Dimensões do catolicismo no Império lusitano
1.4 A formação dos espaços católicos da Prelazia do Cuiabá
Consideramos dois aspectos importantes na formação da configuração social da capitania de Mato Grosso, a sua localização na fronteira com os domínios hispano-americanos e o desenvolvimento da mineração. Os grupos sociais existentes nesse espaço desenvolveram suas ações marcadas por essas características centrais, incluindo a construção da estrutura eclesiástica constituinte da Prelazia do Cuiabá.
Os territórios hispano-americanos confinantes com a capitania de Mato Grosso eram administrados pelos jesuítas, das províncias de Moxos e Chiquitos (Mapa 06). Na década de 1760, os referidos inacianos tinham dez povoados nas Missões de Chiquitos, denominados São Francisco Xavier, Conceição, São Miguel, São Inácio, São Rafael, Santa Ana, São José, São João, Santiago e Santo Coração, com um total de 18.815 índios. Nas missões de Moxos, os aldeamentos encontravam-se distribuídos por quatro repartições: dos Baurés, com cinco povoados, denominados Conceição, São Joaquim, São Martin, São Simon e São Nicolás; do Mamoré, com seis povoados, denominados Exaltação, Santa Ana, São Francisco Xavier, São Pedro, Trindade e Loreto; dos Pampas, com três povoados, denominados São Inácio, São Borja e Santos Reis; e de Itonamas, com a povoação da Madalena. O total de índios das quinze missões de Moxos perfazia 19.807 almas. Nessa fase, somando-se todo o conjunto de pessoas dessas povoações indígenas temos um conjunto populacional de 38.622 pessoas, diante de cerca de 11 mil habitantes da capitania de Mato Grosso214. Essa densidade populacional espanhola, em especial por causa do significativo número de indígenas nas missões, representou um estado de tensão na fronteira. Havia do lado português receio de ataque dos espanhóis às localidades das Minas do Cuiabá e do Mato Grosso.
214 ARAÚJO, Renata Klautau Malcher de. A urbanização do Mato Grosso no século XVIII: discurso e método. 2000, 627f. Tese (Doutoramento em História da Arte) – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, p. 125.
Mapa 06 – Mapa da América portuguesa e as fronteiras com os domínios espanhóis, século XVIII.
Fonte: Mapa de todo o vasto continente do Brasil ou América Portuguesa com as fronteiras respectivamente constituídas pelos domínios espanhóis adjacentes, c.1778. [Oferecido, por Luís de Albuquerque à dona Maria I, para servir de base a um mesmo mapa, reduzido e configurado, em 1778.].
Escala: c.1:2 700 000, 1 grau de latitude = [post. 1777]. Em 4 fls. coladas de 129 x 174 cm em fls. de 141 x 185 cm. Cota A 24 e n. 12 e n. 14, Coleção da Família Albuquerque da Casa da Ínsua, Penalva do Castelo. Apud. AMADO, Janaina; ANZAI, Leny. Luís de Albuquerque: viagens e governo na capitania de Mato Grosso / 1771-1791. São Paulo: Versal, 2014, p. 202-203.
Sobre a extração aurífera nas Minas do Cuiabá e do Mato Grosso, para Stuart Schwartz foi crescente até o final da década de 1750. Em toneladas de ouro, de 1721 a 1729, foram extraídas 0,73; de 1730 a 1739, 0,9; de 1740 a 1749, 1 tonelada; de 1750 a 1759, também 1 tonelada. Da década de 1760 ao final do século XVIII ocorreu declínio dessa produção, com cerca de meia tonelada de ouro por cada década dessa fase final215. Na fase do apogeu da extração aurífera foi maior o número de igrejas e capelas, construídas através da participação financeira dos seus moradores.
O processo de formação e desenvolvimento dos espaços católicos da Prelazia do Cuiabá foi ainda marcado pela atuação dos grupos políticos que administraram essa fronteira Oeste, de acordo com seus interesses e os da monarquia portuguesa. Isso ocorreu dentro de algumas etapas. De 1719 a 1736, verificamos os momentos iniciais da ação de conquista do espaço pelos bandeirantes, sertanistas e mineradores. Esse primeiro grupo de poder local conjugou uma aliança com o Governador e Capitão-General Rodrigo César de Meneses, da capitania de São Paulo, da qual as minas cuiabanas faziam parte. Num segundo momento, de 1736 a 1752, as instituições representativas da monarquia portuguesa passaram a ser ocupadas por reinóis, ocorrendo a substituição dos luso-paulistas pelos nomeados do rei. Em 1747 iniciaram-se as discussões que dariam origem ao Tratado de Madrid. A defesa da fronteira Oeste provocou o desmembramento da capitania de São Paulo, dando origem à criação da capitania de Mato Grosso, em 1748, e a fundação de sua vila-capital, Vila Bela da Santíssima Trindade, em 1752, encerrando esta segunda fase.
A terceira fase, que se iniciou a partir da segunda metade do século XVIII, caracterizou-se pela atuação dos governadores e capitães-generais, da recém criada capitania de Mato Grosso, indo até a escolha de um prelado para a Prelatura de Cuiabá, em 1803. Entendemos que esses governadores tiveram como principal intuito a consolidação da fronteira com os domínios hispano-americanos, por causa das negociações dos Tratados de Limites, em especial o de Madrid, de 1750 e o de Santo Ildefonso, de 1777, e por causa do contexto europeu da Guerra dos Sete Anos (1756-1763) e dos seus reflexos, por anos posteriores, na América do Sul.
Em 1762, a fronteira noroeste de Portugal foi invadida por tropas francesas e espanholas, que objetivavam desestabilizar as relações entre portugueses e ingleses.
Essa tensão luso-castelhana se prolongou na América no decorrer dos anos. Em abril de 1763, as forças espanholas lideradas por D. Pedro de Cevallos ocuparam militarmente a Colônia de Sacramento, os fortes de São Miguel e de Santa Tereza, e o Rio Grande de
215 SCHWARTZ, 1998, p. 88.
São Pedro. Esse domínio espanhol no sul da América portuguesa perdurou de 1763 a 1776, culminado na guerra ocorrida de 1774 a 1777. Todavia, os palcos da guerra não se restringiam às fronteiras do Rio Grande de São Pedro e as autoridades portuguesas temiam invasões à costa litorânea, pela ilha de Santa Catarina, vilas de Paranaguá, Santos e Rio de Janeiro. O espaço da capitania de Mato Grosso foi também focos de conflito entre as monarquias Ibéricas216. Os portugueses haviam empreendido um ataque à missão espanhola de São Miguel, no ano de 1762217, e à estacada espanhola de São Pedro de Moxos, no ano de 1763. As autoridades hispano-americanas, nesse contexto, planejaram expulsar os portugueses das Minas do Cuiabá e do Mato Grosso, e para isso formaram duas expedições, em 1763 e 1766. Mobilizaram recursos materiais e humanos no Vice-Reino do Peru, especialmente nas Missões de Moxos e Chiquitos.
Essas expedições foram compostas por milicianos recrutados nas cidades altas do Peru, mas padeceram de epidemias, hesitações e deserções, levando a sua não efetivação218.
A instalação de núcleos de defesa e de povoamento produziu uma barreira material e humana na fronteira Oeste. A rede de igrejas e capelas construídas nesse período correspondeu a esse movimento de legitimação de posse dessas terras para os domínios portugueses. Em 1803, a Mesa da Consciência e Ordens selecionou o primeiro prelado a tomar posse da Prelatura do Cuiabá, pondo fim ao longo período de vacância.
Para Renata Klautau Malcher de Araújo, os governadores e capitães-generais da capitania de Mato Grosso atuaram alinhados com as disposições pombalinas. Enquanto estiveram no poder agiram na defesa da fronteira e nas fundações de povoações219.
As freguesias e comarcas eclesiásticas que compuseram a Prelazia do Cuiabá se formaram inicialmente pelo avanço bandeirante luso-paulista sobre terras que pertenciam à Espanha, segundo o Tratado de Tordesilhas de 1494. Os achados auríferos levaram à formação de arraiais, com suas capelas. Esse embrião religioso católico foi empreendido por luso-paulistas, que almejavam aprisionar indígenas e extrair metais preciosos. Foi uma ação de conquista e de produção do espaço, em que pesava o embate com variados grupos de ameríndios, que foram sendo incorporados nesse processo,
216 SILVA, Luiz Geraldo; SOUZA, Fernando Prestes de; PAULA, Leandro Francisco de. A guerra luso-castelhana e o recrutamento de pardos e pretos: uma análise comparativa (Minas Gerais, São Paulo e Pernambuco, 1775-1777). In: DORÉ, Andréa; SANTOS, Antonio Cesar de Almeida (orgs.). Temas setecentistas: governos e populações no Império português. Curitiba: UFPR – SCHLA / Fundação Araucária, 2008, p. 68-75.
217 CARVALHO, Francismar Alex Lopes de. Lealdades negociadas: povos indígenas e a expansão dos Impérios nas regiões centrais da América do Sul (segunda metade do século XVIII). 2012, 595f.
Tese (Doutorado em História Econômica) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, p. 307.
218 CARVALHO, 2012, p. 388-390.
219 ARAÚJO, 2000, p. 543.
assim como na importação de africanos. A formação de vilas, arraiais, fortificações militares e povoados fez com que a estrutura eclesiástica se ampliasse de acordo com os interesses dos grupos sociais existentes nesse espaço. O desenho dessa figuração eclesiástica inseriu-se no processo de constituição político-administrativa da capitania de Mato Grosso, uma área limítrofe com os domínios hispano-americanos220.
A fase da ocupação desse espaço pelos bandeirantes, sertanistas e mineradores, de 1719 a 1736, demonstra-nos como uma elite formada pelos primeiros conquistadores estabeleceu uma aliança com a monarquia portuguesa através do Governador e Capitão-General Rodrigo César de Meneses. Foi esse grupo o responsável pela construção de igrejas e capelas onde se formaram as primeiras irmandades religiosas. Contudo, africanos e seus descendentes também levantaram suas capelas nesse período, e igualmente às suas custas. Esse foi um movimento no qual indivíduos e grupos de diferentes níveis dessa configuração social demandaram mensagens religiosas, bens da salvação e formas de distinções sociais.
Muitos arraiais, minas e lavras foram surgindo com o desenvolvimento da extração aurífera, sobretudo nas proximidades dos rios Coxipó e Cuiabá, momento em que capelas e igrejas foram sendo levantadas nas primeiras décadas do século XVIII.
Entre os anos de 1718 e 1722, foram construídas capelas nos núcleos iniciais da mineração, a de São Gonçalo e a de Nossa Senhora da Penha de França, nos arraiais de São Gonçalo e da Forquilha, nas proximidades do rio Coxipó221.
No ano de 1722, com a descoberta de novas lavras às margens do córrego da Prainha, afluente do rio Cuiabá, foi erguido o arraial do Cuiabá, o que fez com que a concentração populacional se desse no entorno dessa jazida aurífera. Nesse espaço, levantou o Capitão Mor Jacinto Barbosa Lopes uma igreja à sua custa, coberta de palha, dando-lhe o título de Igreja do Senhor Bom Jesus222. Ainda nesse arraial foi levantada a primeira capela construída pelos pretos, dedicada a São Benedito, no lugar chamado depois de Rua do Sebo, mas que acabou ruindo, não sendo novamente levantada223. Em 1724 surgiu o Arraial de Nossa Senhora da Conceição, com uma capela dedicada à
220 VOLPATO, Luiza Rios Ricci. A conquista da terra no universo da pobreza: formação da fronteira oeste do Brasil, 1719-1819. São Paulo: Hucitec; Brasília: INL, 1987, p. 30.
221 SÁ, José Barbosa de. Relação das povoações do Cuiabá e Mato Grosso de seus princípios até os presentes tempos. Cuiabá: Editora UFMT, 1975, p. 13.
222 Essa igreja passou a ser a sede de freguesia a partir do ano de 1733. Antes disso, a sede da freguesia foi a igreja de Nossa Senhora Penha de França, do Arraial da Forquilha.
223 SÁ, 1975, p. 11-15.
santa, Arraial do Ribeirão, Arraial do Jacé, Lavra do Mutuca; em 1728, as Minas do Alto Paraguai; em 1730, o Arraial dos Cocais (Imagem 04)224.
Imagem 04 – Arraial dos Cocais, década de 1820.
Fonte: Cocais, próximo a Cuiabá. Hercule Florence, 1827. Aquarela (21 x 35,9 cm). Arquivos da Academia de Ciências/Filial de São Petersburgo da Academia de Ciências da Rússia, São Petersburgo.
Apud. AMADO, Janaina; ANZAI, Leny. Luís de Albuquerque: viagens e governo na capitania de Mato Grosso / 1771-1791. São Paulo: Versal, 2014, p. 111.
224 JESUS, Nauk Maria de. O Governo local na Fronteira Oeste: a rivalidade entre Cuiabá e Vila Bela no século XVIII. Dourados: Ed. UFGD, 2011, p. 25-26.
Imagem 05 - Vista da Vila do Bom Jesus do Cuiabá, década de 1770.
Fonte: Vistas da Vila do Bom Jesus do Cuiabá. Salvador Franco da Mota [?], 1772. (38 x 55 cm; 24 x 43 cm). Cotas n. 50 e n. 51, Coleção da Família Albuquerque da Casa da Ínsua, Penalva do Castelo. Apud.
AMADO, Janaina; ANZAI, Leny. Luís de Albuquerque: viagens e governo na capitania de Mato Grosso / 1771-1791. São Paulo: Versal, 2014, p. 125.
A exploração das minas do arraial do Senhor Bom Jesus do Cuiabá, realizada inicialmente pelos primeiros conquistadores, passou a ser controlada de perto pela Coroa portuguesa. Em 1726, o Governador e Capitão-General da capitania de São Paulo, Rodrigo César de Meneses, se deslocou para as minas cuiabanas com o intuito de instalar ali uma estrutura de fiscalização, controle, administração e justiça em nome da metrópole. Isso representou o começo da mudança do controle das minas auríferas das mãos dos mineradores e sertanistas para as mãos dos representantes da monarquia. Isto se fez sentir com a elevação do arraial do Cuiabá para a categoria de vila. No dia 27 de janeiro de 1727, Rodrigo César de Meneses mandou levantar pelourinho, escolheu algumas casas para servir de sede do Senado da Câmara (Imagem 05). Tomou posse nesse momento, como Ouvidor das minas do Cuiabá, Antônio Álvares Lanhas Peixoto, para instruir o que fosse necessário para a administração e justiça225.
Segundo Carlos Alberto Rosa, a criação da vila visou garantir condições básicas de governabilidade, no interior de um sistema comum a outros domínios portugueses nos quatro cantos do mundo226. Para Luiza Rios Ricci Volpato, com a Vila do Cuiabá se estabelecia uma ligação maior do núcleo com a sede da capitania de São
225 SÁ, 1975, p. 19.
226 ROSA, Carlos Alberto. O urbano colonial na terra da conquista. In: ROSA, Carlos Alberto, JESUS, Nauk Maria de (orgs.). A terra da conquista: história de Mato Grosso colonial. Cuiabá: Adriana, 2003, p.16.
Paulo, da qual fazia parte. Foram transmitidas com esse ato perspectivas de estabilidade, de durabilidade do povoado, merecendo a atenção das autoridades coloniais227.
Na década de 1730 a rede de igrejas cresceu com o avanço da expansão de ocupação das terras próximas às zonas de mineração. Diversas localidades se dedicaram ao plantio de vários gêneros alimentícios que serviriam para o abastecimento da população, bem como a instalação de engenhos. Uma capela dedicada a Santo Antônio foi construída dentro do espaço da freguesia do Cuiabá, a partir de 1734, em terras de engenhos situados no entorno do rio Cuiabá, conhecidas como Rio Cuiabá Abaixo. Essa construção foi realizada através da doação de parte das terras pertencentes aos engenhos dos capitães Manoel de Silveira Sampaio e João Mendes Coelho, que também doaram 100 oitavas de ouro para a compra de paramentos à capela228.
As investidas dos sertanistas e mineradores continuaram sobre o território.
Ainda nessa fase, encontraram ouro no rio Galera, próximo ao Sararé, afluentes do rio Guaporé. As características da vegetação desse espaço, com florestas mais densas, próprias de uma região amazônica, serviram para nomear as novas minas como “Mato Grosso”. Foi intenso o fluxo de pessoas para essas novas lavras, levando à formação de arraiais e igrejas, como Arraial de Nossa Senhora do Pilar, Arraial de Santa Ana e Arraial de São Francisco Xavier da Chapada.
O agrupamento de pessoas no Arraial de Nossa Senhora do Pilar (Mapa 07) ocorreu por volta de 1735. Estava situado entre o Arraial de Santa Ana e as lavras do córrego Monjolo229. Possuía uma capela, construída pela iniciativa de seus moradores, dedicada a Nossa Senhora do Pilar230. Com o passar dos anos, essa capela precisou ser reedificada, por estarem suas paredes feitas de madeira muito danificadas, “comidas de cupim”. O aumento da população desse arraial também fez com que reedificassem a capela de Nossa Senhora do Pilar, arcando seus moradores com os custos231. Seus moradores além de custearam as obras dessa igreja pagaram do mesmo modo os sacramentos que eram ministrados pelos padres nas desobrigas, uma vez ao ano.
227 VOLPATO, 1987, p. 31.
228 ACBM/IPDAC Pasta 90 – nº 2117 Caixa 24. Escritura de doação que fez Manuel da Silveira Sampaio e o capitão João Mendes Coelho, de 100 oitavas de ouro a juros de seis e quatro por cento, para ereção de uma capela que seria construída no engenho Rio Cuiabá Abaixo, em homenagem a Santo Antônio.
Cuiabá, 24 de dezembro de 1734.
229 LUCÍDIO, João Antônio Botelho. A Vila Bela e a ocupação portuguesa do Guaporé no século XVIII.
Relatório final de pesquisa do Projeto Fronteira ocidental - Arqueologia e História: Vila Bela da Santíssima Trindade. Cuiabá: SEDUC-MT, 2004, p. 16.
230 AMADO, Janaína; ANZAI, Leny Caselli. Anais de Vila Bela (1734-1789). Cuiabá: EdUFMT, 2006, p. 48.
231 AMADO & ANZAI, 2006, p. 59.
Mapa 07 – Arraial do Pilar
Fonte: GARCIA, João Carlos (coord). A mais dilatada vista do mundo: inventário da Coleção Cartográfica da Casa da Ínsua. Portugal, 2000, p. 197.
Mapa 08- Arraial de Santa Ana
Fonte: GARCIA (coord) op. cit., p. 197.
Por volta do mesmo ano de 1735 também teve início à formação do mencionado Arraial de Santa Ana, localizado nas proximidades do rio Sararé, afluente do rio Guaporé, formador da Bacia Amazônica. Os moradores desse arraial também construíram uma capela, feita de pau-a-pique e coberta de palha, dedicada à Santa Ana, nomeadora da povoação. Posteriormente, foi o templo religioso reedificado e coberto de telhas. Essa região era considerada de clima quente, provida de boa lenha e madeiras e campos para o gado232. No caminho para o largo da capela (Mapa 08), percebemos a construção de casas de seus moradores, que eram mineradores. A formação do espaço religioso nesse arraial representava ainda a estabilidade desse povoado.
Um novo processo se desenvolveu de 1736 a 1752. Instituições representativas da monarquia portuguesa passaram a ser ocupadas por reinóis, ocorrendo a substituição dos luso-paulistas pelos nomeados do rei. Isto se intensificou com a criação da capitania de Mato Grosso em 1748 e com a fundação de sua vila-capital, Vila Bela da Santíssima Trindade, em 1752. Como destacamos, essa ainda foi uma fase de crescimento da mineração, alcançando produção de cerca de uma tonelada por década. Isso se fez refletir na quantidade de igrejas e capelas formadas nessa fase.
Mapa 09 - Arraial de São Francisco Xavier da Chapada
Fonte: Fonte: GARCIA (coord) op. cit., p. 198.
232 LUCÍDIO, 2004, p.17.
Pertencendo igualmente ao espaço da região do Guaporé, em 1736 foram lançados editais para repartir datas minerais que levaram à formação do Arraial de São Francisco Xavier (Mapa 09). No ano seguinte, os mineiros dessa povoação construíram uma capela de madeira e coberta de palha dedicada ao santo nomeador do arraial. Foi grande o crescimento econômico e populacional desse arraial, fazendo com que no ano de 1739 possuísse a maior parte da população das Minas do Mato Grosso233. Todo esse desenvolvimento fez com que no ano de 1743 sua igreja se tornasse sede de uma nova freguesia, responsável pelas capelas das Minas do Mato Grosso.
Na década de 1740, verificamos que a população do Arraial de São Francisco Xavier se movimentou para a construção de uma nova igreja, construída de pedra e coberta de telha de barro cozido. Essa iniciativa não contou com o custeio de recursos provenientes da cobrança dos dízimos, mas obteve auxílio financeiro da Irmandade do Santíssimo Sacramento234. Os membros dessa irmandade do Arraial de São Francisco Xavier eram mineradores e em nome dessa associação ajudaram a custear a re-construção de sua igreja. É provável que essa associação tenha obtido datas minerais ou angariasse recursos provenientes mineração235.
Como mencionamos, nessa década foi criada uma nova freguesia nas Minas do Mato Grosso, com sede na igreja de São Francisco Xavier. Isso fez com que a rede de capelas e igrejas construídas na fronteira Oeste gerasse duas comarcas eclesiásticas, uma com sede no Arraial de São Francisco Xavier e outra na Vila do Cuiabá, na igreja matriz do Senhor Bom Jesus. O desenvolvimento da estrutura católica, como apresentamos, ocorreu pela atuação da população desses espaços, que com seus recursos e com sua força de trabalho edificaram os templos religiosos.
A pertença de uma capela a uma das comarcas eclesiástica gerou conflitos. Um exemplo foi o ocorrido no ano de 1746, diante da descoberta das Minas dos Arinos, pelo Mestre de Campo Antônio de Almeida Falcão e seus filhos José de Almeida e Pascoal Falcão. Nessa localidade levantaram uma igreja e formaram um arraial, e logo passaram a lavrar as minas. Todavia, foi preciso integrar essa capela do Arraial dos Arinos a uma das freguesias mencionadas, o que gerou grande conflito entre os Vigários de Vara, padre Manoel Bernardes Martins Pereira, da Vila do Cuiabá, e o padre Bartolomeu Gomes Pombo, das Minas do Mato Grosso. Ambos os padres queriam a jurisdição da
233 Idem, p.15-19.
234 AMADO & ANZAI, 2006, p. 47.
235 Não encontramos indícios do desenvolvimento ou continuidade dessa irmandade do Santíssimo Sacramento do Arraial de São Francisco Xavier nas demais décadas do século XVIII. Isso ocorreu em
235 Não encontramos indícios do desenvolvimento ou continuidade dessa irmandade do Santíssimo Sacramento do Arraial de São Francisco Xavier nas demais décadas do século XVIII. Isso ocorreu em