2.8 PEQUENO HISTÓRICO DOS PROGRAMAS
2.8.1 Minha identificação pessoal e profissional com o
daquilo e outro terço daquilo outro? Ou seria mais disso e menos daquilo?
Não consigo precisar exatamente quando, um dia, durante um seminário de PPA, algumas poucas palavras romperam com as barreiras que me impediam acesso ao mundo emocional:
Ele não tinha o direito de me falar aquelas coisas. Eu sabia que era para eu sair. Não precisava me humilhar daquele jeito. É isso que me dói. Não é precisar parar. Eu já estava preparando para sair. Eu queria, eu quero sair. Eu só não queria era ser destratado, enxotado feito cachorro. Pior, é como se tivessem fumado tudo, arrancado tudo de dentro da gente, amassassem o maço e jogassem no lixo, como se a gente não valesse nada! Foi isso que eles fizeram.
Foi com essa nova consciência que comecei a prestar atenção no modo, ou nos modos possíveis de executar uma dispensa, de formalizar a cessação de um vínculo de trabalho, de conduzir, em palavras e gestos, o outro, até a porta... De saída. Saída da empresa. Retorno definitivo ao lá fora.
2.8.1 Minha identificação pessoal e profissional com o assunto
Senti a boca do meu estômago gelar e, rapidamente, em seguida formigar. Uma reação física intensa, misto de medo, triunfo e gozo. Foi ele, meu estômago, que me avisou. Ele e o olhar profundo que me percorreu a espinha, olhar cravado em meu peito, junto com a pergunta que logo o acompanhou: A senhora é louca?!
Difícil dizer quando tudo começou. Melhor situar a partir de quando as coisas tomaram forma. Não exatamente sua forma final, mas aquela com que haverão de se apresentar a nossa percepção e existir. Até então, sigo tateando, titubeante. Para mim, ao menos, a definição do meu objeto de estudo foi assim. Um longo processo de ajuste de foco até dar-me conta, inclusive, para que lado e para o quê, exatamente, eu olhava.
Formalmente, porém, posso dizer que: um dos bons ajustes foi feito quando detectei o enorme prejuízo, a desgraça pessoal que se abate sobre uma pessoa, quando ela se afasta de uma empresa, por vontade própria ou demitida e à revelia, estando com a sua alma ferida, com o seu sentimento de honra abalado e sangrando, sem maiores chances de ser recuperado.
É uma dor horrenda e solitária, que nem os mais íntimos compreendem e que faz cair por terra toda a auto-estima, a auto-confiança e o sentido de realização numa carreira, como se toda a dedicação, lealdade, esforços despendidos, tempo dispensado por décadas a fio passassem a valer menos que nada.
A pessoa fica obcecada, tomada por um sentimento de vergonha aguda que, somente sob o crivo da honra ofendida é possível de se entender e justificar. Mas a retratação não vem e o detrator já não faz mais parte de sua vida, posto que ela já se encontra fora da empresa e dispensada. O violento detrator, a cena da vergonha, a impotência da vítima e seu estupor dão-se as mãos e fazem uma dança macabra na mente do ofendido, que não pára de rememorar o ocorrido, num fenômeno já muito bem identificado e qualificado como característico do complexo distúrbio pós- traumático: o flash back.
A este se somam novas e frustrantes tentativas de reparação da honra, que muitas das pessoas vitimadas ainda tentam reconquistar. Tentam marcar hora com suas ex-chefias, não conseguem. Ao telefone, não são atendidas. Enviam cartas, telegramas, não têm resposta. Instala-se um novo processo de desqualificação, vulgarmente conhecido por: E não se tem mais com quem falar. Agora, essa não validação joga uma pá de cal na alma do ofendido, que leva anos e anos para conseguir se recuperar. Alguns não conseguem. Morrem de desgosto, embora desgosto não seja indicador médico para nenhuma causa mortis.
Outro excelente ajuste simplesmente decorreu de minha aceitação a um honroso convite que recebi para dar uma conferência em Goiânia, no II Congresso Internacional Sobre Saúde Mental, organizado pela Procuradoria Regional do Trabalho da 18ª. Região/GO, Instituto Goiano de Direito do Trabalho – IGT, Escola Superior do Ministério Público da União – ESMPU e Fórum de Saúde e Segurança no Trabalho do Estado de Goiás. O Congresso, havido de 12 a 14 de outubro de 2006, lançava uma ousadíssima proposta: estabelecer um diálogo entre as áreas de saúde mental, saúde física e o direito, especialmente direito do trabalhador.
Fui convidada a abordar questões de liderança e motivação sob a ótica da saúde mental. Hum, pensei. Taí um negócio atrevido. Incomum. Criativo. Aceitei. Arrependi-me por ter aceitado. Estudei muito, demais da conta. Fiquei aflita. Apliquei-me e consegui realizar algo que se mostrou além do senso comum: apresentei, justamente, em termos de gestão de pessoas, a necessidade de cuidar com elevado senso ético e, muita responsabilidade, da finalização de uma primeira
carreira, tanto ou mais ainda do que se cuida de suas fases iniciais. Fui muito feliz nessa escolha e na minha apresentação.
A reação do público também me surpreendeu. Meus colegas, da mesma e de outras áreas, confessaram nunca terem ouvido falar a esse respeito e desconhecerem a existência de programas que preparam trabalhadores e familiares para se aposentar bem, participando ativamente desse processo e tomando decisões negociadas.
Profissionais que também se pronunciavam brilhantemente naquele congresso, pessoas de admirável conhecimento e influência, com quem eu mesma estava aprendendo muito, mais do que jamais houvera suposto fosse acontecer, foram críticos positivos e estimulantes do meu trabalho, conferindo-lhe um apreço que poucas vezes consigo colher com tamanha generosidade e abundância.
Afinal, minha luta junto às lideranças empresariais é tão árdua que, mais do que exaustiva, tenho a impressão de que chega a ser insana. Trava-se uma verdadeira luta de consciências, de clareza ofuscante: há uma verdadeira cisão entre o discurso ético e a prática de gestão nas organizações, sobre o que prefiro me utilizar das próprias palavras de James Hillman:
Que se desloque do conceito puramente funcional, aliado à eficiência mecânica, para dar lugar a uma participação qualitativa dos sentidos, num quadro de relações sistêmicas. Trata-se de uma idéia estética de “serviço de alto contato. (High touch, em vez de High tech)”. (HILLMAN.J: 1995, pág.87)
A receptividade, então, do público inscrito que me cercou pelos corredores afora, durante o tempo que ainda duraram os trabalhos do Congresso, o reconhecimento dos meus pares, as amizades que ali plantamos e que se sustentam até agora e os novos conhecimentos que adquiri com todos eles, foram determinantes para direcionar meu caminho e reforçar minha decisão já tomada, trazendo-me subsídios fundamentais para trilhá-lo.
Foi naqueles dias que ouvi falar pela primeira vez dos nomes dados a diversos padeceres que eu, até então, só observara na clínica: Síndrome do
Burnout, Bulling, Síndrome Loco-Neurótica e das dificuldades de comprovação do
nexo causal nos processos de Assédio Moral, alertando-nos sobre a sua complexidade, objetiva e subjetivamente considerada.
Dentre aqueles casos todos, então, de que eu tomava conhecimento no consultório, buscando tratar o desespero das vítimas, aqueles depoimentos que emergiam nos programas de aposentadoria nas empresas, relatos sensíveis, emocionados, revoltados, amargurados, casos que aconteceram consigo próprios e/ou colegas sob suas vistas, casos por mim e por outras pessoas vividos e testemunhados, sobre pessoas feridas, já mortas ou ainda vivas, porém todas desamparadas, agora um dos tipos em especial ganhava nome: assédio moral. Isso fez muita coisa mudar de figura para mim.
Os relatos deixaram de ter conotação de grosseria das chefias e dos colegas para se enquadrar em atos criminosos previstos em lei. Passou a não bastar, então, o acolhimento à(s) vitima(s), a empatia, o antidepressivo e o ansiolítico mais à orientação psicoterápica. Fez-se necessário aprofundar o estudo e, se fosse o caso, fazer-se aplicar a lei. E lá fui eu me aprofundar no assunto.
À medida que fui procurando, fui encontrando. Essa afirmativa lógica parece- me até infantil, de tão óbvia, mas não é. O óbvio é o mais difícil de ser visto.