2 REVISÃO DA LITERATURA
2.3 A hipótese RBTC (Routine-Biased Technological Change)
A produção de artigos que atestam empiricamente a validade da hipótese SBTC é extensa. No entanto, no início do século XXI, acadêmicos dos Estados Unidos identificaram um fenômeno de polarização do mercado de trabalho de seu país que
não podia ser explicado pela hipótese SBTC, como pode ser compreendido na seguinte passagem:
A hipótese SBTC prevê que quanto menor o nível de qualificação exigido para desempenhar um trabalho, mais fácil é para as máquinas substituir o trabalho humano. No contexto do modelo, pelo menos, é fácil de entender por que é muito improvável que a SBTC seja a causa das recentes transformações observados no mercado de trabalho. (JUNG; MERCENIER, 2014, p. 1456)
Uma das primeiras críticas sobre o papel da hipótese SBTC para explicar o impacto da tecnologia sobre a estrutura ocupacional veio de Autor, Levy e Murnane (2003). Eles relacionam a polarização da estrutura ocupacional estadunidense à explosão da produtividade e ao consequente declínio dos preços das tecnologias de informação e comunicação. Na linha de investigação sobre a correlação entre tecnologia e qualificação, os autores buscaram entender especificamente o papel da tecnologia dos computadores como direcionador da demanda por trabalho qualificado.
Eles perceberam que muitas ocupações de dado nível de qualificação, décadas depois, passaram a ser desempenhadas por tecnologia de computação enquanto outras ocupações de conteúdo equivalente em qualificação exigida não sofreram o mesmo impacto (AUTOR; LEVY; MURNANE, 2002).
A polarização do mercado de trabalho é evidenciada também na Grã-Bretanha, onde Goos e Manning (2003) desenvolvem sua investigação a fim de validar a hipótese de Autor, Levy e Murnane (2003), posteriormente apelidada de hipótese da rotinização ou RBTC (routine-biased technological change, isto é, ‘mudança tecnológica enviesada para a rotina’) (GOOS; MANNING; SALOMONS, 2014). Goos e Manning (2003, p. 2) observam que, embora a polarização do mercado de trabalho estadunidense já fosse observada a partir do fim da década de 1980, houve desde então diferentes interpretações que não lograram conceber uma hipótese plausível para explicar o fenômeno observado. Apesar de rebaixar a importância da hipótese SBTC como intérprete da mudança da estrutura ocupacional, Goos e Manning relativizam dizendo que a visão consensual da SBTC é efetivamente válida quando se observa o comportamento intra-ocupacional do mercado de trabalho, ou seja, quando se analisa o que ocorre dentro de cada ocupação isoladamente.
A hipótese da rotinização para explicar a mudança na estrutura ocupacional joga luz sobre as tarefas em vez de focar a qualificação associada à análise de habilidades (skills), reorientando a perspectiva para tarefas (tasks). Autor e Acemoglu
(2010, p. 2) definem tarefa como “uma unidade de atividade de trabalho que produz resultados (bens ou serviços)”, enquanto habilidades são “o conjunto de capacidades dotadas por um trabalhador para performar várias tarefas” (AUTOR; ACEMOGLU, 2010, p. 2). Em outras palavras, como são diferentes os conceitos de ‘o que as pessoas sabem’ (habilidades) e ‘o que as pessoas fazem’ (tarefas), a incorporação de pessoas no mercado de trabalho depende de como suas habilidades se adaptam às tarefas demandadas nos empregos, ou seja, da alocação endógena de ‘habilidades em tarefas’, de acordo com os preços praticados no mercado de trabalho (AUTOR;
ACEMOGLU, 2010, p. 2). Segundo a literatura, as habilidades dotadas pelos trabalhadores não são necessariamente colocadas em execução nas suas ocupações. A demanda real das empresas é pela execução das tarefas, então mais importa o que os trabalhadores fazem do que o que os trabalhadores sabem.
A premissa para o estudo de Autor, Levy e Murnane (2003, p. 2), neste sentido, foi a de “medir as demandas de qualificação ocupacional em termos de conteúdo das tarefas em vez de assumir as credenciais educacionais dos trabalhadores que desempenham aquelas tarefas”, o que representa tal mudança de orientação da teoria. Para Jung e Mercenier (2014, p. 1447), a novidade da hipótese de rotinização afirma-se na mudança de rota que substitui “a ênfase nas habilidades dos trabalhadores para o tipo das tarefas desempenhadas”, ao que afirmam que “é o retorno de tarefas específicas, e não o retorno a habilidades específicas, que estão sendo deprimidos pela emergência do computador e das tecnologias da informação"
(JUNG; MERCENIER, 2014, p. 1447).
A literatura da RBTC separa, por um lado, as tarefas em atividades de rotina e de não-rotina (AUTOR; LEVY; MURNANE, 2002) e, por outro lado, em atividades manuais ou cognitivas. Cheremukhin (2014) elaborou a seguinte matriz (Quadro 2) para apresentar a classificação da ocupação na perspectiva da hipótese RBTC:
Quadro 2 - Matriz de Classificação das Ocupações
Rotina Não-rotina
Manual (colarinho azul)
Produção Artesanato
Operação Manutenção
Serviço de alimentação Cuidado pessoal Serviços de proteção
Cognitivo (colarinho branco)
Administrativo Serviços de escritório
Vendas
Profissional Técnico Gerencial
Baixa qualificação Média qualificação Alta qualificação Fonte: Cheremukhin (2014, p. 2)
De acordo com a hipótese da rotinização, existe um padrão na direção da mudança tecnológica que aponta para a automação das tarefas de rotina, sejam manuais ou cognitivas. Portanto, sem descartar a complementaridade da tecnologia com o trabalho qualificado, a hipótese formulada afirma que a tecnologia substitui potencialmente as ocupações constituídas essencialmente de tarefas de rotina de qualquer natureza.
O nível de qualificação, no sentido das habilidades exigidas para o trabalho, não importa para determinar se uma ocupação é em maior ou em menor medida vulnerável à automação. Habilidades de raciocínio lógico que exigem maior tempo de escolaridade são mais facilmente automatizáveis que certas habilidades de percepção e mobilidade, que dependem do conhecimento tácito (AUTOR, 2015). Citando o paradoxo de Polanyi - “nós sabemos mais do que podemos dizer” - Autor afirma que:
O conhecimento tácito é um desafio para a computerização porque, se as pessoas entenderem como desempenhar uma tarefa apenas tacitamente e não puderem ‘dizer’ a um computador como desempenhar esta tarefa, aparentemente os programadores não poderão automatizá-la. (AUTOR, 2015, p. 24)
Dois conjuntos de tarefas se encaixam nas ocupações de não-rotina: as tarefas cognitivas ou abstratas, que demandam habilidades de resolução de problemas, intuição, criatividade e persuasão, e que são encontradas nos profissionais, técnicos e ocupações gerenciais; e as tarefas manuais, que requerem habilidades de adaptabilidade situacional, reconhecimento visual e de linguagem e interações pessoais, que são encontradas em ocupações de preparação de comida,
atendimento, limpeza e arrumação, manutenção predial, assistências e cuidados com saúde e serviços de proteção e segurança (AUTOR, 2015, p. 12).
Spitz-Oener (2005) organiza sua composição ocupacional de acordo com as atividades desempenhadas no trabalho, nas quais a autora identifica cinco categorias:
tarefas analíticas de não-rotina, como atividades de pesquisa, planejamento e avaliação; tarefas interativas de não-rotina, como vendas, coordenação e delegação do trabalho; tarefas cognitivas de rotina, como cálculo e registro de dados; tarefas manuais de rotina, como atividades de alimentação, funcionamento e manutenção de máquinas; e tarefas manuais de não-rotina, como limpeza doméstica e restauração de casas (SPITZ-OENER, 2005, p. 239). Ao contrário de muitos autores - inclusive Oesch (2013), que utilizou dados da Alemanha - que adotam a classificação salarial como indicativo do nível de qualificação, Spitz-Oener afirma a importância de sua categorização de acordo com a qualificação exigida pelo conteúdo da tarefa, uma vez que lhe permite isolar as variações de salário oriundas das negociações sindicais que protegem os trabalhadores com menores salários. O critério adotado por Spitz-Oener, portanto, está imune a distorções salariais e foca justamente o perfil das tarefas desempenhadas no trabalho.
MacCrory et al. (2014) identificam cinco tipos de atividades desempenhadas nas ocupações analisadas em 2014, a saber: 1) cognitivo, que trata de resolução de problemas complexos, pensamento crítico, raciocínio dedutivo, compreensão oral e expressão escrita; 2) manual, que lida com manutenção de equipamentos, destreza manual, manuseio de objetos físicos, coordenação de muitos membros, tempo de reação e discriminação visual de cores; 3) supervisão, contemplando habilidades como coordenação do trabalho de outros, desenvolvimento de equipes, liderança e motivação de subordinados, gestão de recursos financeiros, monitoramento de recursos e atividades de agendamento; 4) interpessoal, como adaptabilidade, assistência ou tratamento de outros, cooperação, orientação e tolerância ao estresse;
e 5) iniciativa, constando capacidade de realização, independência, iniciativa, inovação e persistência (MACCRORY et al., 2014, p. 8).
Autor (2015) ressalta que as tarefas manuais não-rotineiras costumam ser desempenhadas necessariamente em um local definido ou para uma pessoa definida, sendo impossível sua terceirização, por enquanto. Por sua baixa exigência em termos de habilidades, existe uma altíssima oferta de mão-de-obra potencialmente disponível, o que implica baixos salários. Tais fatores acabam de certa forma inviabilizando ou
desestimulando as tentativas de automação destas atividades, que já possuem a natureza de difícil automação. De fato, a capacidade de automação depende da previsibilidade com que uma tarefa é desempenhada em um dado ambiente controlado. De acordo com Autor, Levy e Murnane:
As tarefas desempenhadas pelos computadores são aquelas que podem ser expressas utilizando-se lógica procedural ou baseada em regras, que é codificada em uma sequência completamente especificada de comandos de programação lógica que designam sem ambiguidade quais ações e em qual sequência a máquina irá desempenhar para alcançar o resultado desejado.
(AUTOR; LEVY; MURNANE, 2002, p. 3)
David Autor coloca da seguinte forma:
Fundamentalmente, os computadores seguem procedimentos meticulosamente estruturados por programadores. O padrão típico que um programador precisa seguir para que o computador realize uma tarefa deve primeiro entender a sequência de etapas requerida para desempenhar aquela tarefa, e então escrever um programa que efetivamente permita à máquina simular estas etapas com precisão. (AUTOR, 2015, p. 10)
Portanto, o potencial de automação de tarefas repetitivas e programáveis sobrepõe quaisquer motivos de preocupação quanto à capacidade da força de trabalho disponível no mercado. Como a demanda por tarefas de rotina, sejam de natureza manual ou cognitiva, tende a ser preenchida pela automação, ela independe do nível de qualificação da oferta de trabalho.
Enquanto a precisão exigida nas tarefas de rotina demanda certa qualificação do trabalhador, torna-o ao mesmo tempo vulnerável a ser substituído pela computação (GOOS; MANNING, 2003). Autor e Acemoglu (2010, p. 2), ao explicar a diferença conceitual entre habilidades e tarefas, observam que os desenvolvimentos tecnológicos mais recentes permitem a decomposição das tarefas mais centrais de uma ocupação de qualificação média em tarefas menores que podem ser performadas pela própria tecnologia ou pela mão-de-obra contratada de outro país, conhecida como offshoring.
A investigação das tarefas demanda a atenção sobre suas características, isto é, se são manuais ou cognitivas e se são de rotina ou não. Como já foi dito, tarefas de rotina são as tarefas que podem ser completamente codificadas e, portanto, automatizadas. Estas tarefas de rotina são típicas de ocupações de média qualificação, sejam manuais ou cognitivas, como: cálculos matemáticos envolvidos no registro contábil; a recuperação, organização e armazenamento de informações
estruturadas de ocupações administrativas de escritório; e a precisa execução de operações físicas repetitivas em um ambiente monótono em tarefas de produção (AUTOR, 2015). Já os computadores “se diferenciam por desempenharem tarefas de processamento simbólico, isto é, calcular, armazenar, recuperar, ordenar e agir sobre a informação” (AUTOR; LEVY; MURNANE, 2002, p. 5), e vêm crescentemente substituindo a rotina de processamento de informação, comunicação e funções de coordenação desempenhados por assistentes administrativos, caixas de supermercado, operadores de telefone, escriturários e outras ocupações que manipulam tarefas de processamento repetitivo de informação (AUTOR; LEVY;
MURNANE, 2002, p. 5).
Autor, Levy e Murnane concluem que a tecnologia computacional é relativamente complementar aos trabalhadores engajados em tarefas de não-rotina.
Complementam que a computerização aumenta a demanda por tarefas de não-rotina como resolução de problemas, uma vez que “problemas já resolvidos são intrinsecamente de rotina e, portanto, computadorizáveis” (AUTOR; LEVY;
MURNANE, 2002, p. 6). Outras habilidades de não-rotina incluem fazer inferências, construir argumentos persuasivos, contornar discrepâncias e exceções, corrigir erros e resolver gargalos imprevistos.
Apesar da hipótese RBTC ser recente, a discussão sobre os efeitos das atividades de rotina na composição do conteúdo do trabalho é de longa data, remontando ao debate tradicional do século XIX sobre a qualidade do trabalho. As ocupações de baixa qualificação (e, em muitos casos, de baixa qualidade) eram associadas a níveis de rotina mais altos, como podia ser observado na divisão do trabalho industrial formulada por Adam Smith, criticada por Karl Marx e trazida ao seu potencial com o desenvolvimento taylorista nas fábricas (FERNÁNDEZ-MACÍAS;
HURLEY, 2016, p. 565). Em relação aos empregos de baixa qualificação, Braverman (1998) centrava sua crítica na hipótese de degradação do trabalho, na qual o trabalho qualificado de não-rotina representava o alvo do taylorismo que, com o objetivo de baratear o custo da produção e aumentar o controle gerencial do processo produtivo, buscava substituí-lo por trabalho não-qualificado e de rotina. À luz da literatura recente, esta hipótese aparenta contradição, uma vez que a hipótese RBTC argumenta que as máquinas têm a vocação de substituir justamente o perfil do trabalho supostamente forjado pelo taylorismo (BRAVERMAN apud FERNÁNDEZ-MACÍAS; HURLEY, 2016, p. 565).
2.4 Literatura empírica recente
De modo geral, a hipótese RBTC dialoga com os desdobramentos práticos da estrutura ocupacional polarizada observados em diversos países nas últimas décadas. A automação das tarefas de rotina, por se concentrarem nas ocupações de média qualificação, ajuda a esvaziar essa categoria em detrimento das ocupações de baixa e alta qualificação. O custo consistentemente regressivo de computação cria um forte incentivo para que as empresas substituam o trabalho humano (AUTOR, 2015).
A computerização dos trabalhos de rotina implica a polarização do trabalho (GOOS;
MANNING, 2003), levando tanto ao crescimento dos empregos de alta qualificação e altos salários quanto ao crescimento dos serviços de baixa qualificação e baixos salários (AUTOR, 2015).
A polarização da estrutura ocupacional nos Estados Unidos não é bem uma novidade. Para Katz e Margo, há semelhanças substanciais entre o cenário de polarização da indústria do século XIX com o cenário contemporâneo de polarização do mercado de trabalho nos Estados Unidos. Em ambos os séculos, “a difusão de novos bens de capital alterou a alocação de trabalhadores em tarefas” (KATZ;
MARGO, 2014, p. 20). Segundo eles, o período entre 1940 e 1980 nos Estados Unidos mostrou uma tendência upgrading, com crescimento das ocupações de profissionais, técnicos e gerentes, além de forte crescimento das posições administrativas de escritório e comerciais, acompanhadas por alta redução das ocupações da agricultura e dos trabalhadores operários. Já entre 1980 e 2010, apesar da manutenção do crescimento de profissionais, técnicos e gerentes, houve drástica redução entre as ocupações de escritório e comerciais, trabalhadores artesãos e operários. Ao mesmo tempo, houve um razoável crescimento das ocupações de serviços, de acordo com a Figura 1.