3.2 O poder temporal
3.2.1 A formação do sacro império
A relação entre a Igreja e o Estado começa no fim do Império Romano. Dessa forma a Igreja tinha a proteção do Império e o imperador, a honra de eleger o papa.
Arruda e Piletti (1995, p. 95) apontam que o domínio político sobre a Igreja continuou durante o Reino Franco, cujos imperadores para obter vantagens mantinham a proteção.
Em 936, começou o reinado de Oton I. Sua vitória sobre os húngaros em 955 trouxe-lhe enorme prestígio, e o papa João XII, a quem ele protegia, deu-lhe a sagração imperial em 962. Nascia assim o Sacro Império Romano- Germânico, que duraria quase um milênio, até 1806. Oton I passou a intervir na Igreja, para controlar os grão-duques. Fundou bispados e abadias, e seus titulares recebiam dele tanto o poder religioso (anel e cruz) quanto o político
[báculo, o instrumento que lembra o cajado de São Pedro e simboliza o poder temporal do bispo sobre os fiéis]. (ARRUDA; PILETTI, 1995, p. 95).
Entretanto, ao admitir essas condições, o rei deveria suportar todas as consequências. A graça tem sentido de concessão, de favor, de quem recebe. Logo qualquer coisa pode ser retirada pelo papa que tem o poder de Deus na Terra e o poder de ligar e desligar.
Por outro lado, a Igreja herdara de Roma a concepção eminentemente jurídica do poder e da sociedade. O poder – religioso ou político- traduz-se em leis, normas de comportamento impostas coercitivamente e que constituem o Direito. O poder político é também o poder de ditar ou criar as leis que vão regular a vida pública e privada das coletividades e dos indivíduos. (BESSA; PINTO, 2009, p. 57).
Segundo esse mesmo autor:
A concepção dominante na sociedade medieval a tal respeito era, a usar uma terminologia consagrada, a concepção descendente, segundo a qual a autoridade governamental e a competência para a criação jurídica provêm (ou descem) de um órgão supremo; o poder distribui-se de cima para baixo, como numa pirâmide em que o vértice constitui a fonte de irradiação para a base e qualquer poder ou competência inferiores são legitimados por delegação superior. (BESSA; PINTO, 2009, p. 57).
Ao contrário, na concepção ascendente, origem do poder localiza-se na comunidade ou conjunto ordenado de todos os cidadãos, o populus, que o transmitem, atribuem ou delegam aos governantes (BESSA; PINTO, 2009).
Assim na sociedade medieval impera até quase seu fim, a concepção descendente. A fonte maior é Deus, na Terra o Papa. Os reis tem assim seu poder transmitido na Terra por Deus, representado pelo Papa.
4 O EXERCÍCIO DO PODER NO PÓS-MEDIEVAL E SUAS FORMAS BÁSICAS DE SUSTENTAÇÃO
Com o fim da Idade Média e o início da Idade Moderna podemos notar uma dissolução do mundo medieval. Essa desunião progressiva é notada em diversas fases da realidade social. Notamos a falência da economia feudal e o renascimento do comércio que fará despertar as grandes navegações. No lado social podemos ver o declínio da nobreza feudal e o surgimento de uma casta de mercadores. Na política ocorre paulatinamente a centralização do poder nas mãos dos reis que aliados aos mercadores vão sujeitando a nobreza e a Igreja aos seus poderes. Na religião ocorre o declínio da Igreja e uma série de revoltas que acabarão na Reforma Protestante.
4.1 Idade moderna
A condição básica para a formação das monarquias foi a crise do feudalismo que enfraqueceu o poder local, abrindo espaço para a ação dos reis.
Um aspecto importante foram as condições desfavoráveis do século XIV, por exemplo, quando a peste matou quase metade da população europeia, a opressão sobre os servos por falta de mão de obra, as revoltas camponesas e a nobreza se socorrendo nos reis contra as massas, contribuindo para a centralização do poder (ARRUDA; PILETTI, 1995).
O panorama anterior ao nascimento do Estado moderno refletia um período permeado por instabilidade política, lutas sociais, conflitos entre Sacro Império Romano-Germânico e a Igreja Católica, guerras internas e externas (estas ligadas às invasões bárbaras) que geravam dificuldade de desenvolver o comércio, sujeição e submissão da camada mais pobre da população aos senhores feudais, e múltiplos centros de poder. (DALLARI, 1998, p. 67). O poder do rei tornou-se nacional quando se estendeu sobre toda a nação, definida durante a Idade Média como unidade linguística, religiosa, cultural e histórica, com base num território. Para tanto, o poder real precisava superar poderes sobreviventes da Idade Média: o particularismo, o poder local, individual, exercido pelos senhores ou pelas cidades; e o universalismo, o poder do papado e do Sacro Império. (ARRUDA; PILETTI, 1995, p. 130).
O desenvolvimento comercial e urbano também favorecia a centralização. A nova classe social ligada ao comércio tinha interesses econômicos na
moedas, leis, enfim, condições para a conquista do mercado internacional. Para a burguesia, centralização do poder era um meio de atingir a unificação. Mais razões teve a burguesia de abrir mão de seus privilégios em favor do rei quando, com a crise de retração do século XIV, a pequena burguesia dos artesãos passou a contestar o próprio poder burguês nas cidades. (ARRUDA; PILETTI, 1995, p. 130, grifo do autor).
Assim, o movimento político no Ocidente Europeu encaminha-se decididamente para a centralização do poder. A idade Média fora o apogeu da fragmentação administrativa, dos privilégios e das diferenças de estatuto. Uma complicada teia de legislações particulares, de direitos adquiridos, às vezes por práticas ou costumes imemoriais, suportava o poder de numerosas instituições menores frente ao poder real.
Eram os mosteiros, as aldeias, os feudos, as comunas e burgos, com foros e jurisdições variadas. O poder político-administrativo achava-se fragmentado, o que até poderia parecer um paradoxo numa sociedade tão hierarquizada e unitária do ponto de vista de concepções doutrinárias, religiosas e políticas. (BESSA; PINTO, 2009, p. 66).
“O quadro era de insegurança permanente, que só gerava prejuízo para a vida econômica e social.” (DALLARI, 1998, p. 70).
Arruda e Piletti (1995, p. 130) aponta como um aspecto importante a crise de crescimento do século XIV que só poderia ser resolvida com a incorporação de novos mercados e novas rotas; e somente o rei, reunindo recursos de toda a nação, poderia bancar empreendimentos grandiosos como a expansão comercial marítima, vital para uma obtenção maior do poder.
Outras condições complementares podem ser lembradas: a tradição de hereditariedade do poder real, consolidada na Idade Média; o movimento universitário, que criou um corpo de legistas capazes de legitimar o poder real; o desenvolvimento do individualismo com o Renascimento, que criou a imagem de um rei representante e protetor da nação: o rei encarnava o ideal nacional. (ARRUDA; PILETTI, 1995, p. 130).
Na verdade fora a própria Igreja que dera o exemplo de centralização do poder uma vez que passou por cima da democracia da época medieval, sem dar qualquer tipo de chance a direitos e cargos exercidos pelo Estado.
4.1.1 Mecanismos de centralização
Eram necessário força, tributos e a justiça e administração para ter em mãos o monopólio do poder. Com o apoio dos habitantes dos domínios reais e da burguesia, foi possível organizar forças militares mercenárias formando assim um novo quadro militar.
Tendo a força o rei pode cobrar mais tributos, aumentando o número de contribuintes, especialmente camponeses e artesãos, que não tinham os mesmos interesses da burguesia na centralização. Nobreza, clero e altos funcionários estavam isentos de impostos (ARRUDA; PILETTI, 1995).
A força possibilitou a expansão dos domínios reais pela eliminação progressiva do poder dos nobres, especialmente da grande nobreza, ainda poderosa, resistente à centralização. Nas terras que dominava, o rei organizava a administração, da qual encarregava funcionários seus. Estes cobravam impostos e distribuíam justiça com base em códigos escritos, em substituição às leis feudais costumeiras.
Foi um notável avanço na racionalização do Estado, marcando o nascimento da moderna burocracia. A corte do rei transformou-se numa corte suprema de justiça da nação. (ARRUDA; PILETTI, 1995, p. 130, grifo do autor).
Com isso, toda a carga de impostos caiu sobre os ombros dos quem menos tinham, justamente para beneficiar os amigos do rei. Disso tudo muito pouco se revertia em benefício daqueles que justamente mais trabalhavam e sofriam com a desigualdade.
4.1.2 O Absolutismo
Com o desenvolvimento do comércio houve o choque das classes dos mercadores e dos artesãos contra as cidades localizadas no interior dos feudos. Na maioria das vezes estas cidades contaram com o apoio do rei.
Com isso ocorreu o absolutismo, que foi a concentração de poder nas mãos dos reis e segundo alguns teóricos da Idade Moderna, como Grotius e Hobbes, a teoria medieval do direito divino dos reis, como forma de legitimação do poder absolutista. Através dessa teoria, o rei recebe o poder de Deus e é apenas a ele que presta conta frente ao Estado.
Segundo Hobbes, citado por Corrêa (2010, p. 295) esse poder absoluto de um monarca ou de uma assembleia deve ater-se à função que lhe foi confiada pela lei da natureza: cuidar da segurança do povo. No raciocínio hobbesiano o Estado, como ente artificial posto por cidadãos livres e iguais, surge como solução para a insegurança social, sendo que o excesso de poder é menos temido do que a escassez de poder.
O Leviatã contempla conceitos que até então não haviam entrado em cena: vislumbra o monopólio da força utilizada pelo Estado, a soberania centralizada, a supremacia dos territórios nacionais. Em sua teoria, Hobbes se opõe à visão aristotélica, afirmando que o homem está em estado de natureza, em que “o homem é lobo do homem”, que, por natureza, se encontra em estado de guerra, que a luta é de todos contra todos e que, por meio de um pacto ou contrato social, estrutura-se o Estado (artificial), um Estado com organização, regras, leis e que forma uma sociedade. (CREMONESE, 2008, p. 133).
Pertence à soberania todo o poder de prescrever as regras através das quais todo homem pode saber quais os bens de que pode gozar, e quais as ações que pode praticar, sem ser molestado por nenhum de seus cidadãos: é a isto que os homens chamam propriedade. Porque antes da constituição do poder soberano, todos os homens tinham direito a todas as coisas, o que necessariamente provocava a guerra. (HOBBES, 1997, p. 148).
O governo deveria ter pulso de ferro para segurar qualquer que fosse o tipo de insurgência contra o Estado e dessa forma controlar com autoritarismo todos seus cidadãos.
4.1.3 O apogeu do Absolutismo
Segundo BESSA e PINTO (2009) um poder tem sempre por concorrente outro poder; geralmente o mais próximo e forte no quadro da sociedade política. Passadas definitivamente as pretensões temporais da Igreja, com um terceiro estado obediente e uma burguesia comercial e letrada afeta à coroa, só a nobreza constituía o estrato capaz de contestar o poder do soberano.
“A lição parece ter sido clara. Um poder arbitral tem de velar para que nunca se dê a concentração nas mesmas pessoas ou grupos das diversas espécies de poder social – econômico, militar, ideológico, político.” (BESSA; PINTO, 2009, p. 86).
Contudo, essa sensação de incerteza constante, permeada por lutas e conflitos, não tardaria a aproximar-se do seu limite, pois os integrantes da sociedade feudal (clero, senhores feudais e servos) estavam cansados de viver nesse estado de beligerância (DALLARI, 1998).
Diante disso, começou a ganhar espaço a ideia de que era preciso formar um poder político concentrado, e que, para isso era necessário unir forças para combater a poliarquia medieval (DALLARI, 1998).
Por outro lado, os grandes senhores que viviam nas suas terras, como proprietários fundiários, representavam perigo do renascimento do espírito feudalizante. Daí que Luís XIV tenha concebido a ideia de os ter perto de si, controlados, dando-lhes cargos protocolares e fazendo-os viver em sua casa. Versalhes traduz também esta estratégia. E o complicadíssimo cerimonial que muitos julgam, hoje em dia, ter obedecido a um mero desejo de ostentação, tinha na realidade um significado político transcendente: quando um príncipe de sangue ou um descendente de grandes vassalos, que outrora tinham ombreado com os reis, considerava uma honra sem par ter o privilégio de segurar o estribo do monarca, assistir às suas refeições ou calçar-lhe os sapatos, estava insensivelmente a reconhecer a superioridade do soberano, a sua majestade. (BESSA; PINTO, 2009, p. 86).
Dessa forma, a monarquia mantinha sempre sob controle, vigiando de perto os passos dos súditos para a qualquer sinal de revolta poder agir sabendo quais passos tomar no sentido de coibir e amenizar eventuais turbações.
“O resultado desse processo de busca da unificação concretizar-se-ia, afinal, com a afirmação de um poder soberano, no sentido de supremo, reconhecido como o mais alto de todos dentro de uma delimitação territorial.” (DALLARI, 1998, p. 70).
Entretanto, para ascender à suprema posição almejada, os reis precisavam impor aos seus adversários a sua autoridade, tanto no plano interno quanto no externo. Era preciso submeter os senhores feudais, a Igreja Católica e, igualmente, o Sacro Império romano Germânico ao comando real. (DALLARI, 1998, p. 70).
Na esteira deste processo, após medirem forças com todos os rivais e lograrem-se vitoriosos, os reis conseguem estabelecer uma nova forma de organização substitutiva do regime feudal.
Assim, com esforços dos reis e príncipes na concentração do poder político, os vários feudos dos senhores e de seus vassalos, que representavam o poder pulverizado, começam a dar lugar à formação dos Estados nacionais. Erige- se o Estado moderno centrado no absolutismo. (LEWANDOWSKI, 2004, p. 201).
Dessa forma, os súditos não poderiam contrariar ordens do rei porque estariam indo de contra ao sagrado, tornando as ordens dos reis sem questionamentos.
4.1.4 O despotismo iluminado
O rei representa o estado e junto de seu povo formam uma unidade que desempenha os seus deveres correspondentes.
Nos séculos XVII e XVIII, o capitalismo foi se desenvolvendo rapidamente em alguns países da Europa. Esse desenvolvimento foi seguido por um outro grande nas técnicas de produção.
No século XVII, a burguesia assumiu o poder na Inglaterra e, no final do século XVIII, a burguesia francesa também assumiria o poder político em seu país. O desenvolvimento das técnicas de produção levou a um grande desenvolvimento das ciências naturais. Para se expandir a produção, era necessário conhecer as propriedades da matéria. Verificou-se, então, um desenvolvimento considerável de ciências, como a mecânica, a física e a química. As ciências naturais desenvolviam o método experimental. Os cientistas decompunham as coisas em partes e estudavam cada parte isoladamente. (PEDRO; CÁCERES, 1978, p. 186).
“Os filósofos desse período acreditavam que a utilidade da ciência e da filosofia era dar ao homem o conhecimento e o domínio da natureza e da sociedade.” (PEDRO; CÁCERES, 1978, p. 186).
Uma vez delegado o poder inicial, o príncipe tem uma vaga obrigação de prestar contas aos súditos; mas, como nada se encontra estatuído sobre o como e o quando desta prestação de contas, o princípio filosófico não tem aplicação prática, pois o príncipe é o próprio juiz do cumprimento dos seus deveres (BESSA; PINTO, 2009).
Esses estudiosos, no plano da política, criticavam as instituições do Estado absolutista. Manifestavam-se pela restrição do poder real e criticavam também a política econômica do mercantilismo, com a constante intervenção do Estado na economia, que limitava o direito de propriedade.
É a este movimento de renovação intelectual que damos o nome de Iluminismo, cujo início se deu na Inglaterra, no final do século XVII, tendo atingido seu apogeu na França no século XVIII. Expandiu-se ainda pelo norte da Europa e influenciou a América. (PEDRO; CÁCERES, 1978, p. 186).
Pedro e Cáceres (1978, p. 189) apontam que o despotismo esclarecido foi uma forma de Estado absolutista que dominou certos países economicamente atrasados da Europa do
século XVIII. Nestes Estados, os soberanos absolutistas fortaleceram as relações servis de produção e centralizaram o poder político a fim de desenvolvê-los economicamente, realizando algumas reformas fortalecendo o domínio da nobreza feudal.
“Os déspotas esclarecidos europeus, para modernizarem os seus Estados e fortalecerem o seu poder absoluto, utilizavam-se dos princípios iluministas, que não eram incompatíveis com seu poder absoluto.” (PEDRO; CÁCERES, 1978, p. 189).
Ainda sobre esse assunto segundo Pedro e Cáceres (1978, p. 190) o filósofo que mais inspirou os déspotas esclarecidos foi Voltaire, uma vez que exigia a tolerância religiosa, a liberdade de imprensa e o fim do regime de servidão, mas afirmava que estas reformas deveriam ser realizadas não através de uma revolução social e sim de um déspota esclarecido.