imprensa artesanal informativa
2.2 A Gazeta de Lisboa
uma única coluna, tal e qual como os livros. Seriam encarados, pois, mais como objetos li-terários e menos como dispositivos de informação e de comunicação possuidores de uma identidade própria e caracterizados pela rápida perda da sua atualidade.
letrados (corte, universidade e outras escolas, mosteiros...), mas também circularia, certa-mente, entre negociantes e empresários endinheirados.
Inicialmente, a Gazeta de Lisboa funcionou como uma espécie periódico oficioso do re-gime, mas, com o tempo, foi assumindo um carácter cada vez mais oficial. Num certo senti-do, é o mais antigo jornal português em publicação contínua, já que, passando por várias me-tamorfoses (figuras 15 e 16), deu origem ao diário oficial português — atualmente, o Diário da República.
A 6 de janeiro de 1718, o título da Gazeta de Lisboa mudou para Gazeta de Lisboa Ocidental, devido à divisão administrativa da cidade de Lisboa em duas dioceses (Lisboa Ocidental e Lisboa Oriental), ocorrida no ano anterior. Assim se manteve até ao número de 31 de agosto de 1741. No número seguinte, já retomava a denominação Gazeta de Lisboa, que manteve até 22 de julho de 1760, data em que passou a ser publicada sob a denominação Lisboa. Entre 1760 e 1762, a Gazeta de Lisboa foi redigida e publicada pelo poeta Pedro António Correia Garção e pelos funcionários da Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, por privilégio real (para permitir que esses funcionários aumentassem os seus rendimentos), passando, então, a ser conhecida, popularmente, como “Gazeta dos Oficiais da Secretaria”.
Beneficiou, mesmo, da criação de uma tipografia dedicada, A partir dessa altura, a Gazeta de Lisboa passou a seguir uma orientação ainda mais administrativa, fornecendo a primeira matriz para um diário oficial português.
Apesar da sua condição de diário oficioso, quase de diário oficial, a publicação da Gazeta de Lisboa foi suspensa pelo “primeiro-ministro” de então, o marquês de Pombal, entre 15 de junho de 1762 e 4 de agosto de 1778. Nesta data, já sob o reinado de D. Maria I, afastado Pombal das rédeas do governo do reino, a Gazeta de Lisboa reapareceu, sob a direção de Félix António Castrioto, conservando este título até 30 de dezembro de 1820. Entre 30 de dezem-bro de 1820 e 5 de junho de 1823, foi reintitulada, saindo, já na condição de diário oficial, com os títulos Diário do Governo (até 10 de fevereiro de 1821 e de 5 de julho de 1821 a 4 de maio de 1823) e Diário da Regência (12 de fevereiro de 1821 a 4 de julho de 1821). Voltou a adotar o título Gazeta de Lisboa, entre 5 de junho de 1823 e 23 de julho de 1833, coincidindo comas tentati-vas de retorno ao absolutismo protagonizadas por D. João VI (entre 1823-1826) e D. Miguel (entre 1828-1834). Desde 25 de julho de 1833 a 30 de junho de 1834, saiu com o título Crónica Constitucional de Lisboa; de 1 de julho a 4 de outubro de 1834, foi editada com o título Gazeta Oficial do Governo; e entre 6 de outubro e 31 de dezembro de 1834, saiu com o título Gazeta do Governo. De 1 de janeiro de 1835 a 31 de outubro de 1859 e de 2 de janeiro de 1869 a 9 de abril de 1976, passou a designar-se Diário do Governo, sendo que entre 1 de novembro de 1859 e 31 de dezembro de 1868, numa interrupção, teve por título Diário de Lisboa. A 10 de abril de 1976, o título do jornal sofreu nova alteração, para Diário da República, que mantém até hoje.
A Gazeta de Lisboa teve, para a época, grande sucesso editorial, sinal da avidez por in-formação que denotava uma sociedade em mudança, que se expressava, identicamente, pela
recetividade que havia em relação às publicações noticiosas ocasionais que continuaram a surgir. Entre 1740 e 1748, por exemplo, a tiragem dos números regulares da Gazeta de Lisboa poderá ter atingido 1500 exemplares, a que se somariam, a partir de 1742, mil exemplares do Suplemento, que, na verdade, era um segundo número semanal.
O design da Gazeta de Lisboa aproximava-se do design dos seus antepassados seiscen-tistas. Tratava-se, como então era comum, de um periódico de números encadeados feito para ser conservado, colecionado e encadernado em volumes anuais, imitando os livros (fi-gura 14). Oferecia notícias sobre o país e o estrangeiro, de acordo com o escrito no frontis-pício do primeiro volume: História Anual Cronológica e Política do Mundo e Especialmente da Europa — um título que se refletia, inclusivamente, na ordenação das notícias, feita, habitual-mente, por ordem cronológica, ficando a informação mais recente (ou recebida em último
Figura 16
Diversos títulos da publicação que começou como Gazeta de Lisboa.
Fonte: reproduções dos originais.
lugar) para o fim, diferenciando o periódico do jornalismo atual, que privilegia as notícias mais recentes.
O título inicial da Gazeta, História Anual Cronológica e Política do Mundo e Especialmente da Europa, documenta, ainda, que, para os redatores de periódicos noticiosos do século XVIII, o “jornalismo” era uma forma de historiografia. Uma tese que vai ao encontro das ideias de Tobias Peucer na primeira tese doutoral sobre jornais e jornalismo, defendida em 1690.
Até ao século XIX, o noticiário internacional da Gazeta de Lisboa predominou sobre o noticiário nacional, este centrado no Rei, na Família Real, em alguns cortesãos, no Governo (em especial, as nomeações) e nas cerimónias religiosas.
O periódico criou uma ampla rede de recolha de informações em Portugal, para dar res-posta à necessidade de elaborar notícias sobre acontecimentos que podiam ocorrer em qual-quer lugar. Esses correspondentes muitas vezes também vendiam o periódico. As matérias sobre o estrangeiro eram recolhidas das publicações de outros países e da correspondência diplomática, bem como de algumas cartas especificamente enviadas à Gazeta de Lisboa por personalidades portuguesas que, por motivos oficiais ou privados, habitavam fora do País.
Causa alguma estranheza, à distância, a inexistência de grandes preocupações com o desenvolvimento de temas que, hoje em dia, se contariam entre os mais noticiáveis. O ter-ramoto de 1 de novembro de 1755 que destruiu Lisboa e outras localidades portuguesas, por exemplo, foi noticiado, pela primeira vez, apenas cinco dias depois, no final do número de 6 de novembro da Gazeta de Lisboa, já que se tratava de uma notícia recente19, e o enfoque foi dado à descoberta dos cofres reais e de particulares (certamente, gente rica) no meio dos des-troços. Efetivamente, a novidade estava no achado dos cofres, em especial dos cofres reais. O resto não era novidade para a maioria daqueles que liam a Gazeta. Na verdade, a informação, nessa época, corria ainda, sobretudo, oralmente. O redator da Gazeta de Lisboa, José Freire de Montarroio Mascarenhas, sabia que as pessoas que poderiam ler ou ouvir ler o periódico já estariam a par do que tinha acontecido. Os lisboetas, que tinham vivenciado o terramoto e podiam observar diretamente os seus efeitos, não se iriam, obviamente, inteirar do aconteci-mento por um jornal de circulação restrita e quase limitada à capital e à corte, como a Gazeta de Lisboa o era.
Curiosamente, a Gazeta de Lisboa foi dando, nos números subsequentes (concretamen-te, até meados de 1756), mais algumas informações lacónicas sobre o que se ia passando em Lisboa depois do terramoto, mas a centralidade de algumas dessas notícias continuou a ser a vida da Família Real.
19 A ordenação da informação na Gazeta de Lisboa era cronológica; no primeiro número depois do terramoto, o des-taque foi dado à morte de frei Joaquim de São José, quer porque esta se tratava de uma notícia anterior (ou ante-riormente recebida), que pôde ser, calmamente, preparada e redigida, quer também porque o periódico se eximia a noticiar sobre acontecimentos e demais temas que pudessem perturbar a ordem social estabelecida.
Se o laconismo imperou nas notícias da Gazeta de Lisboa sobre os efeitos do terramoto de 1755 na capital, já o mesmo não aconteceu nas matérias sobre as consequências do terra-moto noutras zonas de Portugal que foram sendo publicadas até meados de 1756. Estas últi-mas peças — relatos do Algarve, de Castelo de Vide, de Guimarães, de Alenquer, de Linhares, de Mafra e da Ericeira — tenderam a ser mais extensas e completas, pois, na verdade, tinham por intenção contar aos leitores da Gazeta de Lisboa, maioritariamente concentrados na capi-tal, como o terramoto tinha sido sentido no resto do País. Além disso, refletiam os métodos e os propósitos de Montarroio Mascarenhas: só escrever sobre os assuntos depois de confirma-dos através de várias cartas e de relatos diretos (o que às vezes retardava a publicação das no-tícias por semanas ou meses) e fazê-lo de forma seletiva, contida e numa linguagem algo ofi-ciosa e até repetitiva. Essa tática de processamento das informações destinava-se quer (a) a credibilizar a informação e apor à Gazeta de Lisboa um rótulo de qualidade (o que a distinguia das publicações seiscentistas portuguesas, que não se importavam de publicar notícias falsas ou nitidamente propagandísticas, e também a diferenciava de outras publicações, como os folhetos ocasionais, que continuavam a ser publicados com sucesso), quer (b) a evitar quais-quer sobressaltos à sobrevivência de uma publicação da corte, licenciada pelo poder régio, que ostentava o brasão real e que tinha por função preservar a ordem social e participar no processo de encenação propagandística do poder real e de projeção da Monarquia absoluta.
Figura 17
Primeiro anúncio publicado na imprensa
portuguesa Gazeta de Lisboa. Fonte: reprodução do original (Gazeta de Lisboa, 31 de agosto de 1715).
A Gazeta de Lisboa introduziu algumas práticas inovadoras no periodismo português. A 31 de agosto de 1715, por exemplo, publicou aquele que se considera ser o primeiro anúncio publicitário (na altura designado aviso) publicado na imprensa portuguesa, num tempo em que a publicação de um anúncio só ocorria por intercessão pessoal junto do redator ou editor (figura 17):
Faz-se aviso às pessoas curiosas de língua francesa haver chegado a esta corte há pouco tempo um estrangeiro apelidado De Ville Neuve, francês de nascimento, natural da cidade de Paris, o qual fala língua latina, alemã, italiana, castelhana e portuguesa, e tem um método fácil para ensinar em pouco tempo toda a sorte de pessoas, ainda às de cinco para seis anos. As que quiserem servir-se do seu préstimo podem encaminhar-se a casa de Manuel Dinis, livreiro, na rua da Cordoaria Velha.
Figura 18
Primeira notícia ilustrada publicada na imprensa portuguesa. Fonte:
reprodução do original (Gazeta de Lisboa, 1 de agosto de 1716).
Figura 19
Primeira infografia publicada na
imprensa portuguesa (dimensões de uma baleia). Fonte: reprodução do original (Gazeta de Lisboa, 21 de janeiro de 1723).
No número de 1 de agosto de 1716, a Gazeta de Lisboa editou, também, aquela que se considera ser a primeira ilustração sobre um acontecimento publicada na imprensa portu-guesa, um desenho de gémeos siameses unidos pelo ventre, que dizia a respeito a uma notí-cia desse mesmo teor (figura 18). A 21 de janeiro de 1723, publicou aquele que se considera ser primeiro infográfico publicado na imprensa portuguesa, relativo às dimensões de uma baleia (figura 19).