em que Luiz Leal tinha recém fundado, e as práticas estavam sendo desenvolvidas de forma bastante interessante, segundo sua fala. Amada chegou até Luiz Leal através de um grupo o qual estava vinculada por relações, ou seja, naquela época, ela apresentava reações típicas dos que sofriam daquilo que era classificado como “mediunidade malconduzida”.

Ela relata que sofrera muito de desmaios, era constantemente tomada por espíritos em casa, na rua, e estes espíritos eram sempre arredios, apresentavam descontroles e eram maldosos. Segundo ela, os espíritos a dominavam e não lhe davam opções de escolhas, o que lhe causou desarmonia na família e com os amigos. Foi então que se conduziu até o MEFA:

Naquele tempo, tudo que era coisa pesada, espíritos bravos, indisciplinados era tudo encaminhado para o MEFA, pois era o único lugar que estes espíritos eram aceitos. E por diversas vezes, houve casos de pessoas tomadas por espíritos serem trazidas para o MEFA por outras casas espíritas que não se viam em condições de lidar com aqueles casos aparentemente sem solução, os espíritos eram violentos [sic] (Maria E, 06/2013, DOURADOS - MS).

A incorporação é um fator de extrema importância, pois, o ato de “receber” um espírito é forte e presente nas práticas deste grupo, considerando que todos estes personagens invocados através do transe mediúnico são os chamados espíritos inferiores baixos e trevosos, sofredores, bem como Caboclos e Preto-Velho. O fenômeno da incorporação, termo bastante usado entre eles, é um sinal de comunicação entre Umbanda e Espiritismo. Amada continuou dizendo: “naquela época eu sofri muito, porque nenhuma casa espírita me aceitava; ninguém

me ajudava porque as casas espíritas não aceitam a incorporação. E o MEFA aceitava, e aceita até hoje” (Sra. Amada. Jun /2013).

Após esta consideração, Amada começou a inserir ocorrências cuja evocação da presença da Umbanda é determinante, deixando evidente que a Umbanda, por aceitar a incorporação e o MEFA adotando algumas práticas desta modalidade, ajuda a compreender que, a incorporação, a mediação - humano e espírito - é um produto muito forte que a casa oferece como um bem simbólico (BOURDIEU, 2001).

Amada, ao continuar sua fala, relatou algumas histórias de espíritos trevosos que incorporavam nos médiuns e que era possível sentir os odores de sangue, cheiro de carne putrefata e que tudo era ligado aos personagens da Umbanda. Em memória aos tempos do MEFA antigo, Amada disse:

O Sr. Luiz Leal e a Dona Nega faziam trabalho de desenvolvimento mediúnico em cima dos pontos cantados da Umbanda. Ele cantava para Iemanjá, Xangô, Preto-Velhos, Caboclos, Ogum, Oxum, entre outros. E conforme os efeitos que os pontos causavam nos médiuns, ele conseguia identificar o “santo” de cada um, e também as entidades que os médiuns iriam trabalhar (Amada, 07/ 2013, DOURADOS - MS).

Isto significa que desde aquela época já existia a presença da Umbanda, e tal modalidade definia e encaminhava os médiuns da casa para que estivessem ligados e influenciados pelas entidades. Os próprios termos utilizados na narrativa já expressa um diálogo entre Umbanda e Espiritismo. Partindo para outro ponto importante, perguntamos aos adeptos/médiuns mais antigos da casa sobre como eram as atividades na época e em como estas atividades são vistas nos dias atuais.

Amada aponta o estudo como um fator importante de mudança e nivelamento ao considerar: “O estudo me modificou muito! Antigamente nós fazíamos muito barulho ao receber espíritos, não tínhamos conhecimento doutrinário. As manifestações eram pesadas, e hoje eu trabalho com o meu caboclo de outra forma” (Amada. Mar/2013). Indo ao encontro desta fala, a interlocutora Maria, ex-presidente da Casa Movimento Espírita Francisco de Assis, afirma:

Naquela época quem dirigia os trabalhos era o próprio Sr. Luiz.

Antigamente, os trabalhos eram diferentes dos que são realizados hoje em dia lá no MEFA, porque agora existe um conhecimento teórico mais aprofundado e isso contribui muito para a mudança na forma de trabalhar (Maria E., 07/2013, DOURADOS - MS).

Em seguida levantou algumas questões que sinalizam a falta de conhecimento que, segundo ela, ainda é presente na Casa Espírita Francisco de Assis:

Hoje em dia, ainda tem pessoas que acham que as coisas acontecem na nossa vida é culpa dos espíritos, como se eles fossem os responsáveis por tudo aquilo que nos acontece, e às vezes acaba recorrendo a eles para solucionar questões que só nós mesmos conseguimos resolver, e os espíritos não tem nada a ver [sic] (Maria E., 07/2013, DOURADOS - MS).

Dando continuidade à sua fala sobre o período da fundação do MEFA, Maria enfatiza questões que já foram discutidas anteriormente, mas que podem contribuir para a compreensão de fatores necessários de como o MEFA configura-se na contemporaneidade. A fundação do MEFA tinha como objetivo dar continuidade aos trabalhos que anteriormente eram realizados na Casa Espírita Ismael. Antigamente a Umbanda era bem mais presente no MEFA e houve uma maior domesticação dos mentores:

Já fizeram uma “Quiumba” para o MEFA. Nesta época tinha uma caseira (em nota) que morava na casa situada dentro do MEFA, e neste dia esta mulher tinha acabado de sair para trabalhar, e seu filho mais velho ficou em casa. Quando ele saiu pra fora de casa, começou a sentir um cheiro ruim de bicho morto mesmo, procurou por tudo e não encontrou a origem daquele cheiro. Foi aí que avistou em cima da casa, um monte de mosquito, subiu em cima da casa e avistou uma cabeça de bode preto. Depois disso todo mundo começou a se perguntar quem poderia ser o responsável por aquilo. O Sr. Luiz Leal, bastante tranquilo com a situação, acalmou todo mundo dizendo que não era para se preocupar com aquilo. Depois disso, o Sr. Luiz marcou

um trabalho, me lembro bem, foi em uma Quarta-feira. Foram escolhidos médiuns da casa para trabalhar, e a Caseira, porque de alguma forma ela estava envolvida, por ser a moradora da casa na época. Todos os médiuns que participaram estavam ligados a Umbanda, dentre estes médiuns estavam Amada, Paulo, Rosa, e outros, além do próprio Sr. Luiz. Pegaram a cabeça do bode colocaram no chão, e dali em diante foi feito um trabalho na linha da

“quimbanda”, que era a única que daria condições para desmanchar aquilo ali que tinha sido feito. O Paulo trabalhou com o exu dele, aquela entidade dele, pegava pimenta malagueta esfregava nas mãos juntamente com brasa viva. E daquela maneira os trabalhos foram acontecendo. O Sr. Luiz olhou para mim, e disse que queria o responsável por aquilo ali, e eu recebi o cara, quando ele chegou o Tupinambá da Rosa veio junto pra fazer a segurança do ambiente, de tão pesada que era energia. No final do trabalho, baixou o Ogum no Sr. Luiz Leal, e aí tudo terminou bem [sic] (Reginaldo, 06/2013, DOURADOS - MS).

A casa possui inúmeras histórias em que a Umbanda se fazia sempre presente. Esta colocação serve de orientação para os fatos vividos e experimentados no MEFA antigo que, de alguma forma, ainda se faz presente até os dias de hoje. Apesar de algumas práticas terem sido banidas do cotidiano do grupo, foram adotadas outras práticas que seguiam no intuito de evocar a presença da Umbanda como um mecanismo de segurança. A Umbanda sempre esteve presente no alicerce da casa, e existe um consenso de que qualquer tentativa da retirada da Umbanda das atividades do MEFA, é tendência à falência.