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CAPÍTULO 4 - O TRANSE E O TRÂNSITO

4.2. O P ERCURSO DOS A DEPTOS

Este tópico fornece explicação a cerca do trânsito do ponto de vista dos adeptos.

Aqueles que buscam tanto a casa MEFA, quanto o terreiro de modo complementar a partir das práticas rotativas oferecidas semanalmente, considerando a existência de um mercado de bens simbólicos envolvendo práticas e formas rituais (BOURDIEU, 2011).

O trânsito entre clientes será apresentado a partir de narrativas, em casos específicos.

O olhar dos adeptos é de fundamental importância, por apresentar perspectiva contrastante, por não estarem envolvidos dentro das relações históricas construídas entre os médiuns da casa, que transitaram por outas casas espíritas, além das mencionadas nesta pesquisa.

Joraci, 47 anos. Empresária, e frequentadora da Casa Movimento Espírita Francisco de Assis. Prática: Terreiro Reino de Ogum Beira Mar.

Joraci chegou à casa MEFA, anos depois que já frequentava a casa como um espaço de estudo sobre mediunidade. Nos dias atuais, ela é uma das trabalhadoras da casa, não enquanto médium, mas como colaboradora das atividades oferecidas na parte externa da sala onde ocorrem as incorporações. Participa ativamente dos estudos doutrinários oferecidos pelo MEFA às quartas-feiras.

A trajetória desta personagem começa na Igreja Católica, onde passou por alguns rituais como: batismo, eucaristia, crisma e outros característicos da religião. Algumas questões de ordem pessoal a levaram ao afastamento definitivo, devido a não aceitação da Igreja diante das decisões pessoais que tomou naquele momento de sua vida. Encontrou uma Casa Espírita através de um membro da família, que a levou para conhecer na esperança de se

sentir bem e acolhida. Esta casa é Jesus de Nazaré, um Centro Espírita com práticas adequadas aos preceitos da normatização Espírita.

Por questões de interferências e fatores externos, buscou outro espaço, embora tenha permanecido no Centro Espírita Amor e Caridade – uma das casas da cidade vinculada à FEB – durante 15 anos. Neste centro espírita ela conheceu uma médium já frequentadora do MEFA,criando um vinculo de amizade, oferecendo um campo propício para se aproximar do universo umbandista.

Nas normas estabelecidas pelo centro de acordo com a FEB não é aconselhável a comunicação, ou seja, a presença de “espíritos” através do corpo de uma pessoa viva, no caso, o médium. Segundo ela, a médium possuía uma peculiaridade entre os demais. Sua prática nas atividades da casa saltava aos olhos por operar de forma diferente, pois dava-se a impressão que a mesma estava bastante influenciada por algum espírito que a acompanhava nas atividades mediúnicas.

A proibição da presença de espíritos de natureza umbandista na casa Espírita a incomodava. Dentre tantos acontecimentos, um caso específico ocasiona a mudança. Segundo ela, um homem entrou na “sala de passe”, e recebeu um espírito. Quando isto aconteceu, o dirigente espiritual expulsa o dito homem da sala, justamente em se tratando de uma presença espiritual que não se adequava ao modelo correspondente aos preceitos doutrinários. Esta clareza proporcionada por este caso, a fez procurar outra que aceitasse a presença dos Espíritos de modo mais abrangente e integrado, fornecendo um tratamento mais inclusivo a presença de espíritos, permitindo a mediação humano/Espírito de forma mais integrada. Foi então que acabou conhecendo e se dirigindo ao MEFA, local onde frequenta até os dias de hoje.

Um laço de amizade foi o fomento para a composição da prática entre as casas. Numa conversa informal entre elas, as duas revelaram as casas onde trabalhavam. Quando uma delas ficou sabendo do MEFA, passou a frequentar seguindo os passos de Joraci ao participar das atividades do terreiro. Ambas sabiam, como todos os outros adeptos, que entre a Casa Ogum Beira Mar e a Casa Espírita Francisco de Assis, há um consenso de mobilização e nenhuma das partes exige permanência fixa.

Quanto a motivação que levou a frequentar a casa Ogum Beira Mar, disse que foi porque lá no terreiro valoriza-se o individual, enquanto que na Casa Francisco de Assis, predomina-se o coletivo. Isto porque nas atividades voltadas para consulta espiritual, não há privacidade tampouco espaço para relatar coisas particulares da vida cotidiana, e até mesmo

dos problemas enfrentados dentro da própria casa. A sala de consulta ocorre na sala grande, com mais ou menos umas 20 pessoas, que ficam escutando tudo o que os consulentes dizem.

Isso a incomoda profundamente, pois não se sente à vontade para contar e se abrir sobre conflitos internos e externos da vida cotidiana. E no terreiro Ogum Beira Mar, prioriza-se a conversa direta com as entidades do “outro” plano, dando espaço para uma conversa mais direta, informal, particular e reservada, garantindo a privacidade, na certeza de que as pessoas não estão ouvindo o que está sendo dito nem pela pessoa, nem mesmo pela entidade comunicante:

Os dirigentes não dão dica de nada e não falam absolutamente nada, e você tem que ficar adivinhando as coisas. Agente não tem espaço e nem vez para conversar com os espíritos que trabalham ali. E lá no terreiro eles falam tudo o que você precisa saber e ouvir. Eles falam na lata. Todas as vezes que eu fui ao terreiro eles conversaram comigo abertamente, como amigos e orientadores de verdade. E ali no MEFA a gente não fica sabendo de nada, parece que eles guardam tudo para eles [sic] (Joraci. 06/2013, DOURADOS - MS).

A questão da coletivização das práticas mediúnicas da casa leva à outra questão.

Vendo a impossibilidade de relatar as coisas nas consultas devido à quantidade de gente que escuta e participam, estas questões pessoais são contadas em particular para os dirigentes em outro momento que não o da consulta na sala grande. E, segundo ela, ao adentrar na sala, os dirigentes tendo o conhecimento prévio da causa, pedem unicamente para pensar naquilo que veio buscar nesta casa de oração, e assim tudo fica por conta do paciente que busca uma orientação espiritual

Clarice, 54 anos, professora. Pertence ao Centro Espírita Ismael. Nos dias atuais, frequenta o MEFA e também visita a Casa Reino de Ogum Beira Mar.

A conversa com Clarice inicia-se numa segunda-feira de atividades na casa MEFA.

Inicialmente as considerações sobre o percurso demonstraram que a percepção desta aproximação destas religiões, que compõe instituições de natureza espiritualista. Sendo assim, a interlocutora não fazia ideia de que compunha o trânsito entre as casas, não de modo consciente.

Inicia manifestando completo bem-estar no percurso entre as duas casas. Então expôs os motivos pelos quais frequenta o MEFA e o terreiro de forma contínua: “Não gosto de frequentar as outras casas porque aqui eu recebo respostas daquilo que necessito para mim.

E nas outras casas estas inquietações não são resolvidas. Tanto na dona Tereza como no MEFA, eu recebo aquilo que preciso de formas diferentes, mas recebo”. (CLARICE, 05/2013, DOURADOS - MS)

Entre a casa espírita Francisco de Assis e o terreiro existem oferecimentos simbólicos distintos, porém complementares:

Aqui no MEFA me sinto mais livre para ir e vir aonde eu quiser, porque aqui ninguém exige nada. E eu gosto do MEFA especialmente por conta da Dona Nega. Dona Nega trabalhou muito tempo nesta casa, mas foi lá na casa Ismael que ela curou minha filha que, naquele tempo, estava com sérios problemas para engravidar. E sei que Dona Nega também trabalha aqui e o que me faz bem é esta mistura com a Umbanda, que eu gosto muito (Idem).

Segundo ela, a Dona Nega transitava entre o MEFA e a Casa Espírita Ismael ao mesmo tempo, o que demonstra que o percurso é comum e instituído pelas próprias pessoas que compõem o grupo. Conforme as informações que trazia. Foi possível perceber que estava confusa em relação ao trânsito o qual faz parte e pratica constantemente.

Após a fala de Reginaldo houve menor resistência para dirigir seu depoimento, sobre o trânsito. Ao final da reunião da noite, veio pedir minha opinião sobre a prática entre as casas.

Sobre os conflitos que ocasionam a frequência nas duas casas, disse que as pessoas a procuravam para questionar sobre isto alegando que ela estava servindo a deuses diferentes, e que isso poderia futuramente lhe trazer sérios problemas. Logo em seguida, afirmou que nas duas casas ela busca respostas diferentes. Mas respostas que se complementam e contribuem para sua vida de um modo geral: “No terreiro, a reposta é para a vida do meu dia-a-dia, na matéria, problemas pessoais, desentendimentos com as pessoas”.

Logo, as repostas obtidas no terreiro eram objetivas e precisas e, normalmente, imediatas, e na maioria das vezes, o consulente já sai do terreiro sabendo o que gostaria de compreender a cerca de algum caso específico envolvendo questões práticas da vida. Já no MEFA, a resposta vem no entendimento da evolução:

O que eu estou fazendo aqui? Respostas para compreender nossa origem e estas respostas são mais abrangentes e se estendem para um campo maior, é uma área mais filosófica, onde você precisa pensar e entender, é mais intelectual. E ninguém está interessado com sua vida material, trabalho, família... (CLARICE, 07/2013, DOURADOS - MS).

O que pudemos apreender é um sentido de não dualidade, com o intuito de demonstrar a ausência de sentido para uma percepção que a colocaria numa posição de escolha entre uma casa ou outra, pois, segundo ela, é um complemento.

Deusemar, 38 anos, enfermeiro. Frequentava o terreiro Reino de Ogum Beira Mar.

Hoje frequenta as duas casas

Deusemaré frequentador do terreiro Reino de Ogum Beira Mar. Após um longo tempo, o reencontramos anos depois, na Casa Movimento Espírita Francisco de Assis.

Passado algum tempo, voltou a frequentar o terreiro. Mas sua presença não era tão frequente quanto no MEFA, ou seja, passou algumas sextas-feiras seguidas frequentando o terreiro.

Logo, é um adepto que compõe o trânsito, passando, de esporádico a contínuo, com frequências nas duas casas religiosas.

Deusemar já percorreu por diversas modalidades religiosas, demonstrando afeição às manifestações religiosas de natureza mediunica. Sua posição é de que tanto a Umbanda, Candomblé e Espiritismo devem ocorrer de forma mais natural possível. As manifestações dos personagens da Umbanda e Candomblé, ocorrem de forma performática, em que os médiuns manifestam expressões que foram identificadas por alguns autores como uma crise , de modo que, tais fenômenos ocorrem de duas formas: as mais brandas e leves possíveis, onde os médiuns não apresentam este fenômeno da incorporação, ou apresentam este período em uma performance corporal, o que este personagem considera agressivo.

A comunicabilidade com os espíritos é o fundamento das atividades do MEFA. Num dia de estudo, o dirigente espiritual da casa mencionou que a casa espírita Francisco de Assis acolheu muitos médiuns de Umbanda, e que estes foram para o MEFA com padrões específicos correspondentes à sua ritualística religiosa. Esta manifestação ocorria de forma bastante brusca e agressiva, no sentido de que muitos médiuns se debatem, e dá impressão de estarem tomados por um ataque de convulsão.

Estes costumes são característicos dos médiuns que vêm da Umbanda para trabalhar nas atividades da casa. E devido a oportunidade de aquisão de conhecimentos que priorizam a ciência do espírito, estes médiuns vêm paulatinamente modificando suas manifestações de incorporação tornando-a mais leve, equilibrada. Por isso, existe uma valorização ao conhecimento da doutrina espírita, pois, segundo os líderes da casa, há um entendimento que parece consensual de que quanto maior o conhecimento o domínio da dita mediunidade, mais estas manifestações performáticas tendem a desaparecer.

De fato, há que se reconhecer uma tendência a domesticação do ato de “receber um espírito”. Isso se deve, á influencia Espíritas as quais os grupos estão envolvidos, tendo em vista que, o fundamento doutrinário revela como se dá a base da incorporação, como um fenômeno que pode, e deve ser controlado através do apoio da consciência do indivíduo que empresta seus mecanismos corporais para a prática da possessão. Para ambos os grupos, das casas quanto maior o controle do médium sobre a manifestação do Espírito mais prestigio ele tem perante os outros. Existe aqui uma corrente civilizadora da comunicação com os mortos (ELIAS, 1994).

Segundo suas posições diante das falas, houve um entendimento de que Deusemar não se identifica com a ritualística da Umbanda. Ele nos narrou que antes de conhecer o terreiro de Sra. Tereza, já frequentava o MEFA, inclusive trabalhava lá, como recepcionista, compondo a diretoria que se encarrega de cuidar da parte material da casa e, por consequência, da vida e das relações. Ele deixou de frequentar o MEFA, e passou a visitar a casa da Sra. Tereza, por indicação de uma amiga, e segundo ele: “(...)me senti acolhido pela casa, me senti cuidado” (DEUSEMAR, 06/2013, DOURADOS-MS).

Desde então, frequentou a casa por muitos anos. Até que novamente sentiu o peso da ritualística e das imposições exigidas pela Umbanda e resolveu novamente se afastar por não concordar com a necessidade de algumas regras e condicionamentos que são exigidos. Como por exemplo, o fato de não poder frequentar outros lugares.

Após o afastamento do terreiro, passou a frequentar outros espaços religiosos, como igreja cristãs Católica e Igreja Pentecostal do Evangelho Quadrangular, e outros centros espíritas onde se sentia bem. Foi quando em uma conversa com um dos fundadores da Casa Francisco de Assis (Luiz leal), o mesmo resolveu voltar ao MEFA, onde permanece até hoje:

Uma das primeiras identificações da presença da Umbanda na casa acontece participando das atividades cotidianas, a presença de caboclos e pretos velhos, e outras entidades, os médiuns dirigentes

estalavam os dedos, e aplicavam alguns métodos próprios da umbanda. (Deusemar. Jun./2013)

Segundo o próprio: “Ali no MEFA a gente estuda, trabalha. E eu me sinto bem” [sic].

O ator acredita que a única forma das pessoas se curar dos males da alma e do corpo é o evangelho (O Evangelho Segundo o Espiritismo), e a água fluidificada (fundamentações elementares do Espiritismo). Por isso, recusa algumas práticas da Umbanda, por considerar que são as pessoas que devem alcançar a cura e não os “espíritos”. Algo que comentou, é que no MEFA são atendidas 150 pessoas por semana, de modo bastante eficiente, e sem a necessidade de ritual, e contato direto com entidades espirituais.

Para ele, a questão da Umbanda é a necessidade de utensílios (objetos) que são dispensáveis à ação dos espíritos, apesar de demonstrar um respeito grande pelos personagens da Umbanda. Considera que o kardecismo e a umbanda podem existir separadamente, mas o complemento de ambos faz toda a diferença numa atividade desta natureza. Ainda, afirma que as pessoas que buscam o terreiro e permanecem frequentando o MEFA, compõem esta prática por pura curiosidade.

De acordo com algumas denominações há o reconhecimento da casa como um pronto-socorro espiritual, pela abertura que a casa oferece para receber elementos diferentes, incluindo pessoas de outras orientações religiosas. A casa é reconhecida pela pluralidade, tanto no que se refere à recepção de pessoas como de espíritos, inclusive os vinculados às práticas umbandistas.

Ao final da conversa o interlocutor relatou que, uma das noites anteriores enquanto estava dormindo teve a impressão de que havia três sombras ao lado de sua cama. Uma delas estava segurando uma lança na mão apontando-a contra seu peito, que segundo ele era onde estava localizado o “chakra14” cardíaco. Tendo esta sensação acabou acordando bastante apreensivo e assustado, com aquele sentimento de que não estava nada bem.

Quando chegou à sexta-feira, dia das atividades do MEFA da qual participa, estava com a esperança de que a dirigente espiritual da sala, ao colocar a mão em sua cabeça logo saberia que ele não estava se sentindo bem. Ocorre que a Rosa não lhe disse absolutamente nada, ao colocar a mão sobre sua cabeça (Jaz um entendimento entre os trabalhadores e alguns adeptos da casa Francisco de Assis, que os dirigentes possuem sensibilidade e tem a

14De acordo com a crença espírita, o Sistema de Chakras é interativo e é um captador e repassador das energias existentes no universo para equilibrar a sinergia existente entre os corpos espirituais, etérico e físico.

percepção no instante em que sobrepõe suas mãos na cabeça das pessoas, passando a sentir o que elas estão sentindo naquele momento).

O fato de a dirigente espiritual das atividades não ter dito nada fez com que o mesmo fosse buscar outro médium da casa para se consultar, pois ainda se sentia bastante mal naquele período. Mas, o médium com o qual se identificava não estava presente naquele dia.

E então resolveu ir ao terreiro para se “consultar com os orixás”, segundo seus próprios termos de identificação. Quando chegou ao terreiro, foi atendido por um médium da casa, que na verdade é médium do MEFA, mas frequenta a casa nas sextas-feiras.

A consulta foi satisfatória, pois a entidade que lhe cedeu atendimento disse de imediato que ele estava sendo “atingido” através do “chakra cardíaco”, e que este fato estava muito ligado ao seu trabalho, onde estaria sendo vítima de “mau olhado”, inveja etc. Ao seguir as orientações da entidade da umbanda, o interlocutor nos garantiu que as coisas começaram a melhorar significativamente, o que o levou a retornar ao terreiro nas semanas seguintes.

Ele conta: “A dirigente colocou a mão na minha cabeça e não me disse nada. Mas aí eu fui lá no terreiro e eles me disseram o que estava acontecendo. Mesmo assim, eu não acho ruim o fato dela não ter me dito, porque eu acho que não tem que falar”.[sic] Esta declaração coloca em evidência a utilidade da Umbanda, mesmo que não se sinta confortável em frequentar terreiro, existem momentos em que este espaço é solicitado para dar conta de algumas questões que parecem de ordem do que é dito ou não dito.

Mesmo sendo, a comunicação direta com os espíritos, produto este oferecido pelo terreiro, há resistências a esta conduta. Assim, buscar o terreiro é um mecanismo para a solução de problemas relacionados a ordem social, do ponto de vista prático. Esta fala expressa a grande flexibilidade contida nas ações, demonstrando assim possibilidades de negociações e resoluções de questões que, segundo eles, o próprio espiritismo por mais complexo que seja não apresenta soluções imediatas.

De acordo com os dados colhidos em campo, a segunda explicação sobre a busca dos clientes do MEFA e do terreiro em percurso entre as casas, é justamente os produtos capitais que são oferecidos tendo cada qual sua singularidade. Apesar das casas manterem vínculos através de redes de relações mantidas ao longo do tempo, elas se configuram em contextos rituais distintos, mantendo assim marcas diacríticas próprias. Os bens simbólicos (DANTAS, 1988) oferecidos pelo MEFA e o Terreiro não se chocam, e sim, se completam, por isso o diálogo é profícuo.

O produto do MEFA são elementos que buscam um entendimento da “vida” como um todo, dando às práticas desenvolvidas com os “espíritos” um sentido plausível apresentado pela fundamentação teórica da doutrina Espírita, tendo como norte, as obras básicas de Kardec. Apesar da presença da “incorporação” garantindo assim a comunicação intermediária do mundo físico com o mundo invisível ou espiritual, o contato restringe a práticas objetivas mantendo assim certo distanciamento com os espíritos, excluindo assim a relação estreita com entidades presentes nas reuniões. O produto oferecido pelo MEFA é um entendimento adquirido através do estudo (LEWGOY, 2000).

A supervalorização do grupo que participa das sessões do terreiro, é a solução imediata que a Umbanda oferece às questões da vida vivida. Assim, é mais ágil as soluções que são ofertadas aos problemas do cotidiano. Os resultados são percebidos com mais rapidez, onde a intervenção do mundo invisível na vida do indivíduo é notada. O fato de estar diante de um espírito, ou seja, com o elemento que promove intermediação e intervenção do astral no mundo material, fornece uma valorização peculiar, seguida de respeito e credibilidade. De todos os depoimentos colhidos todos buscam uma conversa com espírito e este produto é muito forte na pratica Umbandista como um todo. Logo, o bem simbólico do terreiro é a intermediação através do diálogo com os mortos (CAMARGO, 1961; CAVALCANTI, 1983;

ORTIZ, 1991).