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A imprensa portuguesa na Monarquia Constitucional entre 1834 e 1851

No documento Portugal (páginas 120-180)

imprensa artesanal política (1820-1834)

3.10 A imprensa portuguesa na Monarquia Constitucional entre 1834 e 1851

publicações eminentemente culturais, algumas de feição enciclopédica, direcionadas especi-ficamente para os emigrados liberais portugueses, como são os casos, por exemplo, dos Anais das Ciências e das Artes Dedicados aos que Falam a Língua Portuguesa em Ambos os Hemisférios, periódico publicado em Paris, entre janeiro e julho de 1827, por José Diogo Mascarenhas Neto;

e de A Abelha ou Coleção de Conhecimentos, um periódico enciclopédico redigido por Francisco Ladislau Álvares de Andrade, em 1830, igualmente publicado em França.

d) 3 de agosto de 1850 — “Lei das Rolhas” (publicada a 10 de agosto no Diário do Governo)66.

Além disso, embora sem afetar o princípio da liberdade de imprensa, há que relembrar que a Constituição de 1820 foi reposta pelos setembristas após o sucesso da Revolução de Setembro (9 de setembro de 1836) e transformada na Constituição setembrista de 1838; e que a Carta Constitucional foi reposta por um golpe de Costa Cabral, a 10 de fevereiro de 1842.

A cronologia da principal legislação consta da tabela 16.

Tabela 16

Principal legislação da imprensa (1834-1850).

Data Legislação

5 dezembro 1834 Carta de Lei reguladora da liberdade de imprensa, baseada nas instruções de 21 de agosto de 1826, que visavam sedimentar o princípio da liberdade de expressão do pensamento pela imprensa, expresso na Carta Constitucional. Prevê a obrigatoriedade de registo de periódicos e tipografias, responsabiliza os editores pelos seus escritos e, na sua falta, os impressores.

Institui as penalizações por crimes de abuso de liberdade de imprensa, como sejam: colocar em dúvida dogmas da Igreja Católica ou injuriá-la; ofender a moral e os bons costumes; incitar à rebelião ou anarquia; atacar a ordem constitucional; injuriar os monarcas portugueses ou estrangeiros e injuriar cidadãos privados ou dar a conhecer factos da sua vida privada. Estatui a forma de instruir os processos por crimes de abuso de liberdade de imprensa. Publicada a 22 de dezembro de 1834 no Diário do Governo.

9 de setembro 1836 Sucesso da Revolução de Setembro repõe, provisoriamente, em vigor a Constituição vintista, sem consequências para a preservação da liberdade de imprensa.

10 novembro 1837 Por iniciativa do Governo setembrista de Sá da Bandeira, Carta de Lei estabelece os requisitos para ser editor responsável de um periódico: ser cidadão português maior de 25 anos, ter livre administração da sua pessoa, possuir bens até um conto e duzentos mil réis que pudessem segurar em juízo hipotéticas condenações por crime de abuso de liberdade de imprensa, ou, em alternativa, dar fiador, ou depositar judicialmente essa quantia. Institui que caso parte dessa quantia fosse usada em juízo por crime de abuso de liberdade de imprensa, o valor total teria de ser reposto para que um periódico voltasse a publicar-se. Previa a hipoteca das tipografias onde os periódicos eram impressos para assegurar o pagamento de indemnizações por crimes de abuso de liberdade de imprensa. Estabelece o direito de resposta. Regula o processo por crimes de abuso de liberdade de imprensa. Publicada a 15 de novembro no Diário do Governo.

20 março 1838 A nova versão da Constituição vintista, conhecida por Constituição setembrista, é aprovada.

Foi publicada no Diário do Governo a 24 de abril de 1838. No seu artigo 13.º institui o princípio da liberdade de imprensa, nos seguintes termos: “Todo o cidadão pode comunicar os seus pensamentos pela Imprensa ou por qualquer outro modo, sem dependência de censura prévia.

§ 1.º — A Lei regulará o exercício deste direito; e determinará o modo de fazer efetiva a responsabilidade pelos abusos nele cometidos.

§ 2.º — Nos processos de liberdade de Imprensa, o conhecimento do facto e a qualificação do crime pertencerão exclusivamente aos Jurados.

19 outubro 1840 Lei repressiva dos abusos de liberdade de imprensa, emanada do Governo de iniciativa da Rainha liderado pelo conde do Bonfim, do qual Costa Cabral é ministro da Justiça e eminência parda, estabelece que todo o periódico tem de ter um editor responsável que depositasse a quantia necessária para garantia contra condenações por crimes de abuso de liberdade de imprensa (um conto e duzentos mil réis, tal como a legislação de 10 de novembro de 1837) e tivesse bens não hipotecados no valor mínimo de dois contos e quatrocentos mil réis, que pudessem ser arrestados para cobrir indemnizações judiciais. Estabelece os requisitos para integrar júris que apreciem processos por crimes de abuso de liberdade de imprensa e a instrução dos processos judiciais neste mesmo âmbito. Publicada a 24 de outubro no Diário do Governo.

23 outubro 1840 Portaria aclara alguns dos pontos da Lei de 19 de outubro de 1840. Publicada a 24 de outubro de 1840 no Diário do Governo.

10 fevereiro 1842 Restauração da Carta Constitucional por ação de Costa Cabral. Salvaguardada, nos termos da Carta, a liberdade de imprensa.

3 agosto 1850 Lei do Governo cartista liderado por Costa Cabral (jocosamente apelidada de “Lei das Rolhas”) restringe a liberdade de imprensa ao ampliar a enumeração do que poderia ser considerado crime por abuso de liberdade de imprensa e ao reforçar as garantias pedidas aos editores e as penas aos prevaricadores. Publicada a 10 de agosto no Diário do Governo.

Fonte: produção própria.

Os aspetos normativos-legislativos não podem ser descurados quando se procura ex-plicar a evolução do jornalismo em Portugal, num tempo em que o País já ia adquirindo a conformação de um Estado de Direito.

3.10.2 Jornais e revistas (1834-1851)

O período que medeia entre 1834 e 1851 foi vibrante, mas, igualmente, tumultuoso, para a imprensa portuguesa.

O triunfo das forças liberais, em 1834, permitiu o surgimento de agremiações políticas, embriões dos partidos políticos, que refletiram as divergências no campo liberal. Nesse con-texto, surgiram no País vários jornais políticos “de partido”, alguns clandestinos, outros le-gais, que ajudaram a consolidar o papel da imprensa portuguesa como espaço público e arena pública, embora a leitura de jornais e a participação no processo decisório estivessem cir-cunscritos, nessa época, à minoria alfabetizada, elitista, detentora de capital social e cultural e, frequentemente, também de capital financeiro. Ainda em 1834, aliás, foi promulgada nova legislação reguladora da liberdade de imprensa (a Carta de Lei de 5 de dezembro de 1834, pu-blicada a 22 de dezembro no Diário do Governo), relativamente permissiva, que suscitou um reflorescimento da imprensa portuguesa um pouco por todo o país, reforçando a formação de correntes de opinião. Mas o ofício de jornalista, num tempo de forte combatividade política e ampla liberdade de imprensa, podia ter consequências adversas:

O ofício de periodiqueiro tem seus ossos (…). A entrada é de rosas. Os colegas cumprimentam o re-dator esperançoso, que debuta, e auguram-lhe um grande futuro. Poucos dias depois, chamam-lhe

asno, boçal e estúpido. Passam seis meses, e se ele sobe as escadas de uma secretaria, acusam-no de ladrão e de concussionário, e por dá cá aquela palha mandam-lhe a casa dois padrinhos (…) para combinarem com outros dois sujeitos chamados também padrinhos o modo mais decente de o matarem ou de serem mortos por ele. (Teixeira de Vasconcelos, 1859, p. 78)

Ao tempo, a imprensa política, dominante em Portugal, entrava na segunda fase do seu desenvolvimento. Se a sua primeira fase67 foi caracterizada por periódicos artesanais, lança-dos por iniciativa de indivíduos isolalança-dos ou de pequenos grupos de indivíduos, nesta segunda fase cada periódico surgia como porta-voz público de um conjunto de indivíduos agrupados num grupo político. As agremiações políticas, ao tempo, agregavam indivíduos vagamente unidos por interesses e por algumas ideias comuns, mais do que por uma ideologia sólida e por programas de governo bem definidos. Eram, portanto, inorgânicas. Foi, no entanto, a partir delas que emergiram os partidos políticos da Monarquia Constitucional.

Os periódicos desta segunda fase da imprensa política em Portugal, do qual o jornal A Revolução de Setembro (1840-1892 e 1901) é o símbolo máximo, já exigiam uma estrutura mais sofisticada, empresarial, que, frequentemente, englobava uma tipografia própria. Outros pe-riódicos alargavam a esfera do que era noticiado, como o Correio Mercantil, especializado em informação financeira, comercial e económica, editado em Lisboa entre 16 de julho de 1838 e 1 de julho de 1839.

Os jornais desse tempo tinham, porém, uma enorme dificuldade: eram pouco compra-dos (vendiam-se, principalmente, por assinatura) e pouco licompra-dos (cerca de 90% da população continuava a ser analfabeta, embora fossem lidos em voz alta em aglomerações de indiví-duos e nas tavernas e cafés). As tiragens eram reduzidas, conforme revela O Periódico dos Pobres no Porto, de 5 de abril de 1850:

É raríssimo um jornal (excetuando o Diário do Governo) que mesmo na capital tenha mil assinatu-ras e extraia 1200 folhas [exemplares] diárias (...). O termo médio de 500 assinatuassinatu-ras e a totalidade de 600 folhas extraídas diariamente [isto é, 600 exemplares de tiragem] é (...) alto.

Os jornais eram, além disso, produtos caros. Um número avulso de um jornal político como A Revolução de Setembro, podia custar 60 réis — uma fortuna para a generalidade da população. Outros jornais, porém, seguindo o modelo do Periódico dos Pobres, de 1826, apos-taram no baixo preço e na obtenção de receitas quer por meio de tiragens elevadas — que nem sempre logravam conseguir — quer pela captação de alguns anúncios publicitários — pagos

67 Corresponde, grosso modo, aos periódicos anti-napoleónicos surgidos após 1808, aos periódicos dos exilados

libe-por linha. São os casos do Periódico dos Pobres no Porto (Porto, 1834), do Periódico do Pobre (Lisboa, 1837), do Dez Réis: Jornal de Utilidade Pública (1841) e do efémero O Cinco Réis: Jornal de Interesse Público (1843). Estes jornais, ainda que de perfil político-noticioso, demonstram que, ao tempo, em Portugal, e seguindo exemplos estrangeiros68, já se tinha inculcado a no-ção de que se podia financiar uma publicano-ção fazendo pouco lucro por exemplar vendido, mas lucrando até mais, no global, pelo aumento do número de exemplares vendidos, o que ajudava, retroativamente, a captar publicidade. A venda de espaço publicitário viria mesmo a ser a primeira fonte de receitas dos jornais.

A legislação assente no princípio da liberdade de imprensa e a extinção da censura deu aos empreendedores do jornalismo a base legal para se aventurarem na proposta de novos periódicos ao mercado. No entanto, conforme atesta Tengarrinha (2013, p. 479), a partir de 1834 há outros ventos de mudança a atingir a imprensa portuguesa, materializados em torno de quatro eixos:

grande expansão do movimento jornalístico, não apenas quanto ao muito maior número de jor-nais, mas também quanto à sua mais ampla penetração no Reino (...); maior diversificação dos géneros, com especial destaque para os temas literários e culturais, científicos e técnicos e econó-micos, de acordo com a preocupação de desenvolvimento do País; relação mais estreita de fideli-dade entre o jornal e o leitor, de que resulta maior estabilifideli-dade do quadro periodístico, aumento de tiragens e longevidade, até aí nunca atingida, de alguns jornais; e melhoria dos meios técnicos e da qualidade jornalística. Para algumas dessas alterações contribuiu também a influência da im-prensa estrangeira.

Se a reposição da Carta Constitucional em vigor e se a Carta de Lei de regulação da li-berdade de imprensa de 5 de dezembro de 1834 criaram condições para o reaparecimento de jornais políticos, de várias cores políticas, em Portugal, o triunfo da Revolução de Setembro (10 de setembro de 1836) e o restabelecimento da Constituição de 1822, mais liberal do que a Carta Constitucional69, aceleraram o ritmo de criação de periódicos. A Constituição se-tembrista de 1838, irmã mais nova da Constituição vintista, também reconhecia, de acordo com os princípios liberais, no seu artigo 13.º, entre os direitos dos cidadãos, o princípio da liberdade de imprensa, em termos bastante abertos: “Todo o cidadão pode comunicar os seus pensamentos pela Imprensa ou por qualquer outro modo, sem dependência de censu-ra prévia”. Mas, no mesmo artigo, dois parágcensu-rafos previam, como ecensu-ra, de resto, usual, que o

68 Como a primeira geração da imprensa popular norte-americana, casos de: The New York Tribune, de Horace P. Gree-ley; The New York Daily Times, de Henry Raymond; The New York Herald, de James Gordon Bennett; e The New York Sun, de Benjamin Day e, depois, de Moses S. Beach.

69 O setembrismo correspondia à esquerda — não socialista — do campo liberal.

exercício desse direito fosse regulado pela lei e que quem dele abusasse fosse responsabilizado.

Germinava, também, ao tempo, um certo espírito filantrópico e associativo ente as elites liberais, animadas por exemplos do estrangeiro, como o da londrina Society for the Duffusion of Useful Knowledge, editora da Penny Magazine. Foram, assim, várias as organizações que, nessa altura, com o objetivo de fazer avançar a “civilização” no país e de o fazer trilhar um ca-minho de progresso — de progresso material, científico e cultural, explicite-se — começaram a publicar periódicos de promoção das ciências, das artes e das letras, nos quais desaguavam as preocupações que os seus membros manifestavam com a promoção do conhecimento e que marcavam a posição dos seus redatores no espaço público. Essas publicações — que de-ram sequência às revistas portuguesas do século XVIII e do dealbar do século XIX e ainda a certas publicações dos exilados liberais — podem mais bem classificar-se como revistas do que como jornais. Alguns indivíduos empreendedores também editaram periódicos cultu-rais e literários do mesmo tipo.

Após 1834, situação que se manterá até ao final de 1864, a imprensa informativa por-tuguesa de grande circulação agrupou-se, pois, essencialmente em torno de três tipos de publicações:

a) Os jornais políticos, periódicos combativos que, não obstante, assumiam, cres-centemente, uma linha editorial político-noticiosa, e que dominavam o cenário da imprensa;

b) As revistas culturais e literárias, dedicadas à difusão do conhecimento. Estas po-diam ser ilustradas ou não ilustradas, sendo as primeiras as mais bem-sucedidas editorialmente;

c) Os periódicos informativos especializados, como os de natureza comercial, financei-ra e económica, que supriam algumas das carências de informação de determinados nichos do mercado.

3.10.2.1 Os jornais

Os jornais puramente políticos arcaicos foram-se convertendo, ao longo do século XIX, em jornais político-noticiosos, cada vez mais sofisticados, direcionados, principalmente, para a burguesia industrial e comercial e para os latifundiários agrícolas que tinham interes-se em acompanhar os assuntos públicos e o quotidiano da governação e em sintonizarem-interes-se com os argumentos políticos lançados pelos jornais da sua preferência, que podiam usar nas discussões públicas e que contribuíam, indo ao encontro das suas expectativas, para reforçar as suas crenças (expomo-nos mais facilmente às mensagens que vão ao encontro das nossas expectativas e contribuem para solidificar a nossa visão do mundo).

Os jornais políticos, cada um com o seu público mais ou menos fiel, apresentavam “um novo conteúdo ideológico, aparecendo como órgãos de partidos, ou mesmo (…) de fações dentro do mesmo partido” (Tengarrinha, 1989, p. 153). Permitiam, consequentemente, aos leitores confirmarem e validarem a visão do mundo com a qual se identificavam. Davam ao seu público uma sensação de pertença a um grupo político que pensava da mesma maneira e desejava orientar e influenciar a governação e os negócios.

A tendência para a solidificação de um modelo de jornalismo político-noticioso, que agregava informação de atualidade e especificamente noticiosa à retórica política, desenvol-veu-se após 1834. No entanto, os jornais políticos portugueses entre 1834 e 1851 ainda se so-correram, amiúde, como os seus antepassados vintistas, de uma retórica inflamada e agressi-va que, por vezes, roçaagressi-va o insulto, a insinuação torpe e a calúnia. Mas tinham de se orientar para a atualidade, mesmo fazendo leituras políticas dos acontecimentos e problemas do quo-tidiano. A partir de 1834, tornou-se cada vez menos possível a um periódico, mesmo que po-lítico, sobreviver da pura retórica desbocada que tinha sido imagem de marca de uma certa imprensa política arcaica, simbolizada por vários jornais vintistas.

O público habituou-se a esperar de um periódico informação nova. Notícias, enfim.

Cada vez menos um jornal podia desprezar a novidade. Essa tendência modernizadora do jornalismo acentuou-se a partir do momento em que a imprensa política enfrentou o seu maior desafio — o surgimento de uma imprensa noticiosa independente e sólida que também podia ter voz na discussão dos assuntos públicos. Mas esse desafio apenas se tornou premen-te no fim de 1864, com o Diário de Notícias.

Os periódicos pós-1834 tornaram-se, por outra parte, mais sofisticados e complexos, diferenciando-se dos anteriores “por dois [aspetos] fundamentais: maior segurança nos pro-cessos jornalísticos e apetrechamento técnico mais desenvolvido” (Tengarrinha, 1989, p.

153). Começaram, desde logo, a organizar melhor os conteúdos, tendência que se acentuou a partir de 1840. Abriam, normalmente, com uma “parte oficial”, na qual se registavam, prin-cipalmente, os diplomas legais que iam sendo promulgados e os atos oficiais. Seguia-se, habi-tualmente, a parte nobre do jornal — o fundo. O artigo de fundo, antepassado do editorial, era o elemento fulcral do jornal, no qual este, pela pena do redator principal, apresentava a sua interpretação da atualidade política. Por isso, ser redator principal e poder redigir o artigo de fundo era a grande ambição daqueles que colaboravam nos jornais políticos. Apareciam, de-pois, outros artigos, notícias (em número reduzido), informações de utilidade pública (como os movimentos de navios e as taxas de câmbio) e anúncios.

Estruturalmente, os periódicos pós-1834 foram adquirindo a configuração de empre-sas jornalísticas. Tinham uma sede que, na urbe oitocentista, dava presença física ao título.

O edifício albergava a redação, serviços administrativos e de expedição e, por vezes, uma tipografia própria. Criar um jornal obrigava a pensar, portanto, na sustentabilidade de uma estrutura cada vez mais pesada, que exigia crescentes meios tecnológicos, financeiros e

humanos, alimentada, sobretudo, com o dinheiro das vendas e, só mais tarde, dos anúncios publicitários.

Com o passar do tempo, a redação deixou de ser um espaço meramente frequentado pelos promotores e redatores políticos e literários do jornal para se converter num local de trabalho quotidiano, com uma estrutura organizada e hierarquizada, na qual assumia espe-cial preponderância o redator principal. Mais tarde teriam também protagonismo na reda-ção o chefe de redareda-ção, coordenador e supervisor do trabalho dos jornalistas, e o secretário de redação, que se encarregava de um conjunto de tarefas que podiam ir da planificação do trabalho às questões administrativas e burocráticas, passando, ainda, pelos contactos com colaboradores e fontes de informação.

A 9 de setembro de 1836, um golpe orquestrado pela esquerda liberal — a Revolução de Setembro — repôs em vigor a Constituição vintista (10 de setembro) até à promulgação de uma nova Constituição, a 20 de março de 1838.

Para a imprensa, a Revolução de Setembro não deveria ter tido consequências nega-tivas, já que os jornais e revistas beneficiavam das amplas liberdades formais que a Carta Constitucional, quer a Constituição vintista (reposta, provisoriamente, em vigor entre 11 de se-tembro e 20 de março de 1838), quer ainda a Constituição setembrista de 1838 lhe garantiam.

A Carta Constitucional, que vigorou no Reino entre 26 de maio de 1834 e 9 de setembro de 1836 e entre 10 de fevereiro de 1842 e 5 de outubro de 1910, reconhecia a liberdade de impren-sa como um direito dos cidadãos, tal como o faziam a Constituição de 1822 e a Constituição setembrista de 1838 (vigorou entre 20 de março de 1838 e 9 de fevereiro de 1842). A situação política, porém, tornou-se muito agitada. E se, legalmente, os periódicos beneficiavam de ampla liberdade de imprensa que, à partida, garantiria condições para o combate político se travar nas páginas dos impressos, na verdade os periódicos cartistas e os miguelistas, com receio de represálias, atenuaram, ou silenciaram, as suas vozes públicas entre setembro de 1836 a e 1838. Mais tarde, com a reação do Cartismo e a chegada de Costa Cabral ao poder, foram os jornais setembristas a verem-se compelidos a moderarem o seu discurso — o que, na verdade, nem sempre fizeram, sofrendo as consequências.

A instabilidade e desordem da situação política prolongaram-se até à Regeneração de 1851. O poder setembrista que se afirmou após o sucesso da Revolução de Setembro de 1836, por exemplo, foi logo ameaçado pelos contragolpes cartistas70, anulados, da Belenzada (4 e 5 de novembro de 1836) e da Revolta dos Marechais (12 de julho de 1837 a 20 de setembro de 1837). Essa instabilidade política trouxe constrangimentos à imprensa, principalmente após se iniciar a ascensão gradual de Costa Cabral à liderança de facto do Governo e do Estado, após 1838. Ao tentar modernizar o Estado e instituir a ordem com “mão-de-ferro”, Cabral

granjeou inúmeros inimigos — quer entre os ultraconservadores miguelistas, quer entre a es-querda liberal setembrista.

Assim, depois de 1838, o poder político — protagonizado, principalmente, por Costa Cabral — sentiu, em várias ocasiões, necessidade de controlar a animosidade discursiva que se fazia notar nos jornais setembristas e miguelistas. Num Estado que, pelo menos na forma, se instituía, gradualmente, como um Estado de Direito, a lei tornou-se o principal instrumen-to do poder político para regular o exercício da liberdade de imprensa. Mas houve formas de pressão e controlo menos subtis e mesmo violentas.

A animosidade e a inimizade entre os líderes liberais dos diferentes partidos ou dos gru-pos dentro de um mesmo partido tiveram tremendas repercussões na imprensa. As circuns-tâncias demonstravam, por outro lado, que os indivíduos, grupos e partidos políticos necessi-tavam de um jornal com o qual se identificassem, que os reunisse e que lhes desse voz pública, congregando apoio público. A retórica era muito importante — era sempre de bom-tom para os partidários reunidos à volta de um jornal que este atacasse, de preferência violentamente, os adversários políticos, intolerantemente encarados como inimigos. Às vezes, os jornais de cada partido, grupo ou indivíduo, mais do que sustentarem as suas posições políticas, distin-guiam-se por atacar desenfreadamente os adversários e, não raras vezes, apelavam, direta ou indiretamente, a revoltas e sublevações.

Embora tivessem, por norma, uma filiação partidária, por vezes os jornais iam, curiosa-mente, variando na orientação, de acordo com as alianças estabelecidas pelos seus promoto-res. As amizades e inimizades que se faziam e desfaziam no mundo da política e dos negócios também se repercutiam na linha editorial que cada periódico seguia em cada momento. Em resultado deste estado de coisas, houve muita inconstância no jornalismo político português de 1834-1851. Alguns periódicos, como o Correio de Lisboa e o Diretor, por exemplo, nasceram setembristas e tornaram-se cartistas. Reagiram, assim, sobretudo o primeiro, à desordem nas ruas. Mas também acompanharam a transferência de poder do Setembrismo para o Cartismo.

Foi nesse turbilhão que Costa Cabral se impôs na política portuguesa. Costa Cabral ti-nha-se feito notar enquanto jovem e radical advogado setembrista, mas começou a mode-rar-se cada vez mais face à desordem social, consequência direta da instabilidade política e militar provocada pelos egos inflados e tonitruantes dos líderes liberais, que se consideravam donos do regime e da razão e se digladiavam abertamente nas Cortes, nos jornais e, por ve-zes, também em duelos.

Na qualidade de administrador-geral de Lisboa, Costa Cabral, então já um setembris-ta moderado, conseguiu, por exemplo, esmagar um levansetembris-tamento da Guarda Nacional, a 13 de março de 1838, e expurgá-la dos setembristas radicais, sempre prontos a sublevarem-se.

Visto, a partir daqui, como um traidor pelos setembristas radicais e desiludido com o fer-vor revolucionário permanente de alguns dos seus líderes, como José Estêvão, Costa Cabral aproximou-se das posições cartistas e tornou-se, por meio de alianças (que, na verdade,

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