As irmandades religiosas da fronteira Oeste da América portuguesa
2.3 Os militares e a Irmandade de Santo Antônio
A formação de irmandades militares estava relacionada com a produção de grupos de defesa, das unidades militares do Império lusitano. Contudo, até o século XVII as atenções metropolitanas relacionadas às forças militares e recursos bélicos
444 Capítulo 6º. Cf. ANTT – Mesa da Consciência e Ordens. Chancelarias Antigas da Ordem de Cristo.
Livro 11, folhas 55-64.
445 Capítulo 23º e 25º. Cf. ANTT – Mesa da Consciência e Ordens. Chancelarias Antigas da Ordem de Cristo. D. Maria I. Livro 11, folhas 55-64.
446 RAMINELLI, Ronald. Impedimentos da cor: mulatos no Brasil e em Portugal (1640-1750). Varia História, Belo Horizonte, vol. 28, n. 48, jul/dez 2012, p. 699-723.
estavam voltadas para a Índia. Para Luiz Geraldo Silva, na América portuguesa os cargos militares não eram bem remunerados, além de serem escassos e considerados sem honra. A morte de europeus pelos índios não era considerada tão digna como a morte em campos de batalha na Índia ou no norte da África447.
Ainda existia o fator demográfico a ser considerado, pois era preciso contar com um significativo contingente de homens para o serviço militar no ultramar, o que não era o caso português. Mas isso não impediu que a Coroa criasse condições para resolver a questão do recrutamento de soldados, valendo-se dos diferentes povos da Ásia, da América e da África, e de suas diferenças, para compor o quadro militar do Império. Foram realizados acordos de cooperação, de caráter militar, criando-se cargos de chefes militares entre a população local, resultando num maior conhecimento dessas localidades coloniais e diminuindo a inferioridade numérica portuguesa448. Mesmo assim, eram muitas as dificuldades no custeamento das despesas da manutenção das tropas pagas, regulares, fazendo com que a Coroa investisse mais em regiões estratégicas ou de clara tensão, a exemplo das terras situadas nas regiões mineradoras, como a capitania de Minas Gerais449, bem como as capitanias de Goiás e Mato Grosso.
O processo de construção da estrutura militar luso-americana teve como uma de suas referências o Regimento do Governador-Geral Tomé de Sousa, de 1548. Nele se estabeleceu as diretrizes para a formação e manutenção temporária de tropas profissionais, dentre as quais as forças auxiliares às tropas regulares, que deveriam estar armadas às próprias custas e conforme a renda, qualidade e profissão de cada pessoa.
Somado a esse conjunto normativo, destinou-se também ao ultramar o que fora estabelecido na Lei da Armas, do ano de 1569. Adiante, visando integrar em corpos militares as gentes armadas não-pertencentes às tropas pagas publicou-se o Regimento das Ordenanças, em 1570450. Sobre os recrutamentos militares, esse Regimento estabeleceu que um capitão-mor fosse o responsável por levantar as listas das ordenanças, com os homens de 18 a 60 anos aptos a servir. As Ordenanças eram todos os alistados em uma determinada jurisdição, que formaram as companhias da tropa paga, formada pelos filhos segundos, geralmente pobres solteiros sem renda regular; dos
447 SILVA, Luiz Geraldo. Cooperar e dividir: mobilização de forças militares no Império português (séculos XVI e XVII). In: DORÉ, Andréa, LIMA, Luís Filipe Silvério, SILVA, Luiz Geraldo (orgs.).
Facetas do Império na História: conceitos e métodos. São Paulo: Hucitec, 2008, p.260.
448 SILVA, 2008, p. 264-265.
449 GOMES, José Eudes. As Milícias D’El Rey: tropas militares e poder no Ceará setecentista. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010, p. 107.
450 Cf. SOUZA, Fernando Prestes de. Milicianos pardos em São Paulo: cor, identidade e política (1765-1831). 2011, 192f. Dissertação (Mestrado em História) – Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal do Paraná, Curitiba.
Auxiliares, lavradores bem estabelecidos que encarnaram o poder militar e administrativo da monarquia, capazes de custear sua própria farda, armas e cavalos, teoricamente recebendo soldo quando destacados a defender as fronteiras; os próprios Ordenanças, pequenos lavradores pobres e casados que sobravam depois de formadas as outras, e tinham por função defender as praças vizinhas451.
As unidades militares regulares apenas tardiamente foram implantadas na América portuguesa, a exemplo do Primeiro Regimento de Infantaria Regular, que chegou à Bahia em 1625, com a expedição que reconquistou a cidade de Salvador aos Holandeses452. Essas tropas eram as únicas profissionais, permanentes e pagas, consistindo em terços e companhias de infantaria, aos quais foram posteriormente acrescentados corpos de artilharia. Além do escasso envio de contingentes reinóis, os soldados dessas tropas de linha eram recrutados forçosamente, dentre os quais degredados, ciganos, criminosos, homens livres pobres e mestiços453. Cabe ainda destaque, a coexistência de soldados brancos e de cor nesses regimentos regulares454.
As milícias e as ordenanças eram tropas de caráter local, formadas entre os próprios moradores dos lugares em que foram produzidas e que deveriam custear suas armas e fardas, além de praticar exercícios semanais, sendo mobilizadas em caso de necessidade. Essas milícias eram também chamadas de terços auxiliares ou tropas de segunda linha, responsáveis pela defesa e manutenção da posse territorial. Elas se organizavam em terços e companhias de infantaria e cavalaria, a partir de categorias de cor e classe da população455, sendo cada companhia comandada por um oficial da mesma cor dos seus homens456.
Os terços de Henriques e Pardos, outro contingente, foram criados no século XVII, nas capitanias do Norte, sobretudo em Pernambuco e na Bahia. Eram milícias auxiliares de negros e mulatos livres e libertos, comandadas por homens de cor. Sua criação se deu numa conjuntura de domínio castelhano na Europa e dos graves ataques de ingleses e holandeses no Índico e no Atlântico Sul457. A presença desses homens de cor na América decorria do próprio tráfico de escravos, que deslocou milhões de negros de um para outro lado do Atlântico. Porém, notadamente depois do século XVII, muitos
451 CARVALHO, Francismar Alex Lopes de. Lealdades negociadas: povos indígenas e a expansão dos Impérios nas regiões centrais da América do Sul (segunda metade do século XVIII). 2012, 595f.
Tese (Doutorado em História Econômica) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, p. 333-334.
452 BOXER, C. R. O Império Marítimo Português: 1415-1825. Lisboa: Edições 70, 2011, p. 300-301.
453 GOMES, 2010, p. 103-104.
454 BOXER, 2011, p. 301.
455 GOMES, 2010, p. 107.
456 BOXER, 2011, 301.
457 SILVA, 2008, p. 265.
foram os que escaparam do cativeiro e construíram uma camada social de homens livres de cor, que integraram unidades militares, recrutados como furriéis, alferes, sargentos-mores e mestres-de-campo dos terços de Pretos e Pardos458.
Para Luiz Geraldo Silva, o processo de constituição desse grupo social e de atribuição de função miliciana aos seus indivíduos teve como um de seus mais importantes fundamentos o desenraizamento social de africanos e de seus descendentes na América459. Os africanos foram introduzidos numa sociedade diferente da sua, numa nova configuração social, na qual produziram uma nova identidade. As oficialidades negras dos terços de pardos e de Henriques das capitanias da Bahia e Pernambuco de meados do século XVIII são exemplos efetivos de grupos de afrodescendentes portadores de status radicalmente diferenciados do de seus ancestrais460.
A gênese das milícias de pardos e pretos constituiu processo desigual na América portuguesa, marcado por compreensões diversas, tanto locais como metropolitanas, acerca de seu papel e de sua lealdade à Coroa461. A criação de corpos militares de homens de cor na capitania de Minas Gerais não se deu, como na Bahia e Pernambuco, de guerras contra outras Coroas, inimigos externos. No decorrer da primeira metade do século XVIII, pretos e pardos residentes em Minas Gerais foram recrutados visando o combate a inimigos internos – índios bravios e quilombolas462. No caso do Mato Grosso, a população de cor foi recrutada para o combate contra as nações indígenas resistentes ao avanço da conquista portuguesa e contra os hispano-americanos localizados na fronteira, diante da ameaça constante de guerras por posse do espaço.
Sobre a gênese dos grupos militares na fronteira Oeste da América portuguesa, no arraial do Cuiabá foi criada em 1722 uma “Companhia de Hussares463”, importante na defesa dos mineradores e sertanistas contra os ataques indígenas. A corte de Lisboa, quando preparou a instalação da capitania de Mato Grosso, instruiu seu primeiro governador, Antônio Rolim de Moura, sobre a importância de integrar os índios fronteiriços em terços de Ordenanças464. Na capitania de Mato Grosso, das listas de Ordenanças eram tirados dois tipos de tropas, uma de homens brancos, a Companhia de
458 Idem, 270.
459 SILVA, Luiz Geraldo. Gênese das milícias de pardos e pretos na América portuguesa: Pernambuco e Minas Gerais, séculos XVII e XVIII. Revista de História, São Paulo, nº 169, julho/dezembro de 2013, p.
118.
460 SILVA, 2013, p. 118-119.
461 Idem, p. 120.
462 Ibidem, p. 128.
463 Era um destacamento de cavalaria, sendo seu uso muito comum na Europa moderna para escoltar autoridades em seus deslocamentos. Cf. Gazeta de Lisboa, nº04, Ano 1748, p. 61-72.
464 CARVALHO, 2012, p. 383.
Dragões, e outra de pardos e mestiços livres, a Companhia de Pedestres (Imagem 14).
Os que sobravam nas listas formavam Companhias Auxiliares, que acompanhavam as tropas pagas em expedições, bandeiras e no serviço rotativo das guarnições. Essas tropas auxiliares também eram divididas a partir da cor da pele e status. Houve ainda as Companhias de Aventureiros, Caçadores, Henriques e de Fuzileiros465.
Imagem 14 – Soldado Pedestre de Mato Grosso, final do século XVIII
Fonte: Soldado pedestre de Mato Grosso. José Joaquim Freire [?], 1783-1792. Coleção Alexandre Rodrigues Ferreira, ARF/32, v. 2, fl. 22. Museu Bocage, Lisboa. Apud. AMADO, Janaina; ANZAI, Leny.
Luís de Albuquerque: viagens e governo na capitania de Mato Grosso / 1771-1791. São Paulo: Versal, 2014, p. 139.
465 Cf. LEVERGER, Augusto. Apontamentos cronológicos da Província de Mato Grosso. Cuiabá:
IHGMT, 2001; CARVALHO, 2012, p. 334-335.
No governo de João Pedro da Câmara (1765-1769), a capitania de Mato Grosso tinha como componentes de suas forças militares uma Companhia de Ordenança de soldados brancos e que tinha ainda o auxílio de homens bastardos, filhos de índias com brancos; uma Companhia de Ordenança de soldados pretos; uma Companhia de Ordenança de soldados pardos; Uma Companhia de Dragões e uma Companhia de Aventureiros e Pedestres, com Praça em Vila Bela, que assistia à vila-capital, à Vila do Cuiabá e ao Destacamento de Nossa Senhora da Conceição466.
Com a administração do Governador e Capitão-General Luís Pinto de Sousa Coutinho, ocorrida de 1769 a 1772, existiu a iniciativa de se criar um novo corpo de milícias, a partir do recrutamento dos índios Bororo, em cumprimento das ordens régias de 07 de julho de 1757 e de 22 de agosto de 1758467. Contudo, alertava Sousa Coutinho que a referida nação indígena encontrava-se quase aniquilada ou seus membros dispersos pelas terras da capitania, assim como os índios de outras nações que ainda não se achavam aldeados. A distribuição dos indígenas seria feita, segundo Coutinho, nas Companhias das Ordenanças, com seus oficiais próprios. Ao mesmo tempo, dizia o governador que reformaria as Companhias de Ordenanças, por faltar a elas “ordem e polícia”, sobretudo na ocasião da criação do Corpo de Milícias, “porque assim o pede a situação de um governo que é fronteiro dos Domínios Espanhóis”468.
No governo de Luís de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres, de 1772 a 1789, formou-se o Corpo de Milícia dos Bororo e o Corpo Auxiliar dos Voluntários. E no começo do século XIX, em 1808, foi criada a Companhia Franca dos Leais Cuiabanos, que recebiam metade do soldo dos soldados Pedestres, mas que em 1809 foi transformada em Regimento das Milícias, contando em sua organização com uma Companhia dos Granadeiros, uma Companhia dos Caçadores, oito Companhias de Fuzileiros e um Esquadrão de Cavalaria469.
Esses militares da capitania de Mato Grosso tiveram templos católicos para se reunirem, em especial os que estavam localizados nas fortificações e destacamentos da
466 AHU – Mato Grosso. Caixa 12. Doc. 739. Carta do Governador e Capitão-General da Capitania de Mato Grosso, João Pedro da Câmara Coutinho, ao Secretário de Estado da Marinha e Ultramar Francisco Xavier de Mendonça Furtado em que informa sobre o envio de relações e mapas sobre o estado e forças da capitania. Vila Bela da Santíssima, 15 de fevereiro de 1765.
467 AHU – Mato Grosso. Caixa 14. Doc. 854. Ofício do Governador e Capitão General da Capitania de Mato Grosso, Luís Pinto de Sousa Coutinho, ao Secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, com que envia mapas que descrevem o estado das tropas da capitania. Vila Bela da Santíssima Trindade, 19 de junho de 1769.
468 AHU – Mato Grosso. Caixa 14. Doc. 854.
469 JESUS. Nauk Maria de. Organização Militar. In: JESUS, Nauk Maria de (org.). Dicionário de História de Mato Grosso: período colonial. Cuiabá: Carlini e Caniato, 2011, p. 219-221.
fronteira. Ocuparam ainda a capela de Nossa Senhora da Esperança, na povoação de Casalvasco, na comarca eclesiástica do Mato Grosso e a igreja de Santo Antônio, em Vila Bela. Todavia, além dessas igrejas tiveram ainda uma associação religiosa para se reunirem. Em muitas vilas e cidades da América portuguesa formaram-se irmandades militares, que tinham Santo Antônio como patrono470. Localizamos a Irmandade de Santo Antônio, em Vila Bela, espacializada na igreja que tinha o nome desse santo.
Reuniram-se no dia 15 de fevereiro de 1785, em Vila Bela, no palácio dos Governadores e Capitães-Generais, os ocupantes dos cargos de direção e demais membros de Mesa da Irmandade Militar de Santo Antônio de Lisboa para a aprovação e assinatura do compromisso que serviria para reger essa confraria militar. Após a elaboração dos seus estatutos ou compromissos, esse conjunto de normas foi remetido à Mesa da Consciência e Ordens, obtendo aprovação e confirmação nesse mesmo ano471.
A Irmandade Militar de Santo Antônio de Lisboa foi criada pela iniciativa do Governador e Capitão-General Luís de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres. O referido governador se empenhou bastante para que fosse formada uma irmandade em honra a Santo Antônio, além de promover todos os anos nos mês de junho suas festividades, também como devoto do santo, assim como todos os militares que se ocupavam da guarnição da fronteira Oeste da América portuguesa. Além desse aspecto devocional, entendemos que a formação de uma confraria de cunho militar serviu para reforçar nos soldados dragões e pedestres um sentimento de unidade importante para a resolução da questão da disciplina militar reclamada pelos governadores do Mato Grosso. Numa fase de negociações dos limites da fronteira, o sentimento de pertencimento ao corpo militar foi reforçado através de símbolos e práticas religiosas.
Santo Antônio era considerado o patrono das forças militares. Construíram uma capela para o santo em Vila Bela e promoveram anualmente suas festividades, no mês de junho. Esse templo foi considerado pela Coroa como debaixo da “real proteção”, contando com o privilégio de não ter obrigação de contratar os serviços do Reverendo Vigário da Igreja e da Vara da comarca eclesiástica do Mato Grosso472. Geralmente, as irmandades evitavam contratar os serviços desse religioso, considerados os mais caros, decorrentes do cargo eclesiástico que ocupava na comarca eclesiástica.
470 PONTES, Annie Larissa Garcia Neves. Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos: festas e funerais na Natal oitocentista. 2008, 124f. Dissertação (Mestrado em História) – Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, p. 37.
471 ACBM/IPDAC Pasta 55 – nº 1067. Compromisso da Irmandade Militar de Santo Antônio de Lisboa ereta na capela do mesmo santo de Vila Bela do Mato Grosso. Vila Bela da Santíssima Trindade, 1785.
472 ANTT – Mesa da Consciência e Ordens. Chancelaria da Ordem de Cristo – D. Maria I. Livro 16, folhas 14-15. Provisão de Licença dada ao Juiz, Oficiais e mais Irmãos da Irmandade de Santo Antônio de Vila Bela, Capitania de Mato Grosso. Lisboa, 09 de março de 1786.
No Império lusitano, as igrejas e capelas militares, presentes nas fortificações ou não, receberam a mercê de serem consideradas como templos da “real proteção de Sua Majestade”. Construída a partir das esmolas dadas pelos oficiais da guarnição militar, bem como dos oficiais da governança e justiça, a capela de Santo Antônio recebia ajuda proveniente dos bens da Fazenda Real, sobretudo para o pagamento do capelão dessa irmandade. Este religioso exerceu sua função independente do vigário da Igreja ou da Vara, privilégio que gozavam as capelas de proteção régia473. Entretanto, esse custeio nos pareceu mais norma do que prática no cotidiano da associação, pois para todas as obras de reforma da capela de Santo Antônio e realização de suas festas anuais, recorriam os confrades à população da vila, pedindo esmolas e recursos.
Apesar de Santo Antônio figurar como grande patrono das forças militares da capitania de Mato Grosso era Nossa Senhora da Esperança a santa de devoção do Governador e Capitão-General Luís de Albuquerque e de sua família, egressos da região de Almeida, em Portugal. Contudo, não localizamos informação sobre a constituição de alguma irmandade dedicada a essa santa na capitania de Mato Grosso, no governo albuquerquino, mas na povoação de Casalvasco foi construída uma capela em sua homenagem, que em 1785 recebeu “benção e sagração” pelo vigário da vara e da igreja da comarca eclesiástica do Mato Grosso. Nesse ato, estiveram presentes Luís de Albuquerque, ministros, ajudante-de-ordens, secretários do governo, oficiais das demarcações reais, militares e nobreza da terra. Para a ocasião, Luís de Albuquerque mandou confeccionar “medalhas ou verônicas de prata, com a imagem da Senhora da Esperança, que com laços de boa fita puseram todos ao peito”474. Mandou Luís de Albuquerque, nos meses de setembro, celebrar na capela real de Casalvasco, a festividade de Nossa Senhora da Esperança, sua padroeira, com a magnificência possível. Promoveram missas cantadas, procissões, jantares, com noites marcadas pelas luminárias e peças de teatro e ópera, como “O Alecrim e Mangerona”475.
Santo Antônio nasceu em meados do século XII, com nome de batismo Fernando Martins de Bulhões, numa Lisboa recém reconquistada aos mouros, consolidando-se como uma cidade de posse dos cristãos. Aos vinte anos, Fernando Martins de Bulhões professou na Ordem dos Cônegos Regrantes de Santo Agostinho, em Lisboa, no Mosteiro de São Vicente de Fora, onde realizou seus estudos teológicos.
473 ANTT – Mesa da Consciência e Ordens. Chancelaria da Ordem de Cristo – D. Maria I. Livro 15, folhas 55 - 55 v. Irmandade de Santo Antônio de Vila Bela, capitania de Mato Grosso. Lisboa, 13 de setembro de 1785.
474 AMADO, Janaina; ANZAI, Leny Caselli. Anais de Vila Bela (1734-1789). Cuiabá: Ed. UFMT, 2006, p. 253.
475 AMADO e ANZAI, 2006, p. 270.
Depois rumou a Coimbra, para o mosteiro de Santa Cruz, onde sendo já sacerdote tomou o hábito franciscano em 1220. Nesse momento Fernando mudou seu nome de batismo para Antônio e foi viver com outros frades no eremitério de Santo Antão dos Olivais. Como grande pregador, Santo Antônio percorreu diversas regiões da Itália, entre 1223 e 1225, servindo ainda em Montpelier e Toulouse, na França. Em 1226, vivendo em Pádua começa por fazer sermões dominicais, mas logo de dentro da igreja passou para os adros falando às multidões que não pararam de aumentar. Logo não demoraram os relatos de milagres e graças conseguidas através da intercessão de Antônio. Faleceu em 13 de junho de 1231, sendo canonizado no ano seguinte476.
Durante o episódio da Guerra da Restauração (1640-1668), os soldados portugueses atribuíram a Santo Antônio muitos êxitos de suas ações militares, fazendo com que D. Pedro II, por alvará de 24 de Janeiro de 1668, determinasse que “por tão patriótico serviço” Santo Antônio fosse alistado como praça no Regimento de Infantaria de Lagos. Alguns anos depois, em 12 de Setembro de 1683, D. Afonso VI promoveu o mesmo santo ao posto de capitão. Neste posto, Santo Antônio recebia um soldo de 10.000 réis, garantido até 1779, quando passou a receber 15.000 réis. Todos os soldos pagos a Santo Antônio eram pontualmente entregues à sua irmandade no reino, até que uma determinação do Marquês de Pombal fez com que ele servisse gratuitamente no seu posto de santo-capitão, o que só se alteraria depois com o reinado de D. Maria I, quando voltou a receber seus soldos por ser o “mais antigo dos reais exércitos”477.
Os soldos do pagamento a Santo Antônio, pela ocupação de cargos militares em vários regimentos do reino, foram revertidos para suas irmandades, sobretudo para o financiamento das trezenas, celebrações e festividades em honra a esse patrono militar.
Os valores arrecadados pelos regimentos serviram ainda para, entre outros, a compra de cera do sepulcro, tochas, pagamento dos pregadores, música, aluguel de madeiras, armação para o coreto, concerto de bancos, luminárias, azeite, papel478.
Os valores arrecadados pelos regimentos serviram ainda para, entre outros, a compra de cera do sepulcro, tochas, pagamento dos pregadores, música, aluguel de madeiras, armação para o coreto, concerto de bancos, luminárias, azeite, papel478.