A PORTARIA DO NOME SOCIAL COMO ESTRATÉGIA DE GOVERNAMENTALIDADE
3.1 A governamentalidade e as formas de conduzir a conduta
Como somos governados? Como nos governamos? Quais as estratégias utilizadas para governar? Por que somos governados (e nos governamos) dessa forma e não de outra? Eis as questões que orientam a discussão sobre a governamentalidade aqui apresentada.
Para compreensão da noção de governamentalidade – esse conjunto de técnicas cujo objetivo é conduzir as condutas da população nas sociedades ocidentais –, acompanharei o percurso traçado por Foucault (2008a) no curso Segurança, Território, População, ministrado em 1978 no Collège de France. Nesse curso, o autor aponta três principais formas de governamentalidade: uma proto-governamentalidade caracterizada pelo poder pastoral; a governamentalidade presente na razão de Estado; e a governamentalidade liberal41.
Para Foucault (2008a), o poder pastoral, já apresentado no capítulo anterior, é um esboço da governamentalidade, por isso, uma proto-governamentalidade. O destaque dado ao poder pastoral durante o curso Segurança, Território, População tem como objetivo
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Raica aparece em um vídeo institucional produzido pela Secretaria de Justiça e Direitos Humanos do Pará sobre a 1ª Conferência GLBT do Estado do Pará afirmando que ia retorna aos estudos, pois sabia que seu nome seria finalmente respeitado pela escola.
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Para a discussão sobre a governamentalidade liberal será usado como base, além do curso de 1978, o curso intitulado Nascimento da Biopolítica, de 1979, no qual Foucault (2008b) centraliza seus esforços analíticos sobre o neoliberalismo.
mostrar o processo pelo qual essa forma de poder deu lugar a uma arte de conduzir, de controlar e manipular as pessoas. Dito de outro modo, o poder pastoral foi o pano de fundo para a governamentalidade que será desenvolvida a partir do século XVI.
Desse modo, Foucault (2008a) analisa a passagem do pastorado para o governo político das populações a partir das insurreições de conduta do século XVI, mais especificamente, a Reforma e a Contrarreforma. Segundo o autor, as insurreições não provocaram o desaparecimento do pastorado, mas sim, uma proliferação geral das técnicas de conduta, uma vez que a Reforma e a Contrarreforma possibilitaram ainda mais controle e influência na vida das pessoas.
Não houve, portanto, passagem do pastorado religioso a outras formas de conduta, de condução, de direção. Houve uma verdadeira intensificação, multiplicação, proliferação geral dessa questão e dessa técnica de conduta. Com o século XVI, entramos na era das condutas, na era das direções, na era dos governos (FOUCAULT, 2008a, p. 309).
Além da dissidência religiosa, esse período foi marcado pelo processo de concentração estatal, uma vez que a estrutura política feudal foi gradualmente substituída pela formação dos Estados e pela centralização do poder político. Esta instabilidade social, provocada pelas mudanças históricas em desenvolvimento, tornou o problema de como ser governado, por quem, de que forma, uma questão fundamental. Em que medida o poder soberano deve encarregar-se do governo das pessoas? De acordo com que racionalidade o soberano deve governar? A racionalidade pastoral deve ser substituída por uma racionalidade de governo? Essas são algumas questões colocadas por Foucault no intuito de mostrar que o século XVI é marcado pela busca de uma definição de governo que seja específica ao exercício da soberania. Ou seja, “o governo deve buscar sua razão” (FOUCAULT, 2008a, p. 318).
Tal razão de governo começa a ser arquitetada a partir do século XVI através de um grande número de tratados que não se caracterizam como conselhos aos príncipes, comuns na Idade Média, mas ainda não se assemelhavam com as teorizações do que vinha a se tornar a ciência política dos séculos posteriores. Tais tratados, definidos por Foucault (2008a) por “arte de governar”, constituíam-se em um conjunto de saberes que procuravam encontrar uma razão de Estado.
Na famosa aula de 1º de fevereiro de 197842, Foucault se apoia no livro Le miroir politique(1567), de Guillaume La Perrière, no qual há a seguinte definição de governo: “a correta disposição das coisas, das quais alguém se encarrega para conduzi-las a um fim adequado” (FOUCAULT, 2008a, p. 130). Desse modo, já se percebe uma diferença fundamental entre essa forma de exercer o governo daquela encontrada na soberania. Se na soberania a preocupação central do soberano era a de conservar seu território, nesta nova “arte de governar” é a disposição de todas as coisas que compõe o poder. Por “coisas”, La Perrière se referia à complexidade de “homens e coisas”, ou seja, a relação entre a população e as riquezas, os recursos, o território, os costumes etc.
Ao longo do século XVII estas artes de governar43 irão se cristalizar em torno da problemática de uma razão de Estado44. Razão de Estado diz respeito à racionalidade própria e particular da atuação estatal. Foucault (2008a) destaca o texto de Chemnitz que data de 1647 no qual define razão de Estado como:
Certo cuidado político que se deve ter em todos os negócios públicos, em todos os conselhos e em todos os desígnios, e que deve tender unicamente à conservação, à ampliação e à felicidade do Estado, para o que há que empregar os meios mais fáceis e mais prontos (FOUCAULT, 2008a, p. 343).
Trata-se, portanto, de outra maneira de pensar o poder, outro princípio de inteligibilidade de governar cujo caráter conservatório tem no Estado sua finalidade última: integridade, fortalecimento, ampliação.
O século XVII precisou desenvolver um conjunto de meios através dos quais o Estado pudesse crescer e ao mesmo tempo manter sua ordem. Formaram-se, então, dois conjuntos de tecnologias políticas: o dispositivo diplomático-militar e a polícia. O primeiro possibilitou o processo denominado por Foucault (2008a) de equilíbrio europeu, ou seja, uma limitação externa da mobilidade, da ambição, da ampliação dos Estados. Esse equilíbrio se dava por meio de um cálculo de forças para que o incremento de cada Estado
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Publicada anteriormente com o título “A governamentalidade”, último e enigmático capítulo da coletânea de textos de Michel Foucault intitulada Microfísica do poder, publicada em 1979, sob organização e tradução de Roberto Machado.
43É digno de nota que tal “arte de governar” só conseguiu se exercer em sua plenitude a partir do século
XVIII e esteve ligada à expansão demográfica europeia, à abundância monetária oriunda do mercantilismo, ao aumento da produção agrícola etc. Em síntese, Foucault (2008a) credita o que ele chama de “desbloqueio da arte de governar” à emergência da população como um problema a ser governado, como finalidade última do governo.
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É importante ressaltar que a razão de Estado a que Foucault (2008a) se refere não é entendida na acepção moderna do termo, ou seja, como aquilo que justifica o desrespeito às regras formais do jogo político em nome de um interesse superior onde, em geral, está presente o arbítrio e a violência.
não provocasse a ruptura do conjunto. Trata-se, então, de uma estratégia externa de conservação do Estado.
A polícia, outra tecnologia política nesse período, era responsável pelo crescimento ordenado das forças internas do Estado. Diferente do conceito atual, a polícia tinha a função de dispor de um conjunto de mecanismos que visavam assegurar a ordem, o crescimento das riquezas e as condições de manutenção da saúde da população. A polícia é o conjunto das “leis e regulamentos que dizem respeito ao interior de um Estado e procuram consolidar e aumentar o poderio desse Estado, que procuram fazer um bom uso das suas forças” (FOUCAULT, 2008a, p. 422). Em resumo, o objetivo da polícia era a garantia do bom uso das forças do Estado.
Portanto, a polícia visava todas as atividades da população que tivessem relação com o Estado, uma vez que a atividade das pessoas era considerada um elemento constitutivo das forças do Estado. Nesse sentido, a polícia era responsável em saber o número de habitantes de uma população, os meios de subsistência e a saúde, assim como da circulação das mercadorias, fruto das atividades das pessoas.
O que a polícia abrange assim é, no fundo, um imenso domínio que, poderíamos dizer, vai do viver ao mais que viver. Quero dizer com isso: a polícia deve assegurar-se de que eles tenham de que viver e, por conseguinte, tenham de que não morrer muito, ou em não morrer em quantidade demais (FOUCAULT, 2008a, p.438).
Para cumprir seu objetivo é fundamental que a polícia conheça a população em todos os seus âmbitos. A população e suas regularidades, tais como taxa de natalidade, mortalidade, longevidade etc., aparecem como um novo objeto de atuação do poder. É o embrião do biopoder (FOUCAULT, 2003b): um investimento político sobre a vida. O autor indica que o biopoder se desenvolveu a partir do século XVII apoiando-se em dois polos: a disciplina e a biopolítica.
O Estado de polícia é um exemplo do poder disciplinar. Foucault (2008a) nos descreve um Estado de polícia regido através do regulamento permanente e intensamente detalhado da população, onde a disciplina era a estratégia política de controle.
Estamos no mundo do regulamento, estamos no mundo da disciplina. Ou seja, é necessário ver que essa grande proliferação das disciplinas locais e regionais a que pudemos assistir desde o fim do século XVI até o século XVII nas fábricas, nas escolas, no exército, essa proliferação se destaca sobre o fundo de uma tentativa de disciplinarização geral, de regulamentação geral dos indivíduos e do território do reino, na forma de uma polícia que teria um modelo essencialmente urbano (FOUCAULT, 2008a, p. 458).
Porém, esse Estado de polícia do século XVII começa a se desarticular devido a alguns problemas econômicos. Os economistas, particularmente os fisiocratas, criticavam a prática regulatória da polícia, considerando-a inútil, pois há uma regulação espontânea do curso das coisas. Seguindo essa concepção, a população teria uma naturalidade própria, efeito do vínculo espontâneo entre os indivíduos, com mecanismos próprios de regulação e transformação que independem do Estado (crescimento, decrescimento, deslocamentos).
O que se percebe é a emergência de uma nova racionalidade política, uma nova governamentalidade praticamente oposta ao Estado de polícia disciplinar. Se com a disciplina há uma divisão bem demarcada do que é proibido e do que é permitido – uma vez que ela concentra, encerra, protege, regula até os menores detalhes –, no emergente Estado de governo, também chamado de Estado de seguridade, não há proibições nem prescrições; sua função é regular a realidade como esta se apresenta45.
O campo está fértil para a emergência do liberalismo que, em linhas gerais, tem como principal referência e instrumento da prática governamental o modelo econômico. Foucault (2008b, p. 42) nos fala de uma “conexão da economia política à razão de Estado”, na qual o Estado se beneficia ao interferir o mínimo possível nas práticas de mercado. Esse novo exercício do governo “é atravessado pelo princípio: ‘sempre se governa demais’ – ou, ao menos, é preciso sempre suspeitar que se governa demais” (FOUCAULT, 2008a, p. 433).
A função do Estado não é mais proibir, decretar, regulamentar, mas tão somente regular os processos naturais da população. “Essa gestão terá essencialmente por objetivo, não tanto impedir as coisas, mas fazer de modo que as regulações necessárias e naturais atuem, ou também fazer regulações que possibilitem as regulações naturais” (FOUCAULT, 2008a, p. 474).
Um dos traços mais importantes do liberalismo é o princípio de liberdade. Como nos diz Foucault (2008b, p. 86), a sociedade liberal é consumidora de liberdade “na medida em que só pode funcionar se existe efetivamente certo número de liberdades”: do mercado, do vendedor e do comprador, de propriedade, de discussão etc.
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É importante ressaltar que não há uma sucessão simples e linear entre a soberania, a disciplina e a sociedade de segurança. Esta última abarca as velhas estruturas da lei, da soberania, como também incorpora os mecanismos disciplinares (FOUCAULT, 2008a).
Com efeito, se há o consumo de liberdades, faz-se necessário, de um lado, produzir tais liberdades e de outro, organizá-las e controla-las. A governamentalidade liberal fará uso, portanto, de dispositivos de segurança para determinar até que ponto as liberdades individuais vão constituir um perigo para o interesse coletivo. Tal jogo entre liberdades e segurança é central para a governamentalidade liberal que ora emergia (FOUCAULT, 2008a).
Foi a partir da emergência dos dispositivos de segurança – essas técnicas de governo que se destinam aos fenômenos variáveis da população, tais como natalidades, mortes, crescimentos, reprodução etc. – que a biopolítica, outro eixo do biopoder, pôde se desenvolver. Pode-se perceber, então, a articulação fundamental entre o nascimento da biopolítica e a governamentalidade liberal que tem nos dispositivos de segurança seu instrumento técnico essencial. Nesse sentido, a biopolítica é imanente ao liberalismo, uma vez que é preciso dispor de dispositivos de segurança para que a população não morra em demasia, para que tenham empregos, para que se estabeleça o consumo e para manter o mercado.
É interessante retomar a discussão sobre o pastorado, uma vez que Foucault (2010b) afirma que o Estado de governo liberal herdou algumas características do poder pastoral. Nessa nova configuração de governo, não se trata mais de conduzir o rebanho para a salvação no plano pós-morte, mas de assegurá-la neste mundo. “E, nesse contexto, a palavra salvação tem significados diversos: saúde, bem-estar (isto é, riqueza suficiente, padrão de vida), segurança, proteção contra acidentes” (FOUCAULT, 2010b, p. 281).
A preocupação com tal “salvação” começa pela infância, oferecendo condições de educação a todos; em seguida serão criadas políticas de emprego e seguridade social, acesso à moradia, à saúde, entre outras ações. Tais políticas visam manter os padrões de vida e de consumo das pessoas. Trata-se do Estado de Providência (EWALD, 1993) ou do Estado de bem-estar social, que consolida uma nova face da biopolítica ao ratificar o pacto de segurança entre as instituições políticas e os cidadãos.
A partir desse pacto, as instituições reguladas pelo Estado tentam garantir que a vida está protegida diante das mais diversas incertezas, acidentes, prejuízo e riscos. Se o indivíduo está doente, ele tem a seguridade social; se ele não tiver trabalho, pode ser beneficiado pelo seguro desemprego, se houver muitos delinquentes na sociedade, é garantida sua correção e uma boa vigilância policial (CANDIOTTO, 2011, p. 92).
Porém, não vivemos mais no liberalismo clássico caracterizado pelo Estado de providência. Foucault (2008b) mostra como o liberalismo se transformou, a partir de meados do século XX, para o que se convencionou chamar de neoliberalismo46. Enquanto no liberalismo a liberdade de mercado era considerada espontânea, devendo deixar livres para que se estabeleça a ordem natural das coisas, no neoliberalismo, a liberdade não é vista como natural e por isso deve ser continuamente governada.
No neoliberalismo, “a economia é essencialmente um jogo [...] e o Estado tem por função essencial definir as regras econômicas do jogo e garantir que sejam efetivamente bem aplicadas” (FOUCAULT, 2008b, p. 277). O jogo neoliberal tem como propósito principal convocar a todos/as para participar de redes sociais e de mercado.
Seguindo a problematização foucaultiana, Maura Lopes (2009) fala das normas neoliberais instituídas com a finalidade de criar e conservar o interesse de cada indivíduo de entrar e se manter no jogo neoliberal. A primeira regra desse jogo é se manter sempre em atividade. Não é permitido que ninguém fique fora das malhas que dão sustentação aos jogos de mercado. O Estado e o mercado estão cada vez mais articulados e dependentes na tarefa de educar a população para que ela viva em condições de sustentabilidade. A segunda regra é a de que todos devem estar incluídos, mas em diferentes níveis de participação. Não se admite que alguém perca tudo ou que fique sem jogar. É necessário que se permaneça no jogo. A terceira regra é desejar permanecer no jogo. É o desejo que faz com que ninguém fique de fora e para que isso aconteça, a capacidade de consumir deve estar instalada.
No neoliberalismo, o ponto em comum entre o econômico e o social é a regra da não exclusão. Portanto, a inclusão é um imperativo neoliberal para manutenção de todos/as na rede do mercado (ROOS, 2009). Incluir para vigiar, governar, administrar. Como nos diz Sílvio Gallo (2009, p. 9):
Parece ser necessário que a sociedade defenda-se das diferenças, contenha-as num padrão de normalidade, para que possam ser administradas, governadas, para que não fujam ao controle, uma vez que não teríamos como saber as consequências de um acontecimento dessa natureza.
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O neoliberalismo do século XX, seja na forma do neoliberalismo alemão (chamado de ordoliberalismo) ou do neoliberalismo norte-americano, emerge como resposta à “crise do liberalismo”, em síntese caracterizada pelas ameaças à liberdade produzida pelo aumento do custo econômico do exercício da própria liberdade, assim como pelo socialismo, nacional-socialismo e fascismo (FONSECA, 2012).
É nesse cenário que a educação encarna um dos papéis fundamentais da biopolítica. A educação e suas políticas de inclusão funcionam como um dispositivo biopolítico a serviço da segurança das populações, assegurando um padrão de normalidade. Na atualidade, a escola é um espaço fundamental para o gerenciamento do risco social, para o controle do tempo dos “grupos sociais privados dos bens culturais e materiais” (BRASIL, 2004, p. 18).
A expansão do ensino fundamental para nove anos, implantação na escola de uma série de projetos que envolvem questões como o trânsito, as drogas, saúde e prevenção nas escolas, saúde dental, bullying, entre tantos outros que atravessam o currículo escolar, atestam o fortalecimento da escola como lócus fundamental para o gerenciamento do risco social. Talvez porque a escola seja a instituição que se estende de forma ampla e duradoura a todos as pessoas desta sociedade (KLAUS, 2009).
Dessa forma, a convocação de travestis e transexuais para as escolas serve como instrumento de controle do risco econômico que representaria a permanência desse contingente da população fora de circulação. Não é produtivo que uma parcela considerável da população – desde pessoas com deficiências até pessoas trans – fique apartada, enclausurada ou na marginalidade.
Interlúdio 6: “Na minha época era bem pior”: Babete e suas indigestões escolares Conversei com ela na véspera de seu aniversário. Estava apreensiva com a nova idade e não queria revelá-la, mesmo eu garantindo o anonimato ao contar a sua história. Depois de uma leve insistência, mas motivada por curiosidade do que por exigências metodológicas, ela me disse: “amanhã faço 40 anos”. E riu.
Lembrou que tinha apenas 15 anos quando saiu de casa. Era insustentável continuar vivendo com a família depois que passou a se vestir com roupas femininas. Diante da rejeição de casa, o acolhimento na prostituição. Passou a trabalhar em um prostíbulo e não parou de estudar. Estava certa que iria terminar o ensino médio.
A vida no prostíbulo dava forças a Babete aguentar a escola. Gostava de atender os clientes, beber, fumar, falar palavrão. Ao contrário de muitos
relatos que afirmam a prostituição como algo penoso, feito somente pela questão de sobrevivência, a festa de Babete era o seu dia no prostíbulo, restando à escola apenas algumas horas de indigestão.
Se na atualidade a vida escolar de uma pessoa trans é permeada de situações de preconceito e humilhação, pode-se deduzir que na década de 1980, período em que Babete cursava o ensino fundamental, era ainda pior. Babete, rindo, diz que a vida escolar de uma travesti ou de um/a transexual hoje é um conto de fadas perto do que vivera quando estudante. Não havia nenhum documento oficial no Brasil sobre diversidade sexual na educação, muito menos alguma legislação que se pretendia assegurar o reconhecimento do nome social de travestis e transexuais nas escolas.
O que a fez continuar os estudos foi a determinação em provar para sua mãe que ela, uma transexual, terminaria o ensino médio, feito que seus irmãos heterossexuais, ou seja, “normais”, não haviam conseguido. Ela se define como “carne de pescoço”; isto é, não se rende com facilidade. E assim, entre o prostíbulo e a sala de aula, Babete completou o ensino médio.
3.2 Diversidade sexual e políticas educacionais de inclusão: um breve recorte