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O ponto que gostaríamos de salientar aqui nos remete novamente à questão da percepção da multimodalidade como fator intrínseco à concepção dos modos de representação de significados que alcancem perspectivas além do texto na modalidade escrita. Como afirmado anteriormente, ao compartilharmos a ideia de que a multimodalidade pode ser entendida como a combinação de diferentes modos semióticos – a linguagem escrita e a música, por exemplo – em um artefato ou evento sócio-comunicativo (van LEEUWEN, 2005), devemos ter em mente o aspecto visual que rodeia a humanidade atualmente de forma tão mais intensa, tendo sido este fenômeno investigado por Kress e van Leeuwen (2006).

Citamos esses dois autores, pois foi com eles que um marco no campo da abordagem visual se iniciou. Embora não tenham sido os responsáveis pelo surgimento dessa preocupação com o papel da imagem na compreensão de documentos multimodais, os mesmos iniciaram um giro que culminaria em um maior interesse e atenção por parte dos pesquisadores no fenômeno do uso cada vez mais exponencial de imagens para expressar sentido. Dessa forma, foi com base nos estudos pioneiros de Halliday (2004), acerca do viés funcional atribuído à gramática, que Kress e van Leeuwen iniciaram o trabalho sobre uma gramática sobre o visual seguindo os preceitos hallidayanos: não se deve pensá-la (a gramática) como aspecto formal a ser estudado isoladamente dos significados inerentes às construções almejadas; pelo contrário, a gramática deve ser vista como um conjunto de recursos que viabilizam a compilação de interpretações de experiências e formas de interação social (KRESS e van LEEUWEN, 2006). Nos dizeres de Halliday20:

A gramática vai além das regras formais de correção. É uma forma de representar padrões de experiências... ela [a gramática] permite que os seres humanos construam uma imagem

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Destacamos aqui que nos embasaremos sob o ponto de vista ocidental, uma vez que é nele que a sociedade brasileira se encontra. A importância de ressaltarmos isso dá-se pelo fato da sociedade oriental ter no tratamento dado à linguagem visual e, consequentemente, aos modos, enfoque diferenciado, uma vez que o próprio padrão de construção das línguas orientais tende a abranger aspectos de cunho pictório e imagético por si. Assim, salientamos novamente que a visão de Kress e van Leeuwen (2006), quando tratarmos do papel da linguagem sob a gramática visual, se aplicará à realidade do oeste do globo.

mental da realidade, e que façam sentido tanto das experiências que os rodeiam quanto das que se encontram dentro deles mesmos.21 (1985 apud Kress e van Leeuwen, 2006)

Percebemos, então, que Kress e van Leeuwen (2006) se preocupam em concentrar as noções de gramática e sintaxe na forma pela qual esses elementos são combinados em unidades de sentido, levando à compreensão da gramática visual como descritora da forma pela qual elementos como pessoas, coisas etc. combinam-se em “declarações” visuais de maior ou menor complexidade e extensão. Procuram, assim, fornecer descrições utilizáveis de estruturas de composição mais significativas que se tornaram convenções no curso da história ocidental da semiótica e analisar como elas são usadas para produzir significados pelos produtores contemporâneos de imagens.

Nesse ponto, destacamos a importância que os autores atribuem à composição de determinada página. Para eles, não basta apenas termos em mente as figuras que ilustram uma página de forma isolada; é preciso ir além e enxergar as possíveis e prováveis relações que tais imagens possuem com os textos e outros elementos gráficos que possam vir a compor o registro.

Kress e van Leeuwen (2006), dentro da proposta de gramática visual que preconizam, abordam três sistemas inter-relacionados de modo a relacionar o significado representacional e interativo das imagens entre elas e com o todo comunicativo:

● Valor da informação: o posicionamento de elementos dota os mesmos com valores informativos específicos e ligados às zonas de ocupação da imagem (direita, esquerda, em cima, embaixo, no centro e às margens);

● Saliência: os elementos são construídos visando atrair a atenção do leitor/visualizador em diferentes graus, dependendo da posição onde os mesmos são dispostos na imagem, o tamanho, contrastes, diferenças de tons etc.;

● Enquadramento: a presença ou ausência de mecanismos de enquadramento conectam ou desconectam os elementos em uma imagem, trazendo a ideia de pertencimento (ou não) ao todo comunicativo.

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Tradução livre do excerto: “Grammar goes beyond formal rules of correctness. It is a means of representing patterns of experience… it enables human rights to build a mental picture of reality, to make sense of their experience of what goes on around them and inside them.”

Tais aspectos apresentados acima são apenas exemplos de questões que o leitor/visualizador de determinado documento deve refletir quando analisa registros documentais escritos, uma vez que eles permitem uma maior compreensão de significados e intenções inicialmente veiculadas por quem criou tal página impressa ou digital. Retornamos, assim, com ponto já trazido por Bateman (2008) sobre a questão de as investigações das imagens e demais semioses deverem ser analisadas individual ou coletivamente, corroborando o pensamento de que:

Na análise de textos multimodais ou complexos (e qualquer texto cujos significados se dão por mais de um código semiótico é multimodal) surge a questão se os produtos dos diversos modos presentes devem ser analisados de forma individual ou integrada; se os significados do todo devem ser tratados como a soma dos significados das partes ou se tais partes

interagem e afetam umas às outras22. (KRESS e van LEEUWEN, 2006, p.177)

O que ressaltamos nessa breve incursão acerca da gramática visual é que, para o estudo da multimodalidade, principalmente em âmbito digital como nos propomos a fazer, é necessário nos mantermos abertos às diversas potencialidades – affordances – que os modos carregam em si para que não nos ancoremos em visões delimitadas acerca da compreensão dos documentos. Sob esse prisma, podemos observar que o modelo de gramática visual de Kress e van Leeuwen (2006, pp.3-6) consiste em:

● Descrever um recurso social de um grupo específico, o conhecimento explícito e implícito desse grupo sobre este recurso, e seu uso nas práticas desse grupo.

● Ser bem ampla, uma vez que se trata de algo que abarca todas as expressões visuais. ● Não ser universal, uma vez que possui balizas culturais.

● Perceber a unidade das linguagens como uma construção social, um produto da teoria e de histórias sociais e culturais23.

Por fim, consideramos importante pensar que um maior enfoque no letramento visual de leitores / aprendizes / usuários não acarretará o fim da arte visual, assim como o ensino da escrita não incompatibilizou o término do processo criativo da escrita literária. Ao contrário, a

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Tradução livre do excerto: “In the analysis of composites or multimodal texts (and any text whose meanings are realized through more than one semiotic code is multimodal), the question arises whether the product of the various modes should be analysed separetely or in an integrated way; whether the meanings of the whole should be treated as the sum of the meanings of the parts, or whether the parts should be looked upon as interacting with and affecting one another.”

23 Quando não há tanto policiamento por sistemas educacionais (a academia, por exemplo), as línguas evoluem

multiplicidade semiótica deve ser bem-vinda como uma oportunidade que os produtores de significados encontram em expressar sentidos para uma gama maior de usuários por meio dos registros nos documentos que produzem.

Nos dizeres de Cope e Kalantzis24 (2009):

Para qualquer lugar que olhemos, a linguagem escrita não está desaparecendo. Está apenas se tornando cada vez mais entrelaçada com os outros modos e, em alguns aspectos, se tornando mais parecida com eles. (COPE e KALANTZIS, 2009, p. 365)

A percepção mais aprofundada da multimodalidade e do papel que os gêneros detêm quando da veiculação e produção de documentos multimodais será vista em sequência.