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A FORMAÇÃO: RESPONSABILIDADE DAS AUTORIDADES

No documento DOUTORADO EM ANTROPOLOGIA SÃO PAULO 2010 (páginas 146-151)

O empregador deve prover condições para que seu pessoal seja formado para evitar o assédio moral, o assédio sexual, danos morais e outras formas de violência e abusos praticados no ambiente de trabalho. Esta formação se dá através da informação, sobretudo de gerentes e dirigentes, que serão capazes de identificar as diferentes situações de assédio e logo tomar as medidas necessárias para que o empregador não venha a ser responsabilizado.

Um programa completo e, não apenas uma ou outra palestra que explique em detalhes o que é um e outro, que aborde questões de poder e também os conflitos de trabalho, o stress, a inimizade, a compreensão dos processos de assédio e suas conseqüências para a empresa e para o assediado, as sanções disciplinares que devem ser aplicadas aos assediadores etc, com um acompanhamento desta formação.

É importante que as pessoas tenham um canal de comunicação totalmente confiável para se expressar sobre este e outros problemas: um serviço de telefone dentro da empresa, a utilização de questionários a serem preenchidos pelas pessoas que estão sendo assediadas e pelas testemunhas, uma boa pesquisa de clima etc.

E, por fim, uma das medidas mais inteligentes é prover a empresa da formação de bons mediadores de conflitos. Caso não haja um na empresa, saber onde e como buscá-lo.

4.6.1 A mediação

Um mediador independente, aceito voluntariamente pelas partes - podendo ser uma pessoa da empresa ou um terceiro autônomo - poderá evitar o desgaste de uma ação judicial. Ainda que nem todos os conflitos permanentes entre pessoas num mesmo ambiente de trabalho resultem em assédio moral, toda forma de assédio têm por base um sério conflito, aberto ou velado.

Esses conflitos têm de ser administrados e neste sentido, não é só o departamento ou a seção de RH que não pode se omitir. Nenhuma área em que trabalham grupos de pessoas escapa de apresentar conflitos e todas as chefias estão sendo convocadas a se habilitar a geri-los. Esta é a grande diferença entre administradores e gestores. Dos segundos se espera igual habilidade técnica específica e capacidade de lidar bem com pessoas. Todas as chefias têm sido, ou deveriam ser da mesma forma, convocadas a melhorar seu poder de comunicação:

• utilizar-se de linguajar educado e modos polidos, seja através do contato pessoal, seja por telefone ou e-mail;

• fazer com que as mensagens sejam transmitidas de forma clara para que não surjam mal entendidos;

• evitar ataques pessoais, fazendo críticas ao trabalho e jamais dirigidas às pessoas ou ao seu modo de ser; evitar tratamento informal no ambiente de trabalho;

• evitar utilizar voz alta demais ou palavras de baixo calão; • fixar objetivos de trabalho claros e exeqüíveis;

• justificar as críticas; resolver os conflitos;

• tratar os colaboradores com diplomacia no momento da avaliação; • agradecer pela colaboração, autoria de idéia, esforços e conquista de

4.6.2 Unindo as pontas: violências contra os trabalhadores mais jovens e contra os mais velhos

Por falta de orientação aos jovens trabalhadores sobre seus direitos, muitos começam a trabalhar sem carteira assinada e perdem com isso, prova de contagem de tempo trabalhado; os jovens trabalham em pequenas empresas, que depois desaparecem, trabalham em empresas familiares e até mesmo com seus próprios pais que não os registram. Mais tarde, enquanto próximos à aposentadoria, muitos trabalhadores mais velhos também estão sendo dispensados. Juntando-se essas duas pontas, chega-se à seguinte situação:

Estou num estado muito precário. Não posso trabalhar por causa da minha mãe, que tem Alzheimer e eu fui dispensada quando faltavam só três anos para me aposentar. Estou desempregada desde 2001, vivendo de favor. Do pouco que entra da parte dela, duma esmolinha que meu irmão nos dá e de um servicinho ou outro que eu faço quando dá. Qualquer serviço. Lavar, passar.

Pois é, dispensei o registro do primeiro emprego e não tenho como recuperar. Senão, já daria. Essas bobagens que a gente faz quando é jovem, de menina, e pensa que as coisas ruins só acontecem com os outros. Ou melhor, nem pensa. Só faz. Eu não pensava em nada. Só trabalhava.

S. A. chegou através de uma chamada que fiz pela televisão. Entrevistada que fui pela Ione Borges em seu programa “Prá Você”, na TV Gazeta (2007), sobre questões concernentes à aposentadoria, convidei pessoas a me procurar para dar seu depoimento, explicando a exata finalidade acadêmica de meu interesse e que não haveria nenhuma forma de remuneração ou retribuição, tratando-se de uma pesquisa por adesão de caráter absolutamente voluntário. E solicitei que não me telefonassem a cobrar, muito menos de celular.

A maior parte das pessoas que me telefonaram, quase 40 delas, desejava que eu resolvesse problemas junto ao INSS e entendeu que eu era advogada. De todas, somente S.A. e outras quatro fizeram contato em razão do assunto levantado no programa: pessoas que sofreram ou estão sofrendo algum tipo de

constrangimento antes de se aposentar, seja estando ainda na empresa, seja fora!

Foi interessante constatar toda essa afluência de pessoas com dificuldade em obter informações; sobre contagem de tempo; necessidade de regularização de documentos; demora no recebimento das aposentadorias, uma série de erros burocráticos e, principalmente, queixas em relação à atitude desatenciosa dos

funcionários, o jeito indiferente com que foram tratados ou destratados. Todos eles melindrados e revoltados com a máquina pública, que não respeita o cidadão. À hora, porém, em que eu esclarecia não ser advogada e que meu propósito era de fazer pesquisa, sua reação não variava muito entre um simples Ah, eu pensei... e um Ah, não!? logo seguido de um rápido desligar, sem qualquer forma de consideração para comigo.

Em seu relato, S.A. deixou muito claro, através de inúmeros detalhes, a promiscuidade entre a empresa de transporte onde trabalhou por mais de 10 anos e algumas empresas públicas da região, esquemas de corrupção e suborno que não são objeto deste estudo, nem estou autorizada a aqui reproduzir, inclusive porque não disponho de documentos a partir do que fundamentar a minha escrita.

Nada, porém, indica que S.A. estivesse falseando dados, tendo comparecido munida de uma série de documentos, atas e livros que folheava e apontava ao mencionar alguns fatos, mas sobre os quais preferi não me deter, até porque, com certeza, nem haveria de compreender e nem desejaria me comprometer tanto assim. Solicitei que ela se ativesse mais às questões do assédio, uma vez que foi ela mesma quem introduziu esse termo:

Fui assediada, sim. E posso jurar que esse tipo de coisa só acontecesse onde o próprio dono não presta!

Eu morria de medo de perder o emprego. O financeiro era todo bagunçado, convenientemente. Quando introduziram o computador, demorou três anos para o sistema ficar redondinho.

Com 48 anos, eu teria direito à estabilidade, que na minha categoria é de dois anos. Ela sabia disso e, mesmo assim, me demitiu, quando eu estava com 47 anos. O clima entre nós era um inferno. Eu vivia à base de calmante. O analista ficava com dó de mim. Foi muito angustiante. Botaram a japonesa lá no departamento e ela queria que eu desse explicações, mas eu não sabia explicar tão bem quanto ela queria. Mas era porque eu mesma não sabia, tamanha era a desordem. Eu não sabia nada de informática e quando ela veio tinham me deslocado para lá. Eu só sabia de secretariado e de contabilidade.

Ela fazia terrorismo com todos, mas comigo foi pior, porque eu sou geniosa e respondia. Minhas duas colegas se faziam de morta e, com isso, se safaram, me deixando no meio da fogueira: a juripoca vai piar!

Mesmo eu me disponibilizando a ajudar, na vã esperança de ser poupada e manter o meu emprego, sobrando tudo, mas tudo para eu digitar, fui a primeira a ser mandada embora. As duas ficavam sem fazer nada e eu sobrecarregada. Eu já estava a ponto de explodir. Trabalhava de sábado sem ganhar nenhum adicional, ficava direto sem almoçar.

Todos sabiam que eu é que estava pesando mais por ser do financeiro. Pois eu me esforçava e ela me ridicularizava, debochava. E eu teimava. Respondia, mas fazia.

Quando tudo ficou pronto, o sistema redondinho, um dia cheguei na empresa, liguei o computador, coloquei a senha e não tive acesso. Me deu um frio na espinha! Pensei “ai, adeus”. Aí, caiu a ficha, mas me fiz de

desentendida. Coisa que eu levaria horas ela agora tiraria em menos de 40 minutos. De uma hora para outra, eu me senti uma inútil e as três começamos a ter muito menos serviço. “Gente”, eu falei, “vamos inventar coisas para ter o que fazer ou fazer mais devagar, para a gente ir fazendo e poder permanecer! Claro que existem pessoas honestas, mas o empregado tem que fazer a parte dele, senão a usura prevalece!

A japa me deslocou de novo e me colocou para operar o PABX, que eu não sabia como. Eu fui, já estavam começando a dispensar pessoas e eu fui lá para baixo na orelhada. O que você acha que aconteceu? É claro que eu errei algumas vezes, coloquei a conexão no ramal de outra sala. Eu tinha que demorar e não podia adivinhar. Fui tentando.

A mulher subiu a serra, me passou o maior carão. Que eu era uma incompetente. Que eu não servia pra nada. Que não dava pra contar comigo, mesmo. Gritava feito uma louca. Todo mundo ouvindo e eu lá, só calada, fervendo por dentro. A raiva era tanta, mas tanta, que sai correndo pro banheiro, que foi para não pular no pescoço dela, que era isso que ela queria: que a agredisse publicamente, para ter motivo para me dispensar por justa causa. Agüentei aquele desaforo todo e larguei o PABX até ela sair de perto.

No dia seguinte, reassumi meu posto e pedi ajuda pruma colega que já tinha sido telefonista. Em dois tempos eu peguei o serviço. No segundo dia, eu já estava craque. A japonesa não acreditou! Se você visse o olhar de ódio que ela me enviou! Olhar de matar, sabe? Fiz que não reparei, ela se afastou pisando duro.

De tarde, mandou me chamar e disse que reconsiderou o meu caso, que de fato minha experiência era maior, que não era para aquilo, me designou para a área de controladoria. De novo lá fui eu para um serviço ingrato, com o que eu não me afinava e que não era minha área. Eu era do financeiro e a mulher pegou o meu posto para ela e ficou me deslocando de lá para cá, testando minha paciência.

A minha e a dela, porque eu aprendo rápido e quanto mais eu aprendia e me dedicava, com mais raiva de mim ela ia ficando, até que a perseguição chegou a um ponto d’ela não agüentar e me acusar de estar sumindo com documentos, boicotando a empresa, umas coisas absurdas e muito perigosas de se fazer e de se dizer. Já te falei. Ali não se brinca, não. É coisa de peixe grande. Se cair na desconfiança deles, sai tiro.

Até aquela mulher entrar lá eu gozava de toda a confiança deles, todos. Trabalhava no caixa forte, no subsolo, onde só entram os da máxima confiança, porque é lá que as coisas (fez um gesto com os dedos indicador e polegar caracterizando dinheiro) trocam de mão. Eu mesma separava, sabia de tudo, controlava. Conhecia todos os esquemas. Já falei. A mulherzinha era nova no pedaço, mas estava querendo participar, pisou no meu calo. No meu e nos de outros. Não é assim que se faz. Não é difícil que, quando alguém desagrada, tirem a pessoa da frente, você me entende? Resolvem o assunto.(novamente gesticula, simulando com as mãos ter dado um tiro de revólver e assoprado a fumaça do cano). Apagam tudo. É. Mas ela tinha costas quentes de um político que entrou pesado pra bancar o jogo. Daí, eu sobrei. Alguém tinha que sair.

Só sei que resisti. Até que não deu mais. Fiquei muito doente. Hoje, olhando pra trás, até que não me sai mal, não é? Você é a primeira pessoa a quem conto isso. Está me dando um alivio. Porque aconteceu mesmo! Mas, tome cuidado. Não vá dizer palavra! Some você, some eu.”16

16 S.A.S. Pena, 53 anos, secretária executiva, solteira. Depoimento recebido por meio de chamada na

No documento DOUTORADO EM ANTROPOLOGIA SÃO PAULO 2010 (páginas 146-151)