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2. O sentido lato do termo guerra

2.4. A Guerra Colonial

“Ao longo dos séculos, Portugal envolveu-se, por ‘honra, medo ou interesse’ – as justificações para a guerra, segundo Tucídides –, em dezenas de batalhas”56, sendo o conflito colonial o maior e mais actual exemplo da actividade guerreira do povo lusitano.

A Guerra Colonial, ou do Ultramar57, correspondeu a um período de confrontos entre as Forças Armadas Portuguesas e as forças organizadas pelos movimentos de libertação das antigas províncias ultramarinas de Angola, Guiné e Moçambique58.

O início deste acontecimento bélico da História militar portuguesa ocorreu, como vimos, em Angola, a 4 de Fevereiro de 1961, na zona que viria a designar-se por Zona Sublevada do Norte (ZSN), que corresponde aos distritos do Zaire, Uíje e Quanza-Norte. O regime de Salazar, e depois de Marcelo Caetano, mostrava-se surdo às oposições internas e às pressões internacionais, pois não queria perder o seu Império colonial. São abertas três frentes de guerra – Angola em 1961, Guiné em 1963 e Moçambique em 1964 – para impedir a independência dos países africanos. Para isso, ao longo do seu desenvolvimento, foi

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Idem, A Guerra e a Literatura, p. 41.

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À guerra de guerrilhas travada por Portugal, entre 1961 e 1974, concederam-se várias designações, tais como Guerra de África, Guerra do Ultramar, Campanhas de África, Guerras Coloniais (3) e, pelo lado dos guerreiros africanos, Guerra de Libertação Nacional e da Independência. De referir que, ao longo da dissertação, utilizaremos apenas o termo Guerra Colonial.

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É de salientar que a expressão Guerra Colonial está tecnicamente errada, já que os territórios ultramarinos portugueses tinham o estatuto de províncias e não de colónias.

necessário aumentar progressivamente a mobilização das forças portuguesas, de forma proporcional ao alargamento das frentes de combate:

“Com excepção da Guiné, as guerrilhas não conseguiram subtrair o território ao domínio efectivo da autoridade portuguesa, nem afectaram o desenvolvimento económico dos territórios […]. Mas obrigaram Portugal a manter em África enormes contingentes militares e a arcar com despesas que

absorveram grande parte dos recursos nacionais.”59

Pela parte portuguesa, o conflito colonial sustentava-se pelo princípio político da defesa do que considerava território nacional, baseando-se ideologicamente num conceito de Nação pluricontinental e multiracial. Por outro lado, os movimentos de libertação justificavam-se com base no princípio inalienável de auto-determinação e independência, num quadro internacional de apoio e incentivo à luta. Consideramos que durante a luta houve “três momentos: nos primeiros anos, quando se cantava ‘Angola é nossa’ com o fervor do Hino Nacional, os portugueses estavam com o regime no que respeitava à guerra; depois foi a fase da instalação da dúvida e o começo da contagem dos mortos; por fim, sobreveio a lassidão, o sentimento de que estávamos condenados pela História”60.

A prolongada Guerra Colonial teve um custo financeiro e humano elevado, que provocou fortes abalos nas finanças do Estado61, desgastando simultaneamente as Forças Armadas, ao mesmo tempo que colocava Portugal cada vez mais isolado no panorama político Mundial. A nível humano, as consequências foram também graves, quer a nível físico, quer a nível psicológico. Esta ideia é reforçada por Rui de Azevedo Teixeira, quando se refere à mobilização de militares no continente africano, afirmando que pouco mais de 800.000 jovens soldados mobilizados, dos quais cerca de 10.000 não sobreviveram e outros 20.000 que para sempre se transformaram em deficientes físicos e, possivelmente, 140.000 em neuróticos de guerra62. A juntar a esta estatística temos um número ainda superior de baixas entre guerrilheiros e civis guineenses, angolanos e moçambicanos.

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José Hermano Saraiva, História Concisa de Portugal (Lisboa: Europa-América, 1989), p.365.

60 Entrevista dada por Rui de Azevedo Teixeira a António Rego Chaves, sobre o 1º congresso Internacional sobre

a Guerra Colonial ocorrido em 2000, intitulada “Fogo sobre a Guerra Colonial”, publicada no Diário de Noticias, em 31 de Janeiro de 2000, transcrita em Leitor Hedonista, pp.130-131.

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A título de informação, refira-se que quase 40% do orçamento português tinha a ver com despesas do exército.

62

Cf. Rui de Azevedo Teixeira, A Guerra Colonial e o Romance Português. Agonia e Catarse (Lisboa: Editorial Noticias, 1988), p.41. Sobre este assunto, ver ainda João Paulo Guerra que constata que “morreram nas três guerras coloniais, de acordo com os dados oficiais, cerca de oito mil militares portugueses e um número muito superior, indeterminado, de guerrilheiros e de civis da Guiné, de Angola e de Moçambique. Mas não há estatísticas para a solidão, a ansiedade, o medo, o sofrimento, a dor” (op.cit., p.11).

A Revolução dos Cravos, a 25 de Abril de 1974, determinou o fim da guerra. Com a mudança do rumo político do país, o empenhamento militar deixou de fazer sentido. A própria revolta foi fruto do descontentamento de alguns sectores das Forças Armadas com o prolongar interminável de um conflito que estava condenado à derrota. Podemos afirmar, e usando as palavras de Manuel Alegre, que foi uma guerra “que, militarmente […] foi um feito extraordinário, não igualado por nenhuma grande potência. E que, politicamente, como disse Melo Antunes, foi um erro formidável”63.

Sabemos que qualquer guerra é um mal para qualquer povo. É por isso que as forças progressistas se prezam de lutar pela paz e se proclamam pacifistas, sem cederem na defesa da sua dignidade, independência, identidade e liberdade. Foi também para se libertarem da opressão colonial portuguesa e obter a independência que os moçambicanos combateram.

Permanecem actuais as considerações de Karl von Clausewitz, ao defenderem que os objectivos do conflito colonial eram colocar as forças militares inimigas incapazes de continuar o combate, garantir a ocupação do território e retirar ao inimigo a vontade de combater. Interroguemo-nos pois: quem atingiu estes objectivos na Guerra Colonial?

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